Sentimento Oculto
1 Escândalos, Farsas e Permissão Concedida
Notas iniciais
CAPÍTULO 1 — Escândalos a parte
Por trás das vidraças da casa havia uma leve nevasca, típica de final de dezembro, que encobria parcialmente os enfeites de jardim postos meticulosamente entre as plantas exóticas da senhora Weasley. Ainda que o frio lá fora congelasse até o pequeno lago nos fundos da propriedade da Toca, dentro da residência a temperatura beirava simplesmente o agradável, com suas lareiras sempre acessas e feitiços eficientes de aquecimento artificial.
Aquela era, agora, não apenas a residência fixa da família Weasley, mas também a sede oficial da Ordem da Fênix. Por tal razão, tinha seu endereço removido dos mapas por decreto próprio do Ministério da Magia, uma vez que a Ordem assumia, agora, uma posição de destaque como um Departamento de Investigações e Missões Especiais. Tal posição garantiu ao atual pequeno grupo de membros uma renomada colocação nos grupos corporativos do Ministério. Feito este que se deveu, quase unicamente, aos resultados positivos da batalha final, aquela em que Voldermort fora derrotado por Harry Potter, estabelecendo-se a paz universal no mundo bruxo.
Para alívio de Molly Weasley, era extremamente recompensador ter tantas pessoas morando em sua casa novamente, que um dia fora lar absoluto de tantos filhos. Houve uma época em que se sentiu completamente desestimulada, ao ver sua velha residência ser consumida por chamas, após um ataque de comensais. Pensou que jamais seria capaz de reconstruir sua vida e a de sua família, sem a parte mais significativa de sua história, cujas lembranças haviam queimado junto com os restos que um dia havia sido uma casa. Podia não ser muito, costumava dizer aos filhos, mas era suficiente para representar um lar. Com um esforço realmente grande, conseguira erguer a residência novamente, aproveitando o pouco que havia restado dela após o incêndio, e moldando-a novamente ao padrão de antes, embora alguns cômodos tivessem sido ampliados no processo.
Com os resultados da guerra, inevitavelmente, fora necessário lidar com uma série de perdas, não apenas materiais, mas principalmente as perdas de amigos, filhos, pais e pessoas inocentes. Para tal, encher a casa novamente era uma solução bastante tentadora. No entanto, por vezes, era extremamente desconfortável ter uma vida profissional em paralelo com suas vidas sociais, uma vez que compartilhavam de refeições pelo menos duas vezes ao dia, bem como dormiam em quartos vizinhos e precisavam disputar pelos banheiros que eram bastante escassos na casa. No mais, podiam sair e retornar quando bem quisessem ou precisassem, embora a carga de feitiços de proteção sobre a casa lhes tomasse um bocado de tempo toda vez que precisavam retornar à propriedade. Havia privacidade, sem dúvida, mas uma intervenção ou outra na vida alheia era quase um processo natural da convivência.
Naquela manhã, em particular, a residência estava silenciosa como pouco se via há um bom tempo. Aparentemente, os efeitos da nevasca pareciam ter afetado o sono dos moradores, embora a suspeita maior fosse o simples fato de aquele dia ser véspera de Natal e, por tanto, significar afazeres domésticos para a ceia que seria servida na virada do dia. A comemoração de Natal ainda era uma tradição para todos eles, embora tenha adquirido uma perspectiva diferente para cada um deles com o passar do tempo, normalmente envolta por incertezas e sentimentos que remetiam à saudade de seus entes.
Apesar disso, no entanto, alguns começavam a despertar.
– Interessante abordagem, Potter. – disse Snape em uma voz bastante preguiçosa, enquanto iniciava sua decida nos primeiros degraus da escada que dava acesso à sala de estar, passando por Harry um pouco antes do mesmo alcançar o fim do corredor – Vejo que se esforçou para diminuir a pressão em sua própria testa rachada, mas esqueceu de romper a corda que já está no pescoço de cada membro desta Ordem há muito tempo.
Processando o comentário de seu ex-professor, entre um bocejo ou outro, observou-o chegar ao final da escada com uma cópia do Profeta Diário do dia nas mãos, onde se lia em letras absurdamente grandes a principal manchete daquele dia.
“Escândalo na Ordem da Fênix”
Esboçou sua melhor careta, pensando o quão devastador aquele artigo poderia ser. Tinha prestado uma entrevista ao Profeta no dia anterior, e não se lembrava de ter garantido apenas a sua pele, mas de ter defendido a Ordem como um todo, também. Rapidamente, desceu os últimos lances da escada e alcançou imediatamente sua cópia do jornal, sobre a mesa de centro. Não precisou de muito para entender o ponto de vista de Snape.
[...] tivemos acesso, com exclusividade, ao depoimento do Chefe Maior do Departamento da Ordem da Fênix, Harry Potter:
“Tenho trabalhado arduamente para garantir que cada missão e investigação realizada pelo meu Departamento ocorram dentro dos padrões rigorosos de conduta ética do Ministério. No entanto, temos enfrentado momentos de incertezas na política atual, o que dificultou, em partes, acompanhar o progresso dos últimos julgamentos. Para efeito de legalidade, afirmo estar inteiramente a par das acusações e espero poder provar satisfatoriamente minha boa conduta como Chefe deste Departamento.”
Buscando o assento do sofá mais próximo, enquanto lia as últimas palavras do artigo, Harry permitiu-se soltar um suspiro levemente aborrecido. Mais uma vez, parecia ter sido passado a perna pela redação do jornal.
– Sempre você, Potter, “o chefe Maior deste Departamento”. Enquanto a corda nos aperta cada vez mais. – disse Snape, novamente, notando a expressão destruída de Harry – Se espera que eu aplauda sua postura, está tremendamente enganado. Muito em breve serei chamado a julgamento, e se não está lembrado, minha velha marca negra me condena antes mesmo que eu possa abrir a boca para provar inocência.
Parecia levemente irritado, dobrando seu jornal em duas partes iguais e jogando-o sobre a mesa, enquanto inclinava-se para frente em sua poltrona, ameaçadoramente. Preparou-se para mais um sermão, quando sentiu uma corrente de vento frio alcançá-lo, obrigando-o a ajustar seu casaco de inverno sobre os ombros. Não teve tempo de dizer mais nada, uma vez que não apenas o vento frio o atingiu, como também a voz melodiosa de Tonks, adentrando a sala.
– Merlim, Snape, você tem que parar de acordar tão azedo assim todos os dias. – dizia a mulher, que acabava de fechar a porta da sala e começava a retirar os flocos de neve que lhe cobriam a capa de chuva. Tinha uma cesta cheia de ervas nas mãos, e seus cabelos estavam incrivelmente instáveis naquela manhã, mudando de tons claros para tons mais escuros em segundos. – A propósito, está nevando lá fora. E já fiz minha parte colhendo os temperos para a ceia, agora movam seus traseiros e façam a de vocês.
– Permita-me dispensar seu conselho, Ninfadora. – Snape respondeu a ela, seu tom de voz ainda mais arrastado que outrora, vendo-a se afastar em direção à cozinha com os cabelos tingidos de vermelho fogo, para depois um azul gritante, enquanto resmungava pelo caminho.
– Não foi um conselho, Severo. Foi uma ordem.
Enquanto alguns segundos de silêncio se fez presente, mudou sua postura, novamente, para uma mais relaxada, levando seus dedos às têmporas, onde uma dor levemente pulsante já despontava. Tivera seu sono completamente quebrado desde que recebera o Profeta, ainda quando estava na cama.
– Antes que você pense que fiz isso para prejudicá-lo ou prejudicar a qualquer outro da Ordem, Snape... – dizia Harry, sendo interrompido por um som arrastado da ponta de uma pena rabiscando sobre um pergaminho, tão ligeiro e insistente que podia ouvi-lo dentro de seus ouvidos como se fosse uma engrenagem fixa. Sabia que ficaria com aquele som em sua cabeça por dias.
– Bom dia, professor. – era Gina quem cumprimentava primeiramente Snape, sem tirar os olhos de suas anotações nem por um segundo, caminhando de encontro aos homens. – Bom dia, Harry. Precisamos discutir números, e tem que ser agora, enquanto ainda tenho os cálculos fresquinhos na minha cabeça.
