Sentimentos Ao Contrário
7 Amigas sempre sabem
O primeiro mês de aula de Alice havia passado rápido, ela havia se habituado bem à nova escola, e logo tinha feito amizade com toda a turma, que a recebeu como se ela já fosse parte da mesma desde sempre. Na escola, a turma toda sempre se reunia para passar o intervalo junto conversando, e logo ela já sabia um pouco mais da história de todos do grupo, só não entendia o motivo por DC nunca se unir à eles quando todos estavam juntos, ele parecia ser amigo de todos no grupo, embora Alice nunca o tenha visto falando muito com o Cebola, não pareciam ser inimigos um do outro, quando questionou o pessoal da turma e ate mesmo o próprio DC sobre isso, todos desconversaram e mudavam de assunto para não responder, então ela imaginou que deveria ser pela mania de ser “do contra” dele, ou pela proximidade dele com Toni, sendo este ultimo sim, um grande desafeto dos colegas.
Mas mesmo não passando o intervalo juntos, DC e Alice conversavam bastante, tanto por mensagens de texto, na escola entre uma aula e outra ou quando iam e voltavam da escola, desde o primeiro dia de aula da Alice, quando ela e Do Contra descobriram que moravam perto, os dois faziam companhia um para o outro no caminho do colégio, e nas aulas de biologia, ou de química, que também era ministrada no laboratório ocasionalmente, Alice e DC sempre se sentavam juntos, Toni não gostou muito disso, mas os dois nem se importaram com a opinião do loiro, que embora ainda não tivesse pedido desculpas para Alice pelo ocorrido no primeiro dia de aula, tinham se tornado quase amigos, graças a proximidade dele com DC. Alice repreendia a maioria das atitudes de Toni, assim como DC, mas no fundo, bem no fundo mesmo, ela sentia que ele não era uma pessoa de todo o ruim, ele tinha muito defeitos, mas ela entendia o porque DC era amigo dele, era desafiador conviver com ele, e mesmo sendo um babaca às vezes, ele nunca escondia quem era, ele era como um livro aberto, um livro difícil de ler, mas que não escondia nada. Alice gostava disso nele, talvez fosse a única coisa que gostasse no rapaz.
Entre as garotas, Alice se deu bem com todas, mas sentiu uma afinidade maior com Denise. O jeito leve e extrovertido da ruiva de ser encantou Alice, nunca havia conhecido uma pessoa mais sem papas na língua e doida que a Denise, e o laço de amizade que as duas criaram pareciam ser de anos de convívio, mesmo tendo só acabado de se conhecer. Quem não gostou nada dessa proximidade entre as duas foi Carmem, que não foi com a cara da Alice desde o primeiro dia de aula, e depois que a melhor amiga passou a dar mais atenção para a novata do que para ela, ai que começou a não gostar mesmo de Alice, não entendendo que o que afastava Denise dela, eram suas próprias atitudes, que a cada dia ficavam mais egocêntricas.
Agora a turma toda estava reunida no intervalo, envolta da mesa em que Isa estava sentada distribuindo uns brigadeiros que ela havia feito especialmente para os amigos, todos estavam comendo, menos Carmem e Maria Melo, que olhavam para os brigadeiros como se fossem a pior coisa do mundo, mas até então estavam quietas em seu canto, até que Denise se serve de mais um, e Carmem a olha com uma expressão desaprovadora e a repreende na frente de todos:
—Serio que você vai comer mais um Denise? Ta até parecendo a gulosa da Magali quando era criança, mas até ela perdeu esse mal habito de comer demais, daqui a pouco vai ficar gorducha como a Monica quando era criança, e olha que até hoje ela sofre com esses quilinhos a mais, ou você tá querendo entrar para o time das balofas? Não duvido nada, agora que está andando com a Isa, mas pelo menos ela tem uma desculpa por ser desse jeito, já que é por motivos de saúde que ela não consegue emagrecer, mas você não querida, daqui a pouco vai ter que se vestir igual a sua “amiguinha” Alice, com essas roupas horríveis, super largas, que garanto que são só pra tentar disfarçar o quanto ela é gorda.
—Oque você falou Carmem? — disse Monica se levantando com as mãos em punhos irritada – Quem é que sofre com uns quilinhos a mais?
—Só disse a verdade que todo mundo sabe – respondeu com desdém.
—Não liga para ela não Monica, pra mim você é perfeita do jeito que é – disse o Cebola tentando acalmar a namorada.
—Como assim do jeito que eu sou? Você acha que eu tenho uns quilinhos a mais também?
—Não, não. Não foi isso que eu quis dizer… — disse Cebola preocupado, vendo o alvo da irá da namorada passar de Carmem para ele.
—Oque ele quis dizer é que ele te acha linda amiga, e que você não precisa mudar – Magali disse, só ela sabendo aplacar o animo da Monica.
—Mesmo você sendo gorducha – completou Cascão, como sempre falando a coisa errada na hora errada.
—Cascão! — repreendeu Magali.
—OQUE?! — explodiu Monica.
—Calma gente. Vocês estão descontando a sua raiva na pessoa errada. — se pronunciou Denise diante aquela confusão causada pela “amiga” — Sabe Carmem, pra mim a única coisa gorda aqui é o seu olho, cheio de recalque. E me chama de gorda mais uma vez querida, que eu te chamo a ambulância.
