Tarde de terça-feira

9 de Junho de 1953

Olá, meu caro cúmplice, como você está? Acredito que extremamente bem para um velho diário caindo aos pedaços. Esse clima de insanidade tem te afetado? Espero que não, você é o meu maior aliado, não precisa sentir ciúmes do Tom, eu sei que tenho falado bastante nele, mas além de você ele é tudo o que eu tenho, o mais próximo de uma amizade, ou, de uma família.

Estou com um estranho bom humor, como você já sabe a dança foi apenas um contratempo para contar a Thomas sobre o assalto ao banco, ele reagiu de forma animadora. A vontade de sair desse lugar é maior que qualquer outra coisa, às vezes afeta até o nosso bom senso, sem falar que se tudo der certo ficaremos podres de rico.

As vezes me questiono se é correto prejudicar outra pessoa para o meu beneficio, por um instante um sentimento de apreensão tomou conta de mim, todavia passou no instante seguinte. O que me garante que eles teriam o mesmo sentimento por mim? Nada! Sofro diversos tipos de tortura e ninguém parece sentir pena de mim.

O mundo fora daqui é hipócrita, não que as pessoas aqui dentro sejam diferentes. Percebi que a maioria das pessoas que ziguezagueiam por essas ruas vivem de aparências, todas exibindo o carro do ano, a televisão a cores recém comprada, os pais se gabando dos méritos dos filhos, os que não tem filhos se exibem as conquistas dos sobrinhos, e assim por diante. Enquanto o materialismo é exaltado cada dia mais , a importância do caráter entra em declínio.

Infelizmente estamos vivenciando tempos onde o que reina é a superioridade. Já não se mede o reconhecimento de um homem pelos seus atos, mas sim pelos seus bens. Já não se sabe em quem confiar, pois é um querendo passar por cima do outro. Esse lugar me fez refletir sobre tantos assuntos. Pois bem, quem são os nossos verdadeiros amigos? Na minha humilde opinião, não são aqueles que te erguem na maior dificuldade, posto que isso é fácil, mas sim aqueles que ficam felizes com a sua glória, vale ressaltar que todos gostam de ‘estar por cima’.

– Oi, Suzy, está ficando ótimo esse seu penteado! – elogiei acariciando os ombros da mulher por trás da cadeira. Não havia penteado, pois como eu já narrei, ela penteia uma boneca careca com um garfo de plástico.

– Obrigada! – agradeceu ela tímida abrindo um sorrido.

– Pensei que talvez você pudesse pintar a minha roupa, gosto tanto dos seus desenhos! – menti, estava quase na hora do chamado do psiquiatra e eu precisava de um plano B, afinal passei todo o meu para o Tom.

– É sério? Po-de mes-mo? – gaguejou ela com os olhinhos brilhando para mim.

Ela fez diversas pinturas infantis na minha camisola branca: um sol, nuvens, passarinhos, cachorros, e até nós passeando em um jardim. Nesse instante fiz uma promessa a mim: Prometi que o dia em que eu atingir estabilidade fora desse manicômio irei tira-la daqui, e cuidarei dela até o fim de seus dias.

Um enfermeiro me agarrou pelo braço e me guiou até a sala do psiquiatra com uma brutalidade sem fim, assim que ele me soltou a dor permaneceu e pude permanecer que a marca de seus dedos ainda permaneciam na minha pele. Brutamonte.

– Entre! – ordenou o homem de branco áspero.

– Hello, doctor! – saudei ao entrar saltitante segurando a barra da vestimenta – Vesti o meu melhor modelito para a consulta, gostou? – perguntei sorridente enquanto dava uma volta em torno de mim.

– Alex Brown! – afirmou ele ao me encarar pela primeira vez enquanto segurava minha ficha em suas mãos. Até um louco merece um pingo de gentileza, é o que eu penso pelo menos.

– Quem? – interroguei fingindo não saber do que se tratava.

– Seu nome! – respondeu ele – Como tem se sentido?

– Está havendo um engano, sou Mickey Mouse. MICKEY MOUSE, MICKEY MOUSE! – saltei sobre a mesa e comecei a arremessar todos os papeis sobre meu ombro enquanto gritava e arregalava meus olhos assemelhando-me a um maníaco.

– ENFERMEIROS, ENFERMEIROS, ENFERMEIROS! – gritou ele, e depois de alguns minutos dois apareceram. – Incompetentes, cuido de vocês mais tarde, agora dêem um jeito nisso! – ordenou ele extremamente furioso tirando um cigarro de sua cigarrilha e acendendo-o em seguida.

Em meu trajeto de volta recebi mais dois hematomas de presente, e se não bastasse isso, assim que me abandonaram brutalmente no chão salão social recebi um chute de forte de cada um, ambos na altura do estômago.

Não penso na dor como algo negativo, pelo contrario, um incentivo para que eu saia logo daqui, e um alimento para minha vingança que só cresce a cada dia. Eu encontrarei Claire Walters, e ela há de passar por todas essas minhas provações, viver toda essa angustia, ela terá o seu inferno na terra e desejará a morte, assim como um dia eu a desejei, se não fosse por essa minha vontade louca de fazer justiça com as próprias mãos, eu já teria partido desse plano. Não hesitarei em nenhum momento, não sentirei pena nem por um segundo, não pensarei nela, assim como sei que ela jamais pensou em mim

Notas finais
Queridos leitores anônimos, a opinião de vocês é tão importante para mim como a dos outros. Então, deixe-me ao menos um comentário, não custa nada, eu não mordo, só falo um pouco demais kkk. Para ajudá-lo aqui vai uma singela pergunta: Para você o protagonista é homem ou mulher? Aguardo ansiosamente seu comentário. E aos meus comentadores usuais, aqui deixo aqui outro de meus agradecimentos. Espero que tenham gostado.