Sentença de Amor

12 Capítulo Extra


Capítulo Extra: Responsabilidade não é controle. É cuidado.

[Justin]

- Papai eu não quero ir! — disse Gwen agarrada as pernas de Jamie. — Eu quero você! Eu quero a mamãe Kate.

- O papai promete que vai trazer ela de volta, mas eu preciso que você me prometa uma coisa. — ele pegou ela no colo.

- Mas eu quero ficar aqui! — o choro era inevitável.

- Escute Gwen, olha lá para seu tio Justin. — ele apontou para Justin em pé na porta. — Ele é o irmão do papai e ele vai levar você para o papai poder ir buscar a sua mamãe... Você pode fazer isso para mim?

Ela chorou balançando a cabeça concordando, mas sem sair dos braços de Jamie.

Justin se aproximou e estendeu os braços para pegar Gwen dele. Ela foi relutante, e soluçando de tanto chorar. Era doloroso fazer algo assim, mas em tempos de crise a melhor saída era decisões difíceis.

- Cuide dela! — pediu JC.

Justin não respondeu de imediato. Apenas assentiu, frio como mármore, as mãos segurando Gwen, como se fosse incapaz de demonstrar qualquer calor humano. Assim que a porta se abriu Justin saiu com Gwen e alguns seguranças. Jamie olhou para o irmão mais velho, ele era a única pessoa no mundo que confiaria sua menininha.

[...]

O apartamento dele tinha janelas altas e paredes brancas que absorviam a luz fraca do fim da tarde. Justin Carter estava de pé, junto à bancada do bar, observando Gwen enrolada em uma manta cinza no sofá. Ela parecia pequena ali, com os olhos perdidos em algum ponto além das paredes, os soluços e a tremedeira era o sinal que ainda estava abalada pela situação.

- Seu pai vai voltar rápido. — Justin prometeu, ajustando a jaqueta e lançando o olhar preocupado para Gwen.

Por alguns minutos, Justin permaneceu imóvel, dando espaço. Ele parecia feito de pedra: rígido, inabalável. Só quando ouviu o som abafado do choro de Gwen ele se moveu, de maneira quase imperceptível.

Caminhou até ela, cada passo medido, como se temesse assustá-la ainda mais.

- Está com fome? — a voz dele era baixa, firme, sem emoções aparente.

Gwen sacudiu a cabeça, abraçando o próprio corpo em negação.

Justin se agachou diante dela no sofá, seu rosto inexpressivo, mas seus olhos... eles traíam a fachada. Um brilho de compaixão escondido nas pupilas castanhas.

- Você precisa comer alguma coisa. — insistiu, quase num sussurro. — Não porque quer, mas porque seu corpo precisa. Mesmo quando você não quer fazer uma coisa, mas ela te mantém vivo você tem que fazer!

Sem esperar pela resposta, ele se levantou e foi até a cozinha. Em silêncio, preparou uma tigela de sopa com movimentos práticos e eficientes. Quando voltou, sentou-se no sofá ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa.

Gwen olhou para ele, olhos marejados.

- Por que você é tão... Mal? — perguntou, num fio de voz.

Justin pousou a tigela na mesa de centro, as mãos ainda envoltas na fumaça quente que subia dela. Olhou para ela com aquela frieza que parecia uma armadura. Sempre pronto para lidar com qualquer situação, foi criado assim.

- Porque ser bonzinho não evita salvar ninguém. — respondeu, seco. Mas em seu tom havia algo quebrado. Algo que Gwen, mesmo pequena, percebeu.

Ele empurrou a tigela na direção dela.

- Coma. — disse. — Depois, se quiser, pode me odiar à vontade.

Gwen pegou a colher com as mãos trêmulas. Justin apenas ficou ali, vigilante, como um cão de guarda silencioso. A cada colherada, o nó apertado em seu peito parecia afrouxar um pouco.

De repente, ela deixou a colher cair dentro da tigela e levou as mãos ao rosto, soluçando alto.

Justin se moveu antes que pudesse pensar melhor. Sentou-se ao lado dela no sofá, ainda rígido, mas perto o suficiente para que ela sentisse sua presença sólida, constante.

Por um momento, hesitou. Então, com uma lentidão quase dolorosa, colocou o braço ao redor dos ombros de Gwen, puxando-a para perto.

Ela chorou em seu peito, e Justin fechou os olhos, suportando o peso da dor dela como se fosse sua.

Lá fora, o céu começava a escurecer.

Dentro daquele apartamento estéril, Gwen se sentiu segura. Justin Carter, o homem frio, mostrava silenciosamente que seu coração, embora envolto em gelo, batia forte e compassivo, mesmo que o mundo nunca visse.

O braço de Justin ainda envolvia Gwen quando ela, exausta, adormeceu contra ele, respirando com dificuldade. Cada pequeno soluço que cessava fazia o silêncio da sala pesar ainda mais.

Ele olhou para ela, tão vulnerável, tão cheia de vida e, ao mesmo tempo, tão frágil, e sentiu o velho conhecido amargor subir pela garganta. Seus olhos endureceram, mesmo que, dentro dele, tudo parecesse despedaçado.

Como podia cuidar de alguém assim, quando nem fora capaz de sustentar seu próprio casamento?

Seu maxilar travou. As imagens vieram como socos.

A noite em que eles estavam discutindo sobre como estavam distantes e que o divórcio seria a coisa certa a se fazer, ele disse a frase que partiu seu mundo:

— Se você precisa de espaço, então eu vou sair. Eu vou voltar para o apartamento. Assim, você pode ter a distância que precisa, e eu terei também.

Ela apenas acenou com a cabeça, sentindo que talvez fosse o melhor para ambos, por agora.

