Ser ou não ser
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Notas iniciais
Eu andava por um parque da minha cidade, contemplando a tranquila paisagem, quando duas pessoas que conversavam chamaram minha atenção. A distância entre eu e estas pessoas estava cada vez mais curta e por isto pude ouvir a conversa claramente.
- Ah, como eu queria deixar de não ser e ser. – Desabafou uma delas um pouco antes de bufar e deixar-se deitar na grama, como se a palavras que dissera a tivesse cansado. Para maior comodidade a chamarei de S.
O olhar da outra pessoa – esta será Z – mostrava a clara incompreensão da fala de S. Porém alguns segundos depois estes mesmos olhos expressaram descasos, onde eu, o narrador, mesmo sem ser formado na leitura de mentes, sabia o que ela pensava: que não se devia levar S a sério.
Naturalmente S ficou enfurecida ao ver estas emoções transpassarem pelo rosto de Z. Ela novamente se sentou na grama e disse euforicamente.
- É sempre assim, sempre! Poucos são os que me compreendem, que entendem meus anseios, e quando conseguem eles são excluídos, chamados de idiotas ou vagabundos. Ah, que saudades do tempo em que todos me amavam, desejavam ter o máximo de tempo comigo e que eu fosse! Era uma boa época, que todos sabiam que me compreender poderia ser útil, eu podia mostrar a quem quisesse saber as verdades ocultas! Agora... Agora eu só não sou. – Suspirou por fim S, abraçando as pernas e fitando o chão com tristeza nostálgica.
- Você quer, você sabe, você pode... Logo você é. Pare de baboseiras sem sentido. – Disse Z.
A fala de Z despertou a pena de S. Sei disso porque seus olhos ficaram mais mansos e recaíram sobre a pessoa ao seu lado. E logo minha teoria de confirmou, já que S voltava a falar.
- Ah... Tudo o que eu mais desejo na vida é ser, todos sabem disso, mas se ser quer dizer pensar tão simploriamente como você pensa então prefiro não ser. Veja as flores, elas são o símbolo da beleza, e seus traços são curvos e nada simplórios! A beleza está no complicado, não no simples.
- Eu prefiro galhos.
- Galhos? Sério?
- Sim, galhos. Vão de um pouco ao outro, no caminho mais simples possível. Tem uma função e a fazem, não se enfeitam todo para isto e isso não reduz sua eficiência.
- E você nunca ouviu falar de galhos tortos? Ou daqueles pequenos galhos curvados? Nem os galhos seguem sempre um caminho reto, não sei porque você precisa.
- Você sabe as verdades ocultas, mas não sabe disso... Deixe-me acrescentar mais um conhecimento para os seus inúmeros ou nenhum: eu também queria que você fosse. Há felicidade no ser, simples ou não. Mais forte que a do não ser porque ela é real, palpável e muito mais forte. Mas não adianta, mesmo que o ser proporcione uma felicidade incomparável ela será comparada com as possibilidades do não ser e por isto menosprezada. Que os não ser sejam, para que os ser sejam valorizados.
Não é à toa que o narrador parou de falar. De fato fiquei tão absorto com esta parte do diálogo que parei de pensar e observar, eu só ouvi. Agora que conseguia voltar a pensar uma dúvida surgia e por sorte estava bem próximo de Z e S. Tossi para preparar minha garganta e expus minha voz:
- Oi, eu...
PUF.
6 da manhã. Hora de não pensar.
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