Serenata Dos Sinos
2 Selva de Pedra
Notas iniciais
Após uma boa caminhada decidimos parar para descansar e tomar um pouco de água. Já havíamos saído de New Bark a pouco mais de uma hora e meia e vínhamos conversando enquanto caminhávamos, para podermos nos apresentar a Chris e para que ele pudesse falar sobre sua vida em Kanto e seus motivos de querer começar sua jornada tão longe de casa.
A primeira coisa que aprendemos sobre o garoto foi que ele é um gênio. A Pokédex se mostrava inútil quando se falava dos pokémons que havia em sua terra natal, e, já que cerca de 40% da fauna de Johto era composta por criaturas que também poderiam ser encontradas em Kanto, podia-se dizer que ele não usaria seu dispositivo muitas vezes. Infelizmente para mim o garoto insistia em não me dizer o nome de seu pai, muito menos seu próprio sobrenome, o que seria uma boa pista. Quando questionado sobre o que faria caso alguma autoridade pedisse seus documentos ele deu de ombros modestamente e disse que os policias e departamentos de policia de todo o continente tinham conhecimento da identidade de seu pai, então saberiam quem ele era assim que checassem seu Cartão de Treinador e que a ordem que eles receberam era a de tratá-lo por Chris Color.
Quanto a mim, deixei-o bem surpreso quando contei que era filho adotivo do Dr. Vincent. Mas deixei claro que o motivo de ter saído em jornada não era o de encontrar minha mãe biológica, mas, simplesmente, minha paixão pelos pokémons. Claro que não se podia negar a real, porém quase improvável, possibilidade desse encontro realmente acontecer. Mas preferia não pensar muito nisso, pois não sabia qual reação teria se a encontrasse. Pena? Raiva? Agradecimento? Bom, simplesmente mudei de assunto o mais rápido que pude.
Neste momento nós estávamos nos preparando para prosseguir com a caminhada quando me ocorreu que ainda não havíamos soltado nossos parceiros.
– O que vocês acham? – Perguntei aos meus companheiros.
– Não vejo porque não... – Emma já estava com a mão na bolsa tirando sua pokébola.
Juntos nós três atiramos nossas respectivas esferas para o alto e, no momento em que elas se abriram as vozes dos pokémons se fizeram escutar felizes por estarem a céu aberto.
– Caramba! – Exclamou Chris estapeando a própria testa.
– O que foi? – Perguntei.
– Esqueci de falar ao doutor outra função que foi acrescentada à National Dex!
– E qual é?
– Bom. Quando se recebe seu pokémon inicial, sabe-se que ele está no nível 5 de experiência. Mas, à medida que você vai entrando em torneios ou batalhas, esse nível vai aumentando e, quando chega a determinado nível grande parte dos pokémons aprendem novos golpes e, posteriormente, evoluem. – Ele explicava com paciência. – O problema é que não havia como o treinador saber em que nível seu parceiro estava, mas meu tio conseguiu desenvolver o aplicativo que monitora a experiência.
Eu e Emma estávamos muito impressionados com a excelente explicação que ele dera, mas talvez nossos rostos mostrassem que não houve compreensão, pois ele continuou:
– Imaginem o seguinte... – Recomeçou. – Meu Cyndaquil está exatamente no mesmo nível que a sua Chikorita, Matt. Naturalmente, caso nos enfrentássemos em uma batalha, meu pokémon teria vantagem, pois é um tipo fogo contra um tipo planta. Mas eles estão num nível de experiência tão baixo que ainda não aprenderam ataques específicos, como Lança Chamas ou Folhas Navalha.
– Ah! Acho que entendi. – Emma tomou a frente. – Então com essa função na Dex é possível que nós saibamos os golpes que nossos pokémons sabem, ou os de algum que venhamos a capturar que estejam num nível mais avançado.
– Exatamente!
– Então espera um minuto... – Falei enquanto retirava minha Pokédex da bolsa.
Pedi então a Chris para que me mostrasse como utilizar esse aplicativo para que eu soubesse o nível de experiência dos pokémons. Assim que memorizei a sequencia de botões, mirei a lente em Chikorita e a Dex fez a análise.