– Merlim, Gina, nós discutimos sobre números ontem, e vamos discutir de novo? O que acontece com seus cálculos todo dia? O orçamento nunca é suficiente? – Harry estava visivelmente irritado, levantando-se e seguindo em direção à cozinha, abanando uma mão sobre a cabeça e indicando que não queria falar sobre aquele assunto, pelo menos não tão cedo.
Seguindo-o a passos bastante rápidos, Gina parecia ter agora não apenas os cabelos vermelhos, mas as maçãs do rosto também.
– Harry Potter, por acaso está insinuando que ando modificando os números? Esta é uma acusação bastante grave, e inadmissível visto que faço meu trabalho eficientemente desde o dia que fui designada a ele. Está me ouvindo, Harry?
Agora, o som das vozes na cozinha era apenas um eco de fundo que não incomodava mais. Estar de volta à tranquilidade permitia a Severo pensar com mais calma sobre os seus problemas com a Ordem. Não tinha interesse algum em deixar o Departamento, visto que voltar a lecionar, fosse em Hogwarts ou em qualquer outra escola de magia, deveria ser sua última e mais improvável das alternativas. Era bem verdade que precisava do dinheiro, mas qualquer outra função era simplesmente menos recompensadora que continuar seus trabalhos para a Ordem.
Com a derrota de Voldemort, pouca ameaça havia restado, embora as Artes das Trevas ainda fossem modalidades muito praticadas em diversos cantos do mundo bruxo, o que podia significar riscos à sociedade e ao futuro da nação bruxa. Destas artes, nada podia ser aproveitado para beneficio, o que obrigava o Ministério a continuar investigações acerca delas e promover missões de captura de possíveis usuários de tais magias, punindo-os e prevenindo maiores consequências.
Era um trabalho que envolvia extrema sagacidade. Gostava de estar de volta aos desafios de missões perigosas, repletas de surpresas a cada nova descoberta e pistas muitas vezes difíceis de serem seguidas. Sentia-se vivo, como nos tempos de guerra, onde podia exercer uma função que era de todo muito bem vinda e de grande reconhecimento, de ambos os lados. Na época, era Dumbledore que o incentivava a ser bom, mesmo que para tal necessitasse ser mau. Era uma estranha analogia, visto que estava agora vivo e o velho diretor não, tendo sido ele o responsável por sua morte.
Incontáveis vezes, estivera quase a ponto de ser descoberto por Voldermort, e conseguira manipulá-lo a seu favor já nas últimas oportunidades, antes que o mesmo perdesse a confiança por ele. Toda vez que trazia informações novas ao velho diretor, sentia-se importante, apenas por estar fazendo algo de memorável, dentre tantas façanhas más que era forçado a fazer sempre que tinha que carregar sua máscara de comensal. Agora, mais do que nunca, sentia-se diferente. Não havia culpa, nem tanta pressão. Obviamente, ninguém que o conhecesse tão bem entenderia o modo como Severo se sentia. Na verdade, Alvo fora a única pessoas mais próxima de tê-lo entendido, embora não o tenha, inteiramente.
Com este último pensamento, decidiu que precisava distrair sua mente com alguns afazeres relacionados ao seu trabalho, sabia que tinha uma lista imensa de casos para analisar. Assim evitaria, também, ser convocado para qualquer ajuda que envolvesse cortar galhos de um pinheiro e transformá-lo em uma árvore de natal. Não tinha interesse algum pela data em especifico, e nunca realmente se sentira bem comemorando, mesmo nos anos de Hogwarts. Soava extremamente solitário, todas aquelas pessoas reunidas em torno de uma mesma mesa e desfrutando de um banquete absurdamente farto, presenteando-os uns aos outros sem ao menos dividir histórias em comum, sempre ao som de uma melodia melancólica e depressiva. Ou talvez fosse Snape quem sempre estivera depressivo nestas datas, em fim.
Dirigiu-se até o seu escritório, um pequeno cômodo que um dia fora um espaço para entulhos domésticos da Molly, e que, mesmo a contragosto dos demais moradores da casa, transformara em sua biblioteca e escritório particulares, onde ninguém estava autorizado a entrar.
Ao girar a maçaneta de ferro velho e enferrujado, sentiu os trincos fechados, mas não se lembrava de ter sido o responsável por isso, da última vez que esteve ali. Suspeitando que alguém o tivesse feito, providenciou sua varinha com uma irritação aparente, e antes que pudesse fazer qualquer feitiço de abertura, ouviu a tranca ranger e a maçaneta girar sozinha. Passando apenas sua cabeça para dentro, não teve dúvidas de que entendia o motivo da porta estar trancada.
– De novo invadindo meu espaço, senhorita Granger? – disse em seu tom mais áspero – Isso se tornou um hábito, afinal? Eu pensei ter sido claro sobre não querer mais vê-la mexendo nas minhas coisas.
Caminhou em direção ao sofá-cama em que ela estava parcialmente deitada, observando-o com um riso contido em seus lábios, enquanto fechava um dos livros que estava sobre seu colo, antes marcando cuidadosamente a página em que havia interrompido sua leitura. Notou que ela ainda vestia seu pijama de calças azuis, e uma ridícula pantufa mágica que agitava seus pelos para todos os lados. Esperava que estivesse envergonhada por ter sido pega de surpresa, mas Hermione parecia extremamente calma.
– Bom dia, professor. Eu sempre acordo sedenta por uma boa leitura em manhãs de nevasca.
– Pois deveria limpar sua vista, porque na semana passada você estava aqui sem minha autorização e não havia neve alguma lá fora, senhorita. – disse, puxando as laterais de seu sobretudo para mais próximo de seu corpo, visto o frio que sentia no ambiente, que aparentemente não estava enfeitiçado para controlar a temperatura.
Hermione sorriu com o comentário, permitindo-se um riso fraco, enquanto levantava e organizava seus livros nos braços. Tinha estado tão entretida em sua leitura que mal notou que a ponta de seu nariz estava gelada, e as maçãs do rosto levemente rubras, devido ao frio.
– Eu já estava quase de saída, de qualquer forma. – disse, levantando-se e aquecendo suas mãos com o calor de seu hálito – Tenha uma ótima manhã de nevasca, professor.
Passou por ele ainda com um meio sorriso apontando em seu lábio sem cor, apenas até o momento em que foi puxada inesperadamente para trás, com um único toque em seu ombro.
– Aonde pensa que vai carregando meus livros, Granger? – disse baixo, por conta da proximidade.
Hermione respirou uma vez mais, devido o susto de ter sido parada bruscamente, e deixou transparecer sua irritação levemente fingida. Era boa em interpretação, e sempre colocava seus talentos em prova em situações como aquela.
– Por acaso, está me acusando de ser uma ladra, professor Snape? – estreitou seu olhar a fim de intimidá-lo – Eu não me lembro de ter roubado algum livro seu em qualquer uma das vezes em que estive aqui sem sua permissão. E depois, eu tenho meus próprios livros, professor, francamente. Eu apenas gosto da privacidade que encontro quando estou no seu escritório, é diferente de qualquer outro lugar desta casa.
– Não seja tão cínica, senhorita Granger. Sei que tem uma fixação doentia pelos meus livros e gostaria que começasse a devolvê-los, ao invés de ficar ajustando minha estante toda vez que tira algo dela, como se eu não fosse sentir a falta de nenhum deles. – disse, recaindo seu olhar para um espaço vazio na prateleira, obviamente esquecido de ser disfarçado por Hermione, naquela manhã – Tenho pensando em iniciar uma missão especial para buscar alguns exemplares que tenho certeza que estão perdidos dentro do seu quarto. Devolva estes livros, agora!
Prendendo a respiração por um instante, ela simplesmente pressionou os livros contra seu peito com um pouco mais de força, vendo-o com a mão aberta exigindo a devolução dos livros que ele sabia que foram tirados de sua estante. Tinha pensando que havia feito o serviço de forma eficiente, mas Severo Snape sempre percebia quando ela tentava saquear seus livros de Poções Avançadas. Muitos dos exemplares eram edições únicas e exclusivas, antigos até, mas continham informações extremamente úteis. Desde que fora promovida a Chefe de Pesquisas em Poções e Experimentos, na Ordem, posição essa que era de ocupação de Snape quando ele não estava envolvido em investigações e missões, tinha demonstrado intenso interesse pela biblioteca particular de seu ex-professor.
– Quer saber de uma coisa, professor? – disse, ajeitando sua postura e fixando seu olhar diretamente ao dele – Não devolverei!