- Ok, Justin. Eu acho que é o que precisamos.

A maneira como ele saiu, tentando fingir que aquilo não mudava nada. Mas mudaria tudo. O tempo que passou, frio e inevitável, até que ambos aceitaram a distância crescente entre eles com nada mais que tristeza.

Justin era um homem de poucas palavras, e menos ainda de arrependimentos. Mas aquela perda, aquela incapacidade, era uma ferida que jamais iria cicatrizar.

E agora, sentado naquele sofá com Gwen adormecida contra seu peito, a ferida reabria, crua e insuportável. Ele não podia ter filhos. Não podia oferecer a Clara o que, no fundo, sabia ser o que ela mais queria: uma família. Ser mãe.

Era por isso que se escondia dela, mesmo que a amasse, não poderia fazê-la infeliz, ele sabia que até aquele casamento arranjado pelas famílias deles, foi contra a vontade dela. Ele não queria que ela tivesse que fazer mais sacrifícios pela família. Por ele.

Não se permitia fraquejar. Era mais fácil ser o gelo que queimava do que o homem que falhava.

Justin ajeitou Gwen com cuidado no sofá, deslizando um travesseiro sob sua cabeça. Ela murmurou algo entre o sono, os lábios entreabertos, confiando nele de maneira que o deixava ainda mais sufocado.

Seus dedos pairaram no ar, como se quisessem tocar o rosto dela, mas pararam no meio do caminho. Ele se afastou, o peito pesado.

Cruzou a sala em silêncio e ficou olhando pela janela. Lá fora, a cidade piscava à distância. Intocável. Indiferente.

- Você merece alguém inteiro. — murmurou para a escuridão.

E, como tantas vezes antes, Justin guardou seus sentimentos numa caixa trancada dentro de si, reforçando ainda mais o muro que havia construído ao redor do próprio coração.

Porque amor, ele aprendeu da maneira mais difícil, perante suas falhas não era tudo.

Ele foi até o bar, colocou uma dose de uísque, segurou o copo, e com um suspiro cansado apenas o virou. Era melhor lidar com coisas que ele poderia controlar.

Pegou o celular no bolso do terno e discou o número de um colega da época que serviu o exército e aguardou a ligação completar.

- August Smith? É Justin Carter...

[...]

O dia amanheceu cinzento e arrastado. Justin, como sempre, já estava de pé antes mesmo da luz tocar o chão da sala. Preparou café em silêncio, com movimentos automáticos. Gwen ainda dormia, os cabelos espalhados pelo travesseiro, respirando de forma tranquila.

Ele se permitiu observá-la por um momento. Uma parte dele, aquela que ainda sonhava às escondidas, doeu com força no peito.

A campainha soou pouco depois das oito.

Justin franziu a testa. Não esperava ninguém. Jamie ainda não havia retornado, e a segurança do condomínio era extremamente rígida. Quem quer que fosse, tinha sido autorizado.

Caminhou até a porta e abriu.

Parada ali, simples como sempre, estava ela. Sua ex-esposa.

O choque não se traduziu em palavras. Apenas em um breve endurecimento de seus olhos, um levantar quase imperceptível de seu queixo.

- Justin. — ela disse, a voz calma, mas o olhar cheio de palavras não ditas. — Recebi sua mensagem ontem sobre o terreno que minha família está negociando.

Justin não respondeu de imediato. Moveu-se para o lado, permitindo sua entrada.

Quando ela atravessou a porta, seus olhos caíram sobre Gwen, que agora, desperta e sonolenta, vinha andando até ele, arrastando a manta pelo chão.

- Justin... — Gwen murmurou, erguendo os bracinhos.

Num gesto instintivo, ele se agachou e a pegou no colo, sustentando o pequeno peso dela com facilidade.

Foi então que viu o olhar de sua ex-esposa mudar.

Houve um momento, um instante partido no tempo, em que ela olhou para ele como quem encara uma ferida aberta. Como se todos os sonhos quebrados de ambos tivessem ganhado forma, respirando ali, diante dela. Mas então foi substituído por dor e um sentimento de traição.

- Você tem... uma filha? — a voz dela falhou, quase um sussurro.

Justin segurou Gwen mais firme, protegendo-a de uma dor que ela nem sequer entendia. Respirou fundo, frio como aço na superfície.

- Ela é a filha do Jamie. — respondeu, a voz baixa, controlada.

Ela piscou, como se precisasse processar as palavras. Um sorriso doloroso cruzou seus lábios, rápido demais para ser verdadeiro, e ela soltou o ar que nem sabia estar prendendo.

O alívio que deveria vir com aquela informação não veio. Em vez disso, Clara sentiu uma pontada ainda pior.

- Claro. — disse apenas, desviando os olhos.

Justin quis dizer algo, algo que suavizasse a mágoa silenciosa que crescia entre eles. Mas que palavras poderiam preencher o espaço entre o que foi sonhado e o que nunca se tornou real?

Nada.

Sempre havia evitado lidar com crianças perto da esposa, quando estavam juntos para evitar que o seu segredo fosse descoberto, nada disso adiantou.

Então, ele permaneceu calado, como sempre fazia. Manteve Gwen segura nos braços, como quem segura uma lembrança viva daquilo que jamais teria para si.

Enquanto isso, sua ex-esposa cruzava a sala com passos firmes, como se o simples ato de andar pudesse apagar a tristeza que deixava para trás.

O passado, pensou Justin, nunca realmente partia. Ele apenas encontrava novas formas de doer. E enquanto as famílias deles apoiassem naquele casamento, nenhum dos dois conseguiria ser livre ou deixar o outro livre.

[...]

