Estava andando por uma floresta, seguindo um cão enorme e negro para a beira de um precipício. Eu odeio altura, mas não conseguia para de andar, muito menos falar. Quando parei na ponta do precipício, olhei para baixo. Um mar, bem agitado por sinal, batia nas rochas.

Então eu perguntei:

–Ainda não está na hora, ou está? – o cão simplesmente abaixou a cabeça. – Pai, você sabe que eu respeito suas opiniões, assim como sei que você não me mandou para lá ainda porque não está na hora.

–Filha – falou o cão, com uma voz grave, mas num tom carinhoso. – Não falta muito agora. Está quase na hora. Você vai ter que ficar mais um tempo somente na teoria.

E então tudo que se seguiu foi, literalmente, apagado de minha mente. O que me lembro é que eu acordei com a Sasha lambendo a minha testa porque o despertador não parava de tocar.

Levanto da cama e faço a mesma coisa de sempre, como, escovo os dentes, me arrumo e vou pra aula. Chegando à escola vou para a sala e lá encontro todos os alunos nos seus lugares, fazendo as suas coisas de devido interesse individual. Sento na minha mesa, coloco fones de ouvido e deixo meus pensamentos voarem até tocar o sinal.

O professor entra na sala explica sua matéria, passa exercícios, corrige-os e sai da sala. Assim acontece com todos até o final do dia. Venho para casa com a minha mãe que me espera no portão da escola, de carro.

Entro no carro e o primeiro pensamento que me vem é: “O Lucca não veio falar comigo”.

Cheguei em casa, fui pro meu quarto, joguei tudo em cima da cama e fui tomar um banho. Quando sai do banho, lá estava a Sasha deitada na minha cama, com a cabeça em cima da mochila.

–Oi, minha fofa. – ela cutuca dentro da minha bolsa. – Tá bom, tá bom.

Abro a bolsa e tiro as bolachas de dentro da minha mochila e dou algumas pra ela. Minha mãe não deixa, mas como resistir a uma cadela fofa como essa te pedindo algumas?

Volto pra cozinha com as coisas da escola pra fazer, nas quais a minha mãe ajuda como sempre. Quando acabamos, levei os materiais para o quarto e voltei para ajudar com a janta.

Enquanto comemos ela começa a falar.

–Então, como foi a aula hoje?

–Calma até, tinha muita matéria teórica, acabei me perdendo um pouco. – sorri.

–Hm... Agora me deixe te perguntar uma coisa. – olho para ela confusa. – Quem é Lucca? – pergunta inocentemente.

Fico vermelha e me engasgo com a comida ao mesmo tempo. Como assim? Como ela sabe que eu conheço alguém com esse nome? Quando finalmente consigo me recompor percebo que ela passou um bom tempo rindo de mim...

–Para de rir de mim! – digo com raiva.

–Tá bom. – ela faz um esforço enorme, mas depois de um tempo ela consegue parar de rir. – Pronto, agora me diga: quem é esse Lucca?

–De onde você tirou esse nome, mãe? – digo tentando mudar de assunto.

–Você passou a noite toda chamando esse nome. – ok, não deveria ter tentado mudar de assunto, isso só me deixou com a cara mais vermelha.

–Bem, tem um menino com esse nome na minha sala, mas eu não me lembro de ter sonhado com ele, só com o mesmo cão negro de sempre. – respondo afinal ela sabe desse sonho. – Tenho que fazer um trabalho com o animal dele.

–Hm... Mas isso não é motivo pra você chamar ele de noite. – diz ela desconfiada.

–Ah! Já sei aonde você quer chegar. – falo. – Então: não, mãe, eu não estou namorando ninguém. – eu começo a rir e ela me olha confusa. – Eu queria me lembrar do que eu sonhei pra saber o que ele estava fazendo na minha cabeça. – digo, falando mais pra mim mesmo do que pra minha mãe.

–Ok, ok... Vou esquecer esse menino... – ela come um pouco enquanto faz uma pausa. – Vai precisar de ajuda com esse trabalho?

–Não, não. Pelo que eu percebi hoje, o professor aceita digitado, daí eu faço no note.

–Está bem... – terminamos de comer e eu ajudo a tirar a louça de cima da mesa. – Deixa que eu arrumo aqui, vai fazer um pouco do trabalho.

–Tá bom...

Voltei pro meu quarto e a Sasha tinha aberto a minha mochila e comido todas as bolachas.

–Sasha! – Fechei a porta, comecei a rir e limpar a sujeira.

Quando acabei de limpar, comecei a pesquisar para o trabalho. Depois de uma hora e alguma coisa, minha mãe aparece no quarto.

–Conseguiu achar alguma coisa? – perguntou.

–Sim. – abri uma página que tinha algo sobre Husky Siberianos e li um trecho. – “Há mais de 2500 anos atrás, o nordeste asiático era povoado por uma comunidade indígena denominada Chukchi. Exposta a um dos climas mais inóspitos do mundo, a sobrevivência era assegurada com a ajuda de grupos de Husky, que puxavam os trenós do seu dono percorrendo longas distâncias, levando os seus donos aos locais onde pudessem pescar. Por serem de pequeno porte e relativamente leves, tornaram-se rápidos e gastavam muito pouca energia”. – olhei para a Sasha, que estava dormindo na cama. – Descobri porque ela conseguiu andar tanto tempo com a pata machucada.

Minha mãe fez que sim com a cabeça.

–Agora vai dormir amanhã você continua. – deu um beijo na minha testa. – Boa noite.

–Boa noite, mãe. – respondi, já fechando as coisas.

Coloquei meu pijama, arrumei a coberta e deitei, tentando achar um lugar na cama, sem acordar a Sasha, coisa que não deu certo. Fui obrigada a acordar ela, porque ela tinha tomado posse da cama.

Cadela folgada dá nisso!

Passaram-se semanas, muitas semanas, em tanta calmaria, que eu estava até achando que teria finalmente uma vida normal. Perceba como eu fui ingênua.

Notas finais
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