Dizendo isto, teve apenas poucos segundos para iniciar uma corrida para fora do cômodo, driblando o obstáculo que era o próprio corpo de Severo, altivo. Tinha sorte de suas pantufas mágicas serem antiderrapantes, caso contrário já estaria no fim das escadas sem precisar pisar em nenhum degrau. Atrás dela, apenas a sombra de Snape tentando alcançá-la, sem nenhum esforço de corrida. Suas pernas eram longas e fizeram um bom trabalho até chegar à sala novamente, e encurralá-la entre a entrada da cozinha e os sofás.
– Divertindo-se com a brincadeira, senhorita? Porque está me parecendo de muito mau gosto. – disse, estendendo a mão novamente em sua direção – Devolva!
– São somente livros, Severo. Serão mais úteis na biblioteca do meu laboratório, você sabe.
Como se tivesse sido atingido por uma maldição, sentiu seus músculos retesarem com o eco sonoro de seu primeiro nome sendo pronunciado por Hermione. Nunca ouvira a jovem chamá-lo pelo seu primeiro nome, exceto em reuniões formais, mas nunca sem combiná-lo com seu último sobrenome. Não podia ter entendido errado, e a certeza de ter notado um tom extremamente íntimo na forma com que se referira a ele, deixou-o levemente desnorteado. Notou que ela tinha os cabelos parcialmente volumosos, devido à corrida até lá embaixo, e uma fina gota de suor parecia apontar no alto de sua testa, enquanto a respiração dela também parecia tentar buscar um ritmo normalizado.
Fechou sua mão, um tanto envergonhado, notando que as pessoas que já estavam acordadas se apinhavam na entrada da cozinha para ouvir a discussão. Seu olhar estava evitando encontrar o dela, mas por um rápido instante o dela conseguiu cruzar o seu, e estava brilhante demais para olhos castanhos que eram.
– E então? – indagou a ele, temerosa, mordendo os lábios – Devo entender seu silêncio como se estivesse considerando minha argumentação, Severo?
Novamente precisou de mais uma golfada de ar, ouvindo seu nome tão ligeiramente suave saindo dos lábios dela. Era incontestável que sempre desejara que Hermione pudesse referir-se a ele como de igual para igual, mesmo que ele nunca tenha ousado chamá-la por nada mais diferente que senhorita ou Granger. Algo de que jamais abriria mão era sua postura respeitosa e cordial, embora com Harry tivesse uma tendência natural para perder toda e qualquer norma de etiqueta.
No entanto, a partir do momento em que teve consciência de que sua ex-aluna era uma excelente preparadora de poções e suficientemente capaz de substituí-lo nesta tarefa, na Ordem, o modo como a considerava havia mudado, crescendo sua estima por ela a cada novo contato, profissional, claro.
– Não estou considerando nada, apenas devolva, Granger. – respondeu, áspero como costumava, sentindo-se imediatamente um monstro por negar qualquer tratamento mais cordial, como conferia a ordem dos fatos.
Alguma coisa agitou em seu estômago, e Snape duvidava muito que fosse a fome, motivada pelo desjejum não feito. Tal desconforto pareceu forte o suficiente para fazê-lo agir um pouco grosseiro demais com ela.
– Merlim, Hermione! – uma exclamação sonora alcançou o ambiente, e vinha de Rony, descendo as escadas em direção à sala, vestia roupas sociais como se pretendesse sair para negócios, e chamava a atenção por ter surgido inesperadamente – Eu deito para dormir ao seu lado, e acordo sem você na cama. Será que não dá pra largar as vestes do Snape um pouco? Já disse o que achava sobre isso, uma vez...
– Cale-se, Ronald. – respondeu ao namorado, inclinando seu pescoço para o lado e um pouco para cima, visto a figura grande de Severo a sua frente, detestava o modo autoritário como o ruivo insistia em se portar diante dela – Você dorme demais, às vezes.
Uma onda de risos contidos pode ser ouvida dos espectadores que estavam na cozinha, no que voltaram imediatamente para os seus afazeres quando notaram a expressão carrancuda de Rony. Snape não resistiu, e deixou um pequeno e discreto sorriso esboçar seus lábios, enquanto voltava a disfarçar sua indiferença. De certo modo, gostava bastante de irritá-la. Era verdade que se importava com seus livros e com o fim que Hermione podia dar a eles, mas também não tinha motivos tão grandes para defendê-los tanto, a não ser provocá-la e instigá-la a querer se apossar deles cada vez mais. Alguns destes exemplares não eram lidos por ele há anos.
– Devolva esses livros de uma vez e vá tirar esse pijama, Hermione. – Rony dizia, chegando ao fim da escada.
– Nem à força... – foi tudo o que disse, antes de tentar enfrentar a barreira que o corpo de Snape fazia entre ela e o caminho da saída, esquecendo-se de dedicar uma réplica à ordem desnecessária de seu namorado.
No instante em que se moveu, Snape foi mais rápido e a enlaçou com seus braços, através de suas costas. Conseguiu prendê-la entre seu peito e girá-la tão bruscamente que os cabelos de Hermione giraram em igual intensidade em torno de sua cabeça, ricocheteando-o no rosto. Teria sido engraçado, se de repente a respiração dela não tivesse se tornado ofegante, como quando descera as escadas correndo. Não conseguiu encará-lo, mas se tivesse feito ele notavelmente veria uma faísca de constrangimento em suas íris.
Mesmo seu corpo estando tão próximo ao dele, conseguiu manter os livros que carregava ainda firmes contra seu peito, dividindo o espaço agora com o corpo bastante imponente de seu ex-professor. Nunca tinha estado tão próxima, e podia sentir o calor subir da ponta de seus dedos dos pés até as pontas de suas orelhas, quentes agora.
– Não duvide de que posso invadir a biblioteca de seu laboratório a qualquer momento e saquear seus livros, Granger. – disse num tom ainda mais baixo que da última vez que estivera bastante próxima dela – Tenho certeza de que vai defendê-los tão bem quanto estou defendendo os meus, agora.
Sem saber o que responder, indecisa ao abrir a boca e não conseguir emitir som algum, apenas piscou uma vez mais antes de sentir um puxão forte através de seus braços, um gritinho agudo de surpresa escorregar para fora de seus lábios e se dar conta de que os livros haviam sido tirados à força de suas mãos, um tanto brusco. O ato acabou deixando um vazio entre eles, que rapidamente foi preenchido por uma maior aproximação quando, automaticamente, sentiu seu corpo colidir de encontro ao peito de Snape, tendo o contato amortecido pelas vestes de inverno que ele usava.
Alguns segundos foram necessários para que ambos processassem que não havia mais barreira alguma que separassem seus corpos, ao tempo em que ele soltava-a do aperto de seu outro braço. Com o ato, foi levemente arremessada para trás, cambaleando uma vez apenas antes de firmar seu equilíbrio. Foi então que conseguiu fitá-lo, e notou apenas uma fina barreira indescritível. Não sabia se ele sentia raiva, ou se sentia diversão.
Permaneceu ainda na mesma posição mesmo quando ele lhe deu as costas e subiu as escadas, passando por Rony com os livros em mãos. Não trocou nenhum olhar com o ruivo, negando-se a deixar transparecer o quanto ficara desconcertado com a proximidade não planejada com sua ex-aluna. Brilhante ex-aluna, lembrou seu inconsciente.
Em poucos instantes, Ronald já estava ao lado dela, e a chacoalhava pelos ombros em uma clara demonstração de ciúme, enquanto Hermione ainda tentava relembrar como deveria voltar a respirar ou como fazia para que qualquer som deixasse as profundezas da sua garganta.
– O que foi aquilo? Diga, Hermione!
– Do que você está falando, Rony? – tentou soltá-lo, sem sucesso.
– Não me faça de tolo, Hermione. – disse, aproximando sua face da dela e preenchendo a palma de suas mãos com as laterais de sua nuca, forçando-a a permanecer no mesmo lugar sem desviar o olhar – Se eu souber de alguma coisa, Hermione... Qualquer coisa desagradável sobre esse comensal estúpido, eu acabo com a graça dele em um instante. Está me ouvindo?
– Ele não é um comensal, não mais Ronald. – parecia ter sentido um choque percorrendo seus membros, na simples menção de uma comparação do Severo Snape que conhecia, com aquele mestre de poções sombrio e misterioso que diversas vezes, em épocas escolares, assombrara seus sonhos, sempre em busca de uma razão que desse a ele aquela postura tão defensiva quando estava diante dela.
