Sentimentos insanos
14 Ainda não é um capítulo novo
Notas iniciais
Quinta Feira,
24 de junho de 1953
Caro Confidente,
Todas as noites o passado vem me atormentar na forma de pesadelo, já não me recordo a última vez que tive uma noite satisfatória de sono, pois por pior que seja a minha atual realidade, ela não supera o martírio que da recordação dos bons tempos. Minha mãe costumava dizer que na equação da vida não importa o resultado, mas sim o que fizemos para chegar a ele... Hoje ela já não me diz nenhuma palavra, sequer tenho noticias da mulher que me deu a vida. Foi Claire Walters, a personificação do demônio, quem me lançou nas trevas e me aprisionou. Confiei em quem não devia, como em um jogo de pôquer, apostei todas as minhas fichas em uma mão ruim e acabei sem nada.
Por vezes eu desejei o fim, a morte nunca me pareceu algo ruim, pelo contrário, é a solução mais simples do mal que vivencio, contudo, não é a mais satisfatória. Vingança é tudo que mais almejo, só assim terei paz, matarei a minha sede com sangue.
Noite passada enquanto todos dormiam, eu ainda refletia, passo horas arquitetando tudo o que farei, nada pode fugir ao meu controle, foi então que ouvi duas vozes no corredor, aproximei-me para escutar melhor e a notícia não poderia ter sido pior:
– Em no máximo um mês estaremos prontos para testar o novo tratamento! – reconheci a voz entusiasmada do psiquiatra.
– Qual dos malucos será o primeiro? – perguntou um homem cuja voz não consegui identificar, contudo, imaginei que fosse algum dos enfermeiros.
– 397 e 401! – respondeu ele. Um aperto tão grande se fez em meu peito ao ouvir o número ‘401’ que quis arrancar meu coração com as mãos. Thomas. Ele é a minha luz em meio às trevas. A idéia do meu amigo passar por futuras torturas me corrói por dentro, procedimentos novos são tão agressivos que talvez ele não resista. Por mais que o homem possua um físico muito melhor do que o meu, está raquítico, o Thomas que vi no primeiro dia de internação já não vive mais dentro dele, apagaram o brilho da pessoa mais reluzente que já tive a oportunidade de conhecer. Nenhum outro mal atingirá o meu cúmplice, não enquanto houver ar nos meus pulmões, sabe por quê? Porque eu, 397, não permitirei que me atirem no escuro novamente. Pode parecer egoísta, mas não é, existem poucas pessoas com as quais me preocupo verdadeiramente, afirmo com o fundo do meu coração que não há dor física pior do que a emocional de vê-las penando, cheguei a um estágio da minha vida que já não me importo comigo. Já passei por tantas torturas nesse lugar que a idéia de passar por mais uma ou outra não me afeta, feridas externas são facilmente tratadas, quanto as da alma... Parece-me nobre sofrer no lugar daqueles que amo.
Contudo, voltemos um pouco no tempo...
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