– Chikorita. Level 5. Golpes: Empurrão; Rugido.
– Tudo bem, o negócio é o seguinte. – Falei sorrindo para Chris. – Eu te desafio para minha primeira batalha. Minha Chikorita contra o seu Cyndaquil. O que me diz?
– Não vejo porque não.
Sem dizer mais nada conduzimos nossos parceiros para que ficassem de frente um para o outro.
Enquanto a adrenalina subia entre nós, Emma pegava seu Totodile nos braços e recostava-se em uma árvore para que pudesse assistir à batalha em baixo de uma sombra fresca e o Bulbasaur ficou feliz em se aninhar ao lado de seu corpo.
– Você tem certeza, Matt? Não acho que você vai aguentar...
– Cuidado com o que fala Mister Color. – Sorri levemente para ele. – Você pode se surpreender. Chikorita, use o Empurrão!
– Cyndaquil, pule para a esquerda e use o Olhar Penetrante!
Segundos antes do golpe de minha parceira atingir o adversário com toda a potência, ele pulou, conforme as ordens de seu treinador, e emitiu um som agudo enquanto as pequenas fendas, que eram seus olhos, ficavam vermelhas. Ao olhá-lo Chikorita pareceu um pouco tonta e sua visão perdeu o foco, mas ela rapidamente voltou a si.
– Não se desconcentre! Use o Empurrão mais uma vez!
Dessa vez foi certeiro. Chris até que tentou ordenar ao seu parceiro para que desviasse, mas seu comando veio tarde de mais. Com um golpe um tanto quanto cambaleante meu pequeno pokémon de grama fez com que o Cyndaquil desse uma cambalhota de costas, o que apagou o fogo de suas costas por alguns instantes.
– Não se preocupe. – Gritou Chris. – Continue usando o Olhar Penetrante!
A batalha durou em torno de dez minutos onde minha Chikorita cansou-se de dar golpes em seu adversário, cujo treinador insistia em usar uma técnica que não afetava em nada a força física de minha parceira. Até que, sem aviso prévio, ele mudou o comando:
– Desculpe por fazê-lo aguentar tanto, Cyndaquil, mas agora acabou! Empurrão!
O pequeno pokémon de fogo usou as últimas forças que lhe restavam para correr e acertar o golpe em cheio em sua oponente, que por sua vez rolou no chão sem força alguma para levantar-se.
Corri até ela e segurei-a no colo.
– Você está bem?
– Chikor... – Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca enquanto ela encostava sua cabeça mais perto de meu peito. Ela fechou os olhos e cochilou depois de alguns segundos.
– Como você fez isso? Mais um golpe e você estava acabado!
– Seja sincero comigo, Matt... – Começou ele. – Você sabia o que o golpe “Empurrão” podia fazer, mas em algum momento você parou para imaginar qual a função da outra técnica?
– Claro que sim! – Não. Eu não sabia. Mas eu nunca iria dar o braço a torcer.
– Então você é um péssimo estrategista.
– Ele não sabe, Chris... – Emma manifestou-se em meio à discussão. – E você, Matt, acalme-se. Ele só quer te ajudar.
Foi até a árvore na qual ela se encontrava abrigada e pousei delicadamente a Chikorita ao lado do Bulbasaur, que se deitou eu seu lado e começou a observá-la enquanto dormia, o que me fez pensar que pokémons de um mesmo tipo talvez tivessem mais afinidade uns com os outros.
– Tudo bem, desculpe-me. – Falei, agora já calmo. – Você pode me dizer o que aquele golpe fazia?
Ele fez seu pokémon retornar a pokébola e olhou para mim como se dissesse “Não se preocupe”.
– A técnica que eu usei é de retidão. Quando o Cyndaquil olhou nos olhos da sua Chikorita enquanto usava a técnica ele reteve a rigidez do corpo dela, com isso sua defesa ficou mais vulnerável, como eu usei muitas fezes, a defesa dela foi quase anulada. Por isso que ela foi derrotada com um único golpe.