– Você me entendeu, não foi? – ressaltou, puxando-a com um pouco mais de violência – Porque a ultima coisa que a Ordem quer são mais escândalos.
Dizendo isto, pressionou seus lábios contra os dela, possessivamente, pedindo a passagem de sua língua para dentro sem nenhum pudor, agredindo-a de forma extremamente lasciva. Hermione não gostava de ser beijada daquela forma, porque tinha sempre a certeza de que ele fazia assim apenas para demonstrar que aquele era um território ganho, quando na verdade estava longe de ser.
Era engraçado como as coisas podiam mudar, ao simples toque de um corpo, ao simples toque de uma língua em um beijo visivelmente forçado. Em um instante tinha os livros de Snape em suas mãos, como uma verdadeira conquista, e no instante seguinte estava tão perto do homem que podia ter certeza que havia notado que ele não fizera a barba naquela manhã, o que remetia seus pensamentos, inconscientemente, para os aposentos que ele ocupava, no final do mesmo corredor que os aposentos dela, e com que roupas ele teria ido se deitar na noite anterior, ou o que podia tê-lo feito negligenciar aquele cuidado com sua pele, que ela sabia que era um cuidado excessivo, uma vez que nunca o vira com qualquer rastro de pelos no rosto... Eram pensamentos desconexos, e impróprios para uma mulher comprometida, que podiam soar como uma estranha intromissão à vida alheia de seu ex-professor, e deixar dúvidas sobre a origem dessas curiosidades. E então, no instante seguinte, já não tinha mais sua conquista entre as mãos, e nem se quer se dera ao luxo de lamentar a perda dos livros, tamanho seu interesse pelo quão forte podiam ser aqueles braços, em torno de suas costas, levemente rijos pelo contato. E, então, passou por sua cabeça formas de poder experimentar tal rigidez novamente. Era insano, e ao mesmo tempo surpreendente...
Na cozinha, enquanto cortava as folhas que Tonks trouxera do canteiro no jardim, Molly reclamava para um pequeno quadro que costumava ficar sobre a mesa de refeições. Retratava uma ceia incrivelmente farta de frutas e vinho, e agora tinha nela, também, a figura firme de um homem velho com barbas brancas e compridas.
– Por Merlim, Alvo, faça alguma coisa para apaziguar os ânimos nessa casa. Em plena véspera de Natal e não temos uma única trégua nas discussões.
– O que espera que eu faça, querida Molly? – respondia Dumbledore, provando de uma uva tirada do cacho – Eu nem posso mais usar magia, nessa condição.
– Oh, Dumbledore. Perdoe-me pela inconveniência. Apenas dê algum conselho para esses cabeças de vento...
E então o ex-diretor percebeu que havia outros na cozinha, em um trabalho em conjunto para preparar as comidas que seriam servidas mais tarde. Sorriu agradavelmente para todos, na medida em que era retribuído.
Talvez sim... Talvez tivesse um bom conselho para dar...
CAPÍTULO 2 — Farsas e Vexames
Há um ano, um Natal como este era comemorado naquela mesma casa, sob uma atmosfera de tristeza e pesar. Não havia o velho anfitrião à mesa para desejar-lhes Feliz Natal quando fosse meia noite, nem para incitá-los a devorar o banquete que, todos os anos, Molly Weasley se empenhava em preparar. Também não havia uma parte de Jorge Weasley, a sua metade fora morta na batalha. Também não tinha a presença de espírito de Olho Tonto, e suas piadas fora de hora. Tonks também não tinha uma mão a que segurar quando precisasse se sentir confiante, porque Remus não estava mais ali para tornar as cores de seu cabelo constantes e alegres. Por isso eles mudavam de cor o tempo inteiro, agora.
Em contraste com os sorrisos levemente entristecidos, sempre que se davam conta de que um lugar ou outro na mesa estava vazio, havia a presença notável de Severo Snape, sua pele alva realçada pelo preto habitual de suas roupas. Seus cabelos pretos cobrindo superficialmente seus olhos, e impedindo que notassem seu desconforto. Ele sempre soube que as pessoas o culpavam por aquelas mortes, mesmo que ele nunca tenha movido um aceno sequer de sua varinha contra eles, exceto Dumbledore, claro, mas aquele já era um assunto resolvido. No entanto, faziam com que se sentisse culpado pelo simples fato de ele ter sobrevivido e os outros não.
Agora, a mesa ainda estava vazia, nos mesmos assentos. Mas era indiscutível que a atmosfera em nada lembraria aquela do ano anterior. Havia conversas paralelas a todo o momento, e uma piada ou outra podia ser ouvida, arrastando risos por onde passava, de boca em boca. A ceia fora servida um pouco mais cedo, naquela noite, e com a ajuda de todos havia sido preparada como um verdadeiro banquete.
Apenas uma única atmosfera de desconforto podia ser sentida, entre Snape e Hermione, sentados a uma distância merecedora de piadas, visto quão longe estavam, e evitavam trocar qualquer tipo de olhar. Após o incidente em que seus corpos se tocaram, causando dúvidas em ambos, não trocaram mais nenhuma palavra no decorrer do dia. Não era como se nunca tivessem se tocado antes, porque na verdade Hermione se lembrava de já tê-lo abraçado pelo menos uma ou duas vezes, no Natal anterior talvez. Mas estes abraços, apesar de serem tão próximos, sempre fizeram com que ela se sentisse, ao mesmo tempo, extremamente distante dele. Com exceção do contato ocorrido mais cedo, onde tinha certeza de que o sentira perto o bastante.
Precisava evitar qualquer contato com ele, por não entender o que de fato estava sentindo, e temer que seus hormônios a traíssem, mas também porque Rony assumira uma posição de defesa constrangedora, e detestaria qualquer discussão em que pudesse terminar com uma imagem injusta de traidora.
Uma vez, ao ser pega por Snape em uma de suas visitas às escondidas em seu escritório particular, conseguira contornar o constrangimento de ser flagrada tentando sair do local com diversos livros de poções, e o convencera a dedicar alguns poucos minutos tirando-lhe inúmeras dúvidas que, na época, tinha em relação a algumas poções mais complexas. Sabia que o deixaria tentado a responder qualquer indagação que ela tivesse acerca daquele assunto, e o sucesso esperado fora além de suas expectativas. Passaram horas fragmentando trechos de preparos de poções em busca de melhores resultados, criando e recriando fórmulas até que o cansaço do sono os vencesse.
Na despedida, em uma atitude desesperada, colocou o máximo de livros que conseguiu dentro de sua bolsa, esperando que ele não se desse conta de que eram seus próprios livros. Uma vez de volta à segurança de seu quarto, achou ter obtido êxito, mas fora surpreendida pela entrada abrupta do mestre, sobre olhares de intensa desconfiança. Assustada, lembrava apenas de ter recuado em defesa, enquanto ele dizia “Por acaso você prestou alguma atenção ao que eu estava lhe explicando sobre aquelas poções, Granger, ou você só queria roubar meus livros no final das contas?”.
Tudo o que fora capaz de fazer tinha se resumido em uma gargalhada divertida, nada contida, enquanto pensava como, por Merlim, aquele homem podia ser tão observador o tempo inteiro. Na ocasião, assustado com o som de vozes e riso no quarto, Ronald se viu obrigado a interromper seu banho pela metade, saindo do banheiro coberto de sabão nos olhos, o que rendeu piadas por semanas seguidas. Desde então, Rony sempre dizia à Hermione que queria que ela mantivesse distância de Snape, porque nunca confiara em sua lealdade e porque ele representava uma ameaça constante. Sem seguir nenhum dos conselhos, continuou invadindo o escritório de Severo vezes seguidas.
Por outro lado, Severo se sentia miserável sem saber controlar suas reações orgânicas. Parecia um menino desprovido de autocontrole, e seu pensamento partia de seu prato de torta de ameixa para Hermione em seus braços em frações de segundos. Uma vez ou outra tinha que olhar para os lados, sempre com a impressão de ter ouvido algo, e então se dava conta de que era apenas o som da respiração ofegante que Hermione emitira no momento do contato, mais cedo, e que parecia gravado no interior de sua mente como uma realidade absurda, fazendo-o se lembrar do quanto estivera próximo dela.
