Serendipidade
15 15
15
"My baby baby
I want you so it scares me to death
I can't say anymore than "I love you"
Everything else is a waste of breath..."
O sol parecia incrivelmente branco e imóvel, apenas uma mancha clara, borrando o céu. A imobilidade da manhã era só quebrada por uma brisa quente, porém suave, que passava, acariciando as flores, e as meninas que andavam de bicicleta pela rua.
Nessie acorda de manhã sentindo que havia algo estranhamente fora de lugar, e por um momento considera se era em seu quarto, na sua cabeça ou em sua vida. Boceja e tem vontade de espreguiçar-se, embora permaneça parada, cansada demais para sequer fazer movimentos leves. Sabia que tinha aula, então, eventualmente teria de levantar-se, mesmo contra sua vontade.
Jane iria querer saber cada detalhe sórdido da viagem, e embora isso não existisse exatamente, não estava pronta para contar tudo o que acontecera. Fica um instante parada, olhando para o teto, a meia luz entrando através da cortina fechada, deixando tudo em em cinza claro, o abafado de seu quarto fazendo sua nuca molhar de suor, suspira.
Levanta-se, pronta para encarar o dia. Enquanto se trocava, rapidamente, pensava. Aparentemente, apesar das restrições, seu relacionamento ia bem, muito bem na verdade, melhor do que ela imaginava possível. Era uma coisa estranha, que ao mesmo tempo que a fascinava, a repugnava, a punha medo. Nunca tivera aquilo antes, e ela sentia como se alguém fora de sua área de conforto estivesse ultrapassando suas barreiras e finalmente viesse a conhecê-la por quem realmente era, o que era totalmente assustador, porque ela sabia que, uma vez que ele estivesse lá, não poderia deixar de se importar com ele, e superar a dor, caso ocorresse uma separação seria terrivelmente pior.
E embora soubesse que corria grande perigo, e aquilo a deixava apavorada, e a fazia irritada só de pensar a respeito, querendo evita-lo de qualquer maneira, quando o encontrava, não conseguia evitar. Gostava de toca-lo, gostava de estar perto dele, a presença dele, sua companhia... Gostaria de ser dele.
O pensamento a faz engolir em seco. Nunca antes isso acontecera, ela era virgem e nunca tinha tido vontade de não ser, quer dizer, nunca achara que valia a pena. Mas com ele, de alguma forma, parecia tão certo.
Engole em seco, e respira fundo, tentando acalmar-se, colocar as ideias em ordem. Agora seriam só mais duas semanas daquilo, duas semanas até que pudesse estar liberta daquele segredo, daquele fardo pesado. Se parasse para pensar a respeito, só a consideração que Jake tivera em respeitar sua opinião, já era uma tremenda prova, pois para ele a situação era tão ruim, provavelmente pior do que a dela, pois ele era mais velho, logo o responsável pela situação e ainda por cima, seria muito pior para ele quando descobrissem. Ele era o melhor amigo, e não a filha que poderia ser perdoada. Aquilo volta a afligi-la e ela tenta afastar o pensamento com força.Duas semanas...
Olha-se no espelho, o shorts preto curto, mostrando a maior parte de suas longas pernas, a blusinha leve e sem mangas, em uma cor de rosa terra, os cabelos vermelhos em um rabo-de-cavalo bem feito. Põe um tênis que estava jogado ao pé da cama e sai do quarto. Tudo sem sequer acender a luz. Desce de dois em dois degraus, o colarzinho da caveira com headphones, que ganhara de Jane, no aniversário anterior, que usava no pescoço subindo e descendo, distraindo-a no processo.
Entra na cozinha e encontra os dois pais sentados, conversando amenamente. Apenas por um segundo, a lembrança do que contar a Jake para em sua mente, antes de evaporar-se em um canto sórdido de sua mente. Ela sorri, sentando-se.
–Bom dia! — Comenta, animada, pegando um pão na mesa.
–Bom dia — Responde a mãe, dando-lhe um beijo no rosto, um que ela se inclina para trás para receber, e seu pai apenas a cumprimenta com um aceno de cabeça. — Como foi o passeio? — Pergunta a morena, interessada, sentando-se também, a calça jeans escura ficando bem com a sua pele.
–Foi legal, apesar de ter chovido no domigo e não termos passeado muito. A água estava ótima! — Diz simplesmente, as palavras tendo sido escolhidas antecipadamente, com cuidado, para não haver mais nenhuma necessidade de mentir, revelando até o ponto que não era perigoso.
A mãe concorda, animada.