“O Rugido, que pertence a sua parceira também é uma técnica de retidão, porém ela é justamente ao contrário da que eu estava usando. Quando o som do golpe é emitido ele entra na região do cérebro onde o pokémon controla a força de deus golpes, logo, sempre que usado, vai fazendo a força do adversário diminuir.
– Então a melhor estratégia a usar – Comecei. – Seria alternando entre o Rugido e o Empurrão?
– Contra mim, nessa batalha em particular, sim. Mas cada caso é um caso. Você tem que adaptar sua estratégia ao tipo de treinador que está enfrentando, como eu fiz com você.
O silêncio recaiu sobre nós enquanto eu pensava que tipos de estratégias diferentes eu poderia usar usando os recursos que eu tinha. Mas não havia como eu fazer muita coisa com eles, afinal eram apenas duas técnicas que eu dispunha, e os lideres de ginásio teriam, com certeza, as quatro possíveis.
– Eu não posso fazer quase nada com isso! – Desabafei. – Como vou enfrentar líderes de ginásio apenas com isso?
– Calma, garoto. – Riu Chris. – O primeiro ginásio está em Violet City, que fica depois de Cherrygroove. Você terá tempo para treinar e conseguir novas técnicas e novos pokémons.
– Sei exatamente o que vou fazer. – Falei, determinado. – Vou batalhar contra todo pokémon selvagem que encontrar pela frente, até a Chikorita aprender mais um ataque!
Emma me prestou o favor de dar um remédio a minha parceira para que ela se recuperasse mais rapidamente da batalha que havia acabado de travar e pudesse aguentar as próximas sem problemas.
A partir de então começamos a andar mais devagar e a observar as árvores e clareiras que encontrávamos ao longo da larga trilha que vínhamos seguindo desde New Bark. Achar pokémons selvagens não era uma tarefa difícil para quem tinha bons olhos, bastava ser um pouco atencioso.
Juntos, eu e Chikorita derrotamos vários oponentes fazendo com que ela subisse alguns níveis de experiência, e, segundo Chris, a Dex iria me notificar quando um novo golpe estivesse nascendo, depois era apenas praticar algumas vezes e tudo estaria preparado. De qualquer forma essa questão de como um pokémon simplesmente aprendia uma técnica do nada era muito intrigante. Segundo Chris, a criatura já tinha conhecimento do golpe, mas ainda não conseguia utilizá-lo e a experiência era um tipo de unidade de medida que foi calculada para poder dizer, com certa precisão, o período em que isso aconteceria. Como o tio dele conseguiu desenvolver um aplicativo que dizia, com certeza, quando acontecia era um mistério.
Em certo ponto da nossa caminhada, depois que eu e Chikorita derrotamos vários pokémons, era a primeira vez que víamos aquele pequeno pássaro marrom que encarava-nos com um olhar indagador.
Minha parceira, que não havia retornado à pokébola desde que retomamos a viajem, já estava preparada para enfrentar esse novo oponente quando Chris nos interrompeu.
– Pode deixar esse comigo? – Perguntou ele.
– O que tem de especial nesse? – É. Ele realmente não parecia muita coisa.
– Nada... É só um Pidgey. E eu sempre quis um Pidgey. – Ele sorriu para mim enquanto lançada um de seus parceiros para frente de batalha. – Vai Bulbasaur! Use os Chicotes de Vinha!
Dois longos fios de cipó saíram de dentro do bulbo que havia nas costas do pokémon e continuaram crescendo até atingir o passarinho, que não conseguiu ser rápido o suficiente para fugir voando. Quando percebeu o que estava acontecendo ele investiu contra o Bulbasaur.
Enquanto a batalha se desenrolava eu tirei minha pokédex da bolsa e, depois de várias tentativas de apontar a lente para o Pidgey consegui que ela me fornecesse as informações.
– Pidgey. Pokémon tipo Normal-Voador. Um dos pokémons mais fáceis de capturar. Uma escolha perfeita para um novo treinador testar suas habilidades. Possui um ataque ventania que pode criar um pequeno tornado, muito efetivo contra pequenos pokémons. Também possui um Ataque de Areia. Altura: 0,3m. Peso: 1,8Kg.
