Sentimentos em forma
1 Durante
Notas iniciais
— O corpo não é mais um corpo, mas sim, uma extensão da mente, e não o contrário, como todos nós achávamos. — Declara a pesquisadora de pele negra, enquanto remexia em seus cachos longos e soltos, armados num black power. Ela tinha flores nascendo em seu cabelo e pele, contudo, não parecia de incomodar, parecia até gostar. — Desde que a droga acidentalmente foi solta na população, apesar de todas as dores e incidências que tivemos de lutar, os índices de suicídio e violência diminuíram em quantidades absurdamente incríveis. Mesmo que não tenha sido intenção da nossa universidade ter feito algo do gênero, ficamos felizes com o resultado. — Sorriu a mulher, que estava com o braço envolvido na cintura de outra, que usava um jaleco idêntico ao seu. Ali havia o cheiro suave e a sensação de que estava tudo bem apesar do mundo estar caótico, e aquilo atravessava qualquer distância ou mecanismo.
Com os olhos tristonhos a outra cientista, de pele parda e traços fortes, que usava tecidos leves feitos de seda e coloridos numa diversidade de padrões hipnotizantes por baixo do jaleco, estava ao lado de sua parceira que até então estava conduzindo a entrevista. Sua aparência parecia como se tivesse linhas em vez de carne e pele, mas ainda com seus costumeiros traços humanos. Seus olhos eram profundos e mudavam de cor conforme falava. — Eu tive uma filha que se suicidou. Com esta droga, estamos podendo ajudar muito mais pessoas ao simplesmente vê-las. Foi um erro ótimo, ouso dizer.
— Não querendo ser insensível… — Começa a jornalista levemente angustiada, com gotas de suor escorrendo pelo seu rosto, gotas da cor bege de sua pele. — Falamos das vantagens. Porém, e quanto às desvantagens? Sobre algumas pessoas, a grande maioria da população, no começo, terem perdido o controle? O sofrimento dos familiares, e sobre todo o caos que gerou? Sobre… a instabilidade que se instalou no mundo e sem previsões de voltar ao estável, seguro?
— Ahn… — Murmumou insegura a negra, que agora apresentava tons de amarelo e cinza em sua pele escura. — Temos muitas perguntas, e sendo sincera, poucas respostas. Então… sobre a perda de controle, apesar de terrível, se for por em quadros…ahn, é tipo…previsível, sabe? Com todo o respeito e espero não estar ofendendo ninguém... — Nesse momento ela ficou transparente, apenas com as linhas definitivas de seu corpo, como uma arte minimalista. — Mas foi e está sendo uma mudança muito abrupta. Ninguém esperava isso, nem mesmo eu, a dona do projeto… — Ela engoliu em seco. — Portanto, é previsível ter choques, ter toda essa confusão, sabe? É tudo diferente do que estávamos acostumados. Não mexe só com a questão de aparência, — A mulher fez um gesto em frente do corpo, exemplificando o que queria dizer. — Mas com toda a nossa cultura e questões morais. Pois isso que estão vendo, tudo que sabíamos e lidávamos como verdade, mudou. Nós agora conseguimos enxergar a pessoa de verdade, seus sentimentos… e numa sociedade em que estávamos todos acostumados a esconder, é… um caos mesmo. Mas creio que isso terá muitos resultados positivos no futuro e estamos aprendendo a lidar com essa nova realidade. — Concluiu a entrevistada, suspirando e voltando a sua cor de origem. Seus cachos se mexiam como ondas em sua cabeça e uma flor nova nascia na ponta de sua orelha.
A jornalista assentiu e se remexeu um pouco, inquieta. Ela tomou fôlego e voltou o microfone as mulheres.
— Estamos recebendo muitas ligações, cartas, reclamações sobre a universidade, sobre a droga. Questões como: quem ficará com a responsabilidade do que está acontecendo? Como lidar com isto? O que acontecerá conosco agora e o que vai acontecer com aqueles que perderam o controle?