Era uma sensação quase desesperadora, admitir que não tinha estado tão próximo de mulheres assim, nos últimos anos. Não contaria como fato nenhuma de suas aventuras noturnas, em noites de insônia. Porque eram tão raras que nem conseguia se lembrar da última vez que procurara por essas mulheres.
Normalmente, conseguia desviar seus pensamentos para qualquer outro assunto que não remetesse às suas necessidades orgânicas. Mas agora sentia todas essas vontades vindo à tona, como se tivesse esquecido que era um hábil manipulador de mentes, inclusive a sua.
Lembrava-se da visão que tinha tido de Hermione mais cedo, e surpreendia-se com a forma como uma imagem podia mudar por razões totalmente impróprias. Antes de tê-la, não de forma proposital, encurralado contra seu próprio corpo, na intenção de tomar-lhe os livros à força, só tinha conseguido enxergar uma jovem extremamente astuta, de mente brilhante, porém perigosa, que tentava a todo custo não admitir não dar à mínima para suas ordens, e que o enfrentava de queixo totalmente erguido, sem medo de reprimendas. Agora, só via a mulher cuja astúcia lhe causaria muitos transtornos quando deitasse para dormir, em sua cama, naquela noite.
– Estão prontos? – era Arthur Weasley quem lhes perguntava, deixando seu talher cair sobre o prato vazio – Que tal partirmos logo para os presentes?
Uma baforada de irritação foi ouvida do outro lado da mesa, e vinha de Snape. Mas o restante da mesa estava animadíssimo para o Amigo Oculto sugerido por Dumbledore, logo mais cedo, como conselho para apaziguar os ânimos. Era de se esperar que ele fosse propor alguma coisa do tipo, visto que ele próprio teria desejado participar. Se isto já não fosse demasiado triste, ele ainda acompanharia a entrega dos presentes, de esguelha através dos muitos quadros que havia na casa.
Um a um, seguiram para a sala, acomodando-se cada um em seus lugares favoritos, entre sofás e poltronas. No canto da lareira, Snape tinha seu lugar reservado, e ninguém ousaria ocupá-lo. Do lado oposto à sala, sentada sobre o tapete do chão, ao lado das pernas do namorado, estava Hermione. De lá não conseguia enxergar muito da expressão de Severo, mas podia notar a aparente decepção que ele sentia por ter que participar do evento, claramente demonstrado na postura com que estava sentado.
Cada um carregava em mãos seus presentes, alguns maiores, outros bem pequenos. Mas não havia nenhum nas mãos de Snape, para curiosidade de muitos.
– Era mesmo de se esperar que o amigo oculto do Snape fosse ficar sem presente, essa noite... – Gina comentara, sarcasticamente – Por acaso as lojas que visitou estavam fechadas, professor?
Seu comentário rapidamente foi seguido por uma risada ácida de Rony, ao tempo em que Hermione o encarava repreensivamente.
– Deseje apenas que eu não tenha sorteado você como amiga oculta, senhora Potter... – Snape respondeu à provocação, sua voz baixa, porém audível.
Imediatamente se viu preso a uma reflexão interna, por ter se referido à filha caçula dos Weasley como esposa de Harry, quando eles não eram mais que namorados. Lembrou-se imediatamente que Hermione e Ronald também não eram casados, mas viviam como tal desde o fim da guerra, e nunca nem se quer pensou em trocar o sobrenome dela por outro. Sentiu um bolo se formando em sua garganta e uma involuntária retração de seu pulso, enquanto retirava do bolso interno de sua veste um embrulho minúsculo, que com o aceno da varinha foi trazido ao tamanho original. Estava precariamente embrulhado em um papel manchado.
Após uma rápida preparação, iniciaram-se as entregas dos presentes. Ao centro da sala, a pessoa da vez fazia um pequeno discurso sobre seu sorteado, e o anunciava entre palmas e assovios, entregando o presente e sorrindo para uma foto rápida que Tonks tirava. Um a um, os presentes eram entregues. Como não haviam tido tempo suficiente para a compra do presente, visto a ideia de ultima hora, a improvisação era o melhor da brincadeira.
– Meu amigo oculto... Vejamos o que falar dele. – Hermione agora estava no centro, visivelmente nervosa por ter de falar sob tantos olhares. – Na verdade, sinto que não tenho muito a dizer sobre ele. – suas mãos estavam suando, à medida que tentava olhar nos olhos de cada um, evitando os de Snape – Pensando bem, eu não tenho nada a dizer mesmo. – e uma onda de risos nervosos pareceu dominar o ambiente, como se todos pudessem prever que Hermione houvesse tirado o nome de alguém de quem tinha inimizade – Eu poderia falar qualquer coisa, e ainda assim eu não estaria dizendo nada, porque não vejo como dizer coisas que já foram ditas tantas vezes. – levou a palma das mãos de encontro às calças jeans que usava, estavam levemente úmidas, e tal ato provocou a mente insana de Severo, fazendo-o desviar seus olhares para a visão de uma jovem que há muito não notava que havia se transformado em mulher – De qualquer forma, eu direi alguma coisa: obrigada por existir, sabe que sou grata a você de diversas formas, minha existência não seria nada se você nunca tivesse posto a sua em risco, mas acima de tudo, sua amizade e seu companheirismo são o que fazer ser quem sou, Harry Potter.
E uma explosão de risos e aplausos inundou o ambiente, enquanto um presente era entregue a Harry, seguido de um abraço caloroso e um beijo no rosto. Ronald parecia impaciente em sua poltrona, talvez incomodado com a demonstração de afeto extremamente exagerada entre a namorada e o melhor amigo. Ou talvez, ainda, ele tivesse desejado muito que Hermione o tivesse escolhido no sorteio, e estivesse desapontado agora.
No momento em que Hermione terminou a entrega, Harry fez menção de ir para o centro, obviamente sendo sua vez na rodada, mas foi atingido bruscamente por um empurrão vindo de Ronald em seu ombro, forçando-o a voltar para seu lugar. Estava nervoso, e não tirava os olhos de Hermione, que foi surpreendida quando ele a puxou pelo braço, trazendo-a para o centro da sala. Severo notou a intensidade com o qual ele praticara o ato, e teve ímpetos de levantar-se também, mas não saberia como reagir. Como o bom espectador que sempre fora, ficou atento aos sinais.
– Hermione, eu tirei você... – disse Ronald, imediatamente após o olhar inquisidor dela sobre ele.
Todos explodiram em gargalhadas assim que se deram conta do nervosismo aparente do ruivo, enquanto segurava um embrulho de tamanho pequeno apontado na direção dela. Livrando-se do aperto em seu braço, afastou-se o suficiente para compreender o que estava acontecendo. Nunca vira seu namorado agindo daquela forma, mas aceitou o presente assim mesmo.
– Obrigada, Rony... – disse, incerta se deveria abri-lo logo ou aguardar que ele dissesse algo.
Vendo que ele não diria, abriu. Seu coração saltou de seu peito no instante em que se deu conta de que estava segurando uma pequena caixinha nas mãos, e que, ao abri-la, se deparou com nada mais que um anel brilhante, incrivelmente reluzente. Era lindo. Era caro, tinha certeza. Era de noivado, e não entendia o motivo daquilo.
Desviando seu olhar dele para o anel inúmeras vezes, indagou com sua própria expressão de desentendimento, mas não ouviu nada além de um baixo, quase inaudível, “Deseja se casar comigo?”
A essa altura, estavam todos em silêncio, como se uma simples exclamação pudesse estragar o momento. Snape já não estava tão disciplincente em sua poltrona, na verdade agora estava inclinado para frente. Sentia o cheiro de trapaça, era evidente. Tinha certeza, na verdade. Mas o pedido de casamento parecia sincero, ao menos.
– O quê? – perguntou Hermione, mudando o peso de uma perna para outra – Está me pedindo em casamento, Ronald? – disse, no que ele balancou a cabeça afirmativamente. – Não me diga... Então quando eu disse que não deveriamos pensar em casamento até que tivessemos nossa estabilidade financeira e, no minimo, um lugar só nosso para morar, ou um bom seguro de saúde... Você simplesmente não me ouviu, foi?
– Eu realmente acho que já é hora de pensarmos em camento, Hermione. – respondeu, parecendo um pouco nervoso – Já temos uma boa conta bancária, e sempre podemos expandir um comodo ou outro desta casa para aumentar nosso quarto, e também...
