Sentença de Amor
7 Capítulo 07
Capítulo 07: Acho que vou cometer uma loucura.
JC estava exausto e frustrado. Havia passado quase três semanas tentando reunir provas sobre os acontecimentos de cinco anos atrás, mas cada pista que encontrava acabava em um beco sem saída, ou simplesmente desaparecia antes de conseguir algo concreto. Era como se alguém estivesse deliberadamente sabotando seus esforços.
Ele tinha certeza de que não era Kate a responsável por aquilo. Sua vida parecia girar em torno do trabalho e de cuidar de Gwen, e depois dessas semanas de investigação, JC estava ainda mais convicto da inocência dela.
Sebastian, que o acompanhara incansavelmente em cada busca, também mostrava sinais de desgaste. Juntos, seguiram uma pista sobre uma câmera que teria registrado o ocorrido, mas ao chegar ao local, encontraram tudo completamente limpo. Quando finalmente localizaram uma testemunha, ela inicialmente parecia disposta a colaborar, mas no encontro seguinte, desconversou e afirmou não ter visto nada relevante. Alguém estava claramente tentando esconder a verdade.
Apesar de tudo, JC sabia que precisava dar uma pausa. Gwen tinha ido para a escola naquela manhã, e já era hora de buscá-la. A saudade apertava. Talvez, ao menos naquele breve reencontro, ele pudesse encontrar algum conforto em meio ao caos.
- Vamos pra casa! — ele declarou para Sebastian.
- Sabe o que é mais engraçado? Essa pessoa sabe que estamos procurando por ela. Kate só é um peão nas mãos dela. — Sebastian olhou os documentos e se lamentou, tudo os levava para lugar nenhum. — Só Kathryn para nós dizer quem é essa pessoa.
- Dúvido que ela diga! — JC se sentiu frustrado. — Ela passou 5 anos na cadeia por esse cara!
- Cara?! Decidimos que é um homem? — Sebastian brincou. — Você já entrou para o fãnclube dela?
- Eu tenho medo que esse cara seja o pai de Gwen, e ele esteja ameaçando ela usando a menina. — ele se justificou. — Isso não vou aceitar.
- Está com ciúmes de Kate?! — Sebastian adivinhou.
- Vamos voltar! — ele não negou.
JC virou as costas para Sebastian e seguiu para o quarto ao lado, onde começou a arrumar sua mala. Sua mente estava tomada por uma única prioridade: proteger Gwen. Isso era o mais importante. Mas havia algo mais que o incomodava profundamente. Ele também queria manter Kathryn segura, embora não conseguisse explicar exatamente o motivo. Era um desejo que surgia instintivamente, sem razão clara, mas impossível de ignorar.
Por um instante, pensou em ligar para saber se ambas estavam bem. No entanto, lembrou-se de que Kate não tinha telefone, e àquela hora ela provavelmente não estaria em casa. A ideia o atingiu como um soco: se algo acontecesse com ela, não haveria maneira de encontrá-la. Esse pensamento o deixou inquieto.
Respirando fundo, JC retornou à sala. Encontrou Sebastian organizando os documentos, claramente se preparando para a próxima etapa da viagem. A cena era uma mistura de rotina e urgência, refletindo exatamente como JC se sentia por dentro.
- Sabe onde fica o shopping mais próximo daqui? — JC o questionou.
- Precisa de algo? Posso ir lá comprar! — Sebastian se prontificou.
JC não queria delegar essa tarefa a mais ninguém. Ele mesmo queria escolher o telefone para Kate. Não era apenas sobre utilidade ou praticidade, era uma forma de garantir que ela tivesse algo que a conectasse ao mundo e, mais importante, a ele. Essa decisão parecia pequena, mas carregava um significado maior para JC. Era seu jeito de protegê-la, mesmo que ela não percebesse.
- Não precisa. Onde é? — insistiu JC.
Sebastian estranhou o comportamento de JC, mas nada disse.
- Vou com você! — ele se ofereceu.
- Ok — JC pegou a carteira.
O shopping ficava a poucos quarteirões do hotel onde estavam hospedados, então JC decidiu ir a pé. Caminhou pelos corredores movimentados, os olhos atentos às vitrines em busca de uma loja de celulares. Após alguns minutos, avistou uma ao lado de uma joalheria. Por um breve instante, algo incomum passou por sua mente ao olhar as joias reluzindo na vitrine. Um pensamento vago, quase impulsivo. Deixa pra lá, murmurou para si mesmo, afastando a ideia e entrando na loja de celulares.
