Felicity Smoak estava prestes a cometer assassinato.

Considerando que as últimas vinte e quatro horas, não era surpresa. Ela acordou super cedo para ir para o aeroporto, o trânsito horrível a caminho resultou em ter que se apressar pela segurança, o que, é claro, significou que um agente a parou por causa de um mísero frasco de álcool em gel em sua bolsa. Teve que correr literalmente porque óbvio que o maldito portão era nos confins do aeroporto e ela odiava correr – ou qualquer tipo de atividade física. Uma leve mas desagradável camada de suor permeou suas axilas e testa, acrescentando mais estresse à pilha.

O embarque para Starling City estava quase completo. Só havia três pessoas restando na fila. Por sorte, Felicity estava na classe executiva, o que significava não ter que disputar espaço no bagageiro para colocar sua mala de mão. Sempre presenciou pessoas que se sentava na fileira 10 e que só conseguiam guardar a mala na fileira 30. Um inferno logístico.

Não sabia dizer se olhares realmente caíram sobre si assim que entrou na cabine executiva ou era apenas a tensão do mundo lhe causando uma leve ansiedade. Era a última pessoa a embarcar. Cada fileira tinha duas poltronas e ao parar na sua, Felicity notou que a do corredor já estava preenchida por seu ocupante. Ela iria na janela, o que para alguém que não gostava de altura não era nada legal. Teria uma conversa com seu Assistente Executivo assim que voltasse.

Com alguma dificuldade, abriu o bagageiro e colocou a mala. Só então virou-se para seu companheiro de assento.

O homem estava ocupado mexendo no celular e nem prestou atenção nela. Mesmo de perfil, cada detalhe estava destacado pela luz invernal lá de fora que iluminava metade de seu rosto e seu corpo, jogando-o num jogo de luz e sombra que só chamava mais atenção para si. As longas pernas cobertas por calças escuras e botas estavam estendidas no espaço entre as fileiras. O colarinho da camisa branca se esgueirava pela leve abertura em V do suéter cinza que usava. As roupas não escondiam a força. Vislumbres das linhas fortes do peitoral pressionavam o tecido, assim como os músculos contraídos do braço que segurava o celular destacavam-se. Mesmo sentado, dava para notar que ele era alto. O rosto mítico esculpido por traços fortes lhe conferia um ar de mistério e arrogância. A expressão neutra acentuava a barba por fazer, coberta por uma mandíbula afiada, do tipo que não seria tão inacreditável que podia ser capaz de cortar diamante. O cabelo loiro-escuro era curto e meio arrepiado na frente, com tamanho suficiente para passar as mãos e agarrar.

E Felicity não tinha ideia do por que pensou nisso.

Seu cérebro vivia sempre ligado, milhares de linhas de pensamento se desenrolado ao mesmo tempo, e em seu atual estado, mais frito que ovo, pelo visto estava pior ainda. Sorte que ela não cuspiu as palavras em voz alta. Como se precisasse passar vergonha para completar o desastre que era o dia de hoje.

Ele tinha um ar ao mesmo tempo moderno e rústico semelhante ao anti-herói da série atual favorita de Felicity. Nada como uma bela visão para amortecer o estresse do dia. Obrigada, cara aleatório bonito.

“Uh, oi.” Suas mãos voaram pelo ar. Felicity sempre foi de falar junto com as mãos, porém esse trejeito se tornava ainda mais frequente quando estava a mil, nervosa ou ansiosa. “Desculpa incomodar, mas...” Seu indicador apontou para o assento à janela. “Meu lugar é ali, posso passar?”

Havia muito espaço entre uma fileira e outra, mas mesmo assim ali era apenas a classe executiva, não a primeira classe. Ela teria que dar um largo passo para passar sobre as pernas dele. Os tornozelos estavam cruzados, bagunçando bem de leve a borda da calça. Os músculos das coxas pressionavam o tecido, o contorno pronunciado deles um vislumbre tentador, tentando-a a contemplar, admirar. E Felicity nunca foi fascinada assim por coxas masculinas. Não plenamente cobertas, pelo menos.

O homem ergueu a cabeça, enfim parecendo tomar consciência de sua presença. Ela encontrou o tom de um oceano profundo. Os olhos azuis, eletrizantes e inexpressivos. Um leve arrepio a percorreu com a frieza e a indiferença contida neles. Os traços vazios do rosto não a diziam se ele estava irritado com ela por incomodar sua quietude, uma possibilidade muito provável.