– RONALD WEASLEY, EU DISSE QUE NÃO QUERIA PENSAR EM CASAMENTO, NÃO ENQUANTO NÃO TIVESSE CERTEZA DE QUE ESTARIA PRONTA.
– Você não me disse que não estava pronta, Hermione. – puxou-a pelo braço mais uma vez, visivelmente alterado. – Você nunca me disse que estava em dúvida. Eu apenas pensei...
– Você pensou errado, Ronald.
Dito isto, arremessou o anel contra ele e saiu em direção aos jardins, tão rapido quanto pode, antes que começasse a chorar na frente de todas aquelas pessoas. Não suportaria a vergonha. Mesmo irritado, Rony se viu em dúvida se iria atrás dela ou não, até se decidir que deveria. No momento em que seguiu em direção à porta, Severo sentiu vontade de impedi-lo, e dizer que era bom para ela que ficasse sozinha um pouco. Mas isso pareceria estranho demais, e ainda ousado.
Algum tempo depois, tudo parecia estar calmo, e pediram que continuassem as entregas. Harry fez a sua, no que Arthur seguiu a ordem. Um a um, até que só restasse uma pessoa.
– Bom, eu tirei o babaca do meu irmão, o Ronald. – dizia Gina, no centro da sala, tirando alguns risos de poucos – E como ele não está aqui, não tenho vontade alguma de falar nada a respeito dele. Nem sei se ele merece esse presente. – e fez menção de que destruiria o presente com sua varinha – Mas agora não entendo por que o Snape ficou sem presente e por que ele não tirou ninguém...
De repente os olhares estavam todos sobre ele. Com um gesto calmo, Snape ergueu-se de sua poltrona e caminhou até o centro da sala. Seu embrulho parecia saído debaixo da saia de um trasgo, tamanho a quantidade de amassados.
Pigarreou uma vez, não para chamar atenção, mas para criar coragem.
– Acredito que tivemos uma farça neste jogo. – disse, sem fitar ninguem em especifico, ouvindo um som de espanto dos demais – É provavel que o senhor Weasley tenha tirado a mim no sorteio, mais cedo. Por constrangimento de ter de me presentear, o que admito não ser uma ideia agradável, de fato, ele optou por pedir sua namorada em casamento, no que tivemos a honra de assistir ao espetáculo. Obviamente ela não o quis, por seus motivos, é claro. Evidente que eu tenha ficado sem presente, e não espero recebê-lo depois disso, de qualquer forma. – todos pareciam divididos entre sentir pena ou divertir-se com a trapaça de Ronald — O fato é que minha sorteada não está em condições de ser presenteada nesse momento, levando em conta que ela está tentando lidar com um pedido de casamento fora de hora. No entanto, faço questão de entregá-lo a ela, assim que possível.
Como se tivesse acabado de contar um segredo, conseguiu fazer com que todos permanecessem calados, enquanto absorviam os fatos e buscavam compreensão para os atos de Rony. Parecia terrivel, visto que Snape houvera sido convidado a participar do jogo tanto quanto qualquer um deles, e não merecia tamanha discriminação. Mas apesar de tudo, sabiam que Snape não se importaria tanto com aquela tragédia, talvez até tivesse preferido que terminasse daquele modo.
Percebendo que ninguém talvez faria qualquer pronunciamento a respeito, e não desejando mesmo esperar que fizessem, Snape retirou-se da sala em direção às portas do fundo, lado oposto para onde Hermione correra anteriormente, e para onde Rony havia seguido atrás dela. Não estava triste ou irritado, mas algum sentimento diferente habitava seu íntimo, algo nunca sentido antes, não que se lembrasse. Sabia apenas que não tinha relação alguma com a sua falta de presentes ou falta de sorte de não poder presentear sua ex-aluna brilhante, como tinha pensando mais cedo. Guardaria seu presente até o momento mais oportuno. Não sabia quando, talvez tudo dependesse de como as coisas entre ela e o namorado se resolveriam.
– Meu caro Severo... Não vá. – ouvia-se a voz de Dumbledore em um quadro distante, chamando por Snape e atraindo a atenção de algumas pessoas mais atentas.
Snape interrompeu sua caminhada antes mesmo de deixar o ambiente, permanecendo na posição em que estava, de costas para todos, inclusive para Alvo.
– Permita-me participar deste jogo, enquanto ainda tenho esta imagem a preservar. – disse o ex-diretor, com um leve sorriso em seus lábios, sua voz tão doce e melodiosa quanto se lembravam que fossem. – Talvez eu possa presenteá-lo.
Snape suspirou, sabendo que teria que ouvi-lo, seja o que quer que fosse dito.
– Sei que não tenho muito a oferecer, visto a minha condição... – disse o senhor, referindo-se a não estar mais em vida – Nem tão pouco poderia presenteá-lo com algumas das deliciosas uvas pintadas nos quadros da cozinha... Oh, Severo, perdão, uva não é bem sua fruta preferida, não é mesmo... – no que terminou retirando alguns risos das pessoas na sala, até mesmo um esboço livre de raiva nos lábios de Snape – Então deixe-me presenteá-lo com algumas palavras. Conselhos, talvez, entenda como achar que deve. Lembra-se da última vez em que se permitiu, Severo?
Era uma pergunta, ele sabia, e mesmo não tendo entendido, virou-se de frente para o quadro em um movimento ligeiro, notando um brilho extremamente reluzente por trás dos óculos meia lua do homem. Talvez entendesse, mas só talvez.
– Velho idiota... – foi o que disse, recusando-se a acreditar que aquele assunto podia ser sobre sentimentos.
– Sim, sim... Então você se lembra da última vez em que se permitiu, não é mesmo? – disse novamente, sorrindo ao ver que fizera Snape chegar a conclusão, pois se referia à ultima vez em que Snape se permitira amar, verdadeiramente.
– E por acaso você se lembra dos resultados dessa permissão, Alvo? – Snape devolveu-lhe a indagação, sobre olhares atentos de não entendimento dos demais.
– Oh, lembro bem, Severo. Mais do que desejaria. Mas escute, meu jovem... – e dizendo isso fez com que algumas pessoas se aproximassem ainda mais, motivadas pelo tom cuidadoso com que ele escolhia suas palavras, mesmo que para usá-las com o homem que muitos ainda consideravam como traidor – Permita-se novamente, Severo. Nunca esqueça que um vilão já foi derrotado, acha mesmo que outro poderia detê-lo? Ah, e não esqueça de entregar seu presente, Severo.
Snape não estava verdadeiramente certo se havia entendido, mas seu corpo inteiro estava disposto a lhe mostrar a verdade. Sentia desejos até então não sentidos, e todos apontavam para uma única mulher, a de mente mais brilhante que já conhecera, depois de Lilian. Detestava ter que concordar com Dumbledore, mas desse vez ele havia acertado em cheio. Mesmo que não quisesse, seu corpo e sua mente ansiavam por permitir-se. Nem que fosse uma vez mais, antes de uma nova decepção.
Sorriu amigavelmente para o bruxo no quadro, e voltou seu caminho agora para a direção oposta, seguindo para seu quarto. Pensaria mais a respeito, de qualquer forma.
CAPÍTULO 3 — Permissão Concedida
Era quase horário do almoço, quando Hermione acordou. Sentia-se cansada, levemente febril visto que mal dormira na noite passada. Seus olhos estavam inchados, tinha certeza, assim como imaginava que seu rosto denunciasse imediatamente a quantidade de lágrimas que derramara durante a noite. Esperava passar despercebida, por isso adiara o seu desjejum. Mas não podia fugir da refeição mais importante do dia. Seu estômago reclamava sonoramente desde as primeiras horas do dia.
Após um banho quente revigorante, entrou nas melhores roupas de inverno que tinha em seu guarda-roupa. Pensava que mesmo que estivesse se sentindo destruída por dentro, gostaria de se sentir maravilhosamente bem por fora. Não que pretendesse esfregar isso na cara de Ronald, por tê-la feito mergulhar naquele poço de incertezas e decepção, apenas por causa de um pedido de casamento surpresa. Queria apenas mostrar para si mesma que podia se sentir bem quando tudo parecia não estar.
