Serendipidade
1 O Cristo Redentor dá adeusinhos cúmplices
Notas iniciais
Fernanda's POV
O cara mais gato da escola alí me beijando e eu pensando em viajar. Como assim?! Em que parte eu enlouqueci? E espera, por quê ele está cantando Hangover? Esse não é o toque do meu celul... Ah claro, era apenas um sonho.
Olhei pela janela, o céu ainda estava escuro. Estiquei o braço até o criado mudo na tentativa de pegar meu celular. Triste, ele estava no chão. Me estiquei mais um pouco e acabei escorregando por entre os lençóis. Resultado, agora eu estou no chão e a pessoa que estava me ligando desistiu de falar comigo. Fechei os olhos com força e me levantei.
Abri os olhos com dificuldade e finalmente consegui pegar meu celular. Olhei o visor e me assustei ao ver 12 chamadas não atendidas. Listei pra ver de quem era e sorri de lado ao ler o nome "Cow Master". Retornei a ligação.
— Olha só, eu acho melhor você ter um desculpa muito boa pra me ligar as — olhei o relógio de parede e aumentei o tom de voz — cinco e quinze da manhã!
— Oi Fernanda, bom dia pra você também. Eu só gostaria de saber aonde você está.
— No meu quarto, por que?
— Aham... E você sabe que dia é hoje?
— Sei lá, não. Anna Clara, amiga, eu te ligo mais tarde, pode ser?
— Vou te ajudar. Hoje é dia dezessete de agosto, sexta, e nós vamos embarcar pra Londres em... duas horas!
Afastei o telefone do ouvido e proferi o primeiro xingamento que me veio na cabeça. Como eu pude me esquecer dessa viagem?!
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela desligou. Eu sei o quanto Anna odeia esperar, ainda mais quando está sozinha. Talvez eu tenha ingerido uma dose alta de álcool na festa de ontem. E esse deve ser o motivo pelo qual estou sentindo meu corpo tão pesado.
Passei a mão no cabelo e suspirei. Comecei a pensar em como eu ia me arrumar e fazer tudo depressa. Chamei um taxi. Eles demoram, então dá tempo de fazer tudo enquanto ele não chega, pensei.
Tomei um banho rápido e me arrumei mais rápido ainda. Haviam se passado vinte e nove minutos. Acabara de bater um recorde! Desci as malas e me certifiquei de que havia pego tudo.Comi um pedaço de bolo e vi que Maria, nossa empregada, já tinha se levantado.
— Ah menina, você vai fazer muita falta! — Ela disse já me abraçando.
Conversamos muito pouco e eu corri até a sala para me olhar no espelho. Eu carregava uma cara de zumbi horrorosa. Fazer o que, me atrasar não estava nos meus planos... Ser feia também não. Eu ri dos meus pensamentos e o taxi chegou.
Dei meu último adeus a minha segunda mãe, Maria. E a minha casa. Entrei no taxi e deixei as lágrimas finas caírem pelo meu rosto. Então, o motorista partiu rumo ao aeroporto.
Há alguns meses fui matriculada em um internato em Londres, contra a minha vontade, é claro. O único ponto positivo nisso tudo era Anna Clara, ou seja, eu teria a minha melhor amiga do meu lado! Meus pais que indicaram o internato para os pais da Anna. Ela quase morreu quando soube disso. Tivemos esperanças de não ser aceitas, nós duas nunca fomos boas alunas. Mantínhamos nossas notas na média da escola, mas tinha sempre um deslize, uma advertência até. Mas desistimos de tentar convencer nossos pais de que nosso lugar é aqui quando a carta de aceitação da escola chegou. Tivemos que encarar a realidade, mesmo que ela não fosse boa para nós.
Nossos pais já estavam em Londres. Eles foram na frente, pra conhecer o lugar, agilizar a papelada e tudo mais. Eu queria ter ido conhecer a escola pelo menos. Já que nos sites não havia muita coisa. Mas a minha ideia entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Meu pai achava que sabia o que era melhor pra mim. De verdade, coitado!