Assim que ele cruzou a porta, uma atendente se aproximou rapidamente. O sorriso dela era um pouco mais demorado do que o necessário, e o olhar, carregado de segundas intenções. Não era todo dia que via alguém como ele: alto, atraente e com um ar sério que o tornava ainda mais irresistível. A possibilidade de conseguir mais do que apenas vender um celular parecia tentadora demais para ser ignorada.
- Como posso te ajudar? — disse ela melosa.
- Preciso de um telefone de última geração feminino. — JC não devolveu o flerte.
Sebastian observou o amigo de longe, e a carranca que JC exibia não passou despercebida. Um sorriso de canto brotou em seu rosto ao perceber o que estava acontecendo. Pelo visto, a flecha do cupido tinha atingido JC em cheio, e o alvo era ninguém menos que sua maior inimiga. Como a vida é irônica, pensou Sebastian, se divertindo com a situação. Do jeito que as coisas estavam indo, não ficaria surpreso se aqueles dois acabassem se casando.
A atendente, por mais empenhada que estivesse, não tinha a menor chance. Era evidente que o pensamento de JC estava em outro lugar, ou melhor, em outra pessoa. Uma pena, refletiu Sebastian, quase rindo. Mas ele estaria por ali, caso fosse necessário ajudar o amigo a sair dessa confusão emocional, como sempre fazia.
- É para a esposa dele! — Sebastian mentiu e o sorriso da atendente murchou.
- Me mostre os modelos eu mesmo vou escolher! — JC não negou a afirmação dele.
A atendente se afastou para buscar os modelos de telefone, deixando JC e Sebastian sozinhos por alguns momentos. Sebastian, sentado em uma cadeira próxima, abriu um sorriso de orelha a orelha, daqueles que só aumentam a irritação de quem está sendo observado.
- O que foi agora? — JC perguntou, cruzando os braços e encarando o amigo com uma mistura de cansaço e desconfiança.
- Nada, só estou juntando as peças — respondeu Sebastian, tentando conter o riso. — Você não negou nada quando falei de Kate. Então é verdade, não é?
JC desviou o olhar, apertando a mandíbula. Era exatamente essa reação que Sebastian esperava. O silêncio foi mais revelador do que qualquer palavra.
- Ah, cara, isso é puro suco do entretenimento — provocou Sebastian, dando uma risada baixa. — Você, o Sr. Sempre No Controle, finalmente foi pego. E ainda por ela.
JC apenas balançou a cabeça, fingindo não dar atenção, mas o rubor que subiu em seu rosto entregava o que as palavras não diziam.
- Quando você me ligou de madrugada no primeiro dia que ela ficou em casa com Gwen o que você queria conversar? — continuou ele provocando.
- Nada demais! — ele resmungou.
- Você gosta dela? — Sebastian sorriu ao ver que tocará em um ponto nevrálgico.
- Se eu gostar direi a ela primeiro, não pra você!
- É assim que você trata seu melhor amigo?! Te ajudei a se livrar de uma nova pretendente, nem um agradecimento?
- Você é muito dramático, desse jeito nunca vai arrumar uma namorada!
- Então ela é a sua?
- Você daria certinho com uma intrometida que conheci esses dias!
A atendente voltou com alguns modelos nas mãos, exibindo-os com um sorriso confiante. JC analisou as opções rapidamente e acabou escolhendo um modelo rosa dobrável. Era prático, discreto, e algo nele parecia combinar com Kate, mesmo que ele nunca admitisse isso em voz alta. Após pagar pelo telefone, saiu da loja sem olhar para trás, deixando a atendente com sentimentos conflitantes: triste por não ter conseguido o número dele, mas satisfeita com a comissão da venda.
[...]
JC chegou em casa perto do horário de saída de Gwen da escola. A ansiedade em revê-la apertava no peito. Ele queria buscar sua menininha e levá-la para casa, longe de toda aquela confusão. Sentia muita falta dela, como se só sua presença pudesse aliviar o peso em sua mente.
