Sentimentos Ocultos
1 Sentimentos Ocultos - Capítulo 1
Notas iniciais
Bem... Espero que leiam, gostem e comentem!
Kisu!
- Ushio-chan
Shion estava encolhido na cama, os olhos vermelhos encobertos pelas pálpebras e os cílios brancos e delicados refletiam a pouca e amarelada iluminação da imensa biblioteca subterrânea que dividia com Nezumi. Um longo suspiro denunciou seu envolvimento no sono profundo. Seu corpo se remexeu sob o cobertor fino e um sorrisinho surgiu em seu rosto.
Nezumi, por outro lado, estava perfeitamente acordado, observando o sono de Shion. Estava acomodado no velho sofá verde e já desgastado pelos anos de uso, provavelmente iniciados por algum cidadão de Number-Six que obtivera um sofá novo e se desfizera daquele. A seu lado, jogado em um ângulo desajeitado no assento macio, um livro de capa dura azul cujas letras do título, outrora douradas, estavam demasiado desgastadas para serem legíveis. Obviamente, a julgar pelo fato de estar aberto e com as páginas meio amassadas pelo sofá, havia sido abandonado por seu leitor, que estava mais concentrado em observar o que dormia.
Gostaria de ser mais corajoso. Nezumi era capaz de convencer Shion de sua coragem, mas apenas por ser um bom ator. Ou talvez ele fosse covarde apenas com relação a Shion, o único a quem dava permissão de tocá-lo em pontos vitais; o único que se permitia amar. Sempre fora covarde quando se tratava de seus sentimentos, pois se obrigara a parar de senti-los quase completamente. Acima de tudo, entretanto, o que ele mais queria era que seu ursinho polar fosse mais corajoso. Nezumi não era burro, ele via como o garoto o observava. De fato, no começo, confundira aquela expressão do pequeno com admiração, mas aquilo era terno demais, gentil demais para ser apenas isso. Nunca conhecera o sentimento, mas sabia que era amor. Sabia que o ursinho polar o amava porque sabia perfeitamente como ele próprio olhava para Shion. Seu Shion... Seu ursinho polar.
Nezumi moveu-se rapidamente para ficar ao lado do menino adormecido. Deitou-se na cama e abraçou Shion, que suspirou calmamente, como que aprovando o gesto do maior.
- Nezumi... – Sussurrou. Um sorriso surgiu nos lábios do moreno. Shion sonhava com ele. Os dedos quentes do menos se entrelaçaram aos dele e foi a vez de Nezumi suspirar, abraçando o pequeno com ainda mais força e carinho, deitando seu rosto sobre o dele e sentindo os cabelos brancos acariciarem seu rosto.
Fechou os olhos, mas não foi capaz de dormir. Queria que Shion acordasse e suspirasse seu nome, desta vez olhando em seus olhos. Queria que o ursinho polar o beijasse novamente. Não queria ter que conseguir aquela coragem e fazer tudo por conta própria, queria que Shion o fizesse.
Com mais um suspiro, o pequeno se virou para ele, bocejando e surpreendendo-se ao encontrar Nezumi tão próximo de si e ainda mais ao constatar que ele o abraçava e o observava suavemente.
- Nezumi? – Sussurrou em um tom um pouco mais desperto.
- Olá. – Respondeu Nezumi. Ele tinha esperanças de ser recebido pelo outro de uma forma um pouco mais romântica. – Dormiu bem?
- Sim. Por que está me abraçando? – O jeito inocente como a voz de Shion soou foi capaz de enfurecer Nezumi até o ponto em que se sentia culpado. Como ele não entendia? Shion o amava também, certo? Ele sabia que sim. Era capaz de ler aquilo em seus olhos. O ursinho o amava, ele tinha certeza... Não tinha?
Não tinha. Ele queria que Shion o amasse, de fato. Será que seu desejo o estava fazendo ver o que não estava lá? Será que os sentimentos que o pequeno nutria por ele eram apenas os de um amigo? Nezumi jamais seria capaz de continuar a viver sem o amor de Shion. E se ele não o amasse? Ou pior; e se amasse outra pessoa? Seria insuportável ver seu ursinho polar na companhia de outro.
