Notas iniciais
Provavelmente não tenho como me defender. Um pouco de fluffy para esses dois era algo que eu achava inimaginável, até... Escrever. Boa leitura!

— Ei!

Voltou a cabeça em direção ao som. Não era a primeira — nem a segunda — vez que se encontrava com aquela pessoa ali.

— Você está aqui de novo.

— Mas não por muito tempo. Quero lhe mostrar outros lugares.

Aquilo era uma novidade. Desde quando Defteros saía mostrando locais para os outros? Apenas depois Asmita deu-se conta de que, talvez, ele fosse o único privilegiado com tais incursões.

Caminhavam despreocupadamente, suas figuras quase ocultas pela escuridão da noite.

— Precisaremos escalar. Não muito, nem muito longe. Também não é um local perigoso. Só é… De difícil acesso para pessoas comuns.

Desconhecia aquele local, longe dos limites do Santuário. Podia ouvir as ondas rebentando abaixo, e o cheiro inconfundível da maresia.

Quase desequilibrou-se, quando seus pés foram de encontro a um pedregulho — ou algo similar.

— Cuidado — advertiu-o o dono do braço que o sustentou.

— Devo pedir perdão.

— Não é necessário. — Fez uma pausa. Não sabia como abordar a questão. Coçou a cabeça. — Sempre achei que você pudesse… Sabe… Ver por onde anda.

Asmita suspirou. Compreendia que a curiosidade era algo natural. Imaginava que, nas mentes de outras pessoas, a cegueira tivesse um misto de fascinação e temor.

— Eu preciso de algum tempo para me ajustar a um ambiente novo.

— Agora sou eu quem deve se desculpar.

— Não é necessário — Asmita sorriu. — O tipo de visão que tenho através do cosmo, se é que podemos chamar assim, é imperfeito. Posso saber quem passa por mim, quem está ao meu lado, mas nada sei sobre suas cores ou sobre suas feições.

Suspirou. Precisou usar seu auto-controle para não derramar as lágrimas que sentia acumularem-se sob as pálpebras — como ele mesmo dizia que eram — seladas contra sua vontade.

Não que lhe fosse impossível abrir os olhos mas, quando criança, ocorrera-lhe que parecia assustador para os demais. Alguém disse-lhe aquilo e, embora sequer conseguisse se lembrar do nome da pessoa, as palavras marcaram-se nele como brasa. Desde então manteve os olhos fechados.

— O que posso sentir… E posso afirmar que todas as pessoas carregam, são dores. — Completou.

— Queria que você se esquecesse das dores, pelo menos por algumas horas.

— O que pretende fazer?

— Quero te levar a um lugar. Pense nisso como uma retribuição pela sua ajuda.

Defteros coçou a cabeça novamente. Parecia um péssimo começo. E tinha consciência do quanto era um desastre em questão de interação social.

Deu-se conta, então, de que Asmita ainda segurava sua mão. Sorriu.

— Estamos perto desse lugar?

— Não exatamente. Menos de dez minutos de caminhada e chegaremos, se você não se importar.

Notou o sorriso suave e discreto de Asmita, o luar acentuando-lhe a expressão delicada do rosto e dando um reflexo prateado às madeixas loiras.

— Defteros — chamou-o em um sussurro — nós estamos indo para longe do mar?

— Não é para longe do mar, embora seja sim em outra direção.

— Oh… Não vai me dizer para onde?

— Saberá quando chegarmos.

Deixou-se orientar até o local tão misterioso de que Defteros falava. Sentia o ar úmido, típico da proximidade a um corpo d’água.

Tentava conduzir-se pelos outros sentidos. Excetuando-se a respiração de Defteros e dele próprio, e alguns pequenos animais, ou a delicada brisa sobre pequenas plantas, nada podia ouvir.

O chão sob seus pés não pareceu tão acidentado quanto o do local anterior.

Sentiu-se desamparado quando a mão de Defteros soltou-o.

— Estamos à beira de um lago — explicou, enquanto despia-se sem qualquer cerimônia.