Foi a vez da dama com lenços coloridos e bordados suspirar, afagando o ombro da colega ao seu lado. Ela tinha um olhar preocupado e nuvens pairando sobre sua cabeça, nuvens acinzentadas e às vezes ela se engasgava com uma delas.
— Eu pegarei a responsabilidade, já a peguei.— Admitiu a intelectual de cachos, exausta. De repente, seus ombros pareceram encurvar-se para frente e serem de metais. — Não durmo direito desde que a droga vazou. Pesquiso 24 horas por dia um meio de controlar a população. Porém, todos os códigos genéticos mudaram, é algo totalmente novo… não há algo como uma vacina para controlar as emoções ou algo assim. Tudo que posso fazer é continuar pesquisando e divulgar as campanhas para todos frequentarem um psicólogo, psiquiatra ou psicanalista. Todos eles são de uma boa área e podem ser mais úteis do que eu nesta situação. Quanto a lidar com tudo isto… temos que manter a cabeça erguida e seguir em frente, ver pelo âmbito positivo... Tivemos vários avanços em doenças mentais em pouquíssimos dias, coisas que durariam anos para serem descobertos… tivemos denúncias e mais denúncias de bullying e violências domésticas, podemos facilmente achar estupradores e agressores, e prendê-los em definitivo sem toda a burocracia que apenas nos atrasava… algo ótimo no campo de indicador de qualidade de vida, não?
— Absolutamente… mas você sabe dizer o que acontecerá com as pessoas presas? Com as pessoas que perderam o controle e como evitar isto?
— Eu não sei dizer o que acontecerá daqui para frente, para ser honesta. Porém, posso dizer que trabalharei juntamente com a justiça para que tudo ocorra bem e justo para todos. Quanto a precaução, indicamos fortemente, como falei agora pouco, que procurem profissionais nos campos de saúde mental, temos vários na região e podemos orientar para alguns outros estados também… e aceitar que estamos todos assim, pelo menos por enquanto, e tentar ver o melhor proveito disso, por exemplo, como se expressar melhor e entender o outro, a ter empatia. Pois isso pode ser um grande desenvolvimento da nossa cultura.
A jornalista acena para elas, indicando que está tudo certo e conclui a filmagem. Assim que as câmeras saem para guardar seus equipamentos da chuva que se aproximava, ela chega perto para trocar mais algumas palavras.
— Eu quero dizer que acredito que as coisas vão melhorar.— Disse a repórter, meio nervosa, enquanto sua boca tremia levemente ao falar as últimas palavras.— Evitem ir pela avenida. Farão bem a vocês. Agora tenho de ir, tchau. Foi um prazer falar com vocês.— Suspirou, enquanto seu corpo era levado facilmente pelo vento até a van de sua empresa.
A parceira olhou para a sua colega, ambos os jalecos brancos bordados com o nome de sua universidade, suas vestes por baixo deste bem distintas, com seus olhos iguais nuvens que rodeavam todo o local.
— Deve ser mais um daqueles protestos. Realmente… não é bom ver.
— Eu tenho que ver, é minha culpa, afinal.— Choramingou tristonha a cientista, que tinha seu interior agora parecendo rabiscado de tinta. Em suas pupilas tinha as memórias de multidões morrendo por causa da droga que inventara. Pensar que tinha de passar por aquilo de novo e que merecia aquilo, cansava seu corpo. Suas costas completaram seu ombro de metal, transformando-se no mesmo material. Sua postura murchou e a mulher lhe deu um tapa. (Em seu braço, para não doer.)
— Ai! Por que fez isto?! — Indagou indignada, saindo de seu transe de auto culpa, enquanto olhava seu braço ficando levemente vermelho no lugar que fora atingido.
