Sereia
2 Capítulo 2
Notas iniciais
No sábado, Magali foi praticamente intimada pela turma a ir a um torneio de skate no qual Cascão competiria. Não que ela tivesse pensado em faltar em algum momento, claro.
Os meninos estavam mais palhaços e lhe arrancavam risadas a toda hora. Cascão lhe pediu um abraço de boa sorte antes de fazer a sua apresentação, mas também foi muito consolada nesse gesto. Foi um abraço demorado e apertado. Maria Cascuda se incomodou um pouco com isso, mas não ousaria brigar com a amiga numa situação como essa. Cebola, outro grande amigo de longa data, havia abraçado Magali também, mas foi algo de companheiro, um pouco pesado até, como se abraçasse um dos caras.
Cascão foi até as semifinais e tomou um tombo de deslocar o cotovelo quando tentava passar por um corrimão. Apesar do acidente, o dia correu muito melhor do que qualquer um dos jovens chegou a imaginar.
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Quim viajou. Magali não falou cara a cara com ele, mas lhe desejou boa viagem por mensagem apesar de lhe evitar todo o tempo na escola. Pediu pra avisar quando chegasse, mas não falou nada sobre a relação dos dois. Ele ficou chateado, mas achou justo. Todas as meninas ficaram indignadas pelo gesto de Magali falar com ele, então ela sentiu que foi boazinha até demais.
Meses depois, Magali já estava bem mais recuperada. Quando ficou com um menino sem compromisso pela primeira vez na vida, se sentiu muito bonita e valorizada como jamais havia se sentido com Quim. Como era bonita e mais madura, frequentemente ficava com caras mais velhos.
Quando Denise comentou da mão boba de um desses caras, com quem Magali ficou numa festa e ela mesma não se importou, caiu a ficha para todas as meninas (exceto Mônica, que já sabia): meninas que namoravam desde sempre, como Magali e Aninha, já não eram mais virgens. Foi um baque, especialmente para Denise, que começou a imaginar os amigos fazendo sexo e tinha momentos de curiosidade e nojo ao mesmo tempo. Sua solteirice começou a pesar e ficou morrendo de vontade de arranjar alguém pra dar uns amassos.
Com essa vontade, os hormônios adolescentes e seu aniversário chegando, Denise resolveu comemorar com os amigos numa balada famosa da cidade. Na matinê, infelizmente, pois a maioria da turma era menor de idade e suas aparências entregavam (uma desgraça, na opinião de Denise). No sábado à noite, combinaram de se encontrar na frente do lugar, que tinha uma fachada preta chamativa e o nome, Coadunga, escrito em neon.
—Coadunga? Mas que raio de nome é esse? — perguntou Cebola assim que viu.
—É nome chique, criativo! — dizia Denise empolgada, observando a “paisagem local” – ai, Miga, olha esses bofes maravilhosos! É hoje que eu tiro esse atraso! — cochichou para Magali, que riu — vocês sabem que eu preferiria ver um show de drag queens, mas em casa LGBT os bofes não são muito pegáveis, sabe como é. — as meninas só riram, imaginando Denise num show de drags.
Magali chamava a atenção de todos os amigos, com seu cabelo solto e a roupa curta, apesar de larguinha no corpo. Lhe dava um ar estiloso. Alguns meninos só a reconheceram de perto, e Titi já chegou passando cantada, porque só a havia visto de costas. Quando ela virou, brava, e o empurrou, pediu desculpas; mas não foi com muita convicção, e sim olhando muito fixamente para o seu quadril.
Cascão, por sua vez, segurava a mão de Cascuda como um bom namorado, mas sua cabeça corria a milhão enquanto ele fazia cara de paisagem. Magali lhe chamava a atenção desde o dia em que se abraçaram no torneio. Foi a melhor colocação que ele já teve, e podia sentir o perfume dela na sua camiseta o tempo todo. Ficara transtornado ao ver a amiga de cabelos soltos, e evitava a todo custo olhar para ela, chegando a olhar diretamente para o céu e se obrigar a procurar estrelas. Sua situação só piorou quando lembrou que talvez a visse beijando alguém. Não queria pensar nessas coisas, não queria se obrigar a refletir sobre seus sentimentos. Seu mantra era “A Cascuda é a minha namorada e é a melhor namorada do mundo” e repetia mentalmente como uma prece, repetidamente. Era difícil, especialmente depois de brigarem por alguma razão besta antes de pegarem o ônibus até a festa. Ela ainda estava um pouco emburrada com ele.
Jeremias percebeu sua preocupação e lhe prometeu comprar um drinque pra que ele relaxasse (Jeremias havia completado dezoito há pouco tempo), mas não sabia, também, se beber era uma boa ideia.
Lá dentro, o cheiro de fumaça artificial e as luzes piscantes eram o suficiente pra confundir os jovens um pouco. Jeremias comprou bebida para alguns amigos e Denise dividiu um copo com as amigas que bebiam, mas a maior parte do grupo acabou se dispersando ao entrar. Os mais sérios e com namorado e namorada ficaram numa parte de barzinho do lugar, jogando sinuca e dividindo cervejas e refrigerantes. Os solteiros foram para a pista. As meninas dançavam em roda e Mônica e DC dançavam juntos, mais ao lado (gludados demais, como disse Cebola indignado com um copo na mão e a língua mais solta por causa do álcool. Ele não demorou a achar uma menina pra ficar, mas Mônica nem sequer viu que ele estava por perto).
Carmen se arranjou logo e foi a que ficou com mais meninos. Denise ficou com um, mas foi um beijo rápido. Foi mais pro final da festa que ela e Xaveco se trombaram dançando e ele, mais sedutor do que o normal (provavelmente se fingindo de bêbado, pois ele não bebia nada. Ela também, na verdade, estava bem sóbria), logo começou a dançar perto dela, respirando no seu pescoço, e a partir daí é uma história que só a parede da Coadunga pode contar.