Clara atravessou o corredor do apartamento onde um dia morou com passos hesitantes, segurando uma pasta de documentos contra o peito. Desde que se formara, trabalhar com crianças havia preenchido seu mundo, sua vocação, sua felicidade. Mas naquela manhã, seu coração batia por um motivo diferente.

Quando a porta se abriu à sua frente, seus olhos encontraram uma cena que a fez parar.

Uma criança chamando o nome de Justin. Ele de pé na sala iluminada pela manhã fraca, segurando uma criança nos braços.

Não era apenas a imagem em si. Era o jeito como ele a segurava, protetor, como se nada no mundo pudesse tocá-la. Era o toque delicado em seus cabelos, o modo como seus olhos, geralmente frios, agora estavam suavizados por algo que Clara não via há muito tempo.

Um nó se formou em sua garganta. Ela não conseguiu se mover.

Durante anos, Clara sonhara com essa imagem Justin, ela, uma criança entre eles. Uma família construída a partir do amor que, por tanto tempo, ela acreditara ser suficiente para vencer qualquer obstáculo.

E ali estava ele. Com uma criança nos braços. Ela sentiu o chão vacilar sob seus pés.

Por um momento, deixou-se ser invadida pela tristeza, pela impotência. Porque, mesmo depois de tudo, mesmo depois de prometer a si mesma seguir em frente, o amor que sentia por ele ainda estava ali. Vivo. Intenso. Impossível de negar.

A voz grave de Justin a alcançou, fazendo-a piscar rápido e recompor a postura.

Ela forçou um sorriso fraco, avançando para dentro do apartamento, mesmo que seu peito doesse.

- Aconteceu alguma coisa? — ela foi a primeira a quebrar o silêncio com a voz embargada demais para soar natural.

- Jamie está com alguns problemas! E a escolha mais sábia foi protegê-la. — as poucas palavras dele não queria dizer nada.

Gwen, aninhada nos braços de Justin, olhou para ela com olhos curiosos.

Se ele podia cuidar de uma criança... por que eles não tinham conseguido?

Ela afastou o pensamento com violência. Era tolice, e orgulho ferido, pensar sobre isso. Afinal, ela sequer sabia o verdadeiro motivo pelo qual ele não queria filhos. Ele apenas dizia que não era o momento.

- Ela é linda. — disse, com um carinho genuíno na voz, estendendo a mão para Gwen, que sorriu timidamente.

Justin observou a cena em silêncio, as feições controladas, mas seu peito pesava com as palavras não ditas.

Se Clara soubesse.

Se ela soubesse o quanto ele a amava.

Se soubesse que seu maior medo nunca foi amá-la, mas não poder dar a ela o que ela mais desejava: uma família completa.

Mas ali, naquela manhã, envoltos em mágoas antigas e novas cicatrizes, ambos se mantiveram em silêncio.

Às coisas que eles não sabiam um do outro eram às que mais os afastam.

Gwen começou a se agitar nos braços de Justin.

Primeiro foram pequenos soluços, depois, um choro mais alto, que ecoou pela sala, quebrando o clima tenso que se formara.

Justin tentou ajeitá-la, batendo levemente em suas costas, murmurando algo que pretendia ser tranquilizador, mas seu corpo rígido e sua expressão endurecida deixavam claro: ele não sabia muito bem o que fazer.

Clara deu um passo instintivo para frente, esquecendo de tudo, do porque ela estava ali, das famílias de ambos, da dor em seu peito.

Seu instinto falou mais alto.

- Posso? — perguntou baixinho, a mão estendida.

Justin hesitou por uma fração de segundo, depois lhe entregou Gwen com um movimento tenso e contido.

Assim que Clara a segurou, mudou tudo.

Sua voz era baixa, suave, uma canção improvisada entre palavras de carinho. Gwen se aninhou contra seu ombro como se tivesse encontrado o seu lugar.

- Shh.. está tudo bem, pequena... está tudo bem agora. — murmurava, acariciando os cachinhos desalinhados da menina.

O choro foi diminuindo, soluço por soluço, até virar apenas um suspiro trêmulo.

Justin observou em silêncio, o maxilar travado.

Nunca foi fácil para ele assistir alguém fazer o que ele próprio não conseguia.

Mas, naquele momento, enquanto via Clara acalmar Gwen como se tivesse sido feita para isso, não sentiu inveja ou frustração.

Sentiu... algo diferente.

Uma dor antiga, misturada com admiração silenciosa. Um arrependimento esmagador.

Ele cruzou os braços, desviando o olhar para a janela, como se a cidade lá fora pudesse distraí-lo da realidade diante de seus olhos.

Sem ter o que fazer, Justin pegou a maleta de trabalho e já começou a organizar os papéis da negociação. No dia anterior, antes de receber a ligação de Justin tinha enviado a mensagem para ela avisando que tinha uma pendência, e como eles haviam combinado que quando envolvesse qualquer trâmite entre as famílias eles iriam tomar a decisão juntos, ela estava ali.

A atmosfera da sala mudou. De tensão, passou a algo mais humano.

Mais real.

- Nós... podemos esperar um pouco para começarmos. — disse Justin, sério como sempre.

Ela não ousou discordar. Apenas balançou a cabeça concordado.

Clara continuou balançando Gwen suavemente, enquanto a menina já cochilava em seus braços, agora segura, tranquila.

Justin olhou para Clara.

Por um instante, esqueceu-se dos erros, das cicatrizes e do peso insuportável da culpa. Só via uma mulher que, mesmo depois de tudo, ainda carregava luz suficiente para acalmar o mundo ao seu redor.

E, silenciosamente, ele soube.

Parte dele, a parte que nunca deixara de amá-la, ainda pertencia a ela.

E sempre pertenceria.