Não havia ninguém para vê-lo ali e, de qualquer forma, ele não via o corpo humano como algo vergonhoso que precisasse ser ocultado.

Tentava imaginar o que se passava pela cabeça de Asmita. Ele a mantinha erguida para o céu, com a expressão que lhe era característica, o sempre presente misto de dor e tristeza.

— Eu entrarei na água. Quer vir?

Asmita anuiu, calado. Despiu-se da túnica leve que passara a usar na Grécia, nos raros momentos de folga, e tomou o braço de Defteros.

Suas pálpebras tremeluziram quando ele sentiu o contato de água quente ao redor da pele.

— Não imaginava que fosse água quente — confessou — é bastante agradável.

— Sim, são águas termais.

Sentiu pequenas pinçadas ao redor dos tornozelos, e a tentativa de livrar-se do susto que provocaram foi pouco discreta.

— São apenas pequenos peixes. Não farão mal, nem ficarão por muito tempo aqui.

Defteros acercou-se. Colocou os fios dourados atrás das orelhas de Asmita — que franziu levemente a testa — e contemplou-o.

Sabia bem que aquelas feições poderiam ser enganadoras. O indiano tinha traços muito suaves, e a expressão que lhe parecia permanente, com toda aquela tristeza, parecia destacar um certo ar de fragilidade: algo que estava muito aquém da verdade. Asmita era um guerreiro poderoso.

— Está inquieto hoje — Defteros constatou. Havia percebido bem mais cedo, antes de mesmo de sequer encontrarem-se naquele dia, mas queria que Asmita ao menos lhe dirigisse alguma palavra.

— Não é nada demais…

— Não tente me enganar.

— Só estive pensando nas coisas que desconheço. É tudo. Como eu disse, nada demais.

— Vindo de você, parece demais, sim.

Asmita suspirou. Deixou os ombros caírem e, se não estivessem na água, teria saído correndo. Franziu os lábios.

— Como são as constelações? Como é o mar? Como é o seu rosto? — Inspirou profundamente, como se buscasse fôlego. — Soube por Hakurei que as constelações parecem conjuntos de pontos de brilho muito distantes de nós, mas qual é o padrão que formam? Do mar, conheço o som e o aroma, mas o que é ver uma onda arrebentando-se na praia? Quanto ao seu rosto… Não faço ideia de como ele é.

Defteros piscou. Asmita nunca falava muito, e era mais raro ainda que confessasse sobre as próprias inquietações.

— É isto o que está te causando tanta angústia?

Prendeu a respiração. Sabia que Defteros se aproximava. Suspirou. Podia imaginar as ondulações na água causadas pelos poucos passos do geminiano.

Ocorreu-lhe então que ele poderia estar esperando por um resposta.

— Também.

— O que mais o aflige, então?

Quando estavam juntos, era impossível pensar nele como o demônio que o próprio Defteros e muitas pessoas imaginavam que fosse.

E, se havia algo de abençoado na percepção de Asmita, seria enxergar muito além. As aparências não lhe importavam, e ele podia divisar mesmo através de atitudes.

— Eu… — Titubeou. — Não deveria estar sofrendo por causa disto. É puro egoísmo. É o tipo de coisa que me afastaria de minha missão.

— Encarnação de um iluminado ou não, você ainda é humano, Asmita.

— Iluminado… — Deixou escapar, notas de amargura fazendo-se notar na voz suave. — Como alguém que passou a vida inteira na escuridão pode ser iluminado?

Defteros fitou-o. Tomou as mãos delicadas entre as suas para, em seguida, posicioná-las em seus ombros. Abraçou a cintura delgada de Asmita.

— Aos meus olhos, você tem luz própria — sussurrou — o bastante para iluminar a minha escuridão.

Asmita sentiu as bochechas queimarem-se. Ouviu uma breve gargalhada.

— O que foi?

— Nada. Disse que não conhecia meu rosto.

O indiano mordeu os lábios. Não queria mencionar a máscara. Sempre resultava em um assunto incômodo e doloroso para Defteros. Também julgava aquele recurso desumano: mais uma das coisas tão erradas que sentia pelo mundo.

