Sentimentos no final de outono_One_Shot
1 Sentimentos no final de outono
Notas iniciais
O domingo amanheceu chuvoso. Brownie dormia tranquilamente no tapete do quarto enquanto as trovoadas estrondosas me incomodavam. Debatia-me na cama, mas o sono não voltava. Obrigado, levantei-me. Mesmo com a chuva ainda teria muito trabalho a fazer.
Preparei panquecas para o café. Brownie interessou-se pelo cheiro e pulou no meu colo. Servi-lhe uma tigela com leite aquecido e ele deixou-me em paz. Eu me divertia com aquele gato todas as manhãs. Ele pulava ao som dos ruídos pela casa, e caçava mosquitinhos como um leopardo na savana. Ele já havia rasgado duas vezes o meu papel de parede nessas brincadeiras. Mas pouco me importava, ele era a minha única companhia em dias ruins.
A chuva intensa não cessava. Fui conferir se o galinheiro estava com a portinhola aberta. O início do inverno se aproximava, teria que colocar os aquecedores e fazer qualquer reparo necessário. Elas estavam todas encolhidinhas. A mistura das cores com os fenos obrigou-me a tirar uma a uma para o esperado bom dia. “Bom dia Potion!”. Aproveitava para ver se estavam estressadas, palpava as asas vasculhando algum machucado ou, falta de penas. “Bom dia Mana!”. Aqueles olhos vermelhos me encaram e logo cacarejou me respondendo. Ela também estava bem. Recolhi os ovos e me despedi. Fui até o outro galinheiro onde os patos estavam e repeti a rotina.
Assim minha manhã foi gasta com os animais, terminando de recolher as últimas colheitas do outono e preparando mercadorias artesanais. Tudo que poderia distrair minha mente eu estava realizando. Eu não parava de pensar que faltava uma estação para terminar meu primeiro ano em Stardew Valley. Parecia que ontem mesmo eu havia pegado um ônibus e me mudado para essa cidadezinha.
Tantas coisas aconteceram. Amizades, intrigas e reconciliações. Pareço um velho recordando de tudo. Maru tem razão quando diz que eu sou muito sentimental. Ela é minha melhor amiga, nos damos muito bem. Adoro ajuda-la a construir robôs e às vezes, tenho a impressão que seu pai, Demetrius, quer que eu me case com ela.
A família inteira de Robin gosta de mim, exceto Sebastian. Ele tem me evitado sempre que pode. Fazíamos coisas juntos. Conversamos sobre motocicletas e a cidade grande. Mas depois de Sam me convidar para jogar RPG de mesa com eles, Sebastian tem me evitado. Havíamos combinado de fazer a noite do sashimi, mas ele a cancelou sem explicações.
Após tudo conferido, saí da fazendo em direção as montanhas. Passaria o dia na mina, se Maru não tivesse saído de casa aos prantos junto com Robin gritando pelo Sebastian
—O que esta acontecendo? – Perguntei preocupado.
— Graças! John! – Chamou-me Robin. – Sebby sumiu dede ontem do festival. E a motocicleta dele não está na garagem!
— Ele pode ter saído sem avisar. – Sugeri, as duas me reprovaram com o olhar. – Já olharam nas minas? – Elas concordaram. – Avisaram mais alguém?
— Sam e a Abil – Disse Maru, aflita. – Mas ninguém viu o paradeiro dele.
Desisti de todos os meus planos e fui procura-lo.
Desci as montanhas e fui até a parada de ônibus. Caminhei pela estrada até o túnel para ver se encontrava algo. Para minha surpresa a moto de Sebastian estava encostada antes do túnel. Provavelmente havia se esquecido da carteira para pagar o pedágio. Mas qual o motivo dele ter largado o veículo lá?!
Não me sobrava lugares para procura-lo. Raramente ia até a floresta. Nas minas ele não foi encontrado. Restou-me ir até a praia. Mas naquela chuva incessante duvidei muito que estava lá.