Ao entrar na avenida a poucas quadras da escola, algo chamou sua atenção. Kate caminhava pela calçada, mas havia algo estranho em seus passos. Parecia cambaleante, como se estivesse ferida ou exausta. O coração de JC disparou, e ele rapidamente procurou um lugar para estacionar o carro. Assim que conseguiu, saiu apressado e foi até ela.
- Kate! — chamou, mas ela não respondeu.
Quando JC tocou seu ombro, ela se virou abruptamente, o instinto de defesa evidente em seu olhar. Antes que pudesse acertá-lo, ele segurou seus pulsos com firmeza.
- Sou eu! — disse, tentando acalmá-la.
Foi então que ele percebeu a gravidade da situação. As roupas dela estavam rasgadas, o rosto apresentava cortes e hematomas, e o braço exibia marcas profundas, como se tivesse levado uma surra. Kate parecia ter saído de uma briga de rua, e o estado dela fez o instinto protetor despertar dentro de JC.
- O que aconteceu com você? — ele perguntou, a voz grave com uma mistura de preocupação e raiva, já sentindo a necessidade de protegê-la custe o que custar.
- JC... — os olhos encheram de lágrimas de alívio ao vê-lo.
Kate tentou reunir suas últimas forças, lutando para se manter de pé, mas seu corpo já não obedecia. Depois de enfrentar três homens, lutando desesperadamente para escapar, tudo o que restava era exaustão. Quando JC q segurou, algo dentro dela cedeu. Pela primeira vez em horas, sentiu que não precisava mais lutar, sem dizer uma palavra, desabou nos braços dele, confiando-lhe o que restava de sua energia e segurança.
Horas depois, Kate despertou lentamente. Reconheceu o ambiente quase que de imediato: a cama de JC, o cheiro familiar da colcha que ela se lembrava da outra noite. Cada músculo doía, um lembrete cruel da violência que enfrentara. As lembranças vieram como fleshes: socos, gritos, som de passos correndo atrás dela. Eles realmente tentaram matá-la.
Fechou os olhos com força tentando afastar os pensamentos, mas o medo insistia em voltar. Não terei um minuto de paz?, perguntou para si mesma, sentindo uma mistura de desespero e raiva crescer em seu peito.
- Kathryn? — ele a chamou. — Você está sentindo dor?
Kate balançou a cabeça em um gesto sutil de afirmação. Seu corpo inteiro estava dolorido, cada movimento era um lembrete do que enfrentara. Mesmo assim, havia algo tranquilizador na presença de JC. Com ele ao lado, a sensação de segurança se sobrepunha ao desconforto. Com ele ali, ela sentiu que podia relaxar, ainda que apenas por um momento.
- Chamei um médico para te ver em casa, ele disse que não tem nada quebrado, por sorte, você vai precisar ficar uns dias descansando. — informou a ela. — Você sabe quem tem agrediu?
- Não. — ela disse. — Eu tinha deixando Gwen na escola e estava indo para o café. Três pessoas usando máscara me cercaram não lembro de ter visto mais ninguém. Eu tentei escapar, mas não fui rápida o suficiente.
- Você está a segura agora. — ele entregou para ela o remédio e um copo de agua.
Kate pegou o copo das mãos de JC, sentindo a água fresca aliviar sua garganta seca. Enquanto segurava o copo, uma ponta de gratidão a invadiu. Estava feliz por ter sido ele a encontrá-la. JC sempre parecia surgir nos momentos em que ela mais precisava, mesmo sem querer admitir.
Mas esse sentimento, por mais reconfortante que fosse, também trazia um peso. Ela sabia que não podia se permitir alimentá-lo. Em alguns dias, talvez ele decidisse cumprir o contrato e mandá-la embora de vez. Kate baixou o olhar, tentando afastar a ideia, mas era impossível ignorar. A incerteza do futuro era um lembrete constante de que não podia baixar a guarda, mesmo com alguém como JC ao seu lado.
- Eu procurei nas câmeras de segurança e está tudo apagado! — ele se sentia frustrado e alheio ao que se passava na cabeça de Kate. — Alguém está atrás de você?
- Eu não sei. — disse ela. — Acho que não.
JC observou Kate enquanto ela segurava o copo, e a frustração cresceu dentro dele. Aquele homem, o mesmo que ela insistia em proteger, estava destruindo a vida dela pouco a pouco. Era óbvio que Kate estava se afundando por causa dele, mas sua teimosia em não pedir ajuda ou contar o que realmente estava acontecendo tornava impossível antecipar os próximos ataques.