Era difícil pensar que eu estava deixando uma vida pra trás. Sim, uma vida, e isso não é drama. Peguei o iPod e coloquei as músicas no aleatório. Mais lágrimas rolaram pelo meu rosto enquanto ficamos presos no trânsito por alguns minutos. Típico Rio de Janeiro.
Chegamos ao aeroporto. Paguei o taxi e fui em direção a uma grande porta de vidro, carregando as malas com dificuldade. Resolvi ligar pra Anna.
— Onde você está? — Ela foi me explicando detalhadamente em que canto havia se enfiado. E eu, lerda, demorei meio século para entender. Vi minha amiga acenar e fui em sua direção.
— Eu já estava morrendo aqui, sua vaca! — Ela disse séria mas logo sorriu.
— Fui dormir tarde. Desculpa por te fazer esperar — abracei ela e nós rimos.
Resolvemos a situação das malas, fizemos o check-in e voilá! Em pouco tempo ouvimos uma voz fina anunciar nosso vôo.
— Pronta?
— Não, e você?
— Também não.
Gargalhamos e seguimos rumo a sala de embarque.
Entramos no avião. Eu e Anna somos muito fracas, enjoamos facilmente. Tomamos um remédio que nos faria dormir durante toda a viagem. Lembro apenas de uma última conversa esquisita que tivemos antes do avião decolar. Algo sobre a chuva. Apaguei e não me lembro do sonho que tive.
Acordei com alguém me cutucando.
— Quer ficar no avião e voltar para o Brasil?
— Eu posso?!
— Não.
— Então... — rimos.
Pegamos nossas malas e fomos até um restaurante cituado no aeroporto. Eu ainda nem havia saído de dentro do aeroporto e já estava sentindo frio. Tirei o casaco da bolsa e o coloquei. Anna fez o mesmo.
Liguei para o meu pai. Ele atendeu irritado, dizendo que já estava nos esperando há quase meia hora do lado de fora. Como ele queria que eu adivinhasse?! Não rebati, não falei nada. Só escutei e fui ao seu encontro.
— Fefa, respira, conta até dez — Anna riu zombateira.
— Vou acertar um soco no meio da sua cara, isso sim.
— Calma, menina! Você tá em Londres, com a sua melhor amiga, vai conhecer meninos britânicos... — eu ria demais.
Geralmente era o contrário, ela era a estressada e eu tentava pensar positivo. Talvez o fato de estarmos em Londres acalme ela, já que ela ama tanto esse lugar.
O que eu sabia sobre Londres era o básico do básico. Eu poderia me perder facilmente. Já Anna sabia tudo sobre Londres e suas infinitas histórias. Ela parecia uma espécie de guia.
— Olá meninas. Entrem, por favor — meu pai disse, formal como sempre, apontando para um carro preto que eu desconhecia.
Não mantivemos nenhum tipo de conversa. O que se passava pela janela do carro era algo encantador! Eu estava vidrada nessa paisagem. E a minha amiga tinha razão, Londres é incrível!
Anna's POV
Eu poderia fazer mil e um comentários durante todo o trajeto até o nosso prédio. Mas eu simplesmente não conseguia dizer nada. Meus olhos se fixavam em cada detalhe nas ruas. Londres é um lugar realmente perfeito. É melhor do que eu imaginava. E eu me sinto realizada estando aqui. Mesmo que contra a minha vontade.
Não reclamo do lugar. Reclamo do motivo que me trouxe até aqui. Um internato?! Não entendo o porquê de estar matriculada numa escola do outro lado do mundo. E pior é que os meus pais estão achando isso normal. Essa situação é tudo, menos normal.
— Essa é a entrada da escola — tio Marcos interrompeu meus devaneios parando com o carro em frente a um grande muro marrom.
Me senti assustada, senti medo. A escola é enorme! Com janelas grandes e extremamente altas. Tudo alí continha um ar rústico, antigo. Um portão preto de ferro carregava um símbolo até então desconhecido. No muro havia uma placa anunciando solenemente: Escola para Estrangeiros em Londres.
O último resquício de esperança que eu tinha de que isso não estava acontecendo, sumiu neste exato momento. Senti meu coração diminuir. Então, sim, eu faria o terceiro ano numa escola para estrangeiros, sem conhecer ninguém, sem sequer falar a língua deles direito... Não posso surtar, não posso surtar!