Porque raios o treinador novato mais experiente que eu conhecia queria pegar uma criaturinha insignificante como aquela era um mistério para mim. Entretanto não era ninguém para julgá-lo. Quando a Déx terminou de me falar sobre o pokémon ele já estava fraco o suficiente para ser pego.
– Tudo bem, Bulbasaur. Pode voltar! – A pokébola reagiu ao comando de voz e fez o pokémon retornar para dentro de si.
Chris, então, retirou uma pokébola vazia de sua mochila vermelha e jogou contra o Pidgey, ao entrar em contato com seu corpo a esfera se abriu e aprisionou o pássaro logo antes lacrar-se e cair no chão.
Os segundos seguintes foram de tensão, enquanto o pequeno pokémon tentava libertar-se, fazendo a esfera dar leves espasmos. Até que um leve som agudo anunciou que Chris havia conseguido.
– Tantos pokémons melhores por aí e você escolhe logo esse? – Perguntei.
Ele não respondeu, simplesmente voltou a libertar o Pidgey e chegou perto dele calmamente.
– Oi, amiguinho. – Chris falava como quem fala com um bebê. – Desculpe se eu te machuquei demais. – O pássaro olhava para ele desconfiado e com um pouco de medo. – Não precisar ficar mais assustado... Aqui, tome. – O garoto estendeu um pequeno fruto laranja, que o Pidgey bicou satisfeito.
– Ah, ele é bonitinho... – Falou Emma, depois de muito tempo sem dizer nada.
– O que você tem? – Olhei para ela com uma sobrancelha indagadoramente levantada. – Está calada... Aconteceu alguma coisa?
– Não... – Ela desviou o olhar. – Só não tenho o que dizer.
– Você sempre tem o que dizer, Emma. – Ênfase no “sempre”.
– Você deveria experimentar ficar calado de vez em quando, sabia, seu chato?! – Ela pareceu um tanto irritada, então resolvi calar-me.
Após voltarmos a nossa caminhada, junto com nosso novo amiguinho, Pidgey, eu e Chikorita não paramos de lutar. Voltamos a encontrar mais passarinhos, mas nenhum deles era páreo para nós, cuja união e confiança aumentavam a cada oponente vencido. Quando julguei que as lutas de treinamento começaram a atrapalhar nosso passo, resolvi dar-lhe um intervalo, mas a pequena guerreira se recusou a entrar na pokébola, para pendurar-se em meu ombro como fez quando estávamos no laboratório.
À medida que prosseguíamos jornada um silencio agradável pairava sobre nós. Chris parecia inexplicavelmente satisfeito com sua primeira captura, então fiz uma nota mental para questionar mais tarde o porquê de tanto interesse nesse passarinho. Já Emma parecia desconfortável, não puxei novamente o assunto para não irritá-la novamente e ter que fazer Chris assistir a uma briga de irmãos, mas também deixei isso anotado em minha lista de coisas a fazer.
Mesmo com os atrasos causados por mim e meus duelos contra selvagens, Chris ainda mantinha viva a esperança de chegarmos a Cherrygroove antes de anoitecer, mas talvez ele não contasse com alguns fatores adversos, como, por exemplo, uma esfera rolando sozinha e atravessando a trilha.
– Vocês viram aquilo? – Perguntou Emma.
– Pode ter sido uma pokébola que alguém deixou cair... – Chutou Chris.
– Ta brincando?! Aquilo era muito maior que uma pokébola. – Começava a me questionar se realmente continuaria achando-o um gênio. – Vamos correr e descobrir o que era.
Saímos em disparada para tentar acompanhar a coisa rolante que havia despertado nossa curiosidade. Ela havia saído da trilha e sua silhueta era visível a alguns metros à frente. E aos poucos a estrutura de uma casa construída com grossas toras de madeira foi surgindo. De alguma forma o objeto saiu do chão e quebrou uma das vidraças ao entrar.