O dia passou devagar, como se o tempo tivesse desacelerado só para eles. A casa estava mergulhada numa paz morna, quebrada apenas pelos barulhinhos ocasionais de Gwen, explorando o tapete da sala como se fosse um território novo e fascinante.

Sem grandes conversas. Sem planos. Só o essencial.

Gwen resmungou, e Justin, ainda um pouco atrapalhado, se abaixou com cuidado ao lado dela, segurando uma peça de quebra-cabeça na mão.

- Essa vai aqui? — perguntou, mostrando a peça para a menina, mesmo sabendo que era apenas uma distração para tudo o que ela passou nos últimos dias.

Gwen ajustou a peça em cima de onde Justin estava indicando, ela sentia falta do pai, e a brincadeira de alguma forma a ajudava a se concentrar no agora.

- Tio Justin, quando eu vou poder ver meu papai? — ela perguntou sem olhar pra ele.

- Logo! — disse ele, enquanto tirava a peça da mão dela com delicadeza e encaixava em outro lugar.

Do outro lado da cozinha, Clara cortava frutas num prato de cerâmica que ela havia comprado quando morava lá.

Justin parecia tão calmo e paciente, ajudava Gwen, a mantinha entretida e conversava com ela. A cena dos dois juntos mexeu com ela de uma forma inesperada.

Justin a observou por um momento sem que ela o visse. O sol da tarde entrava pela janela, dourando seus cabelos. Ela usava um moletom velho, as mangas dobradas até os cotovelos, e parecia tão à vontade naquele cenário doméstico que algo dentro dele se aqueceu, e doeu, também.

- Você parece... diferente — comentou Clara da cozinha, voltando o olhar para Gwen. — Tranquilo.

Justin riu baixinho, mas nada disse.

- Talvez eu também esteja. É estranho, mas... acho que essa paz me assusta mais do que a correria da escola. — continuou ela.

- A mim também. — ele encaixou mais uma peça. — Achei que ia ficar impaciente em cinco minutos. Mas já se passaram... quanto tempo?

- Quase duas horas. — Clara foi até eles e colocou o prato na mesinha ao lado do tapete. — E você ainda está aqui, no chão, todo torto.

- Estou começando a suspeitar que meu orgulho foi sequestrado por uma criança — disse ele, fazendo Gwen sorrir.

- Minha mamãe que foi levada naquele carro — Gwen o lembrou. E ele passou a mão em seu cabelo em sinal de conforto.

- Ela vai voltar logo! — afirmou ele.

Clara se sentou ao lado dele, puxando as pernas para perto do peito.

- Nós parecemos uma família. — Ela falou sem olhar diretamente para ele, apenas observando Gwen, que agora tentava alcançar a fruta.

Justin demorou um pouco antes de responder.

- Eu sei. Também senti isso. E... é assustador.

- Ou bonito. — ela pegou uma fatia de maçã e deu para Gwen, que pegou com as duas mãos, muito concentrada. — Às vezes, as duas coisas.

Ele olhou para as mãos dela e para as de Gwen, depois para a moldura da cena inteira, gravando aquele instante na memória.

- Bonito, sim. — sua voz saiu quase num sussurro. — Assustadoramente bonito.

E por um momento, ele deixou de lado todas as certezas, os "e se", os "nãos" e os "mas". Naquele chão de sala, entre frutas, brinquedos e silêncios compartilhados, Justin permitiu-se apenas existir.

Como se aquilo já fosse tudo.

Apenas necessidades simples: Gwen precisava ser alimentada, precisava ser entretida, precisava ser ninada. E então devolvida.

E, para sua surpresa, ele e Clara cuidaram dela como se fossem... uma família.

Justin, geralmente impaciente, se viu sentado no chão, tentando montar um quebra-cabeça infantil enquanto Clara preparava um lanche improvisado na cozinha.

Gwen ria baixinho, a risada dela parecia música, preenchendo todos os espaços vazios do apartamento frio e impecável de Justin.

À noite, Clara encontrou o livro do pequeno príncipe que ela achava ter perdido, na gaveta de cabeceira de Justin, era o livro que ela tinha perdido no dia em que se conheceram. Ela passou os dedos sobre sua própria letra.

"Lembrar: responsabilidade não é controle. É cuidado."

Aquilo havia sido escrito há mais de sete anos, no hotel da colina onde ela e Justin se encontraram pela primeira vez. Ela se lembrou do olhar julgador dele, quando ajudava uma criança com algumas folhas caídas. O elevador velho barulhento. Ela se lembrava de todos os detalhes daquele dia. Seu coração disparou ao tocar os dedos na letra terrível de Justin em baixo da sua.

"Dá para construir algo lindo mesmo com as cores e tamanhos misturados"

Uma lágrima escorreu sem que ela pudesse conter, ele ainda se lembrava sobre a conversa de montagem de bloquinhos. Tentando se recompor ela passou a mão no rosto e levou o livro para a sala.

Gwen estava com o pijama e sentada no sofá vendo desenho na TV, Clara sentou-se no sofá para ler para ela. Quando Justin viu o que ela tinha em mãos, ele arregalou os olhos e segurou a respiração, aquele livro, ele nunca o devolveu, porque era um símbolo de quando se conheceram, antes de todas a interferências externas. Atualmente, ele o lia todas as noites antes de dormir para sentir o cheiro e lembrar de Clara.

Justin ficou ali, observando em silêncio enquanto Clara lia para Gwen.

A cena era tão perfeita, tão cruelmente perfeita, que doía.

Quando Gwen adormeceu, Clara ajeitou uma manta sobre ela e suspirou, sem perceber que Justin ainda a observava.

- Vou levá-la para o quarto! — Justin levantou-se e pegou a criança com cuidado para não acordá-la.

