Capítulo 06: Você não quer estar na minha mira.


- Vai ficar tudo bem... Gwen está a salvo, você está a salvo! — JC repetiu apertando o abraço para impedi-la de se debater.

- Gwen... Por favor, não a machuque! — ela forçou o corpo contra JC tentando escapar.

- Shh.. tá tudo bem! — ele tentou confortá-la.

- Eu vou fazer o que você quer! — ela repetiu isso algumas vezes.

- Shh... Está tudo bem! Tá tudo bem! Você não precisa fazer nada!

Ela aos poucos foi se acalmando e voltou a dormir profundamente, mas a febre não abaixou. JC foi até o banheiro e pegou um antitérmico e fez ela tomar com água. Ela fez a mesma careta que Gwen fazia quando não gostava de remédio, ele tocou com o polegar entre as sobrancelhas para desmanchar as linhas. Ele simplesmente esquecia que aquela era a mãe biológica dela, e claro que elas se pareceriam. E isso mexeu ainda mais com ele.

JC desceu até a cozinha, o silêncio da casa envolvendo-o. Ao olhar em volta, percebeu que Mary já havia se recolhido, deixando o ambiente tranquilo. Ele abriu o armário e pegou uma bacia, enchendo-a com água quente antes de levar para cima.

No quarto, Kate estava pálida e visivelmente exausta. Com cuidado, pegou uma toalha, mergulhou-a na água morna e a torceu antes de passar suavemente pelo pescoço e braços dela. A pele dela estava quente ao toque, e JC notou a fraqueza em seus movimentos. No entanto, depois de algumas horas de apreensão, ele finalmente viu a febre ceder, e um alívio profundo tomou conta dele. Ele soltou um suspiro, seus ombros relaxando um pouco, sentindo que, ao menos por enquanto, a tempestade havia passado.

JC estava sentado ao lado da cama de Kate, observando-a dormir em um estado de serenidade, quando seu estômago roncou alto, quebrando o silêncio. A fome o fez perceber que ainda não havia comido nada desde que chegará. Levantando-se com relutância, ele recolheu os itens que havia levado para ela, e desceu até a cozinha.

Aqueceu novamente a comida no micro-ondas, o zumbido do aparelho sendo a única companhia naquele momento de solidão. Enquanto esperava, um impulso forte o dominava: a vontade de voltar rapidamente para perto de Kate, de verificar se ela estava se sentindo melhor. Mas ele se forçou a afastar esse pensamento. Ele e Kate não tinham nada a ver um com o outro. Aquela conexão que parecia pulsar no ar entre eles não podia ser real. Ele respirou fundo, tentando ignorar o desejo crescente de estar ao lado dela e se concentrar em sua própria necessidade.

Mas quem a perseguia? De quem ela realmente tinha medo? Por que estava vivendo daquela forma, desistindo de tudo por uma pessoa que apenas a fazia sofrer? A angústia crescia dentro de JC à medida que refletia sobre a situação. Ele não estava tão longe daquela pessoa da qual ela estava fugindo, e essa pensamento o inquietava ainda mais.

A solidão e a confusão invadiram sua mente. Sem ninguém com quem compartilhar todos aqueles sentimentos tumultuados, ele decidiu ligar para Sebastian. O toque do telefone ecoou no silêncio da casa, como um pedido de ajuda em meio à tempestade emocional que o cercava. Enquanto aguardava que seu amigo atendesse, JC sentiu o peso da sua própria vulnerabilidade, desejando desabafar e encontrar um fio de esperança.

- Cara, você sabe que horas são agora?

- Eu acho que estou com problemas. — JC admitiu.

- Só se você foi preso que eu levanto da cama! — ele resmungou. — Você foi?

- Não, estou em casa! — o informou.

- Amanhã no escritório a gente conversa! — com isso Sabastian desligou o telefone.

JC permaneceu alguns minutos olhando fixamente para o telefone, a mente agitada por um turbilhão de perguntas que o deixavam perplexo. O pensamento mais estranho e inesperado surgiu: por que ele se importava tanto com Kate? Por que queria saber tudo sobre ela? Aquela sensação de urgência e conexão o surpreendia, especialmente porque, na primeira vez que a viu na delegacia, tudo parecia tão desconectado, como se cada peça de sua vida estivesse fora de lugar.

Os instintos protetores dele começaram a aflorar, intensificando-se a cada segundo. Ele não conseguia entender completamente o que o motivava, mas havia uma certeza inabalável dentro dele: nada, absolutamente nada, aconteceria com Kate ou com Gwen enquanto ele estivesse por perto. Essa determinação se firmou em seu coração, aquecendo sua alma em meio à confusão.