Ele recolheu as pernas sem dizer uma palavra sequer. Ela passou por ele e se sentou na cadeira com menos delicadeza que o esperado.

“Obrigada.”

Ele continuou em silêncio, o olhar agora se voltando para uma revista. A existência dela lhe era insignificante.

Rude.

Sua primeira impressão dele mudou drasticamente. Não esperava que seu parceiro fosse se tornar seu melhor amigo, mas um pouco de educação não fazia mal a ninguém.

Pelo visto ele se encaixava no estereotipo: bonitão rude e arrogante. Exatamente o tipo de pessoa que Felicity não suportava.

Agora acomodada, sabendo que não ficaria para trás e não perderia a viagem, Felicity relaxou no assento. Suspirou, focando em relaxar os músculos tensos, que derreteram contra a poltrona confortável. O lado bom de ter um negócio em rápida expansão era que não precisava mais viajar de econômica. O que significava que voos passariam a ser um pouco mais confortáveis – ou tanto quanto era possível para alguém que tinha medo de altura.

Minutos depois, com a agitação da pressa dissipada, Felicity percebeu que deixou todos os acessórios que usava para se distrair enquanto voava na mala. Droga.

Teria que incomodar o homem-estátua de novo.

“Desculpa incomodar de novo, mas posso passar?”

Ele novamente moveu o olhar sua direção. Ou melhor, lhe lançou um olhar. Intenso e penetrante, fixo nela, como se ela fosse seu foco de atenção para o bem e para o mal. A ironia não se perdeu em Felicity. Ele parecia julgar o mundo todo como insignificante, porém seu olhar, embora sem emoção, era o contrário.

Dessa vez, Felicity teve mais certeza de que ele estava irritado. Pelo menos um pouco. Ou então era simplesmente a percepção que a cara dele de poucos amigos lhe dizia.

Ainda em silêncio, ele de novo recolheu as pernas. Felicity rapidamente saiu da fileira e pegou a mala. Com o objeto em mãos, olhou ao redor. Teria que pegar coisas dentro e por isso teria que deitar a mala. Porém não queria fazer isso no chão. Estava sentada na janela, não no corredor, não teria como apoiar na poltrona mais próxima. O cara já não era receptivo, definitivamente iria se irritar sem um pingo de dúvida se ela ousasse apoiar sua mala nele. A única opção plausível era voltar para a poltrona, pegar as coisas e novamente invadir o espaço pessoal dele.

“Senhorita, pode logo decidir o que vai fazer?” A voz era profunda e grave, o timbre áspero por si só como se tudo que dissesse contivesse uma leve camada de ameaça. Porém Felicity tinha certeza que parte da rispidez era proposital, um reflexo do que ele sentia lá dentro.

Ele falou pela primeira vez em minutos, e algo lhe dizia que era porque ele estava realmente irritado.

Um leve rubor coloriu seu rosto. “Desculpa, mas vou ter que sentar, pegar as coisas e depois passar por você de novo para guardar a mala.”

“Faça logo o que tem que fazer de uma vez.” Palavras diretas e duras. Ela tinha a impressão de que ele era um homem de poucas palavras, só dizia o que era absolutamente necessário. Escorraçar as pessoas definitivamente estava dentro dessa lista.

Ela passou e se sentou com a mala. O nervosismo de mais cedo voltou, dessa vez se transformando em ansiedade social. E então Felicity fez o que fazia de melhor nesses casos. “Desculpa mesmo. Eu odeio esse tipo de pessoa, que levanta e senta toda hora, nunca se decidindo. Eu sou muito organizada... Bem, com a exceção de um momento, quando estou programando que nem louca... E sempre tiro o que vou usar num voo antes de guardar as coisas. Mas é que é o dia de hoje está uma insanidade. Me atrasei, tive que correr...”

O homem novamente ergueu o olhar. O Mar do Ártico devia ser mais caloroso do que aquelas íris azuis. Ele apenas a fitou com o olhar sério, invasivo a ponto de fazer Felicity se tornar consciente de seus membros e suas terminações nervosas. Uma sensação completamente nova ao lidar com um estranho. Ela parecia... acesa de uma forma intensa. Se era algo positivo ou negativo, não sabia dizer.

“... E você não está aqui para me ver tagarelar. O que vai acabar em 3... 2... 1.”