Clara abriu a porta do quarto de hóspedes, o quarto que ela havia ficado antes deles casarem, e se sentiu estranha, mesmo nunca tendo voltado no apartamento depois que Justin havia saído da casa deles.

Ela observou ele colocar Gwen na cama e a cobrir, Justin era muito controlado com suas emoções dificilmente ela conseguia decifrar o que se passava dentro dele, mas naquela noite, ele era como um livro aberto, ao olhar Gwen deitada na cama, a expressão em seu rosto era de uma tristeza tão profunda.

Mas quando ele virou na direção dela. A expressão havia desaparecido dando lugar a sua expressão habitual de Justin Carter.

- Obrigada por ficar. — ele disse, a voz baixa, quase rouca.

Clara o olhou de lado, uma expressão difícil de decifrar no rosto, estava aprendendo a esconder suas emoções exatamente como ele.

- Eu não podia simplesmente ir embora. — respondeu. — Não com ela desse jeito.

Um silêncio confortável se instalou.

— Podemos verificar a questão do terreno da sua família?

- Sim, podemos... — ela concordou.

Ela o seguiu para o escritório, ali parecia o único lugar que ela não tinha muita influência, raramente entrava. Ela olhou os papéis organizados de forma milimétrica, era familiar a sensação, como também sentia falta dele.

Ela sentou-se na poltrona de frente para ele, com a mesa os separando, sempre haveria um obstáculo entre eles.

Justin passou a mão pelos cabelos, como se lutasse contra algo dentro de si.

- Você sempre foi assim. — murmurou ele. — Sempre soube cuidar dos outros... mesmo quando ninguém cuidava de você.

Clara sorriu, triste. Lembrando de como a família dela a pressionava para fazer coisas que ela não queria, e Justin sempre cuidando dela e permitindo que ela fosse ela mesma. Mesmo assim havia a mágoa.

- Talvez seja por isso que eu nunca consegui desistir de... certas coisas. — disse, desviando o olhar.

Justin fechou os olhos por um momento, sentindo a culpa apertar seu peito.

A verdade estava ali, na ponta da língua, o motivo real de sua separação, o segredo que nunca teve coragem de contar. Que não era falta de amor. Nunca foi.

Era o medo brutal de ser um peso. De tirar dela o sonho de ter uma família completa. Mas, naquela noite, ele não disse.

Não porque não queria. Mas porque, olhando para Gwen dormindo, com Clara ao lado dela, sentiu que, pela primeira vez em muito tempo, havia algo sagrado demais ali para quebrar.

Então, ficou em silêncio.

Deixou o momento durar.

- Qual a negociação entre as duas famílias? — ela o questionou quebrando o silêncio.

- Seu irmão Caleb assumiu o grupo Jones recentemente como você sabe, então ele está tentando provar para os acionistas que é capaz. — começou ele. — E seu pai sugeriu o terreno que fica ao lado de um dos hotéis na zona oeste fosse barganhando pelo grupo Carter em troca de financiamento para o projeto do seu irmão.

- O projeto de meu irmão é viável?!

- Pela proposta que ele me passou... Tem alguns prós e contras... Ele vai precisar de muita matéria prima de fora do país, isso é caro. No entanto, caso a patente seja um sucesso, ele vai dobrar o faturamento da empresa. — ele sempre tentava explicar de uma forma imparcial, pois ele havia prometido para ela.

- E se falhar? — questionou ela.

- Se falhar, seu irmão estará em apuros por um tempo, talvez uma queda nas ações. — Justin pegou a pasta de análise de risco, folheou algumas páginas e mostrou para ela. — Para o grupo Carter será uma perca de 500 milhões.

- Você vai querer apostar no meu irmão?

- Para falar a verdade, não. — Justin foi direto. — Mas... Eu fiz Jamie voltar para o grupo... Para lidar com essas questões de investimento, então ele saberá a resposta certa para isso. No entanto, eu tenho interesse no terreno!

Ela mexeu as mãos desconfortável. Justin dobrou mais algumas folhas.

- Quando Jamie me ligou ontem pedindo ajuda com o sequestro da Kathryn, vi a oportunidade cair no meu colo... — Justin riu vitorioso.

- Mas... Jamie não abandonou o nome da família? Para viver sua própria vida? Longe dessa cobrança sem precedentes? — ela irritou-se com Justin. — Você está se aproveitando da situação.

- Você lembra que meu pai nos visitou quando estávamos em nossa casa?

- Sim... — ela lembrava sim, e foi nessa visita que ela passou a odiar o sogro.

Ela viu o quanto o homem era egocêntrico e narcisista, fazendo Justin ser uma arma, usando o laço pai-filho para atingir seus próprios objetivos, ele tinha um poder muito grande sobre Justin, como se a palavra dele para Justin fosse a ordem do dia.

- Ele pediu que usassem os recursos do grupo para encurralar Jamie. Para que ele voltasse para a família a fim de lidar com essa parte de investimento.

- E você fez exatamente o que ele queria como sempre! — ela indignou-se. E no calor da raiva, continuou — Se ele te pedisse que tivesse filhos, você os teria não é?! Edward ordenou, Justin segue a risca!

Assim que disse essas palavras, ela se arrependeu. Com a mesma faca que ela furou Justin, acabou furando a si mesma também. O semblante dele se tornou sombrio. Justin nunca a usou dessa forma e ela sabia disso.

- Ele não irá me pedir isso! — Justin devolveu cruel.

- Me desculpe, isso não foi justo!

O ambiente antes calmo, tornou-se frio.

