Ser Desastrada É Meu Charme
2 Final
Notas iniciais
Minhas aulas com papai foram mais tranquilas, mas creio que isso se deve ao fato de que eu não tinha que esconder que estava aprendendo a dirigir e, muito menos, não tinha plateia.
Tá bom, Jack resolveu aparecer um dia, e pegou carona no carro e não calou a boca, mas eu não liguei... até merecia, pois eu enchi a paciência dele até altas horas da madrugada quando papai me disse que teria aulas de direção antes do 16...
E depois de muitos sustos, de ter jogado o carro na vala – e ter escutado isso tanto de Jack, quanto de tio D e de Elizabeth – afinal, quem tava passando na hora para nos ajudar? Sim, o pai dela!! – e de ter provocado um mini infarto no meu pai cada vez que eu confundia a esquerda com a direita. Minhas aulas terminaram.
O que significava que meu teste de rua estava cada dia mais próximo. E eu não tinha como evitar a plateia incômoda que apareceu.
Tia Pen, Tio D, Tio Dave, Tio Spenc com a Maeve, Tia JJ, Henry – que também já tinha carteira, Tony Dinozzo, Lizzy (e seus seguranças), Ziva e Abby. E logicamente, meus pais e Jack.
É, se eu passar de primeira, vou tirar sarro da cara deles. Mas e se eu não passar?
A verdade é que eu não passei.
E eu achei que eles iriam tirar sarro da minha cara, estava enganada. Eles simplesmente queriam bater na instrutora porque ela me reprovou. Principalmente a Ziva!
Mas, pra falar bem da verdade, eu acho que eu não estava muito preparada para tirar carteira não. Ainda tenho um medo danado de pensar em pegar o carro sozinha....
Então, o meu novo exame foi marcado pra dentro de um mês.
Mais um mês de aulas. Mais um mês de papai tentando parar o carro com a força do pensamento. Mais um mês tendo que ir pra escola no carro oficial do FBI com motorista e segurança.
Meu treinamento intensivo dessa vez envolveu de tudo. Pegaram um carro idêntico ao que eu iria fazer a prova de rua. E me jogaram lá dentro durante todo o final de semana.
Eu tive que decorar para que lado eram as setas, como se dava ré alinhada. Fazer as terríveis balizas... controle de embreagem... se bobeasse eu teria aprendido a montar um carro.
No final desse mês eu estava verdadeiramente pronta. Confiante. Dessa vez ia!
E foi! Passei lindamente, sem dar susto em ninguém, sem subir na guia da calçada, sem trocar os lados da seta e entrar pro lado errado, sem deixar o carro morrer e sem arranhar a marcha.
Eu agora tinha carteira!
Faltava um carro!
Mas isso Tio Dave resolveu na hora em que eu desci toda feliz do carro de prova. Eu estava pulando para cima e para baixo quando ele simplesmente estendeu o braço e lançou algo em minha direção.
— Vamos ver se você é boa de reflexo!
Peguei de primeira e abri a palma da mão. E lá tinha uma chave canivete com o símbolo de uma estrela de três pontas. O logo da Mercedes Benz.
— Eu não acredito!! – Eu gritei eufórica.
— Não acredita. Então vai até o estacionamento...
E eu corri para lá com todo mundo atrás de mim. E ao acionar o alarme, segui o bip que ele fez e olhei para aquele carro azul perolado.
— Ele é lindo!! Tio Dave muito obrigada! – Eu corri para abraçá-lo. E assim que o soltei eu tive que zoar...
— Tá vendo, Jack, melhor do que o carro que você tem!!! – Falei na direção dele, balançando a chave na frente dele. – E nem comento com você – disse para Elizabeth, — nem carro você tem e está proibida de dirigir!!! – Fiz uma careta pra ela.
Meu irmão, para minha total surpresa, apenas perguntou:
— Quanto tempo até esse carro aparecer amassado?
