Sentimentos Ao Contrário
10 Vou te proteger
A tarde passou rápida para DC, seu primo Hideki não tinha muito talento para bateria, mas era muito esforçado, e pegou algumas coisas bem básicas sobre o instrumento. No final da tarde toda a sua família foi acompanha-lo ao aeroporto, exceto Do Contra, que já estava sentado em frente a sua casa esperando por Denise. Já eram mais de 18:30 quando a garota resolveu aparecer com algumas sacolas de compras na mão.
—Tá atrasada – disse ele se levantando.
—Denise nunca se atrasa, nem se adianta, chega na hora certa. E ai vamos? — respondeu sem deixar se abater pela repreenda de DC.
—Você pegou o caderno para emprestar para Alice copiar a matéria que perdeu?
—Fofis, eu acabei de vir do shopping, a única matéria que eu to levando para Alice que ela perdeu é sobre moda e bom gosto, que ele tá necessitada – disse apontando para as sacolas que carregava.
—Eu acho que ela tem muito bom gosto, ela não fica se vestindo igual todo mundo.
—É claro que você acha, claro – disse sem dar muita importância. — Agora vai buscar seu caderno rápido, porque eu não gosto de esperar, pra gente levar pra essa desalmada que sumiu da face da Terra sem me dar noticia nenhuma – falou fazendo drama enquanto DC já se afastava para buscar o material.
—Essa é a casa da Alice – disse DC apontando para uma das maiores casas do bairro, branca, imponente, com gramado na frente.
—Você tá de brincadeira que a Alice mora nessa mansão e nunca me chamou para vir aqui, e depois ainda tem coragem de dizer que é minha amiga – bufou Denise indignada.
DC não deu nenhuma importância para o drama que Denise estava fazendo enquanto se aproximavam para tocar a campainha. Não esperaram muito até que um homem alto, loiro, de porte atlético, aparentando ter pouco mais de 25 anos atendeu a porta com uma expressão gentil.
—Posso ajuda-los? — perguntou com uma voz grave.
—Pode, claro que pode, é só me chamar de papel e vir me dar uns amassos – disse Denise babando pelo homem à sua frente – Gato você não é terremoto mais abalou as minhas estruturas.
—Olha desculpe, mas se vocês vieram aqui para isso eu tenho mais oque fazer – disse um pouco irritado já começando a fechar a porta, quando DC a segurou.
—Desculpe a minha amiga, ela não tem muito filtro entre a oque ela pensa e oque ela fala – apaziguou a situação DC.
—Tudo bem, é normal nessa idade, mas oque vieram fazer aqui? E sem cantadas de pedreiro para responder dessa vez tá bom?
—Sim, claro. Nós estudamos com a Alice e ficamos preocupados com a ausência dela esses dias, viemos trazer a matéria que ela perdeu e ver se ta tudo bem – disse DC antes que Denise tivesse a chance de responder qualquer coisa.
—São amigos da Alice então? Fico feliz que ela já tenha se enturmado por aqui, podem entrar – disse se afastando da porta para que os dois entrassem e em seguida os guiando até a sala de estar, onde se sentaram os dois amigos no sofá, de couro preto super confortável, e o homem em uma poltrona, quase de frente a eles – que indelicadeza da minha parte, nem me apresentei, eu sou o Gustavo, irmão mais velho da Alice, mas se são amigos da minha irmã acho que vocês já suspeitavam disso – disse rindo descontraído, enquanto os dois balançavam a cabeça em concordância rindo com a simpatia de Gustavo – mas e vocês, minha maninha não fala muito da vida dela comigo, coisa normal né, também não contava sobre a minha vida para os meus pais nessa idade, mas quem vocês são?
—Eu sou o Mauricio e essa é a Denise.
—Prazer em conhece-los – respondeu simpático.
—O prazer é todo meu – disse Denise encarando Gustavo.
—E vocês aceitam uma água algum refrigerante? – perguntou sem dar confiança à Denise.
—Não queremos incomodar, só viemos ver se estava tudo bem com Alice mesmo e entregar o material de estudo – respondeu DC.
—Certo, podem deixar o caderno comigo mesmo que eu entrego para ela, Alice está no banho agora então não precisam se preocupar em esperar.
—Eu não me importo de esperar, quero ver essa menina e saber o porque ela sumiu assim, dois dias sem contato nenhum comigo? Espero que ela tenha uma ótima, excelente desculpa pra isso — reclamava Denise.
—E eu também queria falar para ela, mesmo resumidamente a explicação que o professor de biologia deu na última aula, é conteúdo novo, e sei que ela é inteligente, mas mesmo assim ela pode ficar meio perdida sem essa base.
—Sou formado em Biologia, então se ela tiver qualquer duvida sobre a matéria eu mesmo posso esclarecer, e quanto ao motivo da ausência, eu já informei à escola — DC e Denise abriram a boca ao mesmo tempo para contestar, já que o objetivo principal deles terem ido ali era saber a causa da falta e ver se Alice estava bem, mas Gustavo não deu tempo para eles falarem e continuou — Mas imagino que vocês querem vê-la, então vou conferir se ela já saiu do banho e ai ela pode explicar melhor o porquê não foi na aula esses dias. Fiquem à vontade, com licença – pediu Gustavo já se retirando da sala.
Denise e Do Contra ficaram em silêncio na sala esperando que algum dos dois irmãos aparecesse. Depois de alguns minutos Gustavo foi o primeiro a retornar à sala.