–Fico feliz por ter se divertido! — E volta-se para o marido — Acho que vou sair hoje a tarde, encontrar Alice, ela me disse que tinha umas coisas interessantes para me mostrar e insistiu que eu fosse ver hoje, tudo bem para você?
Ele volta a concordar, balançando a cabeça. Alice era sempre Alice.
–Quer uma carona? — E dessa vez a menina demora uns segundos para entender que era com ela, mas sorrindo assim que compreende.
–Quero sim, sempre que você pode me levar, sabe que eu aceito, não precisa nem perguntar — E disso o ruivo ri um pouco, revirando os olhos.
Pouco depois disso, os dois já estavam no carro, em direção ao colégio, uma música leve de acompanhamento. A menina já acostumara-se, seu pai gostava de música clássica, e ela acabara aprendendo a gostar também. Cantarola alguns segundos, baixinho, encarando seus tênis com manchas em vermelho e detalhes pretos. Talvez não combinassem com sua blusa. Não que se importasse, mas só havia visto agora.
–Nessie, acho que precisamos conversar — A voz grave subitamente chama sua atenção, e ela se vira, encarando-o, séria, não certa de que queria ouvir o que vinha a seguir — Eu sei que ando ocupado, assim como sua mãe, mas você sabe que isso não significa que não nos importamos com você certo? — A pergunta parecia ser retórica, então a menina permanece calada — Eu também sei que recentemente você mudou muito, melhorou muito, e apesar de isso me deixar imensamente feliz, também me deixa um pouco preocupado. — Ela também não ousou parar ali — Eu acho que só queria que você soubesse, que aconteceça o que acontecer, você sempre pode falar com a gente. Você sabe disso não?
Dessa vez ela confirma, e sorri para o pai, enquanto ele parava em frente a escola. Subitamente sentia uma saudade dele e do que costumavam fazer juntos, como se na verdade não o visse a muito tempo. Inclina-se então e o abraça de leve, beijando sua bochecha.
–O que acha de tocarmos piano juntos essa noite? — Indaga. Era a coisa deles, o que pertencia a eles e algo grande em sua relação de pai e filha. Ele sorriu e confirmou. Ela saiu do carro sentindo-se mais leve e feliz.
O sentimento de culpa não a incomodou até entrar na sala de aula, e o arrependimento banha-la, como água fria. Enganava-o, a pessoa que mais desejava protegê-la de todos os males do mundo, mesmo que esses pudessem vir a ser ela mesma. Respira fundo pelo que parecia ser a décima vez aquele dia, tentando se concentrar no que importava. Duas semanas.
Subitamente o pensamento a faz nervosa. Teria de se aprontar psicologicamente, como o faria? Como contaria a seus pais? Era melhor que estivessem juntos, ou que só ela ou ele falassem? E como exatamente seria a abordagem? Teria de pensar em tudo isso, tinha de falar com Jake a respeito disso. A tensão a sufocava, e começa a arranhar a mesa de madeira, escolar que estava, com as unhas, fundo, tentando puxar o ar, que parecia não vir.
Nisso, sua visão periférica capta Jane entrando. Ela usava uma blusa grande demais para o próprio corpo, com uma manga caída de um lado, a blusa era meio transparente, e estava inteira com rasgos em lugares específicos, o que mostrava algumas partes do sutiã preto que usava por baixo, um shorts bem curtos, igualmente pretos, que ressaltavam ainda mais sua altura, sua compridez e uma bota de cano baixo que completavam o visual da garota rebelde. Os cabelos pareciam ainda mais claros, e provavelmente a menina os retocara no final de semana, a maquiagem preta nos olhos extremamente pesada, os vários colares balançando enquanto andava, as pulseiras no pulso não tendo lugar para onde ir, várias em contato. Estava com fones nos ouvidos, mas sorri, maliciosa, ao avistar a ruiva, e aproxima-se, os dedos raspando nas mesas enquanto passava. Além das duas, entre quatro e sete pessoas haviam chegado só, deixando a sala de cerca de cinquenta alunos praticamente vazia.
A menina senta a sua frente, veloz como uma raposa, até a expressão próxima, enquanto tirava os fones e encarava a menina.
–E aí? — E levanta as sobrancelhas, tentando passar um duplo significado — Como foi?
–Melhor do que eu pensava — E abaixa o rosto, envergonhada com as informações, mas, antes que a outra pudesse interpretar errado, emenda — Mas nada aconteceu. — A loira solta uma indignação muda.
–Como assim nada aconteceu? — E a incredulidade soava viva em sua voz, passando para uma revolta contida.
–Nada aconteceu — a menina dá de braços, passando a apoiar as mãos sobre a mesa, entrelaçadas — Nadamos, passeamos, nos beijamos e basicamente, foi isso...