— Mas Jack? Como ousa? – Eu falei chocada.
— Eu só estou dizendo a verdade.... – Ele levantou os ombros em sinal de inocência.
— Você é inacreditável. Isso tudo é inveja? – Mostrei a língua pra ele e fui abrir o meu lindo carrinho.
Ele só tinha um problema...
Era totalmente automático. O que significa que eu não tenho que trocar as marchas. E eu não fazia a menor ideia de como dirigi-lo...
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Eu levei menos tempo acostumando com o carro automático do que imaginei de início. Foi até moleza. Pelo menos foi isso que eu pensava...
Até que chegou hoje. E dois meses depois de tirar carteira e ganhar meu carro bacana que deixou toda a escola de queixo caído. Ele está no meio de uma farmácia e eu estou dentro da delegacia...
Escutei passos apressados e vi que alguns dos oficiais estavam com os olhos meio arregalados para o novo visitante do Distrito Policial. Isso só podia significa ruma coisa...
Papai.... e mamãe... e todo mundo.
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— Mas o que foi que você aprontou dessa vez, Elena? – Mamãe chegou desse jeito. Eu só soube me encolher.
— Eu juro que não foi de propósito!
— A pergunta mais importante aqui é: — Tio Derek disse – Por que você está algemada? Achei que você tinha batido o carro!
— Mas eu bati....
— Então, será que alguém pode tirar as algemas dela? – Ele gritou irritado.
— Elena Prentiss-Hotchner, – Esse foi papai. – te acusaram de que?
— Direção perigosa, destruição de patrimônio, lesão leve ao conduzir veículo automotor. – Eu respirei fundo – desacato e resistência. – Terminei sem nem ter coragem de encará-lo.
— Mas como foi que você conseguiu fazer tudo isso dirigindo? – Dava para ver a veia saltada na testa da minha mãe quando ela falou comigo.
Antes que eu pudesse responder, o Oficial Harrison e a Oficial Bello chegaram.
— Presumo que sejam os pais da senhorita Prentiss-Hotchner? – Ele fez questão de novamente destacar o sobrenome. E enquanto eu torci o nariz para a forma como ele o disse, pude ver a mandíbula de meu pai ser trincada de ódio e minha mão fechando os pulsos de raiva.
— Sim, somos. – Papai foi na frente e se apresentou. – Aaron Hotchner e Emily Prentiss.
— E o restante?
— Somos a família dela. – Tio D respondeu sem arredar o pé.
— Só os pais podem ficar. – Oficial Harrison disse com um sorriso frio dirigido ao Tio D.
Mamãe lançou o olhar para o restante do pessoal e eles entenderam. Eles saíram de dentro da delegacia, mas aposto que todos estavam lá fora, andando de um lado para o outro.
— Então, Oficial Harrison, — Papai começou – posso saber o que aconteceu?
E foi aí que a versão do Oficial foi contada. Quanto ao acidente, ele não tinha como aumentar, porque não tinha como, e, além do mais, depois do meu exame de sangue ter vindo limpinho, ele não podia ter inventado sobre eu estar bêbada. Mas ele aumentou no quesito do desacato. Aumentou muito. E quando ele terminou, mamãe, que não é boba e sabe quando mentem na cara dela, pediu um tempo à sós para conversar comigo.
O Oficial Harrison não queria deixar, mas era meu direito como menor, até porque, se fossem olhar, meus “crimes” nem eram tão graves assim.
Ele, com muito custo saiu da sala e me vi sendo encarada por meus pais.
— E eu achando que depois do fiasco daquele concurso na escola você tinha aprendido a lição. – Mamãe suspirou.
Esperei que ela me desse permissão para falar. O que demorou um pouco, porque eu acho que ela estava procurando qualquer sinal de psicopatia ou sociopatia em mim.
— Sua defesa, Elena. – Foi papai quem me deu a vez, começando com o interrogatório.