Quase protestou, porém deixou-se levar, quando foi erguido e tomado no colo. Defteros posicionou as pernas de Asmita ao redor de sua cintura, sentindo a pele úmida e macia, o toque suave de poucas cicatrizes em contraste com a sua própria cútis talhada por marcas.

O desejo de proximidade crescia, mas queria também ajustar suas alturas. Não desejava que Asmita perdesse nada daquele momento.

Depois, as mãos foram guiadas até o pescoço e a mandíbula. Defteros soltou-as, então, e permitiu que seu rosto fosse tracejado pelos dedos delgados.

E Asmita tateou o queixo forte, os lábios bem-feitos, o nariz proeminente, as sobrancelhas espessas. Não se deteve; correu os dedos entre os fios revoltos de cabelo.

Desvencilhou-se de Defteros apenas para que pudesse apoiar a cabeça em seu tórax. O burburinho do coração somava-se à sinfonia daquela noite.

Defteros uniu seus lábios aos do cavaleiro, o último entreabriu-os.

Tentou não demonstrar o sobressalto com a presença de uma língua alheia em sua própria boca.

— Primeira vez — Defteros pronunciou-se, à guisa de afirmação. — Quer sair da água?

— Por mim, continuamos.

Asmita tomara uma boa porção dos cabelos de Defteros e acariciava-lhes.

Pela maneira com que ele erguia e franzia levemente as sobrancelhas, o geminiano soube que Asmita estava intrigado.

Permaneceu calado, enquanto os dedos de Asmita percorriam outras partes de seu corpo: os ombos, os braços, as costas, o tórax. Deteve-se ao alcançar-lhe o quadril, que estava na mesma linha da água.

— Continue, se quiser. — Convidou-o com uma suavidade que era fora do comum para si.

Resvalou as mãos sobre a pele de Defteros, sentindo mais cicatrizes do que imaginara.

Afastou-se, com um sorriso. Uniu as mãos, de forma que capturasse água, e a lançou na direção de Defteros.

Permaneceram no embate inofensivo por algum tempo. Foi a vez de Asmita aproximar-se de Defteros, e depositar-lhe um beijo nos lábios, então.

Não precisaram de muito para descobrirem as particularidades de cada um de seus corpos, detalhes sendo gradualmente descobertos.

A forma como Asmita se encolhia, com o mais leve roçar em seu pescoço, ou a profundidade das cicatrizes em suas costas eram novidades para Defteros.

Asmita, por sua vez, descobriu que, apesar de arquear as costas quando riscava as costas dele com suas unhas compridas, ele aprovava e apreciava aquilo.

Também não reclamou das leves e rápidas mordiscadas de Virgem. Para Defteros, tanto melhor que Asmita sentisse tudo o que pudesse, como pudesse.

Acolhidos pelas águas quentes do lago, revezaram-se no jogo de dar e receber prazer. Inebriados, sentiam-se em outra dimensão, livres. Livres de tudo: de culpas, de missões, de medos e de tristezas.

Havia espaço em seus pensamentos, em seus corpos, e em seus corações, apenas para as ondas de prazer proporcionadas pela intimidade.

Suas almas não eram estranhas uma à outra, e o encontro da carne servia-lhes apenas para fortalecer ainda mais o elo.

Defteros encaixou-se perfeitamente em Asmita, uma segunda vez, causando ondulações ao redor dos dois com o movimento constante de seus corpos unidos. E foi Asmita quem atingiu o ápice primeiro.

Depois de trocarem mais um beijo — mais calmo e controlado — deixou que sua cabeça descansasse sobre o ombro musculoso de Defteros. Sua respiração ainda encontrava-se irregular.

Não tardou para que Defteros finalizasse sua parte na dança de puro prazer.

Beijos percorreram o pescoço de Asmita. E, num galanteio, apercebeu-se da mão alheia, maior, tomando seu pulso, e dos lábios quentes de Defteros sobre a sua.