Podia ver os olhos claros de Jane ficando maiores de surpresa, depois de frustração.
–Eu tinha certeza que era uma questão de situação! Como assim nada aconteceu? Quem esse cara é? O homem de aço?
Disso Nessie não resiste e ri, tentando se segurar, sabendo que a amiga tentava expressar raiva, mas esta lhe sendo extremamente cômica. Controla-se, mordendo o lábio inferior, deixando escapar um riso engasgado.
–E você acha engraçado né? Você que namora o superhomem e tá rindo, toda, toda! Não venha reclamar depois, eu tentava ajudar!
E a moça percebe que ela começava a ficar revoltada, o batom de cor escura se destacando com o ranger de dentes, seguido pela estalada da língua e a suspirada.
–Desculpe, desculpe. — E faz gestos com as mãos. A amiga apenas concorda, mas solta o ar pelas narinas, bufando, ainda incomodada com a situação.
–Você me frustra Nessie Swan — E isso foi a última coisa que mencionou sobre o assunto naquele dia, para o alívio da ruiva, que não parecia disposta a entrar naquele assunto. Chegou em casa com um pouco de frio, quando a temperatura começava a cair, o dia começando a inverter, o sol se encolhendo, com a brisa forte que batia. A menina tem um arrepio ao bater a porta atrás de si, pela diferença de temperatura.
Estranhamente, ouve sua mãe rindo, alto e entra na sala, apenas para depara-la conversando com um rapaz que tinha certeza, nunca vira na vista. Os encara um pouco, encostando-se ao batente, cruzando os braços. O rapaz era moreno, como Jake, e alto, mas parecia incrivelmente jovem, ainda assim, estranhamente, alguma coisa em seu jeito, ou talvez em sua aparência mesmo, a forçava a lembrar-se de Jacob.
–Nessie! — A análise é quebrada e a menina sorri para a mãe, ainda um pouco perdida, mas se aproxima dos dois. A morena é rápida em apresentar — Esse é Seth Clearwater, ele é da reserva. Eu conheci os pais deles e a irmã mais velha. Pelo visto, ele veio buscar Jacob, e quando não o encontrou no hotel, resolveu passar por aqui para ver se não o encontrava.
A menina ficou ali, estancada pelo que ouvia, gelada, o coração parecendo esvaziar em alguns segundos, apenas por aquela frase. Tentou esconder o baque, sem certeza do sucesso. Perdera o chão. Ele iria levar Jake embora. Será que Jake sabia disso? E se sabia, por que não lhe contara? A cabeça parecia girar, a mil e o ar faltava um pouco.
É acordada para a realidade, ainda com um sorriso discreto impresso no rosto, quando sua mãe encosta em seu braço, fazendo-a parecer cair, de dentro de sua cabeça, de volta para seu corpo e realidade.
–Nessie? Não vai atender isso? — O som do seu celular alto enchia a sala. Envergonhada, a menina troca um sorriso com Seth, percebendo como ele era bonito apesar da juventude, antes de puxar o aparelho do bolso e atender. Era Jacob.
–Hey, e aí? — A voz naturalmente aveludada parecia conter um tom diferencial de carinho e preocupação, que fez seu coração aquecer-se um pouco antes de se voltar para o desamparo que o vinha segurando.
–Hey... — Ela responde, mas a voz falha. Ele percebe.
–Tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — Ela tenta disfarçar, extremamente consciente dos dois que conversavam, animados, logo atrás de si.
–Tudo sim. O que você vai estar fazendo mais tarde? — E dessa vez consegue manter a voz firme, orgulhando-se do fato apenas por alguns segundos, enquanto foi possível.
–Nada por que? Quer passar aqui? — E a preocupação, a percepção de que havia algo errado ainda não sumira.
–Eu passo sim. Umas...Sete, estou por aí então — Ele concorda e eles desligam. Sente dois pares de olhos em sua nuca e se vira, sorrindo, sabendo estar forçando, pois sentia-se pesada e sem forças, sem nenhuma vontade de sorrir. — Era a Jane, vou para a casa dela mais tarde.
Depois daquilo, infelizmente, é obrigada a fica um pouco mais com eles, que pareciam interessados em atualizar-se sobre o que acontecia dos dois lados do mapa, os detalhes sórdidos das pessoas e coisas desse tipo. Bella ria e Nessie resolveu esforçar-se um pouco mais para conhecer melhor a vida de Jacob, sobre quem ele não falava, pedaços do lugar onde ele vivia, de pessoas que conhecia. Empenha-se tanto na tarefa que acaba se distraindo, esquecendo sua preocupação por algum tempo.