Ela voltou para suas coisas, e ele desviou o olhar. Felicity pegou seu kit necessário: carregador de celular, fone de ouvido próprio, tablet, leitor digital, revista de passatempo, caneta, máscara para cobrir os olhos para – tentar – dormir, colírio para umedecer os olhos – que eram naturalmente secos por ela usar bastante lentes de contato e ficar a maior parte dos dias na frente de uma tela –, pastilhas para chupar e tentar evitar aquela pressão horrível no ouvido que de vez em quando acontecia quando voava. Aproveitou e colocou todos os eletrônicos no modo avião.

Ela mal tomou impulso para levantar quando a rispidez em pessoa a interrompeu.

“Me dá logo isso aqui que eu guardo,” ele não falou, mas ordenou. Como se ele comandasse o mundo e absolutamente tudo e todos tivessem que satisfazer cada necessidade. A voz saiu como se estivesse acostumado a ser obedecido sem insubordinação.

Mas Felicity nunca foi o tipo de pessoa que aceitava ordens sem hesitar. Não quando tinha argumentos.

“Não, tudo bem, eu guardo,” Felicity disse num tom calmo, ainda visando a diplomacia. Sabia que estava incomodando mesmo. Não queria perturbá-lo ainda mais. E, hey, talvez ele também estivesse tendo um dia difícil. Não justificava sua atitude – ou será que ele era intragável assim mesmo? – porém tentava entender. Seu lado empático entrava em ação sempre. Seu lema era que nunca se sabia as batalhas que o outro estava lutando, então por que adicionar caos desnecessário e corriqueiro? O mundo já era tão fodido por si só que ser uma força benéfica era revolucionário.

“Você chegou toda esbaforida. Posso fazer isso em dois segundos.”

E foi assim que a diplomacia e a empatia foram para o ralo. Felicity revirou os olhos. O machão que não podia ver uma mulher aparentemente indefesa que tinha que se intrometer. Porque claro que o machão fazia tudo melhor. “Claro que pode. Sou apenas uma baixinha frágil que não alcança o pobre bagageiro.”

Ele a perfurou com os olhos. Se Felicity não o estivesse encarando de volta, devolvendo com a mesma intensidade teimosa, teria perdido o leve comprimir de sua mandíbula, ressaltando os traços fortes e afiados.

“Não é sobre sua capacidade ou falta dela, é sobre eficiência. O embarque está completo e o avião acabou de sair do portão. A mala precisa ser guardada logo. Essa discussão inútil está demorando mais do que o tempo que eu gastaria para guardar logo o objeto.”

Felicity respirou fundo. Deus, que insuportável. Claro que não bastava ter se atrasado por fatores externos, tinha que ficar encalhada com o companheiro de assento mais desagradável do mundo.

Cruzar o país de uma costa a outra já era naturalmente longo. Hoje seria mais ainda.

Numa outra perspectiva, ele se oferecendo para guardar seus pertences poderia se configurar como favor. Talvez, apenas talvez, era uma espécie de oferta de paz por ele ter agido de forma desnecessariamente ríspida. Mas o jeito intransigente estragava tudo.

A contragosto, entregou a mala para ele, sem conter um leve bufo. Ele não se esforçava para ser cordial com ela, então ela também não se esforçaria para esconder seu desgosto.

O homem se ergueu. Só então Felicity percebeu o quanto era alto. Devia ter uns 1,85, 1,90. Em suas mãos grandes, a pequena mala dela parecia pesar nada. Veias saltadas começavam pelo dorso da mão e subiam se espalhando sob o tecido da roupa, despertando curiosidade para saber como era o antebraço. Ele foi para o corredor, abriu o bagageiro com a mão vazia e ergueu o outro braço. As barras da camisa e do suéter se ergueram, mostrando a menor listra de pele. E mais vislumbre de linhas definidas que só podiam ser músculos. Algo que Felicity não tinha ideia do motivo de seus olhos se fixarem ali ou do porquê acompanhava cada mísero movimento dele, do corpo flexionando e relaxando, sem que pudesse evitar.

Ela desviou o olhar em alarme assim que seus olhares se cruzaram de novo. Apenas um segundo, mas mesmo assim Felicity se sobressaltou, o coração pulando junto. Virou-se para as janelas, onde a construção do aeroporto ficava cada vez mais longe.

Quando o visual lá fora se transformou cem por cento em paisagem e pista, o coração de Felicity se acelerou de outro jeito. A ansiedade que sempre lhe acompanhava antes da decolagem estourou, causando uma nova onda de tensão em seus músculos. O começo de um voo sempre era a pior parte.