Olhei Fernanda, ela parecia assustada também. Segurei sua mão querendo dizer "calma, eu estou aqui". Ela sorriu em resposta, mas eu pude ver o desespero em seus olhos.
De nós duas ela sempre foi a mais insegura. Ela sempre teve um pé atrás nas situações, sempre com medo do que poderia acontecer mais a frente. Esse jeito de "eu sou forte" era só faixada. Agora ela se arma contra o mundo, desconfia de tudo. Não a julgo, porque sei o que ela já passou. Ela perdeu o irmão Gabriel quando ele só tinha 2 anos, depois disso os pais dela se tornaram frios, e ela se envolveu em relacionamentos complicados. Só agora, quando ela estava se sentindo bem, viemos parar em Londres.
Algo me diz que esse ano nos trará muitas surpresas. Umas boas, outras ruins.
Senti Fer apertar minha mão. Olhei pra ela e consegui ouvir o "stay strong" que ela disse bem baixinho. Ela sabia o quanto aquilo me ajudava. Me senti melhor.
Felizmente eu tinha com quem contar. Não teria de me esforçar para conhecer alguém tão rápido.
Entramos no carro e eu fui tentando me acalmar. Mas não tive tempo pra isso. Em menos de um minuto já estávamos em frente a nossa nova, casa.
— Então a escola é no começo da rua e o prédio no final... Legal hein — Fernanda estava sendo irônica, típico de quando ela está nervosa.
Tio Marcos apenas encarou a filha e suspirou cansado.
— Vocês já podem subir. O quarto de vocês fica no segundo andar, pode deixar que eu levo as malas — dito isso, ele nos entregou duas chaves.
— Ok — dissemos em coro e adentramos um prédio de estutura antiga.
Com o mesmo tom marrom da escola, só que muito mais aconchegante. No hall haviam mesinhas de madeiras com revistas velhas. No centro, um grande lustre amarelado iluminava todo o lugar. Haviam pessoas em todos os cantos, conversando animadamente. Deduzi que a maioria se conhecia há pelo menos um ano.
As escadas eram largas, com degraus envernizados e com "portões" que lógicamente eram fechados a noite, durante a semana.
Alcançamos o segundo andar e caminhamos por um corredor estreito de paredes vermelhas. Havia apenas três pessoas conversando alí. Duas meninas e um menino. Não reparei muito, afinal não queria me passar por fofoqueira. Eu já tinha cara de intrusa, eu já estava chegando depois de todo mundo, ser taxada de fofoqueira não era uma ideia bem vinda.
Olhei o papel que estava em minha mão: quarto 426. Chequei o número que estava na porta... Achei meu quarto. Fernanda ficaria no último quarto do corredor. Sorri pra ela e abri a porta do meu mais novo "lar".
Meus pais estavam olhando a rua pela janela.
— Atrapalho?
— Filha! — Minha mãe me abraçou.
— Como foi a viagem?
— Normal, nada demais.
— Veio dormindo, certo?
— É — gargalhei contidamente.
Girei os pés e olhei meu quarto. Uma cama, uma cômoda, uma escrivaninha e um banheiro muito pequeno. Com o tempo eu mudaria muita coisa por alí.
Estava desfazendo a última mala com a minha mãe enquanto meu pai falava.
— Nos fins de semana a cantina e o restaurante da escola não abrem. Então vocês podem passar o dia fora. Mas terão que voltar até as onze horas da noite. Alguma dúvida?
— Não pai, já entendi — ele sorriu.
Por mais que ele insistisse em dizer isso tudo, eu sabia que de alguma forma alguém ia me falar isso em pouco tempo.
Bateram na porta e eu fiquei sem reação. Minha mãe atendeu.
— Vamos? Já está na hora.
A mãe da Fer apareceu no quarto lembrando meus pais de que eles tinham que ir para o aeroporto.
Depois de muita enrolação e muitas lágrimas, eles se foram...