– Acho melhor voltarmos. – Chris segurou em meu ombro para deter-me. – O dono pode pensar que fomos nós que jogamos aquilo na janela.
– Fomos nós? – Perguntei fitando-o sério, e continuando quando vi que não ia responder. – Então não temos com que nos preocupar.
Livrei-me do aperto de sua mão e andei até a porta da casa. Chegando lá foi tolice procurar uma campainha, então bati algumas vezes na porta, que gemeu ao se abrir com a força.
Ao entrar vi que a casa aparentava estar abandonada há anos e, apesar da grossa camada de poeira que cobria os móveis, ainda possuía certo charme. A sala de estar tinha um conjunto completo de sofás cercando uma mesinha de centro que possuía um vaso de vidro vazio. Mais a frente um balcão separava a sala da cozinha onde era possível ver um fogão a lenha e um modesto conjunto de panelas de barro devidamente organizados em uma prateleira que ficava sobre a pia.
A minha esquerda havia uma porta que imaginei levar a um quarto, não tive tempo de captar o que havia no corredor a direita, pois Chris atirou-se sobre mim, derrubando-nos no chão exatamente no momento em que a coisa redonda que perseguíamos estava prestes a me atingir.
– Totodile, eu escolho você! – A voz do pokémon de Emma fez-se ouvir. Todos ficaram em silêncio enquanto o pequeno pokémon jacaré farejava o ar a procura do que quer que fosse.
Um enorme barulho veio da nossa esquerda quando um grande quadro caiu no chão e a coisa rolou rapidamente entre nós e saiu pelo corredor que eu tentava observar antes de tudo acontecer.
O quadro se partiu ao meio após a queda, mas o retrato ainda era visível. Mostrava um homem de meia-idade que tinha um grande bigode bem penteado. Ele usava um terno marrom feito do que parecia ser veludo e um chapéu coco cobria sua cabeça apertando alguns cabelos brancos.
Um estranho pokémon de pedra que tinha apenas dois braços no lugar onde deveriam estar as orelhas e nada mais. A criatura sorria e abraçava o pescoço do sujeito.
– Isso é um Geodude! – Falou Chris. – Acho que a coisa que nós vimos era esse pokémon. A pessoa na foto devia ser seu treinador.
– Mas é uma foto muito antiga. – Emma manifestou-se. – E ele já não era tão jovem nessa época... Acho que ele morreu.
– Concordo. – Falei. – Se estivesse vivo a casa não estaria nessas condições.
– O que é isso no chão? – Minha irmã ajoelhou-se e esfregou um liquido vermelho entre o indicador e o polegar.
– Não é sangue, é? – Chris olhava assustado para os dedos de Emma.
– Não... – Ela levou os dedos ao nariz para sentir o cheiro do liquido. – Isso é remédio. Uma Potion, se não me engano. E vejam, é uma trilha... – Ela apontou para outras pequenas poças do remédio que se repetiam até desaparecerem pelo corredor.
– Vamos dar uma olhada. – Falei.
Juntos, seguimos pelo corredor que nos revelou uma porta de madeira envernizada com uma janela, cuja vidraça também estava quebrada. Talvez aquele Geodude não soubesse usar aquelas mãos esquisitas para girar a maçaneta.
– Chris... Estou curioso... – Falei olhando para o garoto, que fez sinal para que eu continuasse. – Se aquele pokémon tem apenas a cabeça e os braços, ele anda rolando para todos os lados?
– Na verdade não. – Disse ele, tirando o boné pela primeira vez na viajem para coçar sua cabeleira ruiva. – Alguns pesquisadores passaram a vida tentando descobrir como um Geodude se sustenta, mas nenhum conseguiu... Eles simplesmente flutuam.
– E porque aquele estava rolando e não flutuando? – Emma olhou para ele com o olhar questionador.
– Ele pode não conseguir flutuar... Ou talvez estivesse apenas com muita pressa.
Abrindo a porta uma grande faixa de terra seca, semelhante a um deserto apareceu para nós. Deduzi que aquilo deveria ser o quintal, pois podia-se ver os muros, também feitos de toras, que partiam da parede da casa e acabavam numa parede de pedra, que era a base para uma colina que ficava cada vez mais íngreme a medida que subia.