Queria muito mesmo sentar no corredor. Se fosse outra pessoa, até pediria para trocar. Mas aquele homem ao seu lado com certeza riria de seu pedido. Isto é, se fosse capaz de ter emoções. Felicity suspeitava que ele não sabia nem ao menos o que era um sorriso. Provavelmente soltaria um tom de escárnio e desdém, lá do alto de seu pedestal.

Felicity colocou o fone de ouvido e ligou uma playlist que quase sempre usava nesses momentos no app de seu celular. Já deixava baixada justamente para que ainda pudesse ouvir quando seus aparelhos eletrônicos estavam em modo avião. Pegou o controle do computador de bordo e mexeu aleatoriamente na tela. Depois, praticou alguns exercícios respiratórios para se acalmar.

O avião chegou na pista de decolagem e parou por um instante. Então, tornou a acelerar e acelerar muito. Logicamente, entendia a física por trás disso. Deus, entendia a física por trás de um voo. Mas não havia lógica que pudesse salvá-la daquelas reações. Os braços que repousavam sobre os descansos da poltrona os agarraram. Um dos encostos estava colado no da outra poltrona. O homem tinha apenas o cotovelo apoiado no seu lado, e o tecido da blusa de Felicity roçava nele. Ela registrou o contato, mas o medo de altura o nublou. Sentiu um breve olhar dele recair sobre si, sempre calculista, sempre vigilante. Ele provavelmente estava achando ela ridícula, mas não estava nem aí. Não era como se a opinião dele sobre ela pudesse mudar.

O rugido das turbinas da aeronave contrastava com o silêncio entre os dois ocupantes daquela fileira. Em outras oportunidades, Felicity já teve o apoio de parceiro de assento para dissipar o nervosismo. Obviamente aquilo não aconteceria. Não importava o quão a solidez dele, de seu corpo, parecia ser ideal para manter sua sanidade com os pés, sem trocadilho. Sua mente fértil, mesmo em meio aquele temporário agito, imaginou agarrando o antebraço dele só um pouquinho, só naquela subida. Por um segundo, distraiu-se imaginando se sua mão pequena era capaz de se fechar completamente sobre a circunferência do antebraço dele. Algo lhe dizia que não.

A subida suavizou, e a tensão de Felicity se dissipou em parte. Quando o capitão desligou o sinal de manter os cintos de segurança afivelados, ela suspirou, e o resto da ansiedade saiu junto com o ar. Agora era só ignorar o que estava lá fora. A única coisa que sentia falta da classe econômica era a janela única. Ignorar uma era muito mais fácil do que as três que tinha à disposição ali na executiva.

O voo foi tranquilo, a partir daí. O rabugento ao seu lado permaneceu em silêncio, o que não a incomodava mais. Num determinado momento, pegou uma revista de passatempo, sua fiel companheira em voos. Focar em palavras-cruzadas, sudokus, caça-palavras, problemas de lógica e outros tipos de exercícios mentais ajudava a lidar com o fato de estar a quilômetros de distância do chão, numa camada da atmosfera acima de onde a vida na terra estava inserida, dentro de uma caixa de metal pequena.

Sugava a ponta da caneta vermelha quando percebeu o mais leve movimento de seu vizinho, e novamente o peso daquele olhar recaiu sobre si.

Ah meu Deus, não me diga que estou chupando a ponta de forma obscena. Uma de suas melhores amigas já lhe disse isso uma vez, que, por vezes, quando estava distraída, o que era para ser um trejeito seu acabava saindo de forma completamente inapropriada em público.

Um princípio de emoção passou por aquele rosto belo e frívolo. Os traços deixaram de ser imóveis. Perceber que o homem era sim capaz de emitir emoções como um ser humano normal, mesmo que à sua maneira, a fez perceber que as palavras saíram em voz alta.

A leve estranheza no rosto dele a fez ruborizar com fervor. Rapidamente parou de sugar a ponta da caneta.

“Era para ter sido um pensamento interno,” disse. Porque claro que não tinha como não dizer. Não tinha como dizer chupar e obsceno para um estranho e não tentar justificar.

“Sua mente é... peculiar.” Ele mediu as palavras. Palmas para ele por conseguir se segurar e não a ofendê-la gratuitamente. Mais do que já tinha feito simplesmente por existir.

“Obrigada.”

“Não foi um elogio.”