[...]

Kate estava presa em um pesadelo que a perseguia desde sua saída da cadeia, uma sombra aterrorizante que nunca a deixava em paz. No sonho, Ella a perseguia e a ameaçava com a morte de sua filha, Gwen. A cada segundo do pesadelo, a sensação de desespero e impotência se intensificava, mas havia algo diferente desta vez. Apesar do terror que a envolvia, uma sensação de segurança e proteção começava a brotar dentro dela, como um raio de luz em meio à escuridão.

Mesmo quando Ella se aproximava, pronta para causar dor, Kate sentia uma força silenciosa ao seu redor, como se uma barreira invisível a separasse do perigo. Era uma nova sensação, uma confiança inexplicável de que nada de mal lhe aconteceria. Gwen estava segura, e ela também. A presença de alguém ao seu lado, alguém que verdadeiramente se importava, a envolvia em um calor reconfortante. Pela primeira vez, no meio do caos e da angústia, Kate sentiu que não estava sozinha, que tinha alguém lutando ao seu lado, e isso a fazia acreditar que poderia vencer seus medos.

Foi a noite de sono mais longa que Kate teve em muito tempo. Ela se sentia envolta em uma sensação de proteção inexplicável, mesmo que estivesse presa em uma ilusão. A vontade de acreditar que aquilo era real pulsava dentro dela, como um sonho que se recusava a se dissipar. O pesadelo terrível que a arrastava para as profundezas de sua alma mais obscura começou a desaparecer subitamente, dando lugar a uma visão deslumbrante.

Agora, ela se encontrava em um lugar iluminado, onde a grama verde se estendia sob seus pés, macia e viva. O vento refrescante acariciava seu rosto, como um sussurro gentil que trazia alívio. O céu acima era de um azul profundo e vibrante, uma tonalidade que ela jamais havia visto antes, e o sol, suave e morno, envolvia seu corpo em uma luz acolhedora. Essa nova realidade não apenas a confortava, mas também despertava um desejo desconhecido dentro dela, a vontade de se deixar levar, de explorar essa sensação de segurança e liberdade que a cercava. Era como se, pela primeira vez, ela pudesse sonhar com um futuro diferente, longe dos medos que a assombravam.

Ela acordou, e a solidão a envolveu. A sensação de vazio, que havia se escondido nas sombras de seus sonhos, agora se manifestava com força, pulsando em seu peito. Para encobrir essa sensação angustiante, ela tratou de se envolver em uma tristeza profunda, como se pudesse camuflar o que realmente sentia.

No fundo, Kate sabia que nada daquilo era real, aquele lugar ensolarado e seguro era apenas uma ilusão que se iria desaparecer com a luz do dia. Quando a realidade finalmente bateu à sua porta, ela não hesitou em convidá-la para entrar, resignando-se ao que vinha a seguir. O peso da verdade a atingiu como um golpe, e, em questão de segundos, toda a esperança que havia nutrido em seus sonhos se despedaçou, deixando-a em um estado de sofrimento profundo. Era como se a luz que a havia envolvido no sonho fosse agora substituída pela escuridão do que realmente a cercava, fazendo com que cada respiração se tornasse um lembrete doloroso de sua solidão e desespero.

Estava perdendo a si mesma, desejando com desespero, coisas que não deveria desejar. Sem esperanças, levantou da cama e ficou confusa, onde estava?

Aos poucos ela foi lembrando que estava assistindo filme com Gwen na casa de JC. Ela olhou para o quarto no escuro, era dia ou noite? No criado o relógio digital marcava cinco e quarenta da manhã. Quando virou-se ela viu JC deitado do outro lado da cama. Ela assustou-se e segurou um grito.

Como tinha vindo parar na cama dele? Tentou buscar na mente o que tinha acontecido, mas nada lhe vinha. Só lembrava de estar assistindo filme com Gwen.

Não querendo acordar a fera adormecida e sem saber exatamente como lidar com a situação, Kate hesitou. A pressão da realidade a cercava, e a ideia de confrontar o demônio que a assombrava era aterrorizante. Ela acreditava que seria melhor deixar que ele resolvesse isso, ele, que parecia ter a força que ela não conseguia encontrar dentro de si.

Com um suspiro resignado, Kate voltou a se deitar, buscando o consolo do sono. A cama, agora familiar, acolheu seu corpo cansado enquanto ela fechava os olhos novamente.