Desceu para o almoço certa de que ouviria muitos muxoxos quando notassem que estava um caco. Mas ficou surpresa quando encontrou a mesa parcialmente vazia, se não fosse pela presença de Gina e Molly. Sentiu-se aliviada, sabendo que a senhora Weasley representava uma zona de conforto para ela, e que Gina talvez manteria sua boca fechada durante a refeição. No fundo, Gina sabia como era se sentir indecisa. Talvez ela própria compartilhasse desse sentimento, e temesse pelo momento em que Harry pensaria em formalizar o pedido de casamento.
– Sirva-se, querida... – dizia Molly, apontando para a comida sobre a mesa
– Onde estão todos, senhora Weasley? – perguntou à mulher, enquanto enchia seu prato, estava faminta.
– Ronald ainda não acordou, nem acho que vá, ele disse que vai ficar lá até morrer. – respondeu Gina — Palavras dele.
Hermione interrompeu uma garfada apenas para encará-la. Era surpreendente como Ronald podia ser infantil, mesmo depois de crescido.
– Eu perguntei onde estão todos, Gina... – Hermione indagou, esperando uma resposta mais generalista
– Oh, todos dormem, Hermione. – Molly respondeu-lhe.
Hermione agradeceu em silêncio e continuou sua refeição, mas parou no ato de levar um copo de suco aos lábios quando viu uma figura completamente caracterizada em roupas negras adentrando o espaço da cozinha. No mesmo instante em que ela o notou, Severo a reconheceu também, e repreendeu-se por pensar em voltar para o quarto antes que ele notasse qualquer traço sôfrego em sua face marcada. Não tinha razões para temê-lo, afinal, não havia nada acontecendo entre eles. Precisava se lembrar disso sempre que estivesse na presença de Snape, para ter certeza que sua mente não traçaria caminhos inoportunos.
Severo sentou-se em sua cadeira habitual, distante de todos, e fez sua refeição em silêncio. Se antes não havia assunto entre as mulheres, agora também não haveria de ter. Severo não era dado a conversas fúteis, muito embora Hermione tivesse muitas conversas recompensadoras em mente, como discutir os efeitos de uma poção nova que pesquisara nos livros que roubara de seu escritório na semana anterior. Mas Snape sabia que Hermione, no mínimo, estranharia tamanho interesse por tal discussão, muito embora ele já soubesse que a mente brilhante de Hermione Granger era sedenta por qualquer assunto que não fosse Quadribol ou revistas de moda, assuntos preferidos de seus amigos e de Gina Weasley.
Enquanto desfrutava de sua refeição, observava atentamente o quanto de comida ainda tinha no prato dela. Muito longe de estar interessado no quanto de comida ela ingeria, ele queria apenas terminar ao mesmo tempo em que ela o faria . Notava as poucas vezes em que ela desviara seu olhar para a cadeira em que ele estava, e imaginava que ela estivesse curiosa para saber aonde ele pretendia ir vestido daquela forma.
– Hoje é Natal, Severo. Não temos trabalho para hoje. – fora Molly quem dissera.
Não disse nada, dedicando apenas um olhar furtivo à mulher. Por fim, abandonou seu prato apenas um pouco depois de Hermione já tê-lo feito, levantando-se logo após um gole em seu suco. Retirou-se da cozinha com a mesma expressão de quando entrara, deixando uma interrogação imensa atrás dele. Suas vestes esvoaçaram no ar e enviaram à Hermione uma estranha inquietação.
Assim que entrou em seu escritorio, Severo ouviu o rangido da porta abrindo-se novamente, atrás dele. Imaginava que o plano tivesse funcionado. Conhecia sua ex-aluna favorita bem o suficiente para saber que ela gostava de ser instigada até o nível máximo de sua curiosidade.
– Com licença, professor...
– Você sempre pede licença quando invade meu escritorio, mesmo quando não estou aqui, Granger?
Não respondeu ao comentário ácido de Snape nem tão pouco se deteve à porta. Caminhou até ele e observou os papéis que ele mechia sobre a mesa. Não havia nada ali que pudesse denunciar o motivo de sua saída, no entanto.
– Molly tem razão. Não temos trabalho para hoje...
– Claro, porque hoje é Natal. – disse, em tom bastante baixo. – Conte-me uma novidade, senhorita.
Hermione não entendia aonde poderia ser levada com aquela conversa, mas adorava uma boa charada. Se não fosse por isso, não roubaria tantos livros dele, uma vez que apesar destes livros apresentarem uma quantidade imensa de observações e dicas em suas entrelinhas e rodapés, anotações brilhantes diga-se de passagem, mas quase nunca conseguia entendê-las de primeira, visto o tamanho do garrancho que era a letra de seu ex-professor. Com um pouco de observação, aprendeu a entender cada traço, quase como se lesse uma obra de arte.
– Divagando, senhorita?
– Desculpe... – disse baixininho, percebendo que houvera mesmo se distraído. – Alguma missão particular, imagino?
– Não exatamente. Uma missão normalmente exige um roteiro, e espera-se que tudo termine como planejado. – disse, arrastando sua voz à medida que virava-se para observá-la entretida em seus papéis – Neste caso, apesar de eu ter planejado bastante, não imagino como isso poderia terminar...
– Estamos falando sobre o que, afinal? – indagou, retendo seu olhar de encontro com o dele.
– Sobre você, Hermione, claro.
Respirou um pouco pesado, esperando uma resposta diferente do homem. Abaixou a cabeça e fitou seus pés antes de retomar aos olhos dele. Não notou de início, mas estava muito próxima dele, como da outra vez. Tanto que sentia o cheiro agradável de uma colônia masculina. Tamanha aproximação combinada com o fato de que agora ele conseguia chamá-la pelo primeiro nome com um tanto mais de facilidade, desde que ela tomara a iniciativa de dirigir-se a ele do mesmo modo, tornavam aquele momento ainda mais peculiar aos olhos de Hermione.
– Se estamos tentando falar sobre o incidente de ontem, durante o amigo oculto, espero que perceba que se não o fiz com meus melhores amigos, não vejo porque eu faria com você.
– Tem razão, senhorita. – disse, afastando-se um pouco dela, o que a deixou profundamente desapontada, não tinha intenção de magoá-lo, não era de sua natureza destratar as pessoas – Porque eu não estou tentando falar sobre seu incidente, mas sobre isto aqui...
Em um relance, Hermione pensou ter visto um embrulho sendo retirado de dentro de uma gaveta, mas desistiu da idéia assim que sua mente a repreendeu por tal idéia absurda. Até que ele lhe mostrou o presente, no mesmo embrulho miserável de antes. Não precisou dizer nada para que ela entendesse que ele estava lhe entregando, e ela tampouco se deu ao trabalho de questioná-lo.
Abriu o embrulho com um cuidado que beirava o ridiculo, visto a forma como o papel estava amassado e gasto. Mas quando terminou de fazê-lo, mal conteve sua reação de surpresa ao perceber que era um objeto que almejava há muito.
– Não pode dá-lo a mim, Severo.
Novamente foi atingido por uma falta de ar repentina, ouvindo-a referir-se a ele daquela forma. Tinha que controlar sua mente caso quisse controlar seu corpo.
– É seu, Hermione.
Foi a vez dela não conseguir respirar, entre um misto de surpresa e divertimento. Não precisava abrir o livro em suas mãos para saber que era o mesmo que ela tentara roubar, no dia anterior. O livro que ela considerava uma obra de arte, não apenas pelo conteúdo, mas pela forma como Snape conseguira transformá-lo em um almanaque apenas com alguns comentários entrelinhas, que lhe davam a felicidade de sempre acertar no preparo de suas poções avançadas.
– Não achei que mereceria dois presentes em um mesmo Natal, Severo. – disse, sorrindo envergonhada, enquanto jogava uma mecha de cabelo para trás. – Obrigada, professor.
– Pois sinta-se merecedora de apenas um presente, caso o primeiro não tenha lhe agradado. – respondeu, no que observou os olhos dela procurando pelos seus imediatamente ao comentário, havia sido ousado, era verdade. – Entendi sua reação de ontem como uma negativa ao pedido do rapaz. Acaso mudou de ideia quando acordou esta manhã?
– Por que estamos discutindo sobre isso, professor?
Severo sentiu um desconforto por ouvi-la perder seu primeiro nome e trocá-lo apenas pelo respeitoso “professor”. Temia estar sendo ligeiro demais em suas intenção, e não queria assustá-la. Não acahava que teria uma chance igual aquela novamente. Tinha que reconstruir a imagem que representava para a jovem, cautelosomente.
– Não estamos discutindo, perdoe-me pela intromissão, senhorita. – respondeu, afastando-se.
