Notas iniciais
Boa leitura.

Kardia nunca chorou...

Perdeu sua mãe quando era menino e nunca chorou.

Ele ficou sozinho naquele hospital e mesmo assim não chorou.

Nem mesmo quando recebeu a notícia que iria morrer logo, ele não chorou.

“Sempre sorria, meu menino…”– Ainda conseguia ouvir os sussurro de sua mãe, em seu leito de morte, enquanto seu coração parava de bater - “Nunca deixe que a vida lhe tire esse sorriso, pois, mesmo que curta, a vida é linda e divertida de mais para se passar chorando.”

Aquele era o seu lema na vida.

Se divertir e sorri ao máximo, pois nunca poderia saber quando seria o segundo final.

Ele, mais do que ninguém sabia disso. E assim seguiu vivendo todos aqueles anos…

Até aquele momento…

Lágrimas…

Lágrimas que jamais havia deixado cair durante toda a vida.

Lágrimas por sua mãe, por sua solidão, por sua sentença de morte….

Lágrimas pelo seu amor não correspondido e depois correspondido, pelas declarações, pelos momentos a sós…

Lágrimas pelos momentos de brigas, pelos momentos de reconciliação, pela última noite que o amou, pelo desejo de faze-lo ficar…

Lágrimas por sua fraqueza, pela fraqueza dele…

Lágrimas pelo fim…

Lágrimas por aquele que fazia seu coração continuar batendo.

Lágrimas por Degel.

Ele não soluçava, apenas deixava que as lágrimas caíssem, e elas se misturavam ao sangue que marcava seu rosto. Seu rosto se contorceu de dor, mas não por sua dor. Ele já não a sentia mais… Mas sim por ele, pela dor dele.

Ele nunca lhe escondeu nada e era fácil ver que doía nele aquele destino. Degel não queria deixá-lo, assim como ele não queria deixar Degel.

Sua mão tocou a dele por cima do gelo, querendo, mais do que tudo que já desejou na vida, poder tocá-lo. Mas estava além do limite de ambos aquilo.

“Eu sei…” – sussurrou mentalmente para ele, encostando sua testa no gelo, antes de tombar de joelhos sobre a possa de sangue e vomitar novamente, agora com mais intensidade — “Eu… Deuses… Estou morrendo e não me importo… Eu só quero poder ficar com você…”– ele forçou-se a erguer o rosto novamente quando sentiu o cosmo dele tocar sua pele e o viu quase cair a sua frente dentro do gelo - “Estou aqui com você, meu amor… Sempre estaremos juntos… Do inicio ao fim…”

Não… Ele não sabia… Ele não queria aceitar… Mas lutar mais só traria mais dor a ele, então o grego sorriu… O sorriso mais triste que já deu na vida… Aquele era um adeus que ele não queria dar.

Era uma despedida que não estava pronto para fazer.

E nunca estaria…

Seus olhos se conectaram aos dele como na primeira vez que se viram e Kardia sentiu aquela ligação que ultrapassava a vida. Sua alma e a dele eram uma só e eles sabiam disso. A morte era apenas uma fase… Suas almas jamais se separariam novamente.

E aquela, sem dúvida alguma foi a coisa mais difícil que Kardia já fez na vida. Nenhuma de suas febres lhe causou uma dor tão visceral quanto a que sentia naquele momento, mas ele se obrigou a continuar olhando nos olhos que mais amava, enquanto ele morria. Mas ainda havia algo que ele precisava fazer… Algo que pudesse dar a paz a ele, mesmo que sua alma ardesse no inferno, ainda vivo. Precisava livra-lo daquela obrigação, ao menos agora…

“Degel… Está tudo bem…”– sussurrou, abrigando o cosmo dele em seu corpo e deixando que se misturasse ao seu coração incinerado — “Apenas descanse… Eu estou aqui… Eu te amo… Eu sempre vou te amar… Sempre…”

Aquele suspiro tão suave e delicado e aquelas palavras que o abraçavam naquele momento que marcava o fim de tudo o que ele era e tudo o que tinha lhe soou como o som do mundo se acabando. Seu corpo tombou para frente e ele sorriu com prazer ao mesmo tempo que um soluço de dor lhe fez convulsionar e sangrar ainda mais. A dor que lhe consumia a alma naquele momento não podia ser suportada, ninguém merecia sentir aquele tipo amaldiçoado de dor. Ele duvidava que o inferno poderia lhe causar tamanho sofrimento.

A única coisa de bom que ele conseguia pensar naquele momento era que ele ia morrer. Isso era bom, porque nenhum ser humano conseguiria suportar aquele tipo de dor que o consumia sem enlouquecer.

Ergueu o rosto mais uma vez, para olhar a face serena daquele que mais amava e sorriu. Ele parecia tão calmo… Que se ele não soubesse, podia achar que estava apenas dormindo.

Enquanto usava o último resquício de força que lhe restava e erguia a mão direita para cima de seu coração, uma frase dita a muitos anos por Degel lhe veio a mente.

“Você acha que é teimoso, Kardia, mas eu sou mais…”– a voz linda e irritada dele ecoou em sua mente, enquanto seu cosmo produzia uma última agulha, seus olhos sempre fixos no rosto sereno do amado — “Eu não vou te ver morrer… Guarde bem minha palavras… Isso não vai acontecer!”

“Sim, meu amor… E você sempre cumpre suas promessas, não é?” — sorriu mais uma vez — “Me espere… Estou indo, Degel…”

O som oco do disparo da agulha ecoou pelo salão silencioso, mas ele já não podia ouvir. O fogo em seu coração se apagou instantaneamente e seu corpo se projetou para frente, escorregando lentamente no seu próprio sangue, antes que o gelo do salão se fechasse sobre eles como a tampa de um caixão.

Notas finais
Obrigada a todos que leram, acompanharam, favoritaram e comentaram. Espero que tenham gostado. Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!