E quem seria este outro? De quem Nezumi estava com ciúmes? Seria Safu? Shion de fato havia considerado a hipótese de “dar seu esperma” à menina, não havia? Mas... Será que mesmo depois da morte da menina ele continuava apaixonado? Que besteira! É claro que estaria! Durante os instantes nos quais Shion estivera morto, Nezumi se sentira miserável e soubera que se sentiria miserável pelo resto de sua miserável existência, a qual ele torcia que durasse não mais que alguns segundos — segundos durante os quais ele apenas mergulharia em sua própria miséria e choraria por Shion -. Se afogaria em sua própria dor, deixando pela primeira vez em muito tempo que seus sentimentos o dominassem, pois aquele sentimento em especial tinha o direito de prevalecer. A dor tinha o direito de tomar conta quando vinha tão intensamente. Não havia sido apenas um nó na garganta que causara as lágrimas de Nezumi naquele dia. Era uma sensação de frio, de congelamento interno, da dor de ter sua alma arrancada de si junto com Shion. Sentira seu corpo inteiro queimar em chamas frias, que jamais seriam apaziguadas pelo tempo e tampouco por suas inacabáveis lágrimas, ou mesmo pelos soluços. A figura de linguagem “coração partido” deixara de ser apenas uma figura de linguagem e se tornara real quando Nezumi sentira as chamas arderem até congelarem seu coração, esmigalhando-o lentamente. Naquele momento, Nezumi desejara ardentemente que a morte viesse logo para dar fim a seu sofrimento, para que ele pudesse encontrar seu ursinho polar. A ressurreição de Shion havia sido um milagre.
E naquele momento Nezumi constatou que seu único amor estava apaixonado por outra pessoa. E não apenas outra pessoa; ela uma garota. E isso tornava impossível que o garoto retribuísse seus sentimentos.
- Fiquei com frio. – Mentiu por fim. Mentiu de uma forma tão cruel consigo mesmo que, mesmo que sua voz soasse convincentemente indiferente, não foi capaz de conter aquelas chamas frias que novamente se apossaram de seu corpo. Mas conteve as lágrimas e a cara de choro. Mesmo que seu coração estivesse congelado e que sua alma queimasse, fazendo-o tremer e suar ao mesmo tempo, Nezumi não mais podia dar-se ao luxo de demonstrar seus sentimentos por Shion. Assim, ele se conteve. O que menos esperava, no entanto, era a expressão preocupada do pequeno diante de seu estado físico; encharcado de suor e tendo calafrios. O garoto levou uma das mãos geladas à face direita de Nezumi, assustando-se de leve e se retraindo ao tocá-lo.
- Acho que você está com febre. Vou buscar um pano e água fria. – Disse Shion, começando a se levantar e a se soltar dos braços do mais velho. O garoto estava realmente assustado com a temperatura de Nezumi. A pele do moreno sempre parecera quente a seu toque, quente a ponto de derretê-lo, mas aquela temperatura era excessiva. Ele parecia ferver, queimar. E os calafrios não o deixavam mais calmo.
- Não precisa. Eu estou bem. – Gemeu Nezumi.
- Ao menos durma na cama hoje, eu fico no sofá. A falta de sono deve estar te fazendo mal. – Disse. É claro que estava fazendo mal! Porque Nezumi não era amado por quem amava! Ele só queria explodir ali mesmo, gritar para Shion tudo o que sentia por ele, tudo o que sentiu quando achou que o tivesse perdido para sempre e o quanto o magoava que ele não visse isso.
Mas apesar de seu tom preocupado, era óbvio que Shion não entendia. Jamais entenderia os sentimentos de Nezumi.
O garoto dos ratos suspirou longamente e se levantou, soltando o corpo de seu ursinho polar.
- Vou tomar um banho para ver se passa. – Disse enquanto se encaminhava para o banheiro.
Notas finais
Arigatō!
Bem, kisus! Amo vocês que um dia haverão de ler esta história.
- Ushio-chan.
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