- Kathryn?! — JC a chamou tocando levemente em seu ombro. — Kathryn?!

- Hmm... — ela respondeu sonolenta.

- Trouxe algo pra você comer.

Ela abriu os olhos e foi surpreendida por JC está ao lado da cama com uma tigela de mingal. Ela fez uma careta de prontidão, odiava mingal porque não era doce, mas nada disse a ele.

- Você não comeu nada ontem. — ele resmungou.

- O que aconteceu? — ela aceitou a tigela e a colher que ele ofereceu.

- Você e Gwen dormiram lá na sala, quando cheguei do trabalho levei Gwen para o quarto dela, quando fui pegar você, vi que estava febril e te trouxe pra cá. — explicou observando ela tomar o mingal. — Depois do antitérmico a febre abaixou e você dormiu sossegada.

- Me desculpe! — pediu ela.

- Você não tem culpa por ficar doente. — ele deu os ombros e pegou a tigela dela, quando percebeu que ela não comeria mais. — Vou fazer uma viagem de três dias a negócios, você pode ficar aqui com Gwen?

Em sua casa ela estaria segura e longe do que a atormentava, JC pensou. Ela parecia tão frágil e pálida. Os instintos protetores dele estavam em alerta máximo.

- Não posso deixar meu trabalho. — ela tentou se proteger.

- Está tudo bem, no período que você vai para o trabalho Gwen fica com Mary. — ele sugeriu — Estamos juntos nisso.

- Tudo bem! — ela concordou.

Antes que ele saísse do quarto, com a tigela de vazia ele voltou.

- Outra coisa, como estarei fora, o motorista estará disponível, ele levará você e Gwen para onde quiser. — ele disse e sem esperar resposta saiu.

Kate suspirou. JC ainda achava que ela sequestraria a própria filha, Gwen atualmente era mais de JC que sua, a garotinha era feliz ali e ela não tinha nada para oferecer para além do seu amor. E a amaria de longe. Colocaria ela de volta na escola e voltaria para sua vida sem ela.

Já se sentia melhor depois do mingal e de uma boa noite de sono. A claridade do quarto que vinha da janela o deixava claro e arejado. Ela olhou para tudo, era decorado em tons cinza e branco, sóbrio e masculino. Era JC. Levantando-se ela viu uma coisa que nunca imaginou.

O quadro na cabeceira da cama. O seu quadro. O que aquela pintura estava fazendo ali? como veio parar nas mãos de JC? Aquele quadro tinha ficado na casa em que ela morava com Gwen antes da prisão. Ela achava que não tinha mais nada da sua vida de artista. A vida que ela amava e que lhe foi roubada brutalmente sem nenhuma escolha.

Desejando deixar para trás todo aquele turbilhão de emoções, Kate desviou o olhar para o quadro pendurado na parede. Era sua obra, uma expressão crua de seus sentimentos mais profundos. O rio corrente pintado na tela serpenteava, suas águas sujas refletindo uma dualidade inquietante: a luta entre pureza e destino. A imagem parecia contestar a própria essência da vida, evocando uma sensação de desespero e esperança entrelaçados.

Ela saiu do quarto com um gosto amargo na boca, uma amargura que parecia se estender por todo o seu ser. Cada pincelada daquele quadro, cada nuance de cor, era uma parte dela, mas agora tudo que lhe pertencia parecia parar nas mãos de JC. A ideia de que seu destino estivesse tão intimamente ligado a ele parecia cruel, quase insuportável. O peso dessa realidade a seguia como uma sombra, reforçando a sensação de que, por mais que tentasse, ela nunca poderia escapar da influência dele sobre sua vida.

Foi até o quarto de Gwen, ela dormia tão tranquila, o mundo dela era tão pacífico e tranquilo não queria bagunçar aquele pedacinho.

- Gwen querida?! — ela tocou o rosto fofo dela.

A criança acordou sonolenta, mas com um sorriso no rosto. Parecia tão angelical e inocente do mundo, ela era seu tudo.

- Estou indo trabalhar, volto a tarde para ficar com você. — informou a ela.

- Fica comigo agora? — ela resmungou manhosa.

- Eu volto a tarde, seja boazinha. — Kate pediu e ela se levantou esfregando os olhos. — Vou ajudar você!