— Realmente eu bati o carro. Troquei os pedais e quando vi estava dentro da farmácia. Quebrei a porta de vidro, derrubei algumas prateleiras e acho que uma pessoa ficou machucada. Mas nada grave, pois o local estava bem vazio.
— O que você foi fazer na farmácia?
— Comprar band-aids. Cortei minha mão enquanto tentava adiantar o jantar de hoje. Queria fazer uma surpresa para vocês. Mas deu completamente errado. – Suspirei.
— Certo. – Mamãe parecia mais calma. – Até aí eu estou vendo que as acusações são um tanto demais, mas não estão erradas. E quanto ao desacato e a resistência.
— Eu perguntei se era necessário vir. Disse que poderia assinar um Termo de Comparecimento e que viria dar meu depoimento amanhã. Não é isso que a lei diz? Que desde que assumimos a culpa, não temos que ser levados de uma vez?
— E então? – Foi papai quem continuou, e pelo visto ele estava incomodado com isso.
— Ele disse que se eu desse outra desculpa, ele me prenderia por desacato. Eu nunca, nem levantei a voz para ele. Mas insisti mais um pouquinho. Foi o que bastou para que ele me algemasse, lesse meus direitos e me colocasse no banco de trás da viatura.
— Então você não gritou com ele? Nem ameaçou processar a polícia? – Mamãe estava ficando vermelha de ódio.
— Não. Não disse nada disso. Eu deixei que ele me levasse. Era o certo a se fazer, e, além do mais, estavam filmando....
— Filmando? – Os dois me perguntaram.
— Sim. Quem estava passando na hora e quem estava dentro da farmácia sacou os celulares e filmaram. No início deve ter sido para tentar pegar a minha desculpa esfarrapada de confusão dos pedais. Mas depois que a polícia chegou, eles continuaram.
— Quem ligou para a emergência?
— Eu tenho certeza que liguei, mamãe. Mas devem ter outras ligações de outras pessoas também. Por que isso é importante?
— Você não tem que ser presa. Lógico, vai ter que ir ao tribunal para responder por direção perigosa, mas só. Não houve desacato ou resistência. Precisamos dos vídeos para prova. – Papai estava a anos luz de mim.
— Certo. E o que faço agora? – Disse olhando para as algemas.
— Isso a gente resolve. – Mamãe disse confiante.
— Beleza.
— E, Elena, não fique contente. Em casa a gente ainda vai conversar. – Papai falou saindo da sala. E meu estômago afundou de medo.
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Horas depois e muita explicação e zoação com a minha cara, cortesias de Tio D e Jack, a campainha de casa toca. Sinceramente eu não queria atender, tinha certeza de que era algum vizinho que tinha passado na hora e visto toda a cena lamentável. Então deixamos tocar.
Mas a pessoa era insistente. E tocou mais uma vez. E outra. Por fim, escutei uma voz gritando do outro lado da porta:
— ELENA! Você tem ideia de como está sendo difícil convencer o meu detalhamento de segurança em trocar a rota? Você tem ideia de como eles tem medo da minha mãe e pavor do meu pai? Então, abra essa porta porque eu não posso demorar!!!!
Era ninguém mais, ninguém menos do que Elizabeth. É claro que ela já sabia. Aliás, ela parecia saber de tudo em tempo real.
Olhei para meus pais e para tio D e tia Pen que ainda estavam na minha casa.
— Vai logo, Elena, ou aquela ali é bem capaz de invocar o lado Gibbs dela e derrubar a porta! – Tio D disse fazendo graça de quando ele trabalhou ao lado da turma do NCIS.
Eu nem tinha aberto a porta direito quando:
— VOCÊ FOI ALGEMADA????? EU NÃO ACREDITO!!! – Foi assim que Elizabeth me saudou quando abria a porta da minha própria casa!
— Como você já sabe disso? Achei que estava incomunicável hoje, já que você foi prova para tentar um estágio de verão no Departamento de Defesa....
