Sentir-se em casa

1 Pois você é meu lar


Notas iniciais
Digo e repito: eles podem sim ser uma família feliz, mas só os dois, sem o Satanick. Por favor, não me diz que eu tô errado, não acompanho o fandom faz um tempinho e não quero me desiludir, mesmo sabendo dos acontecimentos da Dangerous Night.

Era dia ou noite? Ivlis, durante todo o tempo em que esteve em sua maldição de liberdade abaixo da terra que o sol tocava, nunca pode ter plena certeza disso ou de qualquer outra coisa. Há muito tempo já não lembrava de como era ter a sensação calorosa e sufocante dos raios solares tocando sua pele de forma suave, como se lhe acariciasse e o fizesse sentir-se em casa.

Quando olhava para seu “céu”, apenas podia ver um luar banhado em carmesim, ele era como uma forma de lembrete vindo de seu amado pai, como se Siralos o torturasse com as lembranças de um sol que nunca o tocaria novamente.

Há quanto tempo suas chamas estavam apagando-se? Sentia como se sua vida estivesse, aos poucos, findando-se. Não havia um calor grande o suficiente para suprir sua demanda, e por isso, ele sabia que sua vida não iria durar muito tempo. A verdade era que Ivlis sabia muito bem que ele não sobreviveria muito tempo fora da Terra do Sol, era um milagre ainda estar vivo.

A dependência que a grande parte dos demônios ainda tinham de estar perto do sol era suprimida com sua presença, Ivlis havia superado as expectativas quando gastava de sua própria energia para atuar com o papel que a estrela mais importante de seu mundo fazia. O calor que irradiava de si para todo o Mundo das Chamas era o que sustentava a liberdade de todos os seus pequenos demônios.

Por sua culpa, pelo seu sacrifício, eles poderia ter um gosto do que a liberdade poderia lhes proporcionar, e mesmo que mais crianças nascessem sem conhecer a grandiosidade do sol, elas eram a esperança de que, um dia, eles poderiam ser realmente livres dessa dependência de Silaros.

Ivlis tinha sacrificado toda e qualquer felicidade que poderia ter para tentar libertar as pessoas de seu mundo do domínio de seu pai, ele não havia ganhado nada com isso, mas ver que seus seguidores pareciam mais felizes com essa liberdade quebrada e falha já satisfazia-o.

Às vezes, ele ficava triste de ter abdicado de tudo. Ivlis pegava-se imaginando como seria uma vida onde podia se apaixonar, viver momentos recheados de felicidade ao lado de outra pessoa ou mesmo só conseguir respirar sem sentir o peso do mundo em suas costas. Mas não poderia se dar ao luxo de coisas como essas, ao menos, não poder fazer isso evitava fardos, fossem eles se desapaixonar ou mesmo ter o constante medo da perda. Ivlis não deveria se preocupar com coisas que considerava tão banais, ou era o que pensava.

Ele se perguntava quando iriam cansar-se de si, fosse Satanick e Reficul, seus seguidores ou qualquer outro que já havia entrado em sua vida. Ivlis estava meio cansado e definitivamente doente com tantos pesares, contudo, mesmo assim, prometeu que tiraria todos dali, prometeu à si mesmo que eles conheceriam a verdadeira liberdade e que viveriam sem medo. Quando estivesse pronto, ele faria de tudo para concretizar essa promessa.

Ele cortaria suas amarras, esconderia seus medos e os tornaria em suas forças, apenas para fazer com que todos parassem de olhá-lo de cima, como se fosse alguém inferior. Ele buscaria se reerguer, apenas para salvar o pouco que restava-o.

Às vezes, eu desejava que ele desligasse suas feições de porcelana, essas que, por vezes, encontravam-se tão distantes. Eu deixaria meu cabelo crescer, iria esconder o que havia de pior em mim e deixar meus medos de lado para não preocupá-lo, eu iria me tornar alguém forte para que ele olhasse para mim e o ajudaria a nos tirar daqui, ajudaria-o a encontrar um pouco de felicidade, nem que precisasse ter a minha própria negligenciada.

Era difícil pensar claramente ou ter certeza de algo dentro do gigantesco universo onde vivemos, existiam cores o suficiente para me enlouquecer e destruir minha mente; fosse essas um roxo intoxicante que exalava das rosas de Satanick, o vermelho carmesim das íris de Reficul, os tons alaranjados em degradê da maldição do sol a qual Siralos impôs à Ivlis. E mesmo com tudo isso… como ele conseguia continuar de pé?

Quando via seus olhos tão opacos, por vezes, perguntava-me se ele realmente estava vivo, com tantos demônios envolvendo sua mente atormentada era difícil dizer sobre o real estado de meu pai e isso assustava-me. Eu não era forte o suficiente para protegê-lo ainda, mas ao menos conseguia afastar brevemente alguns de seus temores. Ainda sim, era impressionante vê-lo resmungar para si mesmo algo como “eu não quero adormecer ainda”, como se a possibilidade de desistir fosse ainda mais apavorante do que sua atual realidade.

Minha chama se escurecia com o tempo e eu, definitivamente, estava perdendo o calor e talvez não pudesse recuperá-lo, mas não poderia desistir, pois meu pai não havia o feito ainda. Não poderia deixar-me abater pela apatia, precisava continuar deixando a pequena chama alaranjada acesa e quente.

E mesmo com a mente distante, mesmo que fosse antagonizado de diversas formas diferentes — algumas até mesmo justificáveis —, mesmo que não houvessem outras pessoas para zelar por sua vida e segurança, mesmo que ele fosse uma bagunça e que não soubesse mais para onde caminhar… Ainda sim, nada sabíamos sobre as estrelas, então eu me conformaria com nossas fraquezas e tentaria abraçá-lo mais vezes.

O tempo passaria e, lentamente, contornaria os olhos de meu pai, mas eram nas pequenas demonstrações de carinho e afeto que eu recebia de Ivlis onde eu realmente me sentia em casa, então estava tudo bem.

Notas finais
Novamente, uma ficzinha para a tag da escrita. Fui desafiado pela fofa da @krful, que voltou para o Spirit já me dando coisa pra fazê sksdjkjs. Bem, essa não era a fanfic que eu planejava postar, mas como já tinha parte dela no papel e queria muito pedir uma capa pro Nico... aí deu vontade de terminar ela. O texto que fiz para o tema de "música" que a Anna escolheu, na verdade é uma Gilkidu feita com base na música "carrinho de madeira" do Kamaitachi, já esse texto aqui é baseado na música "This is Home" do Cavetown.

https://www.youtube.com/watch?v=75g1G4O5fco

Eu realmente sonho com o dia em que Licorice passará a ser tradado como um filho pelo Ivlis e pelo dia em que, ao menos eles dois, terão uma relação saudável. Apesar disso, acho que tal só irá acontecer quando Satanick estiver enterrado à sete palmos do chão.

Bem, o @Ryuutsune foi a divindade que me salvou no trabalho de capa e betagem, acho que ele ainda está com os pedidos abertos, vou deixar aqui, espero que se interessem pelo trabalho desse anjinho! (Desculpa Nico, de tem algo que eu aprendi com a Eha é que não pode perder oportunidade de divulgar sksksk)

https://www.spiritfanfiction.com/jornais/pedidos-para-betagem-e-capa-19347776
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!