“Eu sei.” Foi-se o tempo que Felicity tinha vergonha das características que a tornavam quem era. Mas ainda tinha cem por cento de vergonha das maluquices que dizia em voz alta. E de sua mãe, claro. “Não me esforço, mas é o que acontece. Minha mente sempre pensar na pior maneira de dizer as coisas.”

Novamente o rosto dele se tornou impassível e ele a olhou com uma intensidade que não cabia para o momento. Não combinava com a rivalidade que preenchia cada átomo de ar entre eles.

Ele voltou a cuidar da própria vida. De esguelha, Felicity o observou. Ele também já tinha se deixado confortável. Poltrona meio inclinada, apoio de pés para o alto, mesinha desencaixada. Também tinha uma revista com uma palavra-cruzada aberta.

A mesma marca que a dela.

Primeira e possivelmente a única coisa que tinham em comum.

Felicity não saberia dizer como aconteceu. Ele tinha um passatempo, ela tinha o seu. No entanto, em algum momento, páginas foram viradas quase ao mesmo tempo, e um novo quebra-cabeça surgiu. E virou uma competição.

No intervalo de preencher uma palavra nova e pensar na próxima, Felicity olhava discretamente para o lado. E o homem fazia o mesmo.

Contava brevemente as palavras que ele já tinha preenchido. Se ele estava na frente dela, rapidamente se apressava para superá-lo.

A estranheza de quando se conheceram se transformou em rivalidade naquele jogo. O que não fazia sentido algum, pois as palavras-cruzadas eram diferentes. Mas ainda sim era um duelo. De rapidez, de destreza. Não tinha como não aceitar o desafio quando tudo naquele homem a repelia.

E ele parecia pensar o mesmo.

O desgosto mútuo era mais uma coisa no qual tinham em comum.

Era idiota, infantil e mesquinho, mas não tinha como dar para trás. Não agora. Felicity preencheu aqueles quadradinhos com uma ferocidade jamais vista. Assim que todos estavam preenchidos com sua própria letra vermelha, ela olhou para o lado.

Ainda faltavam três para ele.

Ela sorriu em triunfo. Captou mais um movimento sutil da mandíbula dele pelo canto do olho. Se ele tivesse irritado por perder, isso só encheria mais seu deleite. Ele podia desprezar tudo e todos ao redor, mas ela tinha mexido com ele. E isso contava.

Depois da palavra-cruzada e de uma refeição, Felicity decidiu tentar cochilar pelo resto do voo. Baixou todas as três janelas, jogando a fileira numa leve penumbra. A luz na poltrona ao lado se acendeu automaticamente.

Uma onda de irritação colidiu com Felicity. “Sério?”

“Você tem direito de baixar as janelas assim como eu tenho de conseguir enxergar o que estou fazendo. Da próxima vez, compre toda a fileira,” ele respondeu intransigente como sempre.

“Você podia dormir também. Faria um grande favor.”

“Você poderia continuar cuidando da sua vida.” Felicity afiou o olhar para ele, que permaneceu escrevendo num papel, sem ao mesmo fita-la. “E você tem uma máscara de dormir.”

Sim, ela tinha. Mas mesmo assim luzes de avião ainda incomodavam.

E como ele percebeu isso?

Mas antes de deitar, tinha que se aliviar. Beber vinho para dormir, como fazia em voos com uma frequência maior do que gostaria de admitir, também implicava em ir no banheiro mais que o normal.

“Vou passar,” anunciou sem cerimônia. Tinha mais espaço do que o suficiente para ela passar por sobre as pernas deles sem que ao menos se encostassem. Mas mesmo assim invadiria o espaço pessoal dele.

Só que ao contrário do que esperava ele também se levantou. E saiu andando a sua frente no corredor, parando próximo à porta do banheiro. Ali era a classe executiva, mas sofria do mesmo mal que a econômica: um banheiro para todos.

“Por que você decidiu vir justo agora?” resmungou.

“Pelo mesmo motivo que você. Natureza chama.”

Ela bufou. As costas largas preenchiam seu campo de visão. Invasivas como tudo que ele era. Estranhamente, ele exalava calor – e não era de todo ruim.

O ocupante anterior saiu, e ele entrou. Felicity queria muito que tivesse um jeito de trancá-lo ali pelo resto do voo. Seria exagero alegar que ele portava um vírus que podia deflagrar uma pandemia? Estava no meio de um plano para levar isso a frente quando a porta se abriu, e ele saiu.