– Nós conseguíamos ver essa montanha da trilha... – Falou Emma. – É no topo dela que está Blacktorn City, certo Matt?
– Sim... – Falei lembrando-me do que ouvira falar sobre o lugar. – Infelizmente não dá pra subir por esse lado da montanha.
– O que tem nessa cidade? – Perguntou Chris.
– O templo dos dragões. – Falei sorrindo. – E o último ginásio de Johto. É onde fica o líder mais forte de todos os cinco continentes, que usa pokémons do tipo dragão.
Ele olhou para o topo da montanha e suas feições me diziam que ele acabara de determinar-se a chegar àquela cidade.
– Pessoal... – Emma nos fez voltar ao presente. – Olhem, tem uma caverna bem ali. – Ela apontou para um enorme buraco na parede de pedra. – E a trilha de remédio vai até lá.
Caminhamos até a caverna e ao entrarmos, sem nem ao menos nossas visões se acostumarem à escuridão, um enorme bando de pokémons voadores atacou-nos e empurrou-nos mais para dentro da caverna, o que nos obrigou a correr sem ver para onde íamos.
– O que são essas coisas?! – O grito de Emma foi ainda mais agudo que os sons que aquelas coisas emitiam.
– São Zubats! – Gritou Chris. – O pokémon mais chato de todos!
– Nós precisamos fazer alguma coisa! – Gritei.
No exato momento que falei isso, um forte brilho saiu de onde Chris estava e o fogo nas costas do Cyndaquil iluminou o ambiente.
– Totodile, use o Arranhão! – O pokémon de Emma, que não havia retornado à pokébola desde que entramos na casa, pulou em cima do Zubat mais próximoe golpeou-o, fazendo com que se assustasse e saísse de perto do grupo.
– Tudo bem, Chikorita! – Falei – Use o empurrão!
Ao que parecia nossas batalhas incansáveis contra pokémons selvagens tinham surtido efeito. Com apenas um golpe ela afugentou boa parte do bando que nos atacava. E com a ajuda de nossos amigos em questão de poucos minutos não havia mais Zubats para enfrentar.
– Nossa... – Suspirou Emma. – Isso foi um pouco de mais pra mim. Alguém sabe onde estamos?
– Parece que não saímos da trilha, vejam. – Chirs apontou para algumas gostas do remédio que estavam no chão. – A trilha ainda continua.
Seguimos nossa caminhada, guiados pela luz que se mantinha acesa nas costas do Cyndaquil. O nosso silêncio foi gradualmente quebrado por um som gutural que vinha do final da caverna. Nós nos entreolhamos e continuamos em frente, até que o fogo iluminou uma enorme bola de pedra que estava sobre uma espécie de pedestal natural.
– Os gemidos estão vindo daquela coisa?! – Falei assustado e logo em seguida a pedra (e preste bem atenção no que vou dizer agora) abriu os olhos furiosos em minha direção. – Opa...
– Tudo bem... Calma agora. – Chris segurou o pulso de Emma e deu alguns passos para trás. – Isso é um Graveler, a evolução do Geodude... E ele não parece nada feliz...
– Ele está com dor. – Disse Emma olhando atentamente para o pokémon. – Olhem. Tem uma estalactite em baixo de um de seus braços.
Ela tinha razão. Apesar de ser uma bola de pedra enorme, com quatro braços e duas pernas, era visível uma grande estaca na regiam de sua axila.
– Aquele Geodude veio pra cá com remédio, não veio? – Felei. – Vamos dar o fora antes que aconteça alguma coisa.
– De jeito nenhum, nós vamos ajudá-lo!
Dizendo isso ela se desvencilhou da mão de Chirs e correu em direção ao Graveler, que soltou um grito quando percebeu os movimentos, fazendo Emma parar repentinamente.
Antes que pudéssemos nos dar conta do que estava acontecendo, cerca de quinze Geodudes nos cercaram.
– E agora, o que fazemos, “gênia”?! – Perguntei, irritado.