Hermione sentiu seu afastamento como se algo lhe fosse tirado, muito embora ainda tivesse seu presente em mãos.
– Eu não costumo mudar de idéia com muita frequência, professor, e dessa vez não mudei.
Severo sentiu um sorriso querer brincar em seus lábios,e repreendeu-se por achar que não devia sentir essa felicidade. Precisava lembrar das palavras de Dumbledore, e tudo daria certo, no final.
Em um instante sentiu os dedos magros e delicados de Hermione segurar-lhe o braço, mesmo coberto por uma grossa camada de veste. Soube no mesmo instante que alguma coisa havia mudado no modo como ela o via, talvez no modo como ela o entendia. Caso contrário, aquele contato nunca teria acontecido naturalmente. Esperou por uma fala dela, mas tudo o que foi capaz de captar fora um contato visual intenso e um aceno de mãos que pedia que ele lhe acompanhasse. Como se estivesse preso a um redemoinho de emoções, sem saber para que lado ir ou vir, ou o que dizer e sentir, preferiu apenas ser guiado pela força invisivel que Hermione exercia sobre ele. Guiou-lhe em direção ao seu laboratório de poções, seu local de trabalho, onde tinha algo que precisava mostrar-lhe.
Uma vez lá dentro, Snape não soube como reagir, mesmo que o ambiente fosse-lhe inteiramente familiar. Mas aguardou a qualquer comando da mulher, que ainda um pouco indecisa, pigarreou para então dizer algo.
– Tenho uma coisa que gostaria de lhe dar de presente também, professor. – disse, apontando para sua estante de livros, repleta em todas as prateleiras.
– Sua biblioteca particular me parece um presente muito interessante, mas não acho que eu precise de tantos assim...
Hermione permitiu-se uma leve risada, desejando não parecer esnobe ao fazê-lo. Mas percebeu que fora uma boa idéia, pois viu quando ele sorriu contido, porém retribuindo.
– Perdão, professor, creio que deva ser mais específica. – e apanhou um embrulho escondido entre muitos daqueles livros, tão bem embrulhado em papel brilhante que Snape achou que deveria tê-lo notado logo de início.
Após um breve instante de surpresa, ele abriu o presente e conteve um comentário afiado quando notou que era um livro, Poções Avançadas, simplesmente a mesma edição daquele que acabara de dar à ela. Achou melhor aguardar uma explicação, que sabia que viria.
– Pensei que o senhor, como Mestre de Poções e uma mente intelectual, gostaria de algo como isso. – disse, observando-o meticulosamente, temendo qualquer reação adversa. – Deixe-me ser mais clara... – e roubou o livro de suas mãos apenas para virar-lhe algumas páginas e mostrar a ele que havia inúmeras anotações entrelinhas e no rodapé – Minhas anotações talvez lhe sirvam, algum dia, assim como as suas ainda me servem até hoje.
Sem muita objeção, apenas balançou a cabeça positivamente, virando as páginas com um olhar cada vez mais orgulhoso, à medida que notava a quantidade de anotações significativas quanto ao preparo das poções.
– Brilhante. – foi tudo o que ele conseguiu expressar.
– Não tão brilhante quanto as suas próprias anotações, professor, mas tomei a liberdade de acrescentar muitas outras...
– Não, você não entendeu, Hermione. – corrigiu-a, fechando o livro e olhando-a diretamente – Eu disse que você é a mulher mais brilhante que já tive a oportunidade de conhecer. A mais brilhante de todas, na verdade.
Seria errado afirmar que era mais brilhante até mesmo que Lily? Não tinha muita certeza, mas achou que deveria dizer. Inesperadamente, sentiu um hálito levemente adocicado colidir de encontro com sua face, ao tempo em que uma minúscula mão apoiava-se contra seu peito e, antes de qualquer certeza maior, soube que ela depositava um beijo em seus lábios. Tâo suave que ele podia jurar não ter sentido nada, se seu corpo não tivesse reagido instantaneamente e trazido o dela , esguio, de encontro ao seu prórprio.
Mesmo incerto, não viu motivo para não aprofundar o beijo, na medida em que sentia a aceitação dela. Levemente, assim como começara, o beijo terminou. Em uma suavidade absurdamente angustiante, deixando uma sensação de perda inegável. Parecia compreender, finalmente, porque se sentia tão tentado a estar mais perto dela, pois agora ficava claro que, o tempo todo, havia um sentimento oculto em cada contato maior, em cada olhar e em cada gesto entre eles.
Tinha esperado que Hermione ruborizasse, ante a vergonha, talvez. Mas notou apenas o tanto de calma que ela sustentava em seu semblante e em sua postura, a mesma de antes. E acabou por sentir-se, novamente, como um menino vergonhoso, prestes a sair correndo cobrindo o rosto. Era tudo tão novo e tentador, que tinha que planejar mentalmente a próxima etapa, se não quisesse pôr os pés pelas mãos. Deixou apenas um pequeno sorriso extendido em seus lábios, outrora beijado.
– Eu tinha desejado tanto sorteá-lo na noite passada, que acabei separando seu presente antecipadamente, quase certa de que teria seu nome naquele pedaço de papel. – disse Hermione, sem desfazer um fio sequer do contato visual com o homem – Mas eu imaginei mesmo que Rony não tivesse me sorteado, e que o pedido de casamento tivesse sido uma medida desesperada da parte dele de garantir que eu não me permitisse cair em outros braços, além dos dele. E nós dois soubemos, Severo, no instante em que nos tocamos ontem, enquanto tirava o livro das minhas mãos, que Ronald tinha motivos para se sentir ameaçado. Agora tudo o que vejo é uma possibilidade bem pequena de que possamos construir algo, juntos... Mas se me permite dizer, Severo, eu vejo essa possibilidade crescendo a cada minuto que passo ao seu lado. Eu sei que é errado...
– Brilhante, Hermione. – disse, desfazendo-se do livro que ainda tinha em mãos e segurando as mãos dela em suas próprias, a medida que a trazia para próximo. – Eu já disse que você é uma mulher brilhante, Hermione? – esperou pela resposta, que foi um sorriso sincero – Eu vejo as mesmas possibilidades crescendo, e gostaria que aceitasse os riscos, acaso não se lembre que eles existam.
– Estou sempre ciente dos riscos, Severo. Já vivi muitos deles e, sinceramente, sem eles não haveria motivo para continuar.
Sorriu ao mesmo tempo em que Snape lhe prendia em um abraço, com seus braços largos e fortes, deixando uma deliciosa sensação de proteção e bem estar. Era assim que se sentia quando estava com ele, e sensação alguma podia ser melhor que esta. Seu relacionamento com Ronald já não era o mesmo desde que ele tentara prendê-la a ele de modo tão possessivo e autoritário, o que se explicava por sua recusa imediata ao pedido de casamento. Não se imaginava vivendo eternamente ao lado de um homem que estava o tempo inteiro roubando a liberdade que era de direito dela, agora mais do que nunca, com o fim da guerra.
– Estou pronto, como pode ver... – disse, separando-a de seu corpo apenas para demonstrar que se referia às suas vestes de inverno. Precisava acalmar seus nervos e criar uma atmosfera de confiança, não chegaria muito longe se não agisse com cautela – O que deseja fazer, agora?
Hermione considerou a pergunta, sentindo um formigamento em seus membros, certa de que levaria algum tempo para se acostumar com todas as novidades e pensar melhor a respeito das tomadas de decisões que faria, em breve. Não sabia o quanto de dificuldade teria, mas estava muito confiante de que podia valer a pena qualquer esforço. Mordeu seu lábio inferior totalmente inconsciente do ato, e respondeu a pergunta com outra extremamente ousada.
– E precisamos de tantas roupas assim, Severo?
– Está bastante frio lá fora, Hermione. – disse, apontando as janelas embaçadas, inocentemente.
– Mas aqui dentro não.
Snape soltou uma risada, uma sonora risada. Não havia como não sentir-se feliz, ou divertido. A mulher mais brilhante que conhecera na vida tinha, ainda, idéias muito brilhantes. Abraçou-a mais forte, agora, e depositou um beijo tenro no topo de sua cabeça, desejando que ela não perdesse sua sensualidade achando que ele não a desejava. Mas precisava ir devagar. A pressa fizera com que cometesse muitos erros no passado, não esperava cometê-los novamente.
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FIM
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