Titi perdeu as contas de com quantas ficou, mas perdeu a vontade de beijar quando viu Aninha fazendo o mesmo que ele fazia há cinco minutos atrás. Ele tentou brigar com ela, mas o cara com quem ela ficava o ameaçou e ele saiu da pista.
Magali dançou mais do que qualquer outra coisa. Recebeu muitas cantadas, mas era exigente. Quando finalmente resolveu ficar com um cara (um moreno alto de Black Power e uma personalidade das mais cativantes), passaram um bom tempo juntos, e ele chegou a lhe pagar uma bebida no bar, no ambiente que ficava junto com as mesas de bilhar. Marina lhe sorriu da mesa em que estava com os amigos, como se lhe desse parabéns, e Magali decidiu levar o ficante pra beber junto com os amigos.
—Oi gente! Esse é o Renan! — e não precisou falar mais nada. Todos o cumprimentaram de longe e logo ele tomou a conversa, falando de todos os assuntos possíveis.
Cascão olhava desconfiado para o cara o tempo todo. Com a luz fraca do lugar se permitia observar mais Magali, e além de reparar no batom que havia sumido e no suor, também via que o seu sorriso para Renan era o mesmo que dava quando Franjinha falava, ou uma das meninas, ou DC (que, junto com Mônica, já socializavam com os amigos). Eles nem sequer se abraçavam ou seguravam as mãos. Logo Renan resolveu voltar pra pista, e como Magali queria jogar uma partida de sinuca, se separaram.
Ficou ainda mais curioso e não podia evitar observar a ela, com o descuido de um pouco de bebida passando pelas veias. Ele venceu a partida ela o parabenizou com um toque de mão, como faria um dos meninos. Ela o chamava de Cas e o estava maravilhando cada vez mais, ele se permitia pensar, com a mente levemente enevoada (também não havia bebido tanto assim, na verdade preferia os refrigerantes, mas era fraco pra bebida e Jeremias havia lhe dado vários goles de algo com vodka). Cascuda, por sorte, estava cochichando animadamente com Marina na outra ponta da mesa, sem se preocupar com ele. Mas resolveu ir pra pista com Magali e todo o grupo acabou indo pra lá, abandonando a mesa de sinuca.
Como Cascão havia dito que não estava afim de dançar, se deu o direito de se encostar numa pilastra e observar os outros (na parede não dava, não havia espaço entre os casais se beijando. Aquele era o Xaveco? Beijando alguém com marias-chiquinhas?). Observar os outros é eufemismo, pois ele dava olhadas rápidas em Cascuda pra checar se ela estava bem enquanto aproveitava pra observar Magali e praticamente se hipnotizar por seus movimentos e seu cabelo, que cobria o rosto às vezes e lhe fazia ter caras e bocas que Cascão bateria em si mesmo se lembrasse mais tarde, sozinho.
Todos os outros caras da festa provavelmente também se sentiam assim, pois ele perdeu a conta de quantos idiotas a pegavam pelo braço, cintura ou tentavam entrar na roda de dança das meninas. Um deles foi especialmente agressivo e insistente, o que fez Cascão sair da pilastra e se aproximar mais do grupo, mas quando chegou perto de Magali ela já tinha dispensado o cara. Foi questão de segundos. Ela se virou, percebeu a presença dele e sorriu.
—Resolveu dançar? — ela perguntou, aproximando a boca dos ouvidos dele pra se fazer ouvir com a música alta ao fundo, respirando no pescoço e lhe dando um arrepio semelhante ao do dia em que se abraçaram
—Cadê o babaca que tava te incomodando? — ele respondeu do mesmo jeito, sentindo um restinho do perfume doce que sentiu naquele dia.
—Dispensei, ué. — ela sorriu, dando de ombros. Cascão se surpreendeu e ela riu.
Ele resolveu voltar para a pilastra, dando as costas pra ela. Ela segurou seu braço e ele se virou, corando. Instintivamente, ambos se viraram para checar Maria Cascuda, que dançava animadamente com Mônica e Marina. Quando voltou a olhar pra ela e percebeu que ambos haviam pensado a mesma coisa, ficou surpreso e Magali corou violentamente. Ela o puxou para falar no seu ouvido porque seria pior ficarem em silêncio.
—V-você não vai dançar? — por sorte, o barulho alto disfarçava a gaguejada.
—Não… não sou de dançar.
Ela ia dizer que tudo bem, mas levou um empurrão e chocou contra o peito dele. Cascão se pegou agradecendo aos céus por ter tomado um banho antes de vir, sabia que ainda estava cheirando a colônia. Eles se encararam por longos segundos e o coração dele batia rápido, focado nos seus lábios (o de baixo um pouco avermelhado pelos beijos que havia dado antes no outro) e nos seus olhos sem saber em qual dos dois se fixar. Ele suava frio, sem ação, então foi ela quem deu um passo pra trás quando surgiu espaço às suas costas e se afastou, vermelhíssima, sorrindo nervosa. Ele sorriu da mesma forma e foi se encostar na pilastra.
Decidiu pegar uma coisa pra beber pra se acalmar e acabou achando Cebola com uma cerveja, que ele o deixou tomar até o final. Foram se encostar na pilastra juntos e às vezes faziam comentários sobre o lugar ou as pessoas, mas agora Magali percebia ele a observando, o que deixava ambos vermelhos e ele tinha que se forçar pra não olhar pra ela. E talvez fosse a cerveja subindo, mas ele podia jurar que ela dançava de forma mais provocante desde que o pegou olhando. Foi uma noite difícil.
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