Sereiah

1 O murmúrio do mar e os olhos que não posso ver


Notas iniciais
Yo, marujo! Primeiro, o h no título é proposital (entendedores entenderão). Segundo, espero que tenha ficado minimamente do seu agrado, Sarita. Terceiro, curtinho porque assim o pó de pirlimpimpim funciona melhor. Boa leitura! :D

Ela é uma sereia. E alguns podem imaginar que basta saber isso.

Mas me atrevo a me prolongar e dizer que ela é uma sereia cujos nuances da carne, da cauda escamosa e dos caracóis acastanhados artista nenhum pode reproduzir com perfeição. Mas eu, ingênuo marujo apaixonado, encontro coragem nas ondas que dançam entre nós para ousar capturar-lhe os detalhes. E suspiro. Suspiro porque o tinteiro não tem conteúdo o suficiente para abarcá-la.

Ora, qualquer um suspiraria ao contemplá-la a pentear os cabelos com os dedos tão ondulados quanto o Mar da Tormenta em seu banho de sol. Porque se trata de uma beleza arrebatadora, instantânea. Ainda que seus olhos nunca tenham se mostrado, nem mesmo um vulto borrado de suas faces e aqui eu especulo que a ponte de seu nariz corra para as bochechas com sardas adoráveis de uma serenidade magistral.

Eu a vejo em janelas do tempo dentro de meu navio, impuro demais para erguer a voz e mandar ao timoneiro que siga na direção dos rochedos sem nome que envolvem seus mistérios. Não posso tocá-la; ah, isso é impensável! Então ela mergulha e eu imagino que sorrindo de volta ao seu lago particular de poesias fugazes, feitas de palavras floreadas, voluptuosas. Suas melenas escurecem molhadas e somem, longe de meu olhar hipnotizado.

Às vezes me pego procurando entre tintas e joias os tons de azul-esverdeado que reluzem em sua cauda. Perco-me pelos mercados a céu aberto, me enfio em vielas de feiras em cada lugar que aportamos. Mesmo assim, no fim da noite, quando regressamos ao convés, bufo aborrecido e decepcionado com o mundo que, de tantas coisas incríveis, não é capaz de me oferecer uma única lembrança dela.

É uma obsessão agridoce e deliciosamente quente, como as bebidas que lotam os barris no porão. Entorpeço-me com elas nas noites de festa, quando todos os outros marujos têm alguém para abraçar e levar a bailar pelo salão ao som das mais variadas canções. Enquanto tudo o que tenho são especulações, palavras levadas pelas brisas salgadas e sonhos ora, não se pode impedir um homem de sonhar com sinfonias de corais e cabelos cacheados rodopiando ao meu redor.

Anseio ardentemente pelo dia em que me será permitido, pela injeção de coragem e por desprezo de tudo aquilo que já não me satisfaz, mergulhar em seus mistérios. Mergulhar e afogar-me em seus cantos divinos, entre as pérolas que devem cobrir-lhe o peito.

Pois se há uma coisa nela que me mata ainda mais do que a curiosidade por ver seu rosto, é seu silêncio sobre o rochedo. Mas apenas o vento me sussurra convites sórdidos...

Notas finais
That's all. Lollallyn.~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!