– Me dêem cobertura. Eu vou lá. – Dizendo isso ela avançou para o Geodude mais próximo do pokémon ferido. – Você não está entendendo! – Disse para o Gravaler. – Eu só quero te ajudar!
– Sua irmã é maluca... Cyndaquil! Use o Olhar Penetrante!
– Chikorita! Use o Empurrão!
Os golpes atingiram seus alvos, mas, como a técnica que eu usei era de ataque, com a intenção de machucar o oponente, não pareceu surtir muito efeito. Mas minha mente logo encontrou a resposta, depois de notar que Chris usava o Olhar Penetrante em todos os Geodudes.
Por serem pokémons de pedra, era natural que sua defesa fosse muito superior que a dos outros pokémons, mesmo que, aparentemente, estivessem num nível de experiência baixo.
– Tudo bem, Chikorita! Use o empurrão apenas nos Geodudes que forem atacados pelo Cyndaquil!
Nossa batalha em dupla prosseguia, mas Emma estava com problemas. Ao que parecia, seu Totodile havia desmaiado e ela estava indefesa.
– Emma! – Girtou Chris. – Pegue! – Ele tirou pokébola do bolso e atirou na direção de minha irmã, que pegou, mas com certa dificuldade. – Use o Bulbasaur para chegar até o Graveler!
Ela fez que sim com a cabeça e gritou:
– Vai Bulbasaur! – A pokébola atendeu ao comando de voz e se abriu, libertando o Bulbasaur de Chris, que aguardou paciente a ordem, que não veio. – Qual golpe ele tem, qual? – Repetia ela... – Ah, claro! Bulbasaur, Chicote de Cipó!
As vinhas saíram do seu bulbo e atingiram em cheio o Geodude mais próximo, que foi atirado com força em direção à parede.
– Como ela fez aquilo?! – Perguntei alto.
– É uma técnica tipo grama, muito efetiva contra tipos pedra!
Olhei esperançoso para Chikorita, procurando algum sinal de mudança, mas tudo parecia igual. Aliás, perdão. Não havia nada igual. A estratégia de ataques combinados estava indo por água abaixo, pois era muito difícil abaixar a defesa dos Geodudes, o que tornava a eficácia da técnica da minha parceira pouco aproveitada.
Enquanto isso Emma havia conseguido chegar até o Graveler e, de alguma forma, convenceu ele de que era sua amiga e já tentava arrancar a estalactite do seu corpo. Infelizmente os únicos que não haviam entendido que ela o estava ajudando foram os Geodudes, que ignoraram a batalha contra mim e Chris e investiram contra Emma.
– Bulbasaur, me dê cobertura! – Gritou ela, quando percebeu a mudança de atitude nos pokémons.
A técnica do pokémon era boa e fez alguns pokémons voarem e outros desmaiarem com um só golpe, por outro lado era muito difícil lutar contra quinze de uma só vez.
Um dos Geodudes conseguiu passar pelo Bulbasaur e ergueu o punho contra Emma, que soltou a estalactite e tentou proteger a cabeça com os braços, mas, antes que ela recebesse o golpe, Chris entrou no caminho e recebeu todo o impacto nas costas.
– Anda logo! – Gritou ele. – Arranca essa coisa, e peça pra ele ordenar aos Geodudes que parem de atacar!
Chris continuava a receber golpes nas costas assim como o Bulbasaur, que havia perdido o controle sobre aquela quantidade enorme de oponentes.
– CHIKORITA! – Gritei, e ela pulou em meus braços assustada. – Eu sei que talvez não esteja na hora, mas você precisa usar um golpe de grama, para ajudar nossos amigos! – Ela olhava para mim com os olhos arregalados. – Todos estão se esforçando para sair dessa veja...
Apontei para Chris, Emma, Bulbasaur e Cyndaquil, que agora havia abocanhado o braço do Geodude que esmurrava seu treinador.
– Só nós podemos ajudá-los... – Uma lágrima involuntária desceu dos meus olhos. – Por favor...