Felicity entrou, esvaziou a bexiga, lavou a mão e saiu. Ele estava de pé, se alongando. De novo seus olhares contemplaram o porte atlético dele, grudando na pequena e maldita faixa de pele do abdome que novamente se revelou. Tinha certeza que era o tipo de homem que vivia se exercitando. A força do corpo mal podia ser contida pelas camadas de roupa.

Ele se virou assim que ela chegou, pegando-a o observando. Algo se agitou dentro de si quando entrou na fileira e voltou a se acomodar na poltrona quando percebeu que ele só estava esperando por ela antes de voltar a sentar. Ela prontamente ignorou aquela reação bizarra de si.

Ao invés disso, se esforçou para ignorá-lo. Deitou a poltrona completamente. Pegou o cobertor e o travesseiro dados pelo comissário de bordo, cobriu os olhos com a máscara, virou-se de costas para ele e tentou dormir. Por causa do medo de altura, mal conseguia dormir, mesmo em classes superiores.

Permaneceu num estado de semiconsciência, com imagens mentais entre o sonho e a imaginação fértil de seus pensamentos, por um bom tempo até despertar num salto com as luzes de todo o avião se acendendo e o anúncio do capitão de que em breve começariam a descer.

Seu inferno particular estava chegando ao fim, aleluia.

O desconhecido ao seu lado não tornou mais a perturbá-la. Quando o motor do avião desligou e liberaram o desembarque, ele logo ficou de pé, pegou suas coisas e saiu, sem nem ao menos olhá-la ou até mesmo compartilhar seu nome. Que seja. Quanto menos soubesse dele, melhor.

Felicity cruzou a porta do terminal, sentindo que a tentativa de descanso no ar nada adiantou. Resultado da viagem de volta? Estava estressada, cansada, com sono, suada, a roupa quase se fundindo a seu corpo, umas três dores diferentes martelando sua cabeça. Nem o café que o comissário de bordo lhe serviu adiantou. Tudo o que ela queria era mergulhar na banheira por um bom tempo com uma vela de lavanda acesa e seus sais de banhos artesanais de sua loja preferida, colocar o pijama mais fofinho, mergulhar no sofá e esquecer o mundo enquanto devorava comida chinesa de seu lugar favorito. Ou devorar um pote inteiro de sorvete de chocolate com menta e detonar uma garrafa de vinho tinto. Ou uma massagem profunda de duas horas.

Ou tudo junto.

Clamando para seu corpo resgatar as mínimas partículas de energia só para fazer o caminho de volta do Aeroporto Internacional de Starling para sua casa, ela entrou no Jade Dragon, arrastando suas duas malas, uma grande e uma de cabine.

Porque claro que ela não foi de carro. Agora, pensando bem, devia ter pagado a pequena fortuna que era o estacionamento do aeroporto. Seria uma dor de cabeça a menos. Ela era uma executiva em ascensão no mundo da tecnologia, podia se dar esses luxos com alguma frequência.

Deixou suas malas num canto onde ainda pudesse ficar de olho esporadicamente. Ambas estavam trancadas com cadeados, mas Felicity não era o tipo de pessoa que confiava fácil. Então foi para a fila do caixa. Trocou um sorriso cansado com o atendente, que lhe devolveu de forma educadamente gentil. Por sorte Felicity já era figura conhecida no restaurante. Ao invés de fazer seu pedido de sempre, acrescentou algo a mais. Porque ela merecia. Pediu o lo mein de sempre – quase sempre, algumas vezes pedia o arroz frito com carne – mais uma porção de dumplings no vapor. Estava prestes a pagar quando surgiu a gerente noturna do estabelecimento. As duas trocaram cumprimentos.

“Dia difícil?” a mulher perguntou.

“Difícil nem chega perto,” Felicity respondeu num suspiro.

“Já pagou?” Ela se voltou para o atendente.

“Não,” o homem respondeu.

“Ótimo. Coloca um missoshiro para ela. Por conta da casa para uma das nossas melhores clientes.” Ela deu uma piscadela amigável para Felicity. “Nada como uma sopa quente depois de um dia cansativo, ainda mais nesse frio.”

O inverno de Starling estava a pleno vapor em fevereiro. Felicity deu sorte – e muita sorte, considerando que a Dama da Fortuna não estava ao seu lado hoje – que não caiu uma nevasca maluca enquanto estava voando e pousando.

Felicity deu um sorriso agradecido ainda cheio de cansaço. Seu coração ficou um pouco mais leve. Ainda havia alguma bondade no mundo.

“Pode esperar sentada até chamarmos seu número”, o atendente anunciou enquanto entregava sua nota fiscal.