Ele cerrou os punhos, sentindo a raiva pulsar. Se ela não vai se proteger, eu vou, pensou, prometendo silenciosamente que faria o que fosse necessário para afastá-la daquele imprestável. JC não sabia exatamente como, mas estava determinado a colocá-la fora de perigo, mesmo que isso significasse enfrentar qualquer obstáculo em seu caminho.
- Por hora, não irei fazer mais perguntas, e quando se recuperar conversaremos novamente. — ele deu-se por vencido.
- Onde está Gwen, ela está bem? — Kate se preocupou
- Tim a buscou, ela está no quarto dela fazendo a lição, com a promessa de te ver quando terminar. — JC sorriu. — Ela está feliz, nunca tinha visto ela tão animada assim.
Kate sorriu. Era bom que ela estivesse feliz, Gwen só merecia felicidade. Sentindo-se desconfortável com dor, ela tentou levantar-se. JC a ajudou a levantar com cuidado, ela parecia tão frágil e desprotegida.
- Obrigado por me ajudar! — ela agradeceu.
- O médico disse que só precisa tomar os analgésicos e vai ficar bem, talvez sinta dor por alguns dias. — ele arrumou o chinelo na beirada da cama.
- Preciso ir no banheiro. — ela se apoiou nele para levantar.
Após deixar ela na porta do banheiro JC, ficou próximo caso precisasse dele. Ele pegou o celular e mandou mensagem para Sebastian fazer uma investigação detalhada sobre o atentado daquela tarde.
Sebastian acabou ligando.
- Consegui encontrar um vídeo da esquina próximo aonde encontrou Kathryn, vou mandar para o seu telefone. — Sebastian dizia. — A polícia já está investigando.
JC viu o vídeo e sentiu muita raiva, ela estava sozinha e três pessoas a cercarem e a agrediam sem parar. Ele pausou o video e voltou a ligação.
- Continue a investigação do nosso lado, pegue esses malditos, temos que previnir um segundo ataque! — JC tirou o telefone do ouvido para ver se Kate precisava de ajuda.
- A melhor coisa a se fazer é ficar uns dias fora do radar. Kate não pode ficar andando por aí. — o pensamento dele estava certo. — Faça ela ficar na sua casa, aí é seguro e você não vai achar ruim e de quebra protegemos ela.
- Isso é uma boa ideia. — JC arquitetou um plano para fazê-la ficar. — Vai me avisando qualquer novidade.
Kate abriu a porta e encontrou JC parado encostado na parede, com o telefone na orelha. Ele parecia esperar por ela, e a visão dele ali fez algo estranho acontecer dentro dela. Era um misto de conforto e inquietação. Ela queria algo que sabia não poder ter, e esse desejo apenas complicava ainda mais seus pensamentos.
Assim que JC percebeu que ela havia saído, desligou o telefone e foi em sua direção.
- Vamos, você precisa descansar — disse, com um tom mais suave do que o habitual. Ele a ajudou a voltar para a cama, acomodando-a com cuidado.
Depois, pegou o seu celular e o colocou no criado-mudo ao lado dela. Ficou um instante em silêncio, observando-a. Sua mente trabalhava rápido. Ele sabia que Kate jamais aceitaria ficar em sua casa apenas porque ele estava preocupado. Se quisesse mantê-la ali, precisava encontrar uma forma que não a fizesse sentir que estava sendo protegida contra a própria vontade.
Qual tática usar?, pensou, enquanto cruzava os braços e olhava para ela. JC precisava ser convincente, mas também respeitar sua teimosia. Afinal, quando se tratava de Kate, nada nunca era simples.
- Para te proteger, Sebastian acha melhor você fica aqui em casa. — ele começou seu discurso polido. — Gwen também estará segura se ficarmos juntos. O que acha?
- Não precisa se preocupar comigo. — ela se justificou. — Posso me recuperar em casa e volto para cá em alguns dias.
- Como você está muito próxima de Gwen para a segurança dela — e a sua, JC pensou, mas não disse nada. — Melhor ficar aqui em casa por uns dias.
Antes que ela pudesse protestar, JC usaria Gwen novamente. Sabia que não era o certo. Mas queria apenas manter a segurança das duas.
- Por favor, por Gwen? — ele percebeu que ela cederia.