— Fiquei fora do ar por algumas horas, não pela eternidade! Além do mais, tenho meus contatos no mundo cibernético que me mandaram o vídeo de toda a confusão. Não te achei mais cedo porque depois da prova, estava tomando um sermão sobre responsabilidade com a Diretora da CIA que até hoje reclama do estofado do carro chique dela que foi estraçalhado....
— Eu estou na internet? – Agora a coisa toda tinha ido pro brejo.
— Uhum. – Ela me respondeu quando entrou na casa. – Boa noite Sr. Hotchner. Sra. Hotchner. Oi todo mundo. – Ela cumprimentou o restante da minha família.
— Eu tô perdida. – Queria enfiar a minha cara em um buraco e ficar lá.
— Que nada. A prisão foi ilegal. Pelo menos foi o que a minha mãe disse. Dá pra virar isso ao seu favor. Mas quanto ao carro dentro da farmácia...
— Nem comece a rir. – Eu alertei a minha amiga ruiva.
— Eu não ia rir. – Ela segurava a risada.
— Você nem tem carro! Então pode ir parando.
— Não tenho carro, minha mãe me tomou a carteira e tenho certeza que não chego perto de um volante até os 21 anos, mas pelo menos, não fui eu quem enfiei o carro dentro da farmácia!! – Ela retrucou de volta.
— E, a partir de hoje, mocinha, você também não tem carro. – Papai disse.
Lizzy ficou parada perto da porta da cozinha e olhava de meu pai para mim, com os olhos arregalados.
— Mas pai, foi um acidente, eu já expliquei.
— Mas está sem carro até os 18 anos!
Elizabeth fazia um esforço tremendo para não jogar na minha cara a famigerada frase “Bem vinda ao time, amiga”.
— DEZOITO? Mas pai.... qual é?
— Um... resposta errada. – Lizzy sussurrou.
— Como disse mocinha? – Aaron Hotchner se virou para mim em fúria.
Lizzy deu três passos para trás e quando vi estava sentada perto de Tio D na bancada da cozinha. Os dois pareciam cochichar algo sobre mim e riam da minha cara.
— Será que não podemos negociar isso? Talvez uma saída temporária por bom comportamento. Uma condicional.
Ouvi mamãe sibilar. Tia Pen tinha os olhos arregalados. Tio D e Lizzy pareciam apostar alguma coisa.
— A única condicional que você terá é sair de casa para a escola e suas outras aulas especializadas. Nada de balada, nada de noite do pijama.
Eu estava perplexa. Ia abrir a boca para tentar me defender quando mamãe disse.
— Melhor ficar quieta, Elena.
— E também vai andar com detalhamento de segurança até a sua formatura do segundo grau.
— Não!! – Eu chiei. – Tudo menos segurança e carro blindado. – Não era justo. Achei que tinha ganhado minha liberdade.
— Sem exceções, Elena. É para o seu bem.
Eu sentei na bancada e olhava para o meu pai com cara de cachorro que caiu da mudança.
— Já disse. Palavra final. – E ele foi em direção ao seu escritório.
Quando me virei para poder procurar se tinha restado alguma balinha do pote, vi as caras de Tio D e Lizzy.
— Se você tivesse ficado quieta, isso não teria acontecido. – Tio D disse em tom de conforto.
Já Lizzy, ela tinha um meio sorriso sarcástico no rosto, e depois de atender o celular – sua mãe estava mandando que ela fosse para casa naquele momento. – apenas disse:
— Bem vinda ao clube das que ficam de castigo, não têm carro e andam com seguranças!! Tenho que ir! Vê se não bate ou entra em mais nenhum estabelecimento, hein, doida do volante!!
Então ela me deu um tapa atrás da cabeça e, depois de se despedir de todos, foi para a porta.
— Ei, eu sei que a Senhora Hotchner te deu educação, não vai abrir a porta para mim, não?
— Some da minha frente ruiva louca. – Eu joguei uma bala na direção dela.
