Sentimentos Repreendidos
1 Capítulo 1 - O Sofrimento de Capricórnio
Notas iniciais
– Até quando terei de suportar essa dor? Tantos anos já se passaram e eu ainda acordo todos os dias como se eu tivesse cortado meu próprio coração...
Shura ainda encontrava-se com os olhos pesados, recém despertados do sono. Um dos braços estava sobre sua testa e o mesmo pensamento de todos os dias corria sobre sua mente: Aiolos... Será que você me perdoaria?
– Será? Será que você me perdoaria? Eu fui enganado... No fundo eu sinto que deveria ter te ouvido, ter te dado uma chance de explicar... Eu sinto tanto... Fiquei fora de controle ao ouvir os gritos do Grande Mestre: “TRAIDOR!!! TRAIDOR!!! MATE AIOLOS!!!”... A única coisa que eu sentia era fúria, eu mesmo me senti traído, senti que você me usava para que eu não desconfiasse de nada... Mas no final era você quem tentava salvar Athena e não eu...
Uma pequena lágrima ameaçou escorrer de seu rosto, mas depois de tantos anos, hoje o espanhol já controlava sua tristeza matinal.
O cavaleiro finalmente resolve se levantar e vai em direção ao banheiro. Passa água no rosto para despertar totalmente e vestir sua armadura. Ao olhar pela janela, logo avista o rapaz que diariamente parecia persegui-lo com o olhar de uma fera. Shura já não mais se importava, era algo tão constante que já estava acostumado. Parecia que aquele rapaz levantava ao mesmo horário justamente para que isso acontecesse, para que o espanhol soubesse que mesmo após anos, ainda não havia sido perdoado.
– É impressionante... — abre um pequeno sorriso — Ele está ficando cada vez mais parecido com você. Desse jeito fica impossível esquece-lo. – E continuou a se ajeitar.
Depois de arrumado, começa a descer as escadas das casas e ia em direção á base de treino do Santuário. Passando pela primeira casa em seu caminho, a de Sagitário, ficou surpreso ao notar que a casa não encontrava-se vazia como de costume. Logo reconheceu o cosmo, pertencia ao mesmo rapaz de minutos atrás. Um rapaz alto de cabelos curtos e dourados estava sentado em um banquinho, em um canto da casa totalmente vazia. Em seus braços estava um buquê de flores. Shura foi em sua direção e questionou:
– Aiolia? O que faz aqui, que perda de tempo ficar olhando para um monte de pedra.
– Hm.. Quem escuta você dizendo isso não acreditaria que um dia vocês dois não se desgrudavam. — Shura ficou em silêncio, mas sua expressão de quem não entendia ficou clara.
– Eu não sou idiota, hoje eu entendo a relação que vocês tinham. Mas fiquei surpreso em ver que você esqueceu. Hoje é aniversário de meu irmão... Estou aqui prestando a homenagem que repito em todos os anos, então, por favor, retire-se daqui a respeite a alma daquele que você traiu. Só estou aqui sozinho, sentado em um banco “olhando para as paredes” porque VOCÊ tirou meu irmão desse Mundo. — Espantado com as palavras de Aiolia, Shura se vira e continua o caminho que havia iniciado antes, porém com passos mais rápidos e com as mãos fechadas com força. A única coisa que o espanhol queria era sumir.
Passando pela casa seguinte, Milo encontrava-se tomando café. Ao ver o passo firme do espanhol e sem poder conter sua boca de gamela, Milo mais do que depressa começou a falar. — Shura!!! Bom dia. Aonde vai com esse pique todo? Cuidado pra não perder o pé nessas escadas velhas e acabar se machucando a toa, seria uma vergonha para um Cavaleiro de Ouro se ferir por ess... — Milo é interrompido no meio de seu discurso pelo espanhol que encontrava-se no limite de sua paciência. — Milo, por favor... Não estou com cabeça para ouvir papo furado agora. – E seguiu seu caminho sentindo-se arrependido por suas palavras, mas não voltou atrás. Na verdade o Escorpião nem se importara com a frieza de Shura, afinal estava acostumado com as atitudes frias de Kamus.