Fica sabendo que na verdade, Seth não era muito novo, ela só o enxergava assim por compara-lo com Jake, na verdade ele tinha dezoito anos e começava a faculdade agora, estando os dois quase no mesmo estágio da vida. Ele era simpático e agradável, e ela acaba perdendo-se um pouco na personalidade apaziguável do rapaz.
Quando percebe o horário, desculpa-se, e entre uma risada, agora mais natural e outra, despede-se, prometendo para a mãe voltar em breve, a tempo do jantar. Beija o rosto da mãe e troca soquinhos com Seth. Sai de casa ainda divertida, lembrando-se das cenas de momentos antes. Ele era realmente era alguém aprazível.
Alguns passos a diante, o vento cálido, que acariciava sua pele, acompanhando-a pelo caminho a desperta para a realidade dos fatos. Jake iria embora, em breve. Negava-se a pensar nisso, mas isso em nada mudava o fato.
Rapidamente, tenta mudar a sua linha de raciocínio, quando sente o peito pesar. Pensa em como gostaria de que ele a visse tocar piano. Isso a faz voltar-se para seu pai e nas saudades estranhas que se instauraram em seu peito, por ele. Desde que tivera seus problemas, estivera um pouco afastada, por mais que soubesse que ele estava ali. E tocar piano, bem, tocar piano era a coisa deles, deles e de mais ninguém.
O pensamento a leva a suspirar alto, pausando a caminhada por um instante, perdendo o olhar, chutando uma garrafinha de lata no chão, ouvindo-a salpicar longe, sendo o único som na noite, por alguns instantes, até o farol abrir e os carros voltarem a correr.
Algumas memórias de quando era criança invadem sua cabeça enquanto retomava a caminhada, distantes, como fotos antigas borradas pelo tempo. Seu pai lhe dando presentes no Natal, ele brigando quando sem querer quebrara um dos sapatos de sua mãe, embora a própria não tivesse se importado, os abraços longos, as brigas da pré adolescência.
Quando Nessie bateu na porta do apartamento cento e três, ainda tinha na cabeça as lembranças de beiradas esfumaçadas, dela sentada com seu pai ao piano. Jake não demora em abrir a porta.
Ele a analisa por alguns segundos, uma sobrancelha arqueada. O rosto da menina tinha um vermelho corado espalhado pelas bochechas de maneira natural e saudável. Respirava um pouco mais acelerada que o normal pelo passo rápido que se impusera. Ela vira um pouco a cabeça de lado, esperando que ele lhe desse espaço para passar, isso o faz relancear seu pescoço longilíneo, marmóreo, a respiração pesada. Engolindo em seco, percebendo para onde seus pensamentos começavam a ir, ele dá um meio sorriso torto e a deixa passar.
Ao contrário do moreno, Nessie sentia o remorso crescendo em si, pois todas as vezes que as reminescências, há muito passadas teimavam em grudar-lhe na mente, sentia-se pior, como se a traição pelo que estava fazendo fosse imperdoável. O quileute a percebe perdida em suas elucubrações e senta-se a seu lado na cama.
–O que foi? — A voz era preocupada e levemente rouca pelo volume baixo, depositando sua mão sobre a dela.
Ela sorri para ele, voltando para a realidade. Adorava o calor do corpo dele e depois de relancear as mãos, faz um movimento negativo com a cabeça, fazendo os cachos acobreados voarem de um lado para o outro.
–Nada — E estica o sorriso, traquinas — Pensava em meu pai — Jake escutava com atenção e podia sentir a culpa na voz dela. A interrompe.
–Calma, só mais duas semanas — Ele sorri, complacente e ela concorda. Com isso, algo estala na cabeça da jovem.
–Seth apareceu em casa hoje! — Mudou de assunto tão rápido que o outro levou alguns segundos para compreender, seus olhos passando da incompreensão para confusão, inconformismo até compreensão total.
–Veio me buscar? — Ela concorda.
–Meu pai mandou... — Mas não termina a sentença, tão inconformado que estava. — Não acredito! — E ele leva as mãos aos cabelos curtos, passando-as por eles, bagunçando-os, se jogando na cama, deitando-se com o peitoral para cima. Nessie vê uma ponta cômica e leva uma mão para encobrir um sorriso.
–Não deixa de ser engraçado, estarmos tão enroscados com meus pais aqui e começarmos a ter problemas com o seu, de lá — E Jake tem de sorrir, vendo-a animada. Eram de fato tantas coisas se acumulando que podia ser visto do lado cômico. E ele a analisa, sorrindo, por alguns instantes. Estava deitado a seu lado e mirava-lhe o rosto. Ele tinha olhos tão intensos, tão fortes, que ela se vê obrigada a abaixar o rosto, sem graça. Não se acostumaria com seu fito tão cedo. Ele ri um pouco, agradado com a reação dela. Ao vê-lo rir, se incomoda e volta a encara-lo, obstinada, mas ele ria sem olha-la, os cotovelos apoiando o peso de seu corpo, o tronco levantado na cama.