Ela foi ao banheiro com ela, ajudou a escovar os dentes, penteou os cabelos e ajudou a trocar o pijama. Gwen estava toda bonitinha como uma criança de 5 anos estaria. Os cabelos trançados e uma camiseta rosa e um jardineira, um sorriso que ia de orelha a orelha, Gwen estava muito bem assim. Elas desceram para cozinha.

JC sorriu ou ver ela tão fofinha, sua queridinha estava de volta, sem aquele olhar triste e decepcionado. Ela estava radiante, ele queria que ela sempre ficasse assim.

- Bom dia pequena! — ele deu um beijo em sua bochecha. — Você está cheirosa!

- Papai! — ela sorriu e o afastou ao sentir a barba pinicar o seu rosto. — Tá pinicando.

- Eu me esqueci de fazer. — justificou-se.

Os dois sentaram a mesa como um hábito natural de anos de prática, JC separou as frutas que ela gostava em um pratinho e colocou próximo dela, colocou o suco e deixou próximo do prato, Gwen nem olhou para o que estava a sua frente e já começou a comer. Kate se sentiu uma intrusa, era melhor ir trabalhar e não perturbar a rotina deles.

- Estou indo. — ela preparou-se pra sair.

- Coma um pouco antes de ir. — ele lhe lançou um olhar estranho. — Não fique doente.

- Estou bem, eu volto as treze horas para ficar com Gwen. — ela foi se afastando.

- O motorista vai te levar e buscar! — ele a informou.

Kate se sentiu tensa. Alguém a vigiando para não fazer besteira, JC sempre um passo a frente de qualquer um. Ela se perguntava como Ella tinha lhe passado a perna. Ele era muito esperto e cauteloso, talvez ele era assim somente com ela. Será se um dia ele pararia de cruzar seu caminho?

- O que ficar melhor pra você! — ela não queria brigar então achou mais fácil apenas aceitar.

JC queria que ela ficasse em casa onde pudesse ficar protegida e longe do tormento que ela estava escondendo. Por isso estava saindo, iria adiantar uma viagem de negócios para deixar ela com Gwen em paz. Porque ele sabia que, para ela, ele também era uma ameaça constante. Ele não queria mais fazer esse jogo. Iria protegê-la, nem que fosse de longe.

Após a saída dela, JC voltou seu olhar para Gwen. Só então ele percebeu a fundo o quanto Gwen se parecia com ela, o formato do rosto, o sorriso, até a pinta acima da sombrancelha. Não é de atoa que a amiga de Kate e o médico no hospital deduziram rápido de quem ela era. JC sentiu uma pontinha de ciúmes, o sangue era mais espeço que a água.

- Papai você vai viajar? — Gwen afastou o prato vazio.

- Só por uns dias. — ele disse. — Você vai ficar com a Kathryn.

- Papai, eu gosto muito dela. Meu coração bate rápido. — ela disse arregalando os olhos.

JC se limitou a sorrir sem dizer nada. Como podeira fazer isso dar certo?

- Eu volto em três dias, talvez quatro.

- A gente poderia ir no parque? — ela propôs.

- E na escola? Você não está de férias mocinha! Não sei se esqueceu, mas está suspensa por brigar com os coleguinhas. — ele deu a bronca.

Mais tarde JC arrumou a mala sem muita pressa Gwen estava brincando em sua cama, sempre que ele tinha que viajar ela ficava um grude. Mas ele tinha planos, essa viagem também era sobre descobrir o que tinha acontecido com o crime de Kathryn e sua empresa. Esperava encontrar quem a estava coagindo, ele tinha certeza que era isso. Alguém a fez cometer os crimes, e era alguém que tinha muito poder sobre ela.

JC tinha certeza que dessa vez não ficaria cego de raiva e deixaria tudo correr frouxo. Se descobrisse que tudo era obra de Kathryn, então usaria o contrato para afasta-la.

Se pegasse o culpado e não fosse ela, ele devolveria Gwen e tentaria dividir ela entre eles, assim não ficaria com a consciência pesada e Gwen não se sentiria abandonada. Ele se animou e foi até Gwen e a encheu de cosquinhas, o som da risada dela era tão contagiante. Apenas queria que ela fosse feliz.

[...]

Kate saiu do café e o motorista já estava na porta a esperando, ela sentiu um desânimo. Ficar com Gwen era sim um sonho, mas o sonho era guardado pelo próprio diabo. Ela sorriu de si mesma. Ela foi até o carro sabendo que se insistisse em ir de ônibus, era capaz dele ir atrás do ônibus.

- Boa tarde senhorita, vamos direto para casa ou você quer passar em algum lugar? — ele abriu a porta pra ela.