— Valeu pela bala. E não fica triste não. Você será o assunto principal da escola na segunda de manhã! A não ser que alguma das líderes de torcida fique muito bêbada e cisme de fazer um showzinho no final de semana! – Ela deu uma risada.
— Por que eu sou sua amiga? – Resmunguei para ela.
— Porque eu sou um máximo! – Ela sorriu e foi embora.
— Tchau Senhora Hotchner, tchau todo mundo! Tchau celebridade da internet. – Escutei ela dizer antes de mamãe fechar a porta.
— Isso que eu chamo de amiga sincera. – Tia Pen disse. – E é por isso que eu gosto dela.
Eu suspirei frustrada. Até a minha família estava contra mim!
— Não me olhe assim, Elena. Você cavou a própria cova. – Mamãe disse quando passou para a cozinha.
— Mas mãe. Acidentes acontecem e você sabe disso. Além do mais, ficou provado que ninguém se machucou, o policial aumentou na história do desacato e eu vou comparecer ao tribunal. Então, eu até entendo que devo ficar sem o carro por um tempo. Mas por DOIS ANOS!
— ELENA! – Papai gritou do escritório.
Com esse grito, Tia Pen e Tio D viram a deixa exata e foram embora, Tio D me garantindo que me arranjaria os agentes mais legais do FBI para ficarem na minha cola.
— Eu tenho que ir até lá, ou ele vai vir até aqui? – Perguntei para mamãe quando meus tios tinham ido.
Ela só apontou a cabeça para a porta da cozinha, onde meu pai se assomava, ainda com cara de poucos amigos. Se ele faz essa cara quando está lutando por uma melhora no orçamento do FBI, tenho pena dos diretores das outras agências. Nem todos, sei que a Diretora da CIA pode dar tanto medo quanto ele.
— Oi pai.... – eu tentei dar um sorriso inocente, ao qual ele só revirou os olhos e caminhou decidido para o outro lado da bancada, sentando de frente para mim, ao lado de mamãe.
— Você tem noção do desespero que eu fiquei quando você me falou ao telefone que tinha sido presa? Você tem noção do escândalo que vai ser se alguém descobre que a filha do Diretor do FBI foi presa? Você tem noção de quão preocupado eu fiquei quando você listou as acusações? Elena, você tem alguma ideia de quantos anos você me envelheceu dessa vez?
— Todas as desculpas que eu tinha eu já dei, pai. E como eu disse. Eu não tive culpa. Confundi os pedais, talvez eu devesse ter ido a pé, ou sei lá, talvez eu devesse ter entrado na cozinha para começar... eu não sei onde tudo isso começou, eu só... só queria... quer saber... o senhor está certo. Pronto. Acabou. Vou vender o carro, ou o que restou dele. E vou passar a andar com todo o detalhamento de segurança que quiser. A Lizzy anda e parece não se importar. Não vai me matar. – eu dei de ombros no final. Era inútil discutir com os dois a essa altura e sobre isso.
— Elena, você sabe o que essa ida ao tribunal pode significar para o seu futuro?
— Sei.... – disse desanimada. – E também sei das horas de serviço comunitário que vou cumprir. E é por isso que eu vou ficar longe de um carro. Sério mãe. Eu soube do Jack, sei onde ele está agora. E é onde eu quero estar, mas para isso, eu preciso de faculdade. E sei que nenhuma faculdade aceita quem tem ficha criminal. Sei que isso vai ser apagado da minha ficha quando eu fizer 18 anos. Mas eu não quero ser taxada por algo que foi um acidente, uma confusão!! Eu sou melhor do que isso.
Olhei para os meus pais e eles me olhavam de volta. Segunda de tarde vamos ao tribunal. Você sabe o que vai ter que fazer.
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Eu nunca tomei um sermão tão grande na minha vida. E tão longo. O juiz falou por duas horas. DUAS LONGAS HORAS sobre responsabilidade no trânsito e o perigo que adolescentes despreparados atrás de um volante são para a população no geral.