Felicity assentiu e se sentiu perto de suas malas. O local tinha pouco movimento. Jade Dragon era uma pequena joia escondida com a melhor comida chinesa autêntica da cidade. Trabalhava prioritariamente com entregas, porém havia uma pequena área para sentar. Três dessas mesas estavam ocupadas agora com pessoas devorando suas comidas. O leve som de fundo vindo da cozinha indicando que a comida estava sendo preparada era paraíso para seus ouvidos, que ainda ecoavam o zumbido de turbinas de avião. Seu estômago se revirou de forma agradável com a imagem de gente contente comendo comida de conforto. Se revirou mais ainda com o cheiro maravilhoso do local. Parte disso com certeza era gordura, mas, hey, o mundo não era perfeito, e a maior prova da imperfeição era que as comidas mais gostosas eram as que menos faziam bem para a saúde.

O som da porta se abrindo chamou sua atenção. Um homem encasacado entrou de cabeça baixa. Parecia atraente.

Foi privada de dar uma boa olhada no homem devido a uma mensagem no celular. Só tornou a erguer o olhar quando uma embalagem de papel foi colocada no balcão. Felicity se levantou, já salivando por sua comida. Aproximou-se, os dedos coçando para pegar a borda dobrada. Seu organismo se agitou feliz por enfim receber uma comida boa. Ergueu a mão...

E uma outra mão pegou o saco. Uma mão grande. A mão do recém-chegado. Sem nenhuma cerimônia, ele puxou o saco em sua direção.

Virou-se para o homem, encontrando o azul cerúleo dos olhos. Nem houve espaço para surpresa. O estresse dentro de Felicity que vinha borbulhando havia horas, acumulando pressão e calor, explodiu.

E assim lhe veio a sede gastar o réu primário. Aquele homem seria sua vítima.

Não era um estranho bonitão qualquer. Ou melhor, era sim. Era seu companheiro de voo. O ser intransigente que só contribuiu para o aumento do caos das últimas horas.

Não houve desconcerto e palavras em fragmentos, ao contrário de quando o viu pela primeira vez. Apenas raiva. E uma Felicity com raiva era uma Felicity que não tropeçava nas palavras.

“Não acredito,” resmungou sem nem se dar ao trabalho de esconder a indignação. “Essa é minha comida.”

Jade Dragon era um local que só os locais conheciam. O que significava que ele ou era da cidade ou morava ali. Que ótimo. Mesmo assim, Starling City era uma metrópole, não era para ela encontra-lo duas vezes no mesmo dia em lugares completamente distintos. Sabia que a probabilidade não era zero, mas era pequena de um jeito ridículo.

Talvez a Dama da Fortuna realmente não estivesse ao seu lado hoje.

O rosto dele nem se mexeu. Vazio, desprovido de emoções. Uma bela estátua. De tanto encará-lo, Felicity viu os olhos se estreitando bem de leve.

“Fiz o pedido por telefone,” ele respondeu com a agora familiar voz brusca que combinava perfeitamente com suas as linhas rígidas. Era uma voz estupidamente bonita. O que combinava com um cara estupidamente estúpido.

“Você e o país inteiro, amigão. Delivery é uma realidade,” ela retrucou. Sério que se achava o dono do universo? “Eu acabei de chegar, tive um dia muito difícil, muito por sua causa, e não vai ser você que vai ficar no caminho da única coisa que eu quero.”

Sem pensar, cutucou o peito dele, sentindo um peitoral esculpido mesmo com as camadas de roupa. Os olhos sombrios dele desceram para seus dedos que permaneceram ali por uma quantidade desnecessária de segundos. Meio encabulada, rezando para que o rubor não atingisse suas bochechas, ela baixou as mãos. No fundo da mente, sua voz lógica a avisou de que tocar um estranho – um homem, de todas as coisas num mundo que odiava mulheres – em várias situações não terminava bem.

E ele era um homem deveras intimidador. Uma onda de receio a paralisou por um segundo. Logo estranhamente, inexplicavelmente se dissipou. Tinha uma sensação bizarra de que ele não a machucaria. Na verdade, ele que deveria estar preocupado. Ninguém tocava na comida de Felicity. Rivalizava com Joey Tribbiani nesse quesito.

Ele apenas a encarou com uma energia intensa, pulsante, que preenchia o ar de tensão. E vai saber que tipo de tensão.

Existia tensão pré-homicídio?