Tocou os dígitos do geminiano e percebeu-os enrugados. O movimento quase imperceptível de sua fronte se fez presente novamente.

— O que foi, Asmita?

— Seus dedos. Estão enrugados.

Defteros arregalou os olhos. Tampou a boca com uma das mãos, para conter o riso.

— Eles ficam assim, quando passamos muito tempo com eles sob a água. Não vá me dizer que você nunca teve um banho prolongado.

— Não. — Asmita encolheu os ombros.

— Te conhecendo, eu deveria ter desconfiado.

Caminharam, de mãos dadas, rumo à margem.

Recolocaram seus respectivos trajes, e sentaram-se sobre uma rocha. Defteros completava o céu, pensativo.

— Disse que não sabe como são as constelações.

Tomou o braço de Asmita e, com os dedos, pressionou alguns pontos sobre a palma. Ligou-os.

— Você pode imaginar que estes são os pés e as pernas da donzela. Ela está deitada. Esta é a sua roupa, e esta é sua cabeça. — Tracejou a figura novamente.

— Não entendo… — Asmita ergueu o rosto. — Que donzela?

— Virgem. — Defteros proferiu, animado, como se aquilo explicasse tudo. — Esta é a sua constelação. Estes pontos são as estrelas, e elas se ligam assim, formando um desenho.

— Todas as constelações se ligam assim?

— Não, não. Cada uma possui um padrão diferente.

Defteros prosseguiu com o processo, tracejando cada uma das outras onze constelações sobre a pele de Asmita. Esforçava-se para transpor em palavras as similaridades de cada uma delas.

— Áries. — continuou — Você já teve a oportunidade de topar com os chifres da armadura de Shion? A constelação de Áries é como o chifre do carneiro da armadura, se ele estivesse virado para baixo.

Conforme prosseguiam, a euforia quase infantil na voz de Defteros tornava-se mais evidente.

Não poderia dizer que havia entendido bem cada uma delas, porém o assunto das estrelas tornava-se cada vez menos nebuloso, graças a Defteros. Precisaria abafar seu imenso orgulho, e admitir que o outro merecia uma palavra de agradecimento.

— Eu agradeço por me mostrar isto, Defteros.

— Espero que tenha feito algum sentido.

Retomaram o caminho rumo ao Santuário. Neste ínterim, o silêncio se fez presente porque as palavras não teriam utilidade.

Quando se apartaram, Defteros quase desejou o silêncio novamente.

— Adeus, Defteros. — Asmita despediu-se, com os olhos privados de visão à mostra e um sorriso genuíno. — E obrigado por tudo.

As palmas de suas mãos ladearam o rosto de Defteros. Encostou brevemente a boca nos lábios dele, e afastou-se.

Defteros não precisava adivinhar que aquela despedida era definitiva. Não havia como convencer o cavaleiro de Virgem a permanecer a seu lado. Ouvira por muito tempo sobre as missões dele, e sabia que Asmita não era alguém de se desviar de sacrifícios.

— Até, Asmita.

Asmita interrompeu sua caminhada, para virar-se na direção do outro.

— Nos veremos em breve, Defteros.

Acenou-lhe, sentindo-se um tolo logo em seguida. Asmita não veria o gesto.

Encarou o céu. Amanheceria em pouco tempo. As manhãs não lhe davam conforto, e tornavam-se cada vez mais opressivas, pois sabia que a guerra se aproximava de Asmita, de seu irmão e — consequentemente — de si.

Consolava-lhe saber que poderia guardar aquela noite na memória, enquanto vivesse.


Conviveriam, ambos, com todas as experiências que davam sentido para as suas vidas. E viveriam em sentidos opostos, até que cada um de seus caminhos confluísse com o outro novamente.

Notas finais
Espero, sinceramente, que a leitura tenha sido agradável. É a primeira vez que escrevo com os dois e, sinceramente, devo confessar que nunca soube lidar com os gêmeos de Saint Seiya. Críticas, comentários, e sugestões são sempre muito bem-vindos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!