Ela suspira, sorrindo por fim.
Os dentes brancos e bonitos se destavacam na pele morena e Nessie desliza os olhos pelo rosto bem definido para o abdômen que subia e descia enquanto ele ria com gosto. Encara o movimento como maravilhada, só notando o que fazia quando percebe que ele voltara a olha-la. Ele percebera. Sente seu coração acelerar e, ainda mais embaraçada, com o olhar pesado e incômodo dele sobre si, por tê-la pegado admirando-o. Tem certeza de ficar muito vermelha, o rosto quente.
–Com licença, vou ao banheiro — E levanta-se em um pulo. Ele a olhava de forma estranha, que ela não conseguia identificar. Seu coração batia como louco contra a caixa toráxica. Liga a luz do banheiro e a torneira, jogando água no rosto, tendo certeza da sensação da água virando fumaça, como uma panela quente colocada na pia. Respira fundo, repetindo o processo uma e outra vez. Concentra-se no fluxo da água pela torneira, tentando acalmar-se. Volta a respirar fundo. Estava funcionando. Tão concentrada estava que não nota Jake atrás de si, aproximando-se devagar, para assistir o que ela fazia.
–Tudo bem? — Pergunta, a voz grave fazendo-lhe dar um salto e agarrar as bordas da pia, agora encarando-o pelo espelho.
–Aham... — Responde, sentindo a boca seca. Tenta trancar seus olhos no rosto dele, mas falha, deslizando por seu peitoral debaixo da blusa branca. Engole em seco. Um pequeno sorriso malandro surge nos lábios bonitos de Jacob. O sorriso vem só para tirar-lhe totalmente o ar, fazendo-a forçar os dedos na pia com todas as forças que tinha. Sua respiração estava muito alterada. Se encaram por alguns segundos, o sorriso dele só se esticando, malicioso, seus olhos ganhando um novo brilho. Jacob a analisava sem vergonha, a respiração sensual, o rosto molhado, a água escorrendo-lhe do rosto para o pescoço, para a blusa branca, deixando-a transparente.
Ele olha para o corpo da moça, que mexia-se agitado em movimentos desequilibrados pela força da respiração. Ao perceber como ele a analisava, sua boca fica ainda mais seca e ela se dá liberdade de analisa-lo também.
Ele só podia ver suas costas, a bonita linha da coluna, as pernas longas e grossas. Os traços do rosto e do colo trêmulos pelo espelho, a blusa grudada ao sutiã rendado por baixo, molhados. Ele se aproxima e ela se volta para seus olhos que brilhavam, gananciosos. Em outra situação, ela ainda brigaria com ele por ele estar olhando para a sua bunda, mas com a garganta seca e os pensamentos nublados pelo desejo, não conseguia encontrar suas palavras.
Ele andava devagar e ela se vê completamente sem ar. Ele encosta o corpo ao dela, pressionando-a a pia, os dois ainda se encarando pelo espelho. Ele lambe o lábio inferior devagar e ela segue o movimento, os olhos trancados na visão a sua frente. Ele lhe sorri, os olhos carregados de lascíva.
–Vai mesmo deixar a torneira ligada? — A voz dele estava mais densa e um pouco rouca, provocativa, maldosa. Ele passa os braços por cima dos dela, roçando-os de propósito, sentindo-a arrepiada embaixo de si. Ele desliga a torneira e ela aproveita a chance para se virar, passando a encara-lo de frente. Ele olha sem vergonha onde a água fizera de sua blusa transparente. Sente as mãos dele entrarem por baixo de sua blusa, por trás, quentes, um arrepio percorrendo todo o seu corpo, algo entre as suas pernas começando a formigar. Ele deixa a mão subir um pouco por suas costas, mal encostando em sua pele e ela se sente eletrizada, gemendo baixo. Não tem tempo para pensar quando os lábios dele cobrem os seus, afoitos, as línguas se encontrando primeiro, antes dos lábios se encontrarem, os dois indo com sede ao pote. Com a mão esquerda, ela lhe tocava o maxilar, atraente e com a outra, enlaçava seu pescoço, acariciando os agradáveis cabelos espetados.