- Preciso ir no meu apartamento!

Tentando se adaptar a essas condições de JC ela apenas aceitou. Mary e o motorista, não tinham culpa dessa situação. Iria fazer eles se sentirem confortável ao menos.

- Eu sei que é as ordens de JC, mas você pode se sentar lá no café para esperar. — ela ofereceu.

- Ah não, está tudo bem! — ele fechou a porta do carro e deu a volta e entrou. — Na verdade, fui contratado para ser motorista da senhorita Gwennie, com a menina suspensa, JC está certo, você não pode andar sozinha por aí. Um carro parado é uma coisa inútil.

Passaram no apartamento de Kate para pegar uma mala. Depois disso seguiram viagem para a casa de JC.

O senhor que se chamava Tim, falava tanto que Kate se sentiu tímida, não era extrovertida ela sabia, e ele a deixava confortável com sua falação sem fim e que não esperava uma reposta em troca. Ele tinha muito carinho por Gwen e JC, os tratava como filho e neta. Falava como Gwen era esperta e determinada como levava JC no papo.

- Aquela menina tem a quem puxar! — ele disse sorrindo. — Ela tem a personalidade dele todinha.

A convivência, Kate pensou. Se ela não tivesse ido presa, Gwen se pareceria com ela? Perderá tantos anos da vida dela, e ela nunca recuperaria. Não era hora pra se sentir deprimida. Sua chance era o agora.

A rotina logo se estabeleceu. De manhã Kate iria para o café trabalhava até 13h depois o motorista a pegava e a deixava na casa de JC. A tarde ensinava Gwen as tarefas que JC mandava, depois das tarefas prontas, elas brincavam, desenhavam, jantavam e dormiam juntas. Duas semanas passaram voando. Junto com a suspensão de Gwen. Kate a convenceu a voltar para a escola, no início ela não queria e se recusava até sair do quarto, Kate fez grave de silêncio com ela e por fim a venceu no cansaço.

JC não voltou. Ele ligava às vezes, para Gwen, mas raramente falava com ela, não sabia como se sentir, aliviada ou preocupada? Ela começava a sentir estranha em relação a ele, mesmo longe ela não queria que ele ficasse tanto tempo fora. Tentando limpar a mente, ela continuou arrumando a bolsa que Gwen levaria para a escola.

Enquanto Gwen brincava na cama com suas bonecas, Kate repreendia JC, porque as coisas de Gwen era aquela bagunça? Recados ignorados, lições de casa pela metade. A única coisa organizada era o materiais de desenho.

- Quem arruma sua mochila? — Kate a questionou.

- O papai, ele arruma. — Gwen continuou a pentear o cabelo da boneca. — Mas eu bagunço tudo depois, aí ele desiste.

- Você tem que manter organizada! — Kate a orientou. — Se ficar arrumada, depois é fácil achar as coisas.

- Kate, eu não gosto da escola! — ela colocou a boneca de lado com desgosto. — As crianças e o professora ficam falando umas coisas chata.

- O que elas falam? — Kate fechou o zíper e colocou a mochila na cadeira, se sentou na cama.

- Elas ficam falando que minha mãe abandonou eu e meu pai. Eu sou uma criança de fazer pena? — ela disse.

- Elas são umas bobocas, nem sabem o que estão dizendo. — Kate queria bater nessa professora. — Vou dar uma bronca nessa professora se eu a ver. Onde já se viu dizer essas coisas.

Gwen olhou para Kate com mais atenção, ela parecia a mãe de suas coleguinhas de classe, e ela tinha um cheiro tão gostoso. Será se ela aceitaria ser sua mãe? Gwen queria que fosse para ficar com ela pra sempre.

- Kate você pode ser minha mamãe? — ela pediu com inocência.

O coração de Kate errou as batidas, ela queria isso, mas não podia, JC também não deixaria, não com aquele contrato em mãos, ela apenas poderia ser amiga dela de longe e ajudar ela, pensou em uma ideia genial e que ajudaria Gwen.

- Sabe o que podemos fazer? Vou fingir ser sua mãe amanhã na escola e dar uma bronca nessa sua professora. — ela disse e Gwen acabou sorrindo.

Na manhã seguinte, Kate levou Gwen para a escola e dispensou o motorista já que o café era próximo, ele ficou de buscar as duas, entrou na sala de aula com a sua filha, colocou as coisas dela na carteira e agachou próximo dela.