—Ela já esta terminando de se trocar e já vai descer – informou o irmão mais velho – e muito obrigado por se preocuparem com Alice, nossos pais estão longe, e às vezes eu fico muito preocupado com ela, mas me sinto melhor em saber que ela fez amigos descentes aqui que se preocupam com o bem estar dela e aprendizado, diferente daquele tipo de gente com quem ela andava na nossa antiga cidade.
—Que tipo de gente? — perguntou Denise curiosa, mas antes que Gustavo tivesse a oportunidade de responder, Alice entrou na sala, mancando um pouco do lado direito do corpo, com a mão esquerda apoiada na lateral do corpo.
—Amiga sua loka! Já tava pensando que você havia sido abduzida por aliens, sumindo desse jeito — enquanto Denise repreendia Alice, DC não conseguia falar nada, nem ao menos se mover, podia apenas observar com um misto de espanto e preocupação o quanto o rosto de Alice estava pálido e a vermelhidão que havia circulando seus olhos que traziam uma expressão vazia, não lembrando em nada a garota de olhar brilhante que ele conheceu.
—Denise foram só dois dias.
—Mas eu já fiquei com saudade – disse fazendo bico e correndo dando um abraço na amiga.
—Ai! — reclamou Alice fazendo uma expressão de dor.
—Oque aconteceu? Por que você tá mancando desse jeito? Aonde você se machucou? — perguntou Denise preocupada, notando o quão rápido DC se aproximou de Alice após a exclamação dela.
—Eu estou bem, só cai da cadeira enquanto eu tentava pegar um biscoito que estava guardado na prateleira de cima do armário que eu não alcanço, ai eu acabei caindo e batendo a lateral do meu corpo. Gustavo achou melhor que eu ficasse de repouso esses dias para me recuperar melhor, por isso não fui na aula.
—Nossa miga, mas você também hein? Desastre em pessoa, não podia ter mais cuidado? – repreendeu Denise, mas ainda assim com um olhar de compaixão no rosto, se sentindo mal pela dor da amiga – Deixa eu ver como tá isso – e assim, sem que Alice desse autorização nem nada, Denise levantou o moletom que Alice usava até a altura um pouco abaixo dos seios, e antes que Alice pudesse abaixar a blusa, todos notaram a imensa mancha rocha na lateral do seu corpo com alguns outros machucados menores ao redor.
—Denise, você não podia ter feito isso! — reclamou Alice, com o rosto vermelho de vergonha abaixando seu moletom.
—Você procurou um médico, quebrou alguma coisa? – disse DC para Alice pela primeira vez, agora pálido de preocupação pelo machucado dela.
—Eu já falei que to bem, já levei tombos piores que esse – disse olhando para o irmão provavelmente lembrando algum outro acidente que sofreu por ser tão desastrada, fazendo ate mesmo DC lembrar o quanto ela era descoordenada jogando vólei e como quase caiu tropeçando nas próprias pernas ao correr.
—Eu falei para ela esperar que eu pegava os biscoitos para ela, mas quem disse que essa garota me ouve? — reclamou o irmão dela, com uma ligeira culpa nos olhos por não ter pego os biscoitos para a irmã mais rápido ou arrependido de tê-los guardado no alto.
—Vocês só estão me olhando com essa cara porque não viram o estado em que a cadeira ficou, aquela lá sim merece o olhar de pena de vocês, foi passada de cadeira para lenha para acender a lareira – disse tentando fazer graça com a situação, mas com os olhos ainda sem vida notou DC.
—Mas isso não explica o motivo de você não ter atendido as minhas ligações nem ter respondido as minhas mensagens – lembrou Denise, enquanto DC nem mais se recordava, só se importando com a dor que Alice devia estar sentindo.
—Isso eu posso explicar – respondeu Gustavo – a Alice está castigo, sem celular nesses dias que ela fica em casa. Essa mocinha saiu essa semana e só voltou a noite, nem sequer me avisou aonde estava, não é senhorita Alice? — repreendeu o irmão – Se o celular dela não serve para me avisar quando vai chegar tarde, também não serve para ela passar o tempo enquanto não vai à escola.
—Nossa Gustavo, perdoa a Alice, sei que ela devia ter avisado, mas é que ela estava me fazendo companhia em um dia que eu estava mal e nós nem vimos a hora passar. Mas nós não fizemos nada de mal, só ficamos conversando, pode ligar para os meus pais para conferir.
—A Alice me disse a mesma coisa, então acredito nessa estória, mas mesmo assim ela já ia receber o celular de volta amanhã mesmo, já que ela já vai voltar a frequentar as aulas e eu preciso me comunicar com ela enquanto estiver no trabalho. Além do mais, ela vai precisar pedir um taxi para voltar pra casa depois da aula, eu até posso leva-la todos os dias enquanto ela ainda sente dor, mas por conta da distância e horário não vou poder busca-la – falou Gustavo – Conto com vocês para assegurar que ela volte de taxi todos os dias, do jeito que essa minha irmãzinha é teimosa vai querer voltar a pé, e ai a dor só vai piorar.
—Pode ficar tranquilo Gustavo, eu vou proteger ela – prometeu DC, e embora suas palavras fossem dirigidas ao Gustavo, olhava fixamente para Alice ao dize-las, que se arrepiou com a intensidade e a verdade que sentiu tanto daquele olhar quanto daquelas palavras.
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