Sua língua era salgada e ávida e ele exigia tudo de si, dominando-a, excitando-a. As mãos dele sobem, agora em total contando com a sua pele, sem muita delicadeza, levantando sua blusa até a cintura, puxando-a com tudo contra si, prensando-a com firmeza entre ele e a pia. Ele morde sua língua devagar e ela suspira alto. Ele dá outro tranco, puxando-a para si, colocando-a sentada na pia. Ela abraça a cintura dele com as pernas, colando os corpos o máximo possível, sentindo a pele arrepiar inteira. A afrodisia era clara e ela sentia a ereção dele contra si, o que só servia para deixa-la mais estimulada. Ela volta a gemer quando as partes se encontram, sob a roupa, o jeans grosso dele chegava a ser dolorido pela força da fricção entre eles.
Nisso, Jake se afasta um passo, quase fazendo-a ir ao chão, tendo de forçar as costas para trás, enquanto o corpo escorregava da pia, machucando-lhe as costas. Demora alguns segundos para voltar a pensar.
Ele tinha a expressão rígida, o maxilar tenso e as mãos fechadas com tanta força que os tendões brancos apareciam por baixo da pele. Ela o encara confusa, as mãos ainda apoiadas a pia, atrás de si para manter-se em pé, as pernas moles e sem equilíbrio. Ela respirava com dificuldade, puxando o ar em tragadas para o pulmão, o rosto mais vermelho do que quando a brincadeira começara.
Jake respirava com tanta ou mais dificuldade que ela e parecia tentar respirar fundo, para se recuperar.
–Desculpe-me — Ela diz entre uma sugada de ar e outra. Ele parece confuso por um instante antes de fazer um 'o que é isso' cheio de descaso com os olhos.
Ela consegue ver o Jake divertido neles e sorri, sem saber o efeito que seu sorriso genuíno e desprotegido, naquela situação, tinha sobre ele. Os lábios dele formam uma linha rígida e ela estranha. Suspirando, ainda um pouco trêmula, a moça ousa soltar de seu apoio devagar, aproximando-se, seu corpo se mexendo de maneira tenra, o leve gingado dos quadris que Jake tentava, a todo custo ignorar. Ela pára em frente a ele e olha em seus olhos, com honestidade límpida, entrelaçando os dedos e forçando-o a relaxar um pouco. Ela o acalmava devagar e Jacob se pergunta como aquela mulher a sua frente podia ter só dezessete anos e o motivo de se sentir tão inebriado por sua presença. Ele olha nos olhos, contemplativo e ela volta a sorrir, tímida.
Ela aproxima-se um pouco de leve, fazendo-o voltar ao alerta, fechando a distância entre os corpos, suavemente.
–Nessie, não... — A voz não passava de um murmuro, nunca antes havia visto os olhos dela tão brilhantes, tão vivos e tão envolvidos, entregues, ainda mais agora, contra a luz vermelha que entrava pela janela. Ele engole em seco e sente-se estremecer. Ela o sufocava, arrepiava. Ela o tinha por inteiro.
–Eu te amo — Ela confessa, em um tom tão baixo que saiu quase como um suspiro. Ele sorriu de leve, sem conseguir quebrar o contato visual, encantado, enfeitiçado pelos seus olhos de chocolate. As palavras voaram da boca dela, antes que pudesse perceber o que fazia e antes que pudesse entrar em pânico por isso, ele responde.
–Eu também — E abaixa-se, a puxando devagar para um novo beijo, cobrindo-a de carinhos e suspiros. Ela o beija devagar, com sofriguidão, tentando guardar seu gosto em sua memória, sua textura e maciez. Ela sentia as línguas, uma contra a outra, mas nunca antes o contato lhe parecera tão íntimo, único e especial como sentia agora, chegando a intimida-la, fazê-la temer pelo contato de um único beijo. O que havia entre eles parecia ficar cada dia mais intenso, mais forte e mais difícil de controlar.
Quando sente suas mãos em sua blusa, não estranha, permitindo-o que a tirasse, jogando-a no chão do banheiro. Ele a levanta do chão, sem desgrudarem as bocas, indo para o quarto e jogando-a na cama.
Ele volta a olha-la com aquele olhar voraz, devorando seu corpo com os olhos, joga os sapatos longe, antes de subir na cama e ajuda-la a tirar as calças. Ele a puxa para seu colo, fazendo-a sentar-se sobre si, ela puxando sua blusa, jogando-a na cama. Ele acaricia seus seios devagar e ela geme alto, a eletricidade inundando-a por dentro, o sangue parecendo lava onde ele a tocava, queimando-a, fazendo-a mexer-se conforme seu toque, acompanhando-o. Ele mordisca seu pescoço devagar e ela volta a enlaçar sua cintura. Faziam um movimento de vai e vem, o corpo dela subindo e descendo sobre o dele, sentindo sua ereção dorte abaixo de si. Voltam a se beija vez dele gemer quando ela lhe mordisca a orelha, sedutora, colocando todo o lóbulo dentro da boca, sugando-o devagar. Os dedos dele enroscam em seu sutiã, abrindo-o.