—Escuta aqui fofa…
—Fofa é a sua almofada, Denise é incrível – disse Denise interrompendo Carmem, enquanto Alice só observava atentamente a situação — Agora se me dão licença, Denise não é obrigada a respirar o mesmo ar que certas pessoas – disse olhando pra Carmem e em seguida saindo do refeitório indo em direção as salas de aula.
Todos encararam Denise de retirando do local espantados pelas palavras da garota, já que Carmem e ela eram melhores amigas. Alice foi a primeira a se levantar e sair logo depois da dona das maria-chiquinhas mais icônica de todo o Limoeiro, com os demais presentes no local se retirando também, por fim só restando naquela mesa, antes cheia, Carmem e Isa.
—Sabe Carmem, eu sou gorda sim, e isso não é nenhum defeito, e diferente do que você falou, eu sou sim uma pessoa saudável, pratico exercícios, e embora eu coma algumas besteiras às vezes, tenho uma alimentação adequada, a única coisa doente aqui é esse seu preconceito. E quer saber de mais uma coisa, pelo menos eu tenho ao meu redor pessoas que gostam de mim pelo oque eu sou, não pelo meu número de manequim, diferente de você, que mesmo sendo magra, se continuar com esse tipo de atitude vai acabar sozinha – disse Isa se retirando ao terminar de falar, deixando Carmem.
O sinal indicando o fim das aulas soou, DC estava esperando por Alice no portão da escola, como sempre fazia, esperando a garota se despedir das amigas para irem juntos para suas respectivas casas. Alice não demorou para estar ao seu lado, mas quando o mesmo começou a andar, ela permaneceu parada.
—DC, acho que hoje você pode voltar sozinho, preciso conversar com a Denise.
—Tá tudo bem? Pareceu haver uma discussão na turma no intervalo.
—Teve mesmo, a Carmem começou a criticar a Denise e acabou ofendendo todo mundo no meio.
—Até mesmo você? — perguntou já imaginando que tipo de tirada Alice deu em Carmem, já conhecendo a língua afiada da garota.
—Sim, mas nem me importei com oque ela disse, e também a Denise disse umas verdades que ela precisa ouvir, mas mesmo assim acho que a De ficou chateada com a situação, então vou falar com ela – DC balançou a cabela pensativo analisando Alice.
—Você esta preocupada com a Denise, a garota mais inabalável dessa escola? Diria que você não precisa se preocupar com ela, mas você é realmente uma boa amiga e dizer isso não mudaria nada – disse DC e antes que Alice pudesse responder completou – te espero amanhã de manhã para virmos na escola juntos combinado – a garota apenas assentiu com um movimento de cabeça – agora corre se não vai perder a Denise de vista.
—Certo, até amanhã – disse virando-se e correndo atras de Denise que já desaparecia na esquina da escola. Do Contra ficou observando a menina correr, rindo dela que quase caia no meio da curta corrida tropeçando nas próprias pernas, e só se permitiu partir depois que viu que Alice alcançou Denise e as duas sumira de seu campo de visal.
—De, preciso falar com você – disse Alice quando finalmente se aproximou da amiga por trás a assustando.
—Que susto criatura, quer me matar? Denise é muito diva pra morrer jovem assim.
—Desculpa, não queria te assustar – pediu Alice.
—Mas oque deu em você pra sair correndo assim atras de mim? Não vai voltar pra casa junto do seu crush hoje? — provocou brincando — Espera aí, você veio atras de mim porque finalmente decidiu ouvir meus conselhos de moda e vai mudar seu guarda-roupa, já to pensando em vários looks que irão ficar bafônicos em você – disse Denise animada batendo palminhas.
—Pra começar, o DC não é o meu crush Denise, você sabe que somos apenas amigos e que voltamos juntos da escola porque o caminho é o mesmo.
—Sei, quer me enganar, logo eu que dizia pra minha mãe que não sobrou troco do pão? — disse Denise desconfiada.
—Ai De, você enxerga coisas aonde não existe viu – respondeu Alice encarando a amiga com uma cara de reprovação – mas agora para de me interromper que eu quero conversar serio com você.
—Ui amiga, assim você até me deixa com medo, o que foi?
—Você tá bem?
—Era isso? Me deixou preocupada só pra perguntar isso?
—Você ainda não respondeu De, você tá bem? Bem de verdade? — perguntou vendo a expressão no rosto da amiga mudar e seus olhos se encherem de lágrimas enquanto elas paravam de andar em frente a uma pracinha que ficava no caminho da casa de Denise.
Alice sabia oque era aquele tipo de situação, sabia oque era parecer forte enquanto por dentro se estava desmoronando, e sabia o poder que aquela simples pergunta tinha quando feita esperando por uma resposta sincera, quando feita demonstrando de fato interesse e saber se a pessoa estava bem. Vendo suas suspeitas de que Denise estava mal se confirmando, ela fez a única coisa que julgou certo a se fazer nessa situação, abraçou a amiga e a deixou chorar em seus ombros, a apoiando sem nem perguntar o motivo de suas lágrimas.
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