- Usei o sequestro de Kathryn para trazer Jamie de volta, porque meu pai estava pressionando algumas pessoas no círculo a abandonar Jamie, ele lutou tanto para chegar onde está para ser derrubado assim. — Justin fez um gesto sem importância. — Melhor que Jamie venha em meus termos, do que ser humilhado pelo pai.

Ela ficou quieta e um pouco arrependida. Sabia que Justin encobria os irmãos sempre que podia, ele preferia estar na mira dos mais velhos a ter que forçar seus irmãos. Ele fazia todo o papel de irmão protetor.

- Sua família ainda está te incomodando? — ele trocou de assunto.

Eles a estavam pressionando novamente sobre ter filhos, e como eles não sabiam sobre o rompimento deles, ela sempre era bombardeada quando tinha que voltar para a casa de seus pais.

Vendo o silêncio dela como resposta, Justin não pensou em mais nada. Queria dar a liberdade a ela, mas as famílias não permitiria. Então ele sempre tentaria aliviar as coisas para ela.

- Vamos fazer o seguinte, após fazermos a transferência do terreno, para o grupo Carter, o investimento vai ser liberado para o seu irmão.

- Mas não é um investimento de alto risco? — ela se sentia culpada.

- Vamos apostar para ver!

Justin a chamou para jantar algo simples, e ele acabou fazendo sanduíches e chá, sentados no sofá, trocando olhares ocasionais. Sem pressa. Sem pressão. Como quando estavam morando juntos.

Quando a madrugada chegou, Clara já estava adormecida no sofá. Enquanto Justin olhava para a TV sem nem prestar a atenção no que se passava.

Justin, ainda acordado, a pegou no colo e levou para o quarto dele, quando ele a colocou na cama, ela reclamou um pouco ainda dormindo, ele retirou a coberta do armário e a cobriu. Antes que pudesse sair, ele depositou um beijo na testa dela. Sentia falta dela, e agora com ela dormindo ali tão pacífica.

Pela primeira vez desde que eles se separaram, ele permitiu a si mesmo chorar, só por aquela noite, ele pudesse finalmente soltar tudo o que estava segurando.

Seu telefone tocou antes que pudesse ter um momento de desabafo, e com o treinamento de anos se recompôs e saiu do quarto para atender a ligação.

- Senhor Carter, Kathryn foi resgatada, ela está a caminho do hospital.

- Jamie está bem?

- Ele está abalado. — August Smith devolveu. — Mas agora está bem, ele atirou em Hug.

- Ele precisa de algo?

- Não senhor, eu já cuidei do caso, será tratado como uma briga dentro da facção. — August Smith soltou uma risadinha, algo tão raro. — Pode-se dizer que seu irmão se apaixonou por uma inimiga!

- Como assim?

- Kathryn foi presa injustamente pelo roubo de cinco anos atrás, da empresa do seu irmão! Ele pensava que ela era culpada, mas era irmã gêmea dela. Essa mulher é tão ardilosa que usou Kathryn e Jamie, para terem um bebê, sem saber que eles eram os pais. — informou a Justin.

- Onde está essa mulher? — Justin questionou, pensando que ela não sabia, mas mexeu com a pessoa errada.

- Ela foi presa, mas... — ambos sabia o que aconteceria. — Logo estará solta.

- E não precisamos de mais problemas, certo? — Justin ordenou, se tinha uma coisa que seu pai ensinou e ele nunca esqueceria era, corte o mal pela raiz, caso contrário vai ter que limpar o jardim mais de uma vez.

- Sim senhor! — August Smith encerrou a ligação.

Justin viu o livro do pequeno príncipe na mesa de centro o pegou e o cheirou. Finalmente o cheiro dela voltara. Ele foi até o escritório abriu o cofre e o colocou lá dentro. Sem vontade de fazer mais nada ele deitou no sofá do escritório e dormiu.

[...]

Ao amanhecer, Clara acordou sentindo-se bem. Tinha finalmente se livrado da insônia que estava acompanhando alguns meses. Ela abriu os olhos e sentiu o cheiro familiar de Justin, o cheiro parecia empreguinado nos lençóis e travesseiros, ela olhou para o lado dele e estava intocado, ele não dormira ali.

Ela se levantou e saiu a procura dele pelo apartamento, ela passou no quarto de hóspedes e Gwen ainda estava dormindo. Ela abriu a porta do escritório e o viu encolhido no sofá com o braço pendendo para o chão. Ela se agachou de frente para ele e tocou seu rosto.

- Se vai encarar, pelo menos sente-se — ele disse com a voz rouca, sem abrir os olhos.

Clara levantou a sobrancelha.

- Você tem um sexto sentido para presenças indesejadas?

- Tenho um sexto sentido para desequilíbrios — respondeu ele finalmente abrindo os olhos. — E você está agachada há três minutos.

Ela sorriu, sentindo que parecia ter recuperado algum terreno que havia perdido desde a separação.

Gwen acordou.

Justin e Clara se moviam como duas peças de um quebra-cabeça antigo, encaixando-se de forma quase automática nas necessidades de Gwen. Quase como se tivessem sido feitos para isso.

Mas a realidade, implacável como sempre, não os esqueceria por muito tempo. O celular de Justin vibrou em cima da mesa. O nome do irmão apareceu na tela.

Ele atendeu, a voz tensa.

- Justin. — a voz de JC soou cansada do outro lado. — Kate está no hospital... mas ela vai ficar bem. Eu consegui autorização para levar Gwen até ela.

Justin fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquelas palavras.

- Entendi. — murmurou.

Quando ele desligou, o silêncio na sala parecia mais pesado do que nunca.

Clara, sentada com Gwen brincando com uma boneca alheia a situação. Ela não perguntou nada. Não precisava. O coração dela já sabia.

O tempo, esse inimigo que nunca foi gentil com eles, havia, mais uma vez, lhes cobrado a conta.