O telefone toca, insistente, quebrando o momento. Os dois se encaram, tentando respirar, os rostos corados. Ele dá uma última olhada no corpo dela, focando os seios descobertos.
–Você me deixa louco — Ele parece grunhir, rouco, mais para si do que para ela, antes de empurra-la suavemente e levantar-se, pegando o aparelho, virando de costas para ela, tentando focar-se. Ele limpa a garganta com força antes de atender. Ela suspira, pegando as calças e vestindo-as. Levanta-se e vê os movimentos de Jake, os olhos seguindo-a no espelho em cima da cômoda, enquanto ela recolocava o sutiã, os dois se encarando em silêncio, até ela levvantar e ir para o banheiro pegar a blusa caída. Volta alguns segundos depois, e ela a encarava, sério.
–Precisamos conversar. — Ela estremece e concorda. Ele suspira, desapoiando-se da cômoda. — Te deixei uma marca — E indica o pescoço, onde antes ele lhe mordiscava. Ela cobre o lugar, em um instinto atrasado de proteção própria — Era da portaria, Seth está subindo.
–Seth? ! — Pergunta, descrente, mas não tem tempo de mais revolta, porque a campainha toca. Eles trocam um olhar e ela olha em pânico para a porta.
–Parece que nossa conversa vai ficar para depois, mas ainda precisamos conversar — E ele pega a blusa em cima da cama, vestindo-a rapidamente, ela toda amassada pelo tratamento de segundos atrás, respirando fundo antes de se posicionar a porta e abri-la.
Nessie prende a respiração, sem retirar a mão do chupão no pescoço. Estava vidrada, sem saber o que fazer.
–E aí Seth? O que está fazendo aqui moleque? — E ele soava falsamente irritado, divertido, o corpo apoiado na porta, impedindo-a de ter a visão do que estava do lado de fora. Ela estava estagnada no lugar. Contar ou não contar? Ele era de confiança? Tinha alguma escolha essa altura do campeonato?
Relanceia a cama totalmente desarrumada, como se duas pessoas tivessem acabado de... Corta a linha de raciocínio, voltando os olhos assutados para a porta, bem a tempo quando Jake saía de seu caminho e Seth podia vê-la. Os dois se encaram pelo que pareceram ser os segundos mais estranhos da vida dos dois.
Seth quebra a troca de olhares e estranhando, parecendo sem ação direito, olha em volta, vendo os sapatos jogados, a posição hesitante de Nessie até repousarem na cama desfeita, suspeita, levantando uma sobrancelha, imóvel no lugar. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, Jake interrompe sua linha de raciocínio lógico.
–Sim Seth, é isso o que você está pensando — Ele diz, pausadamente, cruzando os braços. Nessie estava claramente apreensiva, Seth parecia a um ponto de surtar — Calma, nos ouça primeiro — Seth parecia chocado demais para reagir. Os dois precisam de mais de meia hora de explicações, as quais o menino fica sentando na cama, só escutando os dois gesticularem. Tão nervosa fica, que Nessie precisa até abrir a janela, para que o vento fresco entrasse, brincando com os rotos quentes e eriçados. No final daquele tempo, com a ruiva já sentada na cômoda, de cansaço, ele parece começar a compreender e articular novamente.
–Você quer dizer que daqui duas semanas vocês contam tudo... E você volta para casa? — E indica Jacob, apontando-o. Os dois semi-concordam — Como isso funciona? Vocês moram de lados contrários do país! — E ele agora parecia histérico, respirando com dificuldade, alterado. Nessie abre a geladeira portátil, pegando-lhe um copo de água, também nervosa, quase derrubando-o no processo. Aproxima-se, entregando-lhe.
–Nós também não sabemos ainda — Ela confessa, trocando um olhar cúmplice com Jake, antes de voltar a atenção para o quileute mais novo. — Só sabemos que queremos e estamos dispostos a tentar fazer funcionar.
Seth confirma com a cabeça e beberica a água, devagar, assimilando tudo que lhe fora contado, com cautela, filtrando as informações. Depois disso os três se calam, parecendo perdidos. Nessie relanceia o relógio. Eram quase nove horas, precisava voltar correndo pra casa. Suspira, pulando de onde estava, chamando atenção dos dois.
–Preciso ir para casa — Anuncia, desanimada. De alguma forma, parecia decepcionada, sem saber direito por quê. Suspira.