— Para você parar de se vitimizar.— Disse ela, com seus olhos duros feito pedra, mas suaves como biscoitos. A morena arregalou os olhos enquanto suas flores se desenroscavam de seus cachos.— Você está se pondo em uma situação difícil. É claro que você que inventou a droga. É claro que você sabia como seria se fosse injetado em um corpo humano. Mas foi você que vazou o experimento?! Você queria ver todo esse caos, por mais que tenha melhorado algumas áreas? Não. E não me interrompa com suas desculpas, ainda estou falando.— E não havia mais nenhuma nuvem em cima da cabeça da pesquisadora que falava, apenas sua determinação dura como aço mas mole ao toque de quem se importava.— E não me venha com essa de “ai, eu devia ter previsto isso.” porque você não tinha como prever isso, nem você, nem ninguém. Se pensar assim, nenhuma pesquisa científica seria feita. Agora, do que vai adiantar você se culpar? Vai fazer sua mente ficar melhor e achar uma solução? É claro que não. Apenas vai deixar você exausta fisicamente e emocionalmente; Vai apenas tirar sua motivação e energia para fazer as coisas. E se realmente se importa, o melhor jeito de fazer as coisas é dar a si um espaço para fazer as coisas bem feitas e não se culpar, não se deixar levar por estes sentimentos negativos.— Finalizou a amiga, olhando com ternura, que segurava seu braço com força, transmitindo todo aquele calor que emanava de si.
— Você tem razão...Obrigada por me falar isso.— Sorriu a moça, e quando agradeceu, flores brotaram de seus braços e expandiram suas sementes até o braço da amiga, que sorriu, fazendo aquelas plantas crescerem.
— Então vamos. — E se encaminharam juntas, descendo a rua. Porém, antes que ao menos pudessem chegar a sua cafeteria favorita, ouviram passos pesados e agressivos atrás de si. As duas, como medo nos olhos, com branco em suas faces, se olharam e engoliram em seco antes de olhar para trás.
Por mais que tivessem ruelas e policiais para impedir (Os policiais estavam ligeiramente divididos e alguns estavam com as cores da farda em sua pele, enquanto os mais indecisos estavam brancos ou amarelos.), dava para ver a multidão enfurecida e sangrenta.
— Assassina! — Gritou um homem, enquanto sentia facas rasgarem sua garganta, fazendo o cuspir sangue conforme gritava, mas seus olhos estavam cegos e nada parecia lhe afetar, apenas lhe dar mais ódio.
A pessoa ao seu lado, uma senhora — aquilo partiu o coração da cientista, ver alguém de muita idade, sangrando. — segurava um cartaz com as letras escorregando de tristeza e tremidas e queimadas pela raiva. No papel ainda dava para se ler “devolvam meu filho.” Porém, instantes depois as letras se apagaram, mas a idosa apenas escreveu de novo, enquanto lágrimas desciam queimando por seu rosto.
A mulher tornou-se preta e turva. Ela poderia se espalhar pela cidade com o estado em que se encontrava, sentindo as emoções desastrosas tomarem seu corpo, sentindo apenas as lágrimas inconscientes que saíam de seus olhos como pequenos vidros. Mas antes que pudesse perder o controle, sentiu uma mão lhe procurar e segurar firmemente seu braço, antes que se levasse.
O calor da mulher forte ao seu lado atravessou seus pensamentos turbulentos, as boas memórias das duas mulheres rindo, da alegria que sentia em sua companhia e seus planos para o futuro. Quando se localizou novamente, estava branca como papel, ouvindo a multidão e os gritos dos policiais para elas se distanciarem. Sua amiga estava segurando seu braço com força e preocupação no olhar, mas ainda estava lá as flores que germinaram em si. Respirando fundo, a pesquisadora deu um passo para frente, se dirigindo a multidão, enquanto recuperava suas cores.