Sem dizer palavra, Justin se aproximou e se sentou ao lado delas.

Gwen parou de brincar com um pequeno movimento, esfregando os olhos e depois sorrindo ao ver Clara. Era um sorriso inocente. Um sorriso que ainda não sabia das despedidas que estavam por vir.

- Gwen — Justin murmurou, a voz arranhada. — Você vai ver a mamãe de novo.

Gwen olhou para ele, depois para Clara, e seus olhos marejaram.

- A Kate voltou?! — sussurrou, agarrando-se ao pescoço de Clara. — Ela voltou de verdade? Eu quero a mamãe...

O coração de Clara se partiu em silêncio. Ela afagou os cabelos da menina, lutando contra as lágrimas.

- Você vai ver sua mamãe, e ela vai ficar tão feliz de te ver. — disse baixinho. — E eu... eu nunca vou esquecer você, minha linda.

- Você não vai comigo ver minha mamãe? Ela é bem novinha que eu falei que queria! Você pode vir? — pediu Gwen.

- Não, você vai com seu tio Justin!

Clara a abraçou com força, seu corpo tremendo levemente. Justin olhava a cena, sentindo o chão se abrir sob seus pés. O fim chegou tão simples, tão silencioso...

Sem gritos. Sem confissões. Parecia um sonho, e que agora eles estavam acordados. Apenas a certeza fria de que o tempo deles, esse tempo frágil que reconstruíram por dois dias, havia acabado.

- Então vamos? — Justin estendeu a mão para ela que aceitou ainda olhando para Clara.

- Você vem me visitar na minha casa? — ela pediu novamente para Clara.

- Ela vai sim, eu levo ela para você ver ou eu te chamo para vir aqui em casa para sairmos, o que acha? — Justin interveio.

- Tio Justin, você é especial. — o elogio da pequena arteira mexeu com ele mais do que ele queria admitir.

- Você que é especial! — dizendo isso, ele a pagou no colo e saiu do apartamento.

O apartamento de Justin parecia ainda mais vazio sem a presença de Gwen. Clara fechou a porta atrás de si, sentindo o eco do silêncio bater nos móveis frios e arrumados.

Ela respirou fundo. Não queria estar ali agora sozinha, como quando eles decidiram se separar, era como da primeira vez, um pouco mais doloroso, porque tinha amando ver Justin lidando com uma criança. Ele mostrava um lado criança que nunca tinha visto.

Preparando-se para pegar suas coisas e ir embora ela foi até o escritório onde os documentos acordados ficaram. Cada passo até lá era uma punhalada invisível.

Quando abriu a porta do escritório, o cheiro familiar de Justin, limpo, discreto, mas inconfundível, a atingiu em cheio.

O cômodo parecia suspenso no tempo.

Nenhuma marca dela restara ali, e mesmo assim, tudo gritava a ausência que nunca foi preenchida.

Clara foi direto para a mesa do escritório, onde lembrava de ter deixado seus papéis.

Remexeu rapidamente entre pastas, tentando ser rápida, indiferente.

Mas então, ao puxar uma pasta alguns papéis acabaram caindo no chão, ela se agachou para pegá-los... e parou. O cofre estava parcialmente aberto, e ela viu o livro do pequeno príncipe lá dentro. Ela o pegou e outro papel veio junto.

Seu olhar fixou no cabeçalho de uma das folhas: Clínica de Reprodução Assistida: Resultados de Fertilidade Masculina.

O nome de Justin estava ali. O carimbo da clínica também. Com mãos trêmulas, ela virou a folha e leu as palavras com cuidado.

Infertilidade.

Taxa nula de viabilidade.

Risco elevado desde o acidente na adolescência.

O ar pareceu sumir dos pulmões de Clara.

Ela se sentou no chão, os papéis nas mãos, como se segurasse algo muito mais pesado do que simples folhas. As memórias de tantas discussões, tantas lágrimas, tantas perguntas insistentes sobre filhos, a golpeou de uma vez.

Ela se lembrava de seu próprio desespero, da frustração, das cobranças silenciosas.

E, agora, tudo fazia sentido. Ele não a abandonou por falta de amor. Ele a deixou porque acreditava que jamais poderia lhe dar o que ela mais sonhava.

Clara fechou os olhos, sentindo as lágrimas descerem quentes pelo rosto, ela queria devolver os papéis ao lugar de onde vieram. Queria fingir que nunca os viu.

Mas o estrago já estava feito, a verdade já estava impressa em sua alma.

Com o peito apertado pela culpa, ela guardou os documentos cuidadosamente de volta onde os encontrou, respeitando o silêncio de Justin, o silêncio que agora ela compreendia. Devolveu o pequeno príncipe para o cofre e o fechou selando o segredo de Justin mais uma vez.

Saindo do escritório, Clara parou por um instante na porta, olhando uma última vez para o espaço que Justin mais passava o tempo.

- Me perdoa. — ela sussurrou para o vazio. — Eu não fui justa mais uma vez.

E saiu, levando consigo a dor de que Justin nunca havia exigido nada dela, e ela nunca o compreendeu totalmente, suas famílias e ela mesmo, haviam todos se virando contra ele, e ele ainda conseguia resistir, sem nunca reclamar.

Sua família a usava para fazer ele investir neles, o pai dele o usava para seu benefício próprio, os irmãos sempre pedindo ajuda para ele, e ela... Exigindo algo que ele não tinha condições de lhe dar.

Do outro lado da cidade, o hospital parecia vazio aquela hora da manhã, Justin chegou no hospital com Gwen nos braços enquanto caminhava pelos corredores, Gwen agitada em seus braços, enquanto JC vinha ao seu encontro com passos apressados.

