Sentimentos insanos
1 Capítulo 1
Sábado,
6 de Junho de 1953
Caro confidente,
Estou enlouquecendo, estou enlouquecendo, enlouquecendo... Eu não era assim, eu não tinha vozes na minha cabeça e não via todas essas pessoas querendo me destruir, não via... Eu era uma pessoa normal, eu acho que era, a verdade é que eu não me lembro direito como era a minha vida antes desse lugar. É por isso que estou escrevendo, para não esquecer, essas palavras são o que resta da minha sanidade, se é que ela ainda existe. ESTOU ENLOUQUECENDO! Eles não podem te achar, não podem, eu vou te proteger! Você é tudo que eu tenho, é meu confidente, é meu único amigo. É por isso que tenho que te dizer que o lugar que estou é perigoso, eu tenho que fugir, aqui a minha sanidade é desafiada a todo instante e não tenho com quem comparilha-la, todos querem me destruir, eles querem... Portanto, eu acabo me sufocando em meu silencio. Se você encontrou este diário perdido em algum canto é provável que eu não esteja mais entre o mundo dos vivos. Sendo assim, ignore todas as coincidências do destino, e siga o meu conselho: Dê a sua leitura por encerrada. Ora, vejo que você é bastante insistente, pois bem, lamento dizer que isto te faz o único cúmplice vivo do meu crime.
Contrariando a lógica do universo, o meu raciocínio permanece quase intacto, alguns dias são piores que outros, mas eu consigo pensar. É por isso que ateei fogo no hospício antecessor ao que resido no presente, pois daqui eu posso realizar o roubo do século e arquitetar a tão desejada fuga. Também não posso me esquecer da vingança a cada um daqueles que me jogaram nesse buraco.
Todos me conhecem por "hospede 397", contudo, o termo não se aplica de forma efetiva; logo que hospedes podem ir e vir ao tempo que quiserem, e quanto a mim, não tenho esse tal livre arbitreo. Hoje o ‘Lar para doentes mentais Marshall’, ou se preferir, “Hospício Marshall” é a minha casa, e a de muitos que sofrem, ou não, de problemas mentais. O único problema aqui é que todos são cautelosamente bem cuidados para que a possibilidade de alta seja inexistente, restando assim duas maneiras se escapar: a fuga ou a morte.
O nosso dia-a-dia é bastante corriqueiro para quem vive em um hospício. Somos despertados pontualmente às cinco horas da madrugada, o banho é tão gélido que espanta qualquer vestígio de sono em nosso corpo, antes mesmo do café da manhã, se é que aquela gororoba pode ser chamada assim, um coquetel de remédios é nos servido, todos são obrigados a tomar, eu faço a máfia e escondo as cápsulas da loucura na minha vestimenta, afinal, como o próprio nome já diz são elas as responsáveis pela 'intensificação' da nossa maluquice (os loucos de verdade tomam placebo, e as pessoas normais tomam os remédios dos loucos, assim todos nos tornamos loucos e ficamos presos aqui). O almoço é servido ao meio dia, e o jantar aproximadamente as oito da noite. Com exceção das terças e quintas, o dia em que somos analisados por um psiquiatra, ficamos livres para realizar a tarefa que bem entendermos. Outra é exceção são os domingos, dia de visita, mas eles parecem tão vazio quanto os seus sucessores, ninguém parece querer visitar qualquer um de nós.
Faz algumas semanas que mudamos para esse prédio, bem no centro da cidade. É tudo tão diferente daquela fazenda macabra, não que as instalações aqui sejam melhores, ao menos não tenho que dividir o quarto com ninguém. Bom, esse não é o nosso abrigo permanente, pois as pessoas da cidade não se sentem muito a seguras quando estão rodeadas por malucos, vai entender, os que dividem um teto comigo são mais inofensivos do que aqueles que as mesmas convivem todos os dias na fila de um banco ou no trabalho. ‘Rotina’, como essa palavra me causa ojeriza, loucos são aqueles que realizam as mesmas tarefas todos os dias sem se cansar. É da janela do meu quarto que observo a vida delas se repetir dia após dia desde que nosso antigo lar pegou fogo. Até hoje não se sabe a causa do incêndio, apenas que foi intencional, todavia não há como encontrar um culpado sendo que o local abriga 90% de insanos. E isso me aliviou, não só por ter culpa no cartório, você já sabe que eu tenho, como também por ela não ter caído sobro os ombros de nenhum outro colega inocente.
Tudo está acontecendo conforme eu havia articulado; fomos transferidos para o primeiro prédio do Hospício Marshall, bem no coração da cidade, onde a frente está localizado o banco central. Vale ressaltar mais uma vez que ainda não enlouqueci por completo, apenas alguém que age como tal para usufruir de certas regalias, como as sessões de eletrochoque, que tanto me torturavam, cessaram logo após meu primeiro surto. Penso nisso tudo como um grande espetáculo, eu sou a estrela do show que dá o que publico quer, e os espectadores são os médicos e enfermeiros. Ultimamente tenho tido surtos ocasionais, como a vez que li o último lançamento de Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, e rasguei-o em pedacinhos tão pequenos que mais pareciam confetes. É uma péssima leitura, não recomendo.
Hoje sou o que consideram paciente exemplar, um equilíbrio perfeito entre auto controle e loucura, sendo assim não necessito de fiscalização 24h por dia, então sobra-me tempo para fiscalizar a vida alheia e articular a minha vingança. Logo a minha sede será sanada, e eles hão de pagar com a mesma moeda. Em pensar que tudo começou na infância quando aquela dama inofenciva cruzou o meu caminho.
Agora eu preciso me despedir e eu vou deixando um único alerta: Cuidado, caro confidente, o perigo pode morar na casa ao lado.
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