Sentimentos em forma
2 Após
Notas iniciais
— EU DISSE QUE NÃO! — Gritou a pesquisadora negra, furiosa, enquanto encarava aquelas telas de computadores que mostravam dados em linhas que acendiam e diminuíam,um emaranhado de fios que se cruzavam em suas cores neons, linhas concretas que seguiam seu rumo, em comparação com seu próprio corpo, que queimava, rastros de lava passando por sua pele, braços e rosto, queimando em volta de seus lábios laranjas efervescentes.
— É tarde demais. — Respondeu arrogantemente um homem ali ao lado, parado, enquanto limpava a poeira de seus ombros elegantemente vestido num terno. Ele tinha um olhar de quem ignorava a tudo e a todos e sua pele simplesmente não parecia humana. — O antídoto já foi distribuído e em breve a população será livre dessa desastrosa experiência que você criou.
A mulher pôs-se de pé, e o encarou; O homem teve de se afastar a contragosto daquele rosto, que queimava ao estar perto de si, que o parecia puxar para queimar tudo que ele representava.
— Então assuma a responsabilidade. — A formanda respondeu, enquanto apertava um botão no teclado e ele ouvia sua voz novamente, gravada e sendo repetida... “O antídoto já foi distribuído e em breve a população será livre dessa desastrosa experiência que…”
O magnata tossiu, tentando se recompor. Mas ao tossir, apenas cuspiu grãos de suor que estava tentando esconder, grãos duros e roxos, como uma prova de seu corpo nervoso. A cientista sorriu cinicamente enquanto se virava e arrumava sua maleta de trabalho às pressas, pegando tudo que ainda julgava importante.
— Não vejo nenhum problema nisso. — Disse o homem, tentando se recompor. — Não tenho nada a esconder do público.
— Ótimo. Pois eu estou fora daqui. Não tem como eu trabalhar com alguém tão imoral quanto o senhor. Só mesmo alguém com sentimentos tão negativos e tanta coisa a esconder gostaria de uma solução igual esta. Me pergunto quantas drogas você injetou em si mesmo antes de estar até mesmo pronto, só para esconder seu verdadeiro caráter. — Pressionou a mulher, enquanto o corpo do homem ficava numa escala de vermelho, dos mais variados tons. — Mas não se preocupe, porque não quero saber. Apenas resolva o que vier pela frente.
E assim, ela saiu pela porta, onde desapareceu pelos anos seguintes, assim como sua colega.
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A mesma jornalista de alguns anos atrás estava com sua aparência humana, porém limpava constantemente seu rosto com uma toalha, tirando aquela gosma que aparecia quando pensava no seu emprego. Suspirou raivosa quando teve que limpar pela quinta vez, porém isso apenas a fez se sujar mais.
— Mas que droga! — Amaldiçoou, enquanto esperava o convidado aparecer. Quando a estagiária lhe entregou um copo de água, ela sorriu e ia agradecer, mas parou quando pensou que sua aparência deveria ser medonha. — Sabe...Você está feliz trabalhando aqui?
A repórter não soube a expressão que sua colega fez, pois fora chamada antes de conseguir ouvir a resposta. Suspirando novamente, ela deu a volta e saiu da van, encontrando o vento a lhe bater no rosto e se perguntando como as outras pessoas viviam.
Mas se ela tivesse esperado mais um pouco, só mais um instante, veria que sua colega ficou metade branca e metade preta, com os olhos arregalados, dividida em suas crenças.
O cientista convidado estava a sua frente, com um terno vermelho — era vermelho antes? — e parecia incomodado com essa cor, que parecia espalhar por sua pele, porém parou suas ações no momento que viu a jornalista chegar ao local.
— Boa tarde, senhorita. — Sorriu ele, fazendo as cores vermelhas retrocederem e voltarem a sua cor cinza habitual de sua vestimenta.
A jornalista o olhou, e ficou o encarando por alguns momentos, o que fez seu convidado se sentir desconfortável, embora ele não demonstrasse.
— Boa tarde. — Cumprimentou de volta, embora ela não se forçasse a sorrir. Gesticulou para que as tomadas fossem iniciadas e após ver as luzes se acendendo, começou sua entrevista.
— Estamos aqui com o cientista que fez a descoberta do antídoto. — Iniciou a mulher. Ela olhou no papel em sua mão, cruzou os braços e voltou a olhar pro rosto do homem. — Há tantas controvérsias por trás dessa invenção, porém vamos começar pelos mais comentados, que os gráficos de violência, bullying, aumentaram muito assim que ela fora distribuída. Também temos que citar que o gráfico de conforto com a vida diminuíram depois de tantos esforços e demandas públicos foram gastos após o vazamento da droga anos atrás. O que o senhor acha, tem para nos dizer sobre o assunto? — Disse ela, com sua voz formal.
— Bem, apesar destes quadros serem realidade e termos realmente tido estas questões, quero salientar que isto é uma tentativa de amenizar o caos deixado pela cientista anterior. — Respondeu o homem, sem parecer se abalar, sorrindo.
— O senhor acha que está sendo uma boa tentativa? Nossos telespectadores estão enviando mais cartas reclamando agora do que antes do vazamento—
— Vazar? Escolha interessante de palavras, minha cara. Pois de acordo com a entrevista que você mesma dera há anos, me pareceu que a cientista estava feliz com o resultado…— Interrompeu, já não conseguindo ignorar o uso constante da palavra.