Ela fechou os olhos parecendo bastante determinada e, por um instante, pensei que ela lançaria uma técnica poderosíssima e que acabaria com todos de uma só vez, mas ela simplesmente espirrou.
Felizmente, para mim, a National Dex me salvou da frustração eterna quando um som precedeu o seguinte anuncio:
– Chikorita aprendeu uma nova técnica: Folhas Navalha.
Quase não me contive de alegria, mas as comemorações podiam esperar.
– Chikotita! Use as Folhar Navalha!
Ela saltou dos meus braços, e, ainda no ar, fez um movimento com a cabeça que impulsionou várias folhas a saírem de seu pescoço rodopiando em alta velocidade, atingindo em cheio o Geodude que golpeava Chris, que caiu no chão sem forças. Chikorita ainda lançou o ataque mais uma vez na direção dos outros, e junto com Bulbasaur, conseguira controlar sem maiores problemas os inimigos.
– Isso está muito duro... Não sei o que fazer. – Falou ela.
– Vamos fazer isso juntos. – Falei. – De uma só vez, quando eu contar três. Um... Dois... Três!
Juntos, colocamos todo nosso esforço para retirar aquela farpa super desenvolvida. Mas foi só quando Chris, que de alguma forma ainda conseguia se manter em pé veio nos dar uma mão que conseguimos.
O Graveler soltou um leve suspiro e sorriu para Emma de forma agradecida. Quando os Geodudes perceberam o que tinha acontecido, pousaram seus corpos no chão e abaixaram a cabeça, como alguém que está envergonhado. Um deles, aparentemente o que estava esmurrando Chris, chegou mais perto e estendeu um pequeno frasco com um liquido vermelho.
– Olha... Esse foi o Geodude que nós seguimos... – Falei. – Acho que ele quer que você beba essa Potion, para que suas feridas sarem...
– Não faça isso. – Falou Emma tirando o frasco de sua mão. – Isso foi feito para pokémons, seria arriscado de mais ter isso no seu organismo.
Ele não teve forças para se impor, então apenas assentiu e voltou e se escorou na parede.
Juntos, nós fomos guiados pelo Graveler até a entrada da caverna e a saída da casa. Nossa caminhada até Cherrygroove foi mais lenta, pois eu e Emma tivemos que ajudar Chris a andar. Por sorte a primeira construção que vimos quando chegamos foi um Centro Pokémon (que também trata de humanos, que fique claro), então nosso amigo foi rapidamente tratado.
A enfermeira disse que ele precisava ficar em repouso durante a noite, então aproveitamos enquanto ele dormia para ligar para nossos pais e contar o que houve no nosso primeiro dia de jornada. Tentei descobrir alguma coisa sobre o senhor que morava na cabana, mas nem mamãe, papai, ou tio Jimmy sabiam quem era.
Após desligarmos eu e Emma fomos até o restaurante para tomar uma xícara de chá.
– Sabe o que eu acho. – Falei.
– O que?
– Que aquele Graveler que você ajudou é o Geodude que estava no quadro com o senhor.
– Você também acha? – Perguntou ela. – Também estava pensando nisso. Você que ele pode estar morto?
– Talvez... A foto é antiga e ele já parecia velho.
– Tem outra coisa que me incomoda. – Falou Emma.
– O que?
– Nunca vi, ou ouvi falar, de pokémons agindo com tanta agressividade. E você viu a forma como um deles agrediu o Chris?
– Vi...
Ficamos em silêncio por um tempo. Eu me sentia envergonhado por não ter tido a velocidade de pensamento que Chris teve para se jogar na frente do Geodude e evitar que minha irmã se ferisse. Mas talvez se eu tivesse ido no lugar dele, Chikorita não aprenderia a nova técnica e nós ainda estivéssemos dentro da caverna.
De qualquer forma o certo a se fazer era não pensar no que poderia acontecer e focar no que realmente importava: Estávamos bem.
Depois do chá eu e Emma nos despedimos, fomos ao quarto de Chris checar se estava tudo certo e procuramos uma estalagem onde pudéssemos passar a noite. O primeiro dia de jornada foi cansativo, então o sono não demorou muito a vir.
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