A casa de Libra continuava vazia como sempre, e para a felicidade do espanhol, a de Virgem também não tinha seu morador presente. Passou pela casa de Leão, que por motivos óbvios também se encontrava vazia e a partir dela resolveu cortar o caminho por um atalho e evitar possíveis encontros nas casas seguintes.
Não queria mais ir ao campo de treinos, Shura resolveu buscar refugio em um dos bosques que se encontrava no Santuário. A cabeça do espanhol parecia querer explodir a qualquer momento... Raiva, tristeza e desespero pareciam estar em confronto. O olhar de raiva de Aiolia e o olhar de desprezo vindas da mesma pessoa não saiam de sua mente. Sentia que por trás daqueles olhos verdes estavam também os sentimentos de Aiolos... Seria isso mesmo que Aiolos estaria sentindo por ele?
Shura sentou-se sobre a sombra de uma árvore, retirou o elmo e escorou a cabeça no tronco da mesma. Ficou lá por alguns minutos tentando se acalmar. Queria poder desabafar com Aiolia, falar o que aconteceu, o que sentia. Queria deixar claro que não se orgulhava do que fez, queria dizer que no fundo não tinha a intenção de mata-lo, que sua intenção era apenas ferir o Cavaleiro de Sagitário e esperar que ele fugisse... Mas não foi isso o que aconteceu.
Antes o espanhol sentia-se mal por ser o culpado pela morte de seu namorado, mas os sentimentos de culpa sempre diminuíam ao lembrar que o que fizera era sua obrigação... Porém, agora Shura sabe que foi outra vitima de Saga, que sua confiança foi usada para seus planos maléficos e não por Aiolos... E aquilo o machucava tanto.
Shura começou a pensar em Aiolia. Naquele olhar de raiva que enfrentava durante todas as manhãs. — O que será que passa na cabeça desse menino? Perdeu o irmão quando era tão pequeno... Por minha culpa ele cresceu sozinho, sendo apontado como o irmão de um traidor... Nunca fui até ele lhe dar um abraço, consola-lo... Não que ele fosse aceitar, afinal ele deixou claro o quanto me odiava ao saber que minhas mãos eram as culpadas da morte de Aiolos. Mas mesmo assim, durante todos esses anos eu nunca pedi desculpas, mesmo depois de saber a verdade.
Tantas coisas passavam pela cabeça do espanhol, tantas lembranças... Até que uma lembrança extremamente recente veio como uma bomba em sua mente, e em seus pensamentos Shura lembrou do que Aiolia lhe disse na casa de Sagitário.
– O que foi mesmo que Aiolia disse? “Quem escuta você dizendo isso não acreditaria que um dia vocês dois não se desgrudavam [...] hoje eu entendo a relação que vocês tinham.” Foi isso o que ele disse! — Seu rosto envermelhou, sendo tomado pela vergonha.
– É verdade.. Aiolia cresceu muito nesse tempo, deixou de ser aquele garotinho. Aiolia é esperto, não sei porque nunca pensei nisso. Hoje ele deve ter noção da relação que eu mantinha com Aiolos, afinal ele sempre esteve conosco. Que vergonha... Já não basta o sentimento de dor que ele guarda por eu ter acabado com a vida de seu irmão, ainda convive com essas lembranças... De quando eu estava com Aiolos.
Por um momento, Shura pode finalmente sentir-se bem apesar das circunstancias que o dia estava lhe fornecendo. Shura começou a lembrar dos momentos em que estava com Aiolos. Após a morte de Sagitário, Shura só conseguia pensar naquele ultimo momento, mas agora Shura conseguia lembrar-se dos momentos bons, apesar de tudo.
O espanhol fechou os olhos e sentiu uma leveza tomar o seu corpo. Lembrou-se de quando Aiolos o ajudava nos treinamentos, do quanto ambos se esforçavam e se ajudavam... Eles eram realmente a dupla de melhores amigos no Santuário, sempre estavam juntos. Lembrou-se de como começaram a se apaixonar, do quanto era estranho aquele sentimento de gostar de outro garoto.