A parte boa, foi que, como ninguém tinha se machucado, eu fui para a delegacia sem oferecer resistência, e tinha um bom histórico, minha pena foi de prestar serviços à comunidade. E eu poderia escolher. E escolhi aquilo que mais me agradava e também poderia trazer benefícios para outras pessoas.
Passaria os todos os finais de semana dos próximos 12 meses ensinando inglês em abrigos de refugiados e imigrantes, não importava a idade. E lógico, minha carteira estava suspensa. Só poderia tirar uma nova quando fizesse dezessete anos.
— Você entendeu as suas penas, Srta. Prentiss-Hotchner?
— Sim, meritíssimo. Eu entendi.
— Essa é uma chance. Não faça mais nenhuma besteira e isso não será anotado na sua ficha. Mas falte sem motivo aparente a algum dos seus compromissos, e você será devidamente processada e penalizada.
— Eu não irei faltar, meritíssimo.
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E aqui estou eu, cumprindo o meu último final de semana como professora voluntária de inglês em um bairro humilde de D.C. e quer saber, não foi ruim. Dá uma sensação boa ensinar alguém a entender o mundo ao redor. É bom saber que uma senhorinha poderá agora saber o que está escrito nas placas do metrô, ou que uma criança está indo melhor na escola porque você a ajudou.
Ou seja, essa semana completou um ano desde o acidente. Tem um ano que eu não dirijo. Que eu não tenho mais carro, afinal, depois do conserto – até o pobrezinho não ficou tão estragado assim – Jack ficou com ele. Tem um ano que os pobres Agentes Sacks e Johnson têm que me aturar aonde quer que eu vá. E tem um ano em que eu não me meto em encrencas. Nenhuma. Com ninguém.
E hoje à noite tem um baile presidencial. Coisa chique. Onde o Presidente agracia algumas pessoas que realmente merecem com medalhas. Bem, como meu tempo de prestação de serviço termina hoje, e como meus pais são convidados desse baile, pelo próprio Presidente, este eu estou liberada para ir. Pensar que há um ano atrás eu estava querendo que outro baile, que também acontece hoje, chegasse o mais rápido possível, o baile de final de ano da escola. Mas quer saber, pouco me importo. Quem quer ir para um lugar onde só vai ter gente chata, bêbada e com comida ruim?
Ninguém, né?
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EU NÃO ACREDITO!! NÃO ACREDITO NISSO!!
Estava tudo pronto, prontinho para que fosse ao bendito baile. Tinha um sapato lindo, um vestido deslumbrante, meu cabelo estava penteado lindamente, minha maquiagem na medida certa.
Mas eu tinha que ser desastrada a esse ponto? Justo hoje?
Por que? Por que Deus? Por que eu sou tão azarada?
Ao invés de ir para a Casa Branca no Baile Presidencial, eu estou no Hospital Naval de Bethesda.
Sim, hospital.
Querem saber o por quê?
Porque eu caí da escada. De salto alto e vestido longo. Tropecei no meu próprio pé e rolei escada abaixo. No meio do processo de ser uma completa desastrada, eu quebrei o pé. Em alguns pequenos pedaços pelo visto, porque eu vou ter que passar por uma cirurgia para colocar um pino.
POR QUÊ???
Nesse meio tempo em que estou aqui esperando para ser operada, já fui bombardeada de mensagens. De todos que estão lá. E quando eu disse o que aconteceu, sabe qual foi a resposta sincronizada de Tia Pen, Tio D, Tio Spence, Tia JJ, Tio Dave e de Jack?
— Você é um imã para o azar, hein, Elena?
Mas o que eu posso fazer, se ser desastrada é meu charme?
Mas eu acho que falei isso em voz alta, pois papai e mamãe me lançaram aquele olhar. Além de operada, lá vai eu me encrencar de novo!!
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