O cérebro de Felicity a alimentava com imagens violentas e sangrentas e bastante convidativas. O bonitão sendo empalado por um hashi. O bonitão engasgando em rolinhos primavera. O missoshiro quente como o inferno queimando as joias preciosas dele.

Ele cruzou os braços e não, Felicity não se distraiu com a visão de braços largos e ombros largos.

“Você realmente deveria calibrar suas expectativas sobre o mundo se acha que ele te deve algo,” ele devolveu, o rosto ainda feito de pedra, e cruzou os braços. Seu tom seco escorria desdém.

Felicity não se distraiu com a visão dos braços largos e dos ombros largos.

Antes que o bonitão retrucasse, a gerente chegou com outro saco praticamente idêntico ao dela. E a etiqueta grampeada mostrava que também era um lo mein só que com rolinho primavera.

“Ah. Desculpe. Esse é o seu.”

A gerente olhou para ele com um ar casual e amigável, como se o conhecesse. Coitada. Pelo visto, o bonitão era mais um idiota que seduzia mulheres a torto e a direito. Havia malucas por aí que se atraiam pelo ar sisudo e melancólico.

Não Felicity.

Não mesmo.

“Ora vejam só,” Felicity comentou sarcástica.

Ele lhe devolveu com um olhar frio e cortante. Ele tentava intimidar daquele jeito? Certo, ele tinha uma postura intimidante, mas Felicity de forma alguma se sentiu intimidada.

Por favor, ela lidava com babacas misóginos todo dia.

Não que ele fosse misógino. Mas considerando tudo que presenciou dele hoje, não era de se esperar que o adjetivo fizesse parte do pacote.

Ela estreitou a coluna, aproximou um passo e devolveu o olhar com o queixo esticado. Mais uma batalha se deflagrou entre eles por longos segundos. O cara soltou um som entre um bufo e um suspiro controlado e empurrou a comida dela de volta, o rosto a mesma carranca de antes. O maxilar continuava rígido, teimoso.

Ele não se desculpou.

Felicity nem esperava.

Óbvio que o idiota era religiosamente contra desculpas.

“Obrigada,” disse. Queria ter sido totalmente sarcástica, mas um pingo de gratidão cansada e genuína deslizou de seus lábios. “Preste atenção antes de surrupiar o lo mein alheio da próxima vez.”

Ela girou nos calcanhares com o saco aninhado num braço e seguiu em direção a seus pertences.

“Sério, eu não sei o que você vem fazer num lugar desse.” A voz da gerente soou em seus ouvidos. Ela provavelmente estava falando com o imbecil.

“Sou fã de comida boa, não importa onde. E tem lugares que tem um toque único aqui,” ele respondeu com um tom diferente do que usou com Felicity. Não caloroso ou animado, mas não com a acidez característica que era direcionada a Felicity. Ainda era resguardado, mas cordial. Ele era capaz de ser minimamente respeitoso quando queria. “E também tive um dia daqueles. Zero tempo para fazer jantar.”

Se fosse uma alfinetada para ela, Felicity estava pouco se fodendo.

Pediu um carro pelo aplicativo. Morava a algumas quadras e podia muito bem andar, porém considerando as malas, sua bolsa e mais o saco de comida, não tinha como. Enquanto esperava ali dentro para evitar que o frio de inverno esfriasse seu delicioso jantar, o nêmesis do dia de Felicity passou por ela como se nem existisse, sem nem menos lhe lançar um último olhar mortal e desapareceu de vista.

Se houvesse Olimpíadas do Olhar Mortal, aquele cara ganharia as medalhas de bronze, prata e ouro.

Que seja.

O homem desapareceu de vista e um minuto depois seu carro chegou. Ao sentar no banco de trás, abraçada ao saco quentinho e que cheirava gordura, molho shoyu e especiarias, Felicity deu um longo suspiro. Tratou de mandar suas frustrações com o ladrão de lo mein embora. Não valia a pena gastar sua energia com um desconhecido.

Ela nunca mais o veria mesmo.

Notas finais
Nada como um problema pessoal para te fazer voltar correndo ao mundo de conforto: Olicity. As fics sempre estarão aqui pra dar aquele quentinho no coração.

Se ainda tiver alguém que me siga... Espero muito que gostem! Por favor se pronunciem porque posso ter ficado off por um tempo, mas ainda sou uma autora movida a comentários hahaha

Quem quer mais da Felicity e do desconhecido-completamente-conhecido? Tenho muitas ideias para esses 2 ;)