- Só se preocupe em estudar e fazer seus desenhos, as outras coisas os adultos que resolve. — Kate deu um beijo na testa dela. — Não se preocupe eu venho te buscar mais tarde, se comporte e não brigue com seus coleguinha de classe.

Ela afirmou pouco contente e com vontade chorar, queria ficar com Kate em casa, era tão bom e confortável. A escola era chata.

Kate saiu da sala, ainda absorvida por seus pensamentos, quando avistou de longe a professora, a mesma que havia dito aquelas palavras duras para Gwen. Seu coração apertou, a tensão crescendo em seu peito, mas ela tentou manter a compostura. No entanto, ao se aproximar, percebeu que a professora estava, mais uma vez, falando sobre Gwen. A conversa destinada a ela, mas a menção ao nome de sua filha atingiu Kate como um golpe.

Por um instante, ela parou, observando a cena de longe, tentando decifrar o tom da conversa. Seus dedos se apertaram ao redor da bolsa, enquanto uma mistura de frustração e proteção materna a envolvia. Coincidência ou não, parecia que, onde quer que estivesse, o nome de Gwen estava sempre na boca de alguém, como se ela fosse constantemente analisada ou criticada só porque não tinha uma mãe. Kate sabia que precisava intervir, mas também sabia que precisava escolher suas palavras com cuidado.

- O que você está dizendo por aí sobre minha Gwen? — Kate fechou a cara. — Você sabe com quem está mexendo?

A professora arregalou os olhos de medo ao ver o semblante maligno de Kate.

- Perdão, mas quem é você? — ela se fez de inocente.

- Sou a mãe dela, que você vive dizendo por aí que eu a abandonei! — Kate chegou perto do rosto dela e sussurrou no ouvido dela. — Eu estava em uma missão secreta para o governo para limpar sujeira de quem fala demais, acho que você não quer estar na minha mira, certo?!

A mulher ficou branca de medo.

- Na.. não, é... é só um mal-entendido! — tentou justificar. — Senhora Carter, é um mal entendido.

- Mal-entendido ou não, se machucar novamente minha Gwen, aqueles que você gosta vão acabar sofrendo também! — Kate ameaçou.

- Eu... Eu.. — ela disse gaguejando.

- Esteja avisada. — ela a empurrou quando passou por ela.

Kate saiu da sala com um sorriso vitorioso estampado no rosto. Ela sabia, com absoluta certeza, que aquela covarde não se atreveria a mexer com sua pequena Gwen novamente, não depois do confronto silencioso que acabara de acontecer. Mesmo que tudo o que ela havia dito fosse uma mentira, Kate se sentia fortalecida. O importante era que ela havia defendido sua filha, e isso era suficiente por enquanto.

Ao cruzar os portões da escola, o ar fresco a envolveu, trazendo uma sensação de alívio. Sem hesitar, ela se dirigiu ao café. A caminhada era leve, e a satisfação de saber que protegera Gwen de mais uma investida amarga preenchia seus passos. Agora, tudo o que Kate queria era um momento de tranquilidade antes de encarar o restante do dia.

Caminhando pela rua, Kate se sentia leve e feliz, como se um grande peso tivesse sido retirado de seus ombros. Saber que Gwen não enfrentaria mais problemas na escola a enchia de alegria. Ela quase queria cantar, tão envolvida estava por aquela sensação de alívio. Mas, imersa em seus pensamentos, não percebeu que estava sendo seguida.

Subitamente, uma pacanda forte e inesperada a atingiu por trás, fazendo-a atordoada se virar em estado de choque. Na sua frente, dois homens máscarados avançaram sobre ela com brutalidade. Kate tentou recuar, mas antes que pudesse reagir ou gritar, eles começaram a agredi-la violentamente, os golpes caindo sobre ela sem misericórdia. O instinto de sobrevivência a fez tentar correr, mas uma terceira pessoa apareceu, bloqueando sua fuga. Sentiu-se encurralada, e, por mais que tentasse escapar, a situação se tornava cada vez mais desesperadora.

Ela lutava desesperadamente, seus pensamentos disparados em pânico. Os outros dois homens continuaram a atacá-la sem piedade. O desespero crescia a cada segundo e o medo de que aquilo pudesse ser o seu fim a invadiu. As forças diminuíram e seus movimentos se tornaram mais fracos. A ideia horrível tomou conta em sua mente: morreria ali, nas mãos de desconhecidos, sem entender o porquê?

- Vamos embora, a ordem era só para dar um aviso! — disse um deles.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Deixe seu comentário. Até a próxima!