Sentimentos insanos
9 Capítulo 8
Tarde de Quinta Feira ,
24 de Junho de 1953
Caro Confidente,
Eu nunca imaginei que um anjo pudesse ser tão traiçoeiro. Olha onde meu sentimento cego me trouxe, mordaças me prendiam em uma cadeira de madeira pelos pulsos e pernas.
– 397, você é bastante intrigante! – reconheci a voz antes mesmo de abrir os olhos, era o psiquiatra. Os sonhos que eu ando tendo já não são ruins o suficiente para eu acordar acompanhado pela personificação do capeta. – Ando recebendo frequentes reclamações dos seus ataques noturnos, mas noite passada em especial, você se exaltou por 7 minutos, fascinante! – revelou Doutor Albert encostado na mesa a minha frente, pela primeira vez ele parecia animado com meu surto, estremeci, pois de todos os meu surtos, esse era o único verdadeiro. O que me fez questionar, será que estou verdadeiramente enlouquecendo?
– Por um acaso sou um risco tão grande a loucura alheia? Por que me amarraram? – eu estava com tanto ódio para forjar insanidade, agora tudo pouco me importava.
– Ah não, isso foi apenas uma precaução, caso ocorresse mais um incidente durante a batelada de exames! – explicou ele. – Você sabe a causa desses ataques de pânicos?
– Eu não sou o psiquiatra daqui, diga-me você –
– Curioso, essa nossa conversa está me lembrando o dia que você chegou, não a pessoa que tem cometido as loucuras dos últimos dias. É uma recuperação inacreditável. Alex, existe um novo tratamento para o seu mal, ainda está em fase de teste, mas é promissor. E enquanto você estiver trancafiado nesse lugar nunca terei certeza quanto a sua cura efetiva, você pode estar me passando para trás – relatou ele calmamente, como se quase fizesse uma pausa a cada palavra dita.
– Tanto faz, eu sei que não tenho escolha, quando começamos? – perguntei atuando uma expressão decidida.
– Em breve, assim que os resultados dos seus exames chegarem! Você está livre até lá. – ele terminou a frase e deixou a frase em seguida.
Carregaram-me cautelosamente até o refeitório, estranho, era quase um tratamento vip. Já havia passado do almoço, mas me serviram um prato totalmente balanceado e extremamente saboroso, diferente de toda aquela gororoba servida, tive direito até a sobremesa.
Todo esse tratamento me é muito estranho, isso nunca aconteceu antes, pode parecer pessimismo, mas me sinto como um animal, cujo abate está bem próximo, e por pena os donos lhe proporcionam milhares de regalias para que seu últimos momentos de vida sejam perfeitos.
Já com a barriga cheia fui a procura do meu fiel escudeiro, Thomas, ele estava no salão social conversando com ‘Harry Cachoeira’, achei estranho, pois quando sugeri-o que fizesse amizade com os demais internos ele protestou e até discutimos, você já sabe o restante da discussão.
– Fiquei preocupado, onde você estava? – perguntou ele logo após um abraço apertado.
– Recebendo um tratamento real após uma noite de cão – falei de forma desanimadora. – Aconteceu alguma mudança com você? – perguntei com a pulga atrás da orelha.
– Eu recebi uma comida dos deuses hoje, estava divina! – como alguém pode ser tão inocente a ponto de não perceber que tem coisa errada nessa história.
– Essa comida dos deuses foi servida a todos, ou só a você?
– Agora que você perguntou que eu percebi, foi só para mim – ele respondeu um tanto confuso.
– Tom, temos que fugir logo daqui, eles estão com um tratamento novo para nós, e pelo visto é pior que o eletrochoque
– Eu sei, já conversei com eles sobre o surto coletivo, o único que impôs uma condição foi o Harry, ele quer um balde de madeira pra... pra...pra... – com uma expressão de nojo ele fazia gestos com as mãos frente a sua boca afim de exemplificar a baba que escorre da boca do homem o dia inteiro – você entendeu! – completou ele.
– Eu entendi. Você viu o Edwin?
– Eu acho que foi limpar os banheiros, algo assim... não fico seguindo o zelador, 397 – ele sabe como o meu nome me causa repulsa nesses tempos, evitando no máximo cita-lo, como pode em tão pouco tempo me conhecer tão bem?
– Perfeito! Vá falar com o seu enfermeiro, não esquece, é primordial que ele adiante a hora do jantar! – recordei o cabeça oca do meu amigo.
– Eu vou tentar! – ele fez um gesto positivo, e então seguimos caminhos opostos.
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