- Justin! — JC exclamou, aliviado, abrindo os braços para receber Gwen.

Justin sorriu de leve, um sorriso cansado, mas sincero, e passou Gwen para ele com um cuidado quase cerimonial.

- Ela sentiu muito sua falta. — disse baixo.

- Vem com o papai... — ele beijou a testa dela.

JC abraçou a filha com força, seu rosto se desmanchando em alegria. Agora estava tudo em seu devido lugar.

- Obrigado. — ele murmurou, olhando para o irmão com uma sinceridade crua. — Por tudo. Eu não sei o que teria feito sem você.

Justin deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio.

- Família é pra isso. — respondeu, a voz rouca.

Por alguns minutos, ficaram apenas ali, dois irmãos que sempre foram tão diferentes, mas naquele instante pareciam partes de um mesmo destino.

Quando Gwen foi levada para dentro do quarto para ver Kate, Justin e JC ficaram do lado de fora, perto da janela do corredor, observando o céu noturno que prometia uma chuva fina.

- Então, — JC quebrou o silêncio, ajeitando a gola da jaqueta. — Eu volto na próxima semana para o seu hotel. Acho que Kate vai precisar de mim em casa agora... Até às coisas se acalmarem.

Justin assentiu, olhando a cidade lá fora como se ela pudesse oferecer alguma resposta.

Ele hesitou por um instante, e então falou, sem encarar o irmão:

- Proteja isso, Jamie — apontou com a cabeça o quarto em que Kate estava.

O tom de sua voz fez JC se virar completamente para ele. Justin parecia outra pessoa.

- Valorize sua mulher. Sua filha. A bagunça, o medo, o cansaço... tudo isso faz parte. — Justin continuou.

Justin finalmente olhou para ele, e naquele olhar havia algo quebrado, algo que nem o irmão mais próximo seria capaz de consertar.

- Você pode pensar que tem tempo... pode achar que amanhã dá pra corrigir tudo. — ele sorriu, mas era um sorriso triste, resignado. — Mas, às vezes, o tempo leva embora o que a gente mais ama. E quando você perceber, já vai ser tarde demais pra voltar atrás.

JC ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Ele sabia, ambos sabiam, que Justin falava da própria vida.

Do amor que perdeu.

Da esposa que ainda morava em algum lugar dentro dele.

- Eu não vou deixa Kate ir! — JC afirmou com todas as suas forças.

Justin apenas deu um leve tapinha no ombro do irmão, como quem sela um acordo silencioso. Sem dizer mais nada, ele se virou e começou a caminhar pelo corredor vazio, cada passo ecoando como um adeus.

- Te espero daqui duas semana! — foi tudo que Justin disse.

Enquanto saía do hospital, o vento frio da noite o envolveu. E pela segunda vez em muito tempo, Justin deixou-se sentir a dor.

Não para se afogar nela. Mas para lembrar que, apesar de tudo, ele ainda era capaz de sentir. E talvez, apenas talvez, ainda houvesse um caminho de volta para o que ele achava ter perdido para sempre.

Quando Justin chegou ao apartamento, a sensação de vazio foi implacável.

Ele encostou a porta com cuidado, mas o som do clique parecia mais um eco distante do que um fechamento definitivo.

A luz da sala estava apagada, e as sombras dançavam com o movimento da brisa que entrava pela janela semiaberta. O ar estava frio, cortante, e ele sentiu um calafrio subir por sua espinha. Tudo estava exatamente como ele deixara. Mas estava também irreparavelmente diferente.

Ele retirou a jaqueta e a jogou no sofá, indo direto para a cozinha. Abriu a geladeira sem realmente saber o que procurava e, ao fechar a porta, a verdade o atingiu com força.

Gwen havia ido embora.

Clara também.

E ele sabia que, no fundo, o espaço vazio do apartamento não era nada comparado ao espaço vazio dentro de si. Ele caminhou até a sala, olhando ao redor, buscando algum vestígio do dia que passou.

Uma xícara esquecida na mesa de café. A manta que Clara deixara jogada sobre o sofá. Nada! Tudo estava na mais perfeita ordem.

Ele se deixou cair no sofá e fechou os olhos por um momento. Tentou se lembrar de Clara, com seu sorriso silencioso e suas palavras que, embora raras, sempre estavam lá, como um farol em meio à tempestade. Tentou se lembrar de Gwen, com seus olhos grandes e a risada que parecia tirar o peso de qualquer dia ruim.

Mas, como sempre, a lembrança de Clara foi a mais dolorosa. Ela, que nunca soubera das suas limitações. Ela, que nunca soubera que ele havia se afastado, não por falta de amor, mas por não poder dar a ela o que mais desejava.

Ele nunca contou a ela sobre o seu problema, sobre as clínicas, sobre os dias e noites de esperança e desespero. Ele nunca disse que se sentia indigno de um amor tão grande.

E agora, talvez fosse tarde demais. Ele já sabia. Ele sabia que não havia mais tempo para fazer isso. O relógio tinha passado por ele, e ele ainda estava ali, parado no passado. Uma dor profunda se aninhou em seu peito, e ele apertou as mãos no rosto, como se pudesse afundar tudo para dentro de si. Como se pudesse afogar essa dor, fazer ela desaparecer.

Mas não desaparecia.

O apartamento estava quieto demais. A cidade lá fora seguia em movimento, mas tudo o que ele queria era poder voltar atrás, mesmo que por um segundo.

Ele se levantou, sentindo o peso de cada passo. Caminhou até a janela, olhando para as ruas abaixo. As luzes da cidade piscavam, vazias e distantes. Como se todos ali estivessem em movimento, mas ele estivesse preso em um lugar onde o tempo parara.