— Estou falando apenas o que consta nas documentações oficiais. E...— A jornalista sabia que devia parar por aqui e continuar com suas perguntas pré-definidas pelo programa, mas a gosma parecia cobrir toda sua face, seu corpo, por dentro e por fora. Estava difícil respirar. Numa tentativa de ar, de sair de seu sufocamento, ela arriscou as próximas palavras, que poderiam muito bem acabar com sua carreira. — Esta é somente minha opinião, mas como eu que a estava entrevistando, de perto, eu senti uma preocupação genuína nos olhos das cientistas.
— Como pode saber se ela estava sendo sincera, cara repórter? Pois sendo ela a inventora daquela criação, ela poderia muito bem ter uma amostra de antídoto em suas mãos antes e passar por um papel que não condiz com ela…— Rebateu cinicamente o homem com um sorriso presunçoso e carismático no rosto.
— Então o senhor acha que a droga que causou tanto sofrimento, tanto barulho, e uma pessoa, a cientista do projeto no caso, conseguiu esconder o antídoto mesmo sendo profundamente investigada? Só mais uma pergunta, não pude deixar de reparar, o senhor disse “um papel que não condiz com ela”, certo? O senhor já a conhecia antes? — Continuou a jornalista, sentindo-se estranhamente energética, como se uma lufada de ar finalmente decidisse entrar em seus pulmões após tanto tempo.
O homem a encarou, com olhos distantes e frios. A mulher continuou sustentando o olhar, e sentia que quanto mais tempo o magnata a olhava, mais sua gosma caia de seu corpo e a deixava mais livre. Que o silêncio entre os dois, o silêncio entre a escolha cuidadosa de palavras, a preenchia com mais certeza, a deixava pensar melhor e lembrar das cientistas que há anos entrevistara, e do calor delas emanando, a pura gentileza, e sua genuína culpa. Essa sensação não podia ser apagada, por mais sufocada que ela estivesse.
— Tive a oportunidade há tempos de conhecer a cientista líder desse, se podemos até mesmo considerar isso, de projeto. Porém, creio que isso foge da questão. E, — O magnata respirou mais um pouco do ar, e seus olhos ficaram mais brilhantes. — se me permite perguntar, cara jornalista, a senhorita no começo da entrevista, comentou sobre a reação dos telespectadores, correto? — Ele não esperou uma resposta. — Mas qual sua opinião sobre o assunto?
A mulher o olhou, com pena e um tanto de raiva. Ela sabia que era de propósito, os jornalistas não eram contratados para dar opiniões, e uma pessoa rica e pública com certeza sabia bem disso, então tudo indicava que era uma jogada. Ela sabia que não podia recusar a pergunta, e muito menos responder abertamente.
Mas agora ela conseguia respirar.
— Eu acredito que uma liberação de um antídoto deveria ser usada somente em casos extremos como perda de controle, e com a permissão do cidadão, tendo em vista o quão bem as estatísticas de melhoria e condições de vida aumentaram após o controle do pânico da população. Usar o antídoto, em todos, seria como voltar a esconder os problemas que enfrentamos há séculos.
Todos da equipe televisa seguraram o ar dentro de si, temerosos e surpresos. Ouvia-se objetos sendo derrubados, de mãos estáticas, paradas, esperando a reação do convidado.
Este que tinha sangue subindo por seu pescoço.
—...Era de se esperar que uma suja como você fosse pensar assim. — Disse o homem após longos minutos de silêncio.
Não, ainda não era permitido respirar, embora suspiros e exclamações fossem soltas. A repórter piscou, aturdida, e seu microfone pendeu para um lado. Mas ele logo se endireitou.
— Bom, temos aqui uma clara ofensa vinda do cientista que desde que assumira a direção no laboratório, e com a decisão recente de aplicar o antídoto a contragosto da população, vem fazendo aumentar rapidamente os casos de preconceito que estavam consideravelmente baixos.— Respondeu a mulher, falando rápido, para que sua coragem e impulso desse conta de dizer o que guardava dentro de si. O ar parecia circular dentro de seu corpo, e não havia mais nenhum rastro de gosma, apenas uma queimação, um fogo que passava dentro de si, mas não a queimava. — Observando a postura que ele está indicando ao vivo, não é de se espantar que o bullying tenha aumentado significativamente desde sua liderança, e mesmo com vários programas de combate, sabemos que ao ter alguém no poder com esse tipo de atitude só serve para agredir as pessoas sinceras, ou como ele considera, sujas.
— O que raios você pensa que está fa—
— O senhor injustamente aplicou esta vacina na população, dizendo ser para o bem de todos. Não houve testes o suficiente e desequilibrou a balança que foi corrigida há anos. A vida estava estável e por uma escolha unicamente sua, levou a muitos sofrerem inutilmente em suas mãos. — Agora era a vez da mulher interromper. Ela imaginava quantos espectadores a assistiam naquele exato momento e como as cientistas reagiriam a isso. — Sim, eu sou uma pessoa que escolheu ser sincera e está cansada dessas barreiras que escondem o que sentimos e o que pensamos, um problema em restrição de sentimentos que havia acabado com aquela droga. Se é por isso que está me acusando, então sim. Se vai me incriminar por isto, saberemos que tipo de pessoa você é. Ah, e eu me demitirei caso não houver apoio da empresa. Se eu sumir, sabem o que aconteceu comigo.
E a jornalista saiu, sentindo o calor dentro si a incendiar e a aquecendo, e transmitindo esse fogo para todas as pessoas que a assistiam, mesmo não sabendo disso. Nesse momento, é como se ela tivesse asas.
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