–Eu te levo — E Jake tinha um olhar que dizia 'ainda precisamos conversar'. Ela desvia os olhos e abraça o corpo, sentindo um arrepio desconfortável, como se uma friagem a incomodasse. Seth não faz nenhuma questão de os acompanhar, Jake dizendo para ele pedir alguma coisa para comer no tempo de ele ir levar Nessie em casa.
Nessie achara que os dois momentos mais estranhos que já tivera em sua vida foram quando Jake a levara em casa depois de terem se beijado a primeira vez e agora há pouco, encarando Seth, mas essa caminhada era um terceiro acirrado.
Os dois caminhavam em silêncio há quase cinco minutos na noite, chutando pedrinhas imaginárias pelo caminho, sem muita coragem de se encararem. Nessie ainda se abraçava. De certa forma, tinha ideia do que viria a seguir e não tinha certeza se tinha ânimo para aquilo ou se sequer queria ouvir. Talvez fosse melhor que discutissem isso outro dia, quando o momento tivesse passado. Soava uma excelente ideia em sua cabeça.
–Nessie — E a voz dele soava ensaiada, como o que quer que ele fosse dizer estivesse há muito planejado em sua cabeça, revirando-se de um lado para o outro em suas ideias, ela simplesmente continua a encarar seus pés, as sandálias muito mais interessantes do que o que quer que ele fosse dizer. Ele suspira — O que aconteceu hoje... — E ele hesita, por alguns instantes, ela conseguindo vê-lo pela sua visão periférica, remexendo seus cabelos, como fazia todas as vezes em que estava nervoso — Não pode acontecer de novo. Por isso, acho melhor que não fiquemos mais sozinhos no meu apartamento.
Ela assimila rapidamente a ideia e o olha, estalando os lábios. Cruza os braços, faíscas saíam de seus olhos. Sabia que não tinha absolutamente nenhum motivo para estar brava, mas o fato de Jacob não querer ficar sozinho com ela, por qualquer motivo que fosse, a deixava brava.
–O que aconteceu hoje... Jake — E pronuncia o nome dele excessivamente, enfática — Está fadado a acontecer e ia acabar acontecendo hora ou outra... — Só não completa, dizendo que preferia que Seth não tivesse interrompido, mas para isso, tem de morder os lábios, para conter a vontade.
–Nessie, você não tem motivo para ficar assim e sabe disso. — E ele parecia ter ficado alterado e um pouco decepcionado. Aquilo a afeta, fazendo-a hesitar, mas não o suficiente para se retirar da discussão — Isso é o melhor pra gente e você sabe disso.
–Não, é o melhor para o que você decidiu! — Ela joga, nervosamente, gesticulando, emburrada.
–E você concordou! — Ele eleva a voz, o que só parece servir para infla-la mais.
–Você me coagiu a isso!
–Nessie, não seja imatura! — Ele sai do sério — Quer contar para os seus pais agora? — Os dois gritavam no meio da rua, olhando-se como duas feras enraivecidas. Aquilo parece magoa-la e depois disso os dois se calam, cada um cruzando os braços, irrequietos. Logo a casa da ruiva está a vista e ela não hesita em sair correndo em direção a ela, sem se despedir ou agradecer.
Era um tufão de emoções. Queria bater em Jacob, o odiava, queria beija-lo e pertencer a ele, queria contar para seus pais e não queria que eles soubessem nunca, tinha medo, raiva, desejo e vontade de chorar, tudo em um misto irritante, que a fazia querer arranhar e arrancar a própria pele.
Entra em casa em um estrondo, batendo a porta.
A verdade ainda ecoava em seus ouvidos, mas não queria pensar sobre ela agora. Ele a acusara de ser infantil.
–Nessie, meu amor, tudo bem? — Bella se aproxima, parecendo preocupada, pronta para encostar em seu ombro, mas a menina se encolhe, desviando-se.
–Vou para o meu quarto, estou sem fome! — Anuncia, correndo de repente, em direção as escadas. Já chegava no topo, quando sua mãe volta a gritar.
–Seu pai estava esperando para tocar o piano — Era uma pena, porque realmente estivera esperando por isso há tempos, mas não conseguiria fazê-lo agora, não tinha vontade, nem cabeça. Tranca-se no quarto, permitindo-se desabar no chão, xingando-se mentalmente, de raiva de si mesma e de Jacob Black. Algumas lágrimas confusas e amargas escorriam de seu rosto, só servindo para deixa-la pior, mais fula com a situação.
Precisava dormir, era o que devia fazer e no dia seguinte, tudo estaria melhor...
Fale com o autor