Só de pensar que eu só os veria nas férias, eu já sentia saudade. Meu estômago começou a revirar, surgiram nós na minha garganta, mas eu me segurei. Impedi que as lágrimas caíssem. As paredes eram finas demais, caso eu chorasse, meus vizinhos poderiam ouvir.
Depois de ajeitar tudo, eu liguei pra Fernanda.
— Quer fazer o que?
— Não sei, quais são as minhas opções? — ela estava com voz de choro.
— Dormir ou sair pra conhecer algum lugar, perto. Porque já está meio tarde.
— Acho que dormir é a melhor opção né.
— É, também acho.
— Amanhã a gente acorda melhor e você me leva para conhecer todos esses lugares lindos... Sei que você tá louca pra sair — rimos fraco.
— Ah, tô um pouco. Então, sairemos amanhã. E pela manhã eu passo aí pra te acordar.
— Não muito cedo, por favor!
— Ok, dona nasci-para-comer-e-dormir — ela gargalhou.
— Beijos, Cow Master.
— Beijos, Fefuxa — rimos e desligamos.
Deitei na cama e me virei de um lado para o outro. Não conseguia dormir. Até que eu ouvi alguém bater na porta. Será que Fernanda tinha mudado de ideia e agora quer sair?
Fui eu, elegantemente feia e desarrumada, atender a porta.
— Ah, oi...
É um menino! Um menino! Um britânico, que não tem cara de britânico, eu não sei se é britânico, mas ai meu Deus. Tem um menino, falando comigo. Eu não sabia se falava, se fechava a porta na cara dele, se desmaiava, sei lá.
Ele é alto, moreno, e eu não posso negar, ele é lindo! Seu cabelo forma um topete impecável, parece muito bem pensado. Seus braços são fortes. Sua face carrega um ar meigo e simpático. Seus olhos são simplesmente viciantes. Eu não conigo não encarar aquele olhar. Ele me transmiti muita coisa. Eu não sei o que é, mas eu sinto. Só sinto.
— O-oi — respondi totalmente sem graça.
— Desculpa, não queria te atrapalhar. Eu estou procurando Emma, achei que esse fosse o quarto dela. Você a conhece?
— Ah, não, não conheço. Acabei de chegar — sorri de um modo simpático.
— Bom, me desculpe, mais uma vez... — ele passou a mão na nuca e sorriu.
Quando ele deu uns passos para trás indo embora, eu criei coragem e fiz uma pergunta que me desencadearia muita coisa dalí pra frente.
— A propósito, qual é o seu nome? — ele se virou pra mim e riu de lado.
— Zayn, e o seu?
— Anna Clara — sorri abertamente.
— Olá, Anna — gargalhamos.
— Olá Zayn, você é daqui?
— Sim, nasci em Bradford. Você não parece ser daqui, também não parece ser francesa, nem russa, nem mexicana...
— Sou brasileira — ele fez uma expressão meio assustada e seus olhos percorreram todo o meu corpo.
— Ah entendi. E o que te trouxe aqui?
— Sabe que eu não sei? Meus pais conheceram o internato através dos pais de uma amiga, aliás, ela está naquele quarto alí — apontei pro quarto da Fer — e se chama Fernanda. E então, aqui estou — ele riu.
— Você é do terceiro ano, como eu.
— Como sabe?!
— Ué, nesse prédio ficam apenas os alunos do terceiro ano.
— Eu não sabia disso...
— Agora sabe — rimos.
— Existe mais alguma coisa que eu não saiba?
— Acho que sim, na verdade, você ainda não sabe de muita coisa.
— Hum, quanto mistério.
— Nada demais.
Conversamos mais um pouco. Sobre a escola e coisas mínimas. Eu estava gostando disso, mesmo não sendo nada importante.
— Bom, eu tenho que ir. E ainda tenho que achar minha amiga.
— Sim. Emma né? Se eu esbarrar com ela eu aviso que você está a sua procura.
— Tudo bem, obrigado. Até mais, Anna.
— Até mais, Zayn.
Sorri e entrei no quarto. Fechei a porta... Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer.
Eu simplesmente conheci um garoto lindo e simpático! Londres não estava parecendo tão ruim agora.
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