A areia estava ensopada e poças se formavam. Olhei pela extensão da praia e nenhum sinal do filho de Robin. Caminhei até o deck. Foi então que vi aquela figura ensopada olhando para o mar, com um cigarro apagado em uma mão e a outra no bolso. Caminhei lentamente até ele. Não queria assusta-lo, muito menos que ele me ignorasse.
— O que faz aqui nessa chuva? – Perguntou-me.
— Sua mãe está preocupada com você. – Respondi ficando ao seu lado. – Encontrei a sua moto na entrada do túnel.
— É! Eu deixei ela lá. – Ele fitou meus olhos e voltou a olhar para o horizonte. – Sabe, eu adoro os dias chuvosos, me deixam menos ansioso.
— Eu também. O som das gotas e cheiro de terra molhada me acalmam.
— Eu sempre fico ansioso perto das pessoas. Prefiro ficar calado, ou ignora-las. Mas com você não é assim. – Fiquei surpreso. – Gosto de conversar com você, de jogar com você. Sua companhia me faz bem. – Ele abaixou a cabeça e mudou o tom de voz. – Mas o que eu estou falando?!
— Eu também gosto da sua companhia. – Tentei dizer o mais brando possível, o olhando nos olhos. – Gosto do seu jeito de pensar. E somos muito parecidos em alguns pontos. Você sabe que eu sempre vou estar aqui por você, caso precise.
Senti meu estômago contrair e minhas bochechas rosarem. O que eu estava dizendo?! Sebastian corou e colocou a mão na boca assustado. Parecia tremulo. Eu tive o reflexo de encostar em sua face para afastar seu cabelo do rosto. Ele deu um passo para trás me evitando. Tropeçou na ponta do deck e caiu para trás.
Minha mão puxou seu braço e eu o abracei pela cintura com o outro braço. Ele bateu com as mãos em meu peito, apoiando-se. Com o rosto corado mordiscou os lábios que me chamaram a atenção. Meu coração disparou e eu finalmente entendi o que estava acontecendo.
Ele encontrou seus lábios com os meus. Eu fiquei assustado, mas não resisti em abraça-lo forte. Suas mãos apoiaram-se em meus ombros. Uma de suas mãos encontrou minha face e eu o abracei mais forte. Com muitas palpitações eu perdia o fôlego, mas exigia que aquele momento não parasse. Eu podia sentir seu corpo molhado da chuva tentando se aquecer em meus braços.
— Me perdoe. – Ele se afastou repentinamente. – Por favor, me perdoe! Não conte para a minha irmã! – Ele estava aflito. – Você tem que prometer que vai fingir que isso nunca aconteceu!
— Sebby – Ele abaixou a cabeça, sua frustração me compadeceu. – Sebastian eu.- Estendi a mão tentando alcança-lo, mas ele a desviou com um tapa.
— Adeus John.
Ele começou a caminhar pelo deck. Eu já não tinha reações. Queria abraça-lo, mas estava assustado. Muitas coisas me vieram em mente. Robin! Não fazia ideia dos conflitos que o filho enfrentava, do sentimento da possível reprovação. E agora eu, provavelmente, poderia ter lhe causado mais uma ferida.
Eu corri e antes que ele pudesse se virar o abracei. Mais uma vez meu peito contraiu e eu não conseguia respirar direito. Mas eu sentia que deveria fazer aquilo.
—Sebastian! – O apertei em meus braços. – Eu não sei o que esta acontecendo. – Ele não demonstrava reação. – Mas eu não quero me afastar de você. – Ele se virou. – Nunca mais.
Nossas testas se encostaram e eu sorri. Ele evitou me encostar, mas no final estávamos abraçados no deck. Em meio à chuva que aos poucos foi diminuindo e se transformando em neve. Começamos a rir suavemente observando os primeiros flocos.
— Quer comer aquele sashimi? – Ele sorriu e segurou minha mão. – Vamos.
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