— Vocês tem ideia do que estão fazendo? — Indagou a mulher negra, elevando sua voz, enquanto os protestantes aos poucos se moviam lentamente, perplexos momentaneamente por alguém se dirigir a eles que pareciam um tanque de guerra desgovernado. Porém, suas línguas ainda estavam afiadas e poderiam a qualquer minuto serem atiradas, portanto a cientista respirou fundo mais uma vez, lembrando-se de suas motivações de estar ali em pé hoje. — Estão atacando e machucando a si mesmos. Eu sei que não sou inocente. Sei que indiretamente tirei muitas vidas de entes queridos a vocês. Mas sei que vocês estão se perdendo iguais eles.
E a multidão gritou. Alguém atirou uma pedra que bateu na cabeça da estudante, que não se moveu do lugar. A segunda mão que segurava um pedaço de madeira, abaixou, ao ver que sangue escorria da testa do alvo, mas nascia apenas flores do novo machucado. Os policiais procuravam quem estava com itens perigosos, porém alguns também estavam estáticos ao verem a transformação ocorrer.
— E exatamente por ter presenciado inúmeros caso assim, vendo inúmeras pessoas morrendo por minha criação, sei como são as etapas para se perderem com essas emoções. Sei muito bem. — Enfatizou a estudante, enquanto se aproximava ainda mais, vendo com o canto do olho sua amiga estar parada ali, com orgulho nos olhos, fazendo uma grande girassol nascer em seus cabelos morenos. — Primeira etapa: desespero. Vocês não sabem o que fazer e tomam qualquer decisão que aparecer em sua frente para não se sentirem impotentes. Segunda: raiva. Vocês tem raiva do que está acontecendo, raiva de não saber o que vai acontecer, e raiva do que já aconteceu. Esta raiva acontece em todos os momentos de nossa vida nesse país caótico em que vivemos, mas dessa vez temos uma pessoa a quem culpar. Eu, prazer. Porém, me culpar não não vai mudar o que aconteceu. Me matar não vai fazer a vida rebobinar. Me matar, me agredir e me humilhar vão apenas diminuir suas chances de a vida voltar ao normal. Eu sou uma pesquisadora, a mestra que liderou esta pesquisa, e ao me matar, você está matando o cérebro que inventou esta droga e o mais provável cérebro que poderá inventar um antídoto.— A negra olhou nos olhos de cada um da multidão que lhe encarava, absorvendo suas palavras, mas ainda não convencidos.
— Mesmo que você nos diga isso… — Começou uma moça, que chorava e apertava seus próprios braços, enquanto o interior dentro de si se agitava como um mar violento. — Ainda assim, o que devemos fazer com todo esse sofrimento?...
Algumas pessoas em volta, gritaram em concordância, mas pararam ao ver a universitária abrir a boca novamente.
— Espero que me perdoe. — Disse ela, e alguns mudaram de cor, preparados para contestar, porém, ela continuou rapidamente. — Ou se não puder fazer isto, que siga sua vida. Pois estarei fazendo meu melhor para conseguir perdão, ou ao menos, que vocês consigam sair dessa enorme confusão de sentimentos negativos que apoderaram de si. Que sigam suas vidas e não parem ela por me odiar. Porque isto seria a melhor vingança que poderiam fazer contra mim.
Eles pararam, inquietos. Alguns paravam de sangrar e suas feridas se curavam aos poucos. Algumas pessoas iam saindo da multidão e indo para qualquer outro lugar. A idosa olhava com raiva para a sábia negra, mas suas mãos tremiam e seu rosto logo se condensou em lágrimas, fazendo sua cabeça parecer um aquário. Logo, os policiais, começaram a se mover e a espalhar as pessoas para saírem da rua.
Quando a cientista viu todos irem embora, alguns olhando para trás apenas para dar uma última encarada a ela, deu meia volta e se juntou a sua parceira, que a olhava com uma alegria que irradiava de si.
— Você foi muito corajosa, garota! — Sorriu a mulher, enquanto a puxava para um abraço e regressavam a seu caminho para a cafetaria, para uma merecida bebida quente.
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