Lembrou-se dos primeiros toques discretos que recebia do Aiolos durante os treinos. Sendo ele de origem Grega, Aiolos gostava de praticar golpes da luta greco-romana contra o espanhol, que com o tempo começou a notar que Aiolos sempre tinha outras intenções no desenrolar dos golpes. E foi no meio de um desses treinos que o grego lhe roubou o primeiro beijo.
Shura ria sozinho lembrando-se de como o primeiro beijo aconteceu, do quanto ele foi confuso para os dois. Aiolos aplicara um golpe que o deixou totalmente imobilizado no chão, e foi nessa oportunidade que tudo aconteceu.
– Lembro-me de que tentei tirar Aiolos de cima de mim, mas Aiolos evitou qualquer tentativa de fuga, afinal além de mais velho era mais forte do que eu. – Shura falava consigo mesmo.
Com o tempo os empurrões foram diminuindo e passou a ser um beijo quente e macio para ambos. As mãos usadas para empurrar um ao outro durante o ato passaram a ser mãos que buscavam acariciar a pele do outro. Depois disso, a troca de carinhos ficou muito mais frequente e sempre que o grego notava que os demais estavam prestando atenção em outra coisa, o mesmo roubada um beijo rápido do espanhol. Pensando nisso, um estalo veio em sua mente. — Aiolia deve ter notado alguns desses momentos, afinal estava sempre junto! Na época ele não devia entender, mas hoje...
Shura voltou a realidade e passou uma das mãos sobre o rosto.
– Pobre Aiolia, deve ter sofrido tanto durante esses anos tentando entender o porquê de eu ter tirado a vida de Aiolos, mesmo sendo meu amante... E sofreu sempre sozinho...
Shura resolveu levantar e aproveitando que estava no bosque, passou a dar passos leves em busca de algumas flores. Montou um pequeno buque com as mais belas flores que encontrou e voltou em direção as Doze Casas. Dessa vez Shura não encontrou Milo em sua casa e pensou: — Hm, deve estar enchendo os ouvidos de Kamus de linguiça.
Chegando finalmente na casa que queria, Shura entrou e viu o buque no chão, porém Aiolia não estava mais presente. Resolveu sentar-se e colocou o buque que fez próximo ao do leonino e ficou, sem perceber, na mesma posição que o leão se encontrava antes: olhando as paredes. Estava tão concentrado que nem notou que estava sendo observado. Aiolia estava em outra parte da casa e observava o cavaleiro de Capricórnio de longe.
Shura estava cabisbaixo. Ainda repleto de pensamentos, até que não pode mais se controlar e começou a chorar. A única coisa que pensava é que se não fosse por ele, ainda estaria com Aiolos, ainda poderia conversar e tocar naquele grego que além de amigo era seu querido amante.
– Como pude ser tão estupido? Como pude não parar um segundo que fosse para lhe ouvir? Eu estava cego, agi sem pensar em momento algum. Poderíamos estar juntos agora, comemorando seu aniversário, te amando... Você mal me atacou, mesmo sabendo da minha intenção de mata-lo... — Shura ainda estava sentado, mas fez um movimento como se quisesse abraçar o próprio estomago. — Eu sinto tanto, Aiolos... Sinto tanto a sua falta, me perdoe...
Aiolia já não conseguia mais ver aquela cena. O que era aquilo? O cavaleiros que só abria a boca para dizer o quanto era fiel a Athena estava... CHORANDO!!!? O jovem leão não pode mais se conter. Não entendia. O porquê daquilo? Aiolia já tinha noção de que eles eram amantes quando jovens... Mas Shura o matou! Shura lhe tirou a vida! E pior, se orgulhava disso!!! Porque ele estava chorando agora? Por quê?
Aiolia então decidiu ir em direção a Shura, seu coração parecia que ia explodir de raiva vendo aquela cena toda. — Você não deveria estar aqui. Já tinha dito isso antes e agora encontro você nesse estado? Isso é lamentável... Isso é inaceitável!!! – Descontrolado pela raiva, Aiolia desferiu um chute em Shura, que derrubou-o do banco.
Shura que já tinha os olhos naturalmente pequenos ficou tão espantado em ver que não estava sozinho que agora seus olhos pareciam ainda menores. Pouco se importou com o chute, sentia-se envergonhado por ter sido pego totalmente desprevenido.
[Continua...]
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