- Tudo bem. Se não for problema pra você eu estar aqui.
- Melhor assim, não há problema. — ele sorriu para afirmar.
JC olhou para os hematomas nos braços dela e pensou que a última coisa que ele deixaria era ela voltar pra casa, para um lugar sem segurança e que aquele crápula fosse fazer mal a ela. Por hora, não tinha muito o que fazer, deixaria ela se recuperar e depois ela poderia escolher por si mesma. Gwen era seu ponto fraco e sempre poderia ser a desculpa para mantê-la.
Não estou sendo como aquele crápula, pensou JC, tentando afastar a culpa que começava a surgir. Ele sabia muito bem o que aquele homem fazia, manipulando Kate e usando Gwen como uma ferramenta para controlá-la. Isso era algo que JC jamais faria. Ele não queria machucá-la, muito menos manipulá-la.
Estou apenas mantendo-a segura, justificou-se em silêncio. Tudo o que fazia era para protegê-la, mesmo que ela não enxergasse isso agora. Ainda assim, a linha entre preocupação genuína e controle parecia cada vez mais tênue, e ele precisava lembrar a si mesmo de qual lado estava. Ele queria o bem dela, nada mais, nada menos.
- Apenas si preocupe em ficar saudável. — JC ia se levantando quando Mary entrou.
A senhora entrou no quarto com passos firmes, equilibrando uma bandeja com comida fresca e bebidas. Seu olhar preocupado pousou imediatamente em Kate, deitada na cama, os machucados ainda visíveis. Mary, não conseguia esconder a tristeza ao ver o estado dela.
JC havia lhe dito que Kate tinha sido vítima de uma tentativa de assalto, mas Mary achava difícil acreditar que alguém pudesse ferir uma pessoa tão bondosa. Para ela, Kate sempre emanava uma aura de força e gentileza, e vê-la tão vulnerável partia seu coração.
Atrás de Mary, Gwen apareceu, espiando com os olhos curiosos e inseguros. Ela segurava um livro apertado contra o peito, hesitando em se aproximar, mas claramente aliviada por ver Kate ali.
- Trouxe um pouco de sopa e chá para ajudar a recuperar as forças, querida — disse Mary, com uma voz suave e maternal, enquanto colocava a bandeja no criado-mudo ao lado da cama.
- Não precisa se preocupar foi só um susto, eu vou me recuperar rápido. — Kate comeu um pãozinho que estava entre as comidas.
- Coma tudo e fique boa. — Mary fitou JC com o semblante cansado. — Coma você também, tem comida para os dois. Se precisar de mais alguma coisa, é só me chamar.
Mary lançou um olhar breve a JC antes de se retirar, deixando Gwen para trás. A menina deu um passo à frente, olhando para Kate com preocupação nos olhos, mas também com uma ponta de coragem que lembrava muito a mulher à sua frente.
- E eu? — Gwen perguntou com os olhinhos arregalados.
Antes mesmo de qualquer um responder Kate se prontificou dando espaço para ela na cama escondendo os machucados com o lençol.
- Para você também, vem aqui comer um pouquinho comigo, estou com saudades. — Kate estendeu outro pãozinho para a filha pegar. — Como foi a escola?
Gwen subiu na cama com cuidado e se acomodou ao lado de Kate, buscando proximidade como só uma criança sabe fazer. A pequena pegou o pedaço de pão das mãos de Kate e começou a falar sobre seu dia na escola. Entre bocados e sorrisos, contou sobre os amigos, as atividades que tinha feito, e até sobre um pequeno desentendimento na hora do recreio.
Kate, mesmo com o corpo dolorido, ouvia cada palavra com atenção. Sua mão tocava Gwen de tempos em tempos, um gesto sutil, mas cheio de carinho. A presença da menina parecia aliviar parte do peso que carregava.
Enquanto isso, JC sentou em uma poltrona próxima e comeu um pouco da comida que Mary havia trazido, observando as duas interagirem. Ele não conseguia evitar sorrir ao ver a empolgação de Gwen e a paciência de Kate, que, apesar de sua dor, fazia questão de responder e interagir.
Quando JC achou que era hora de Kate descansar, tentou afastar Gwen da cama com cuidado. Mas antes que ele pudesse insistir, Kate fez um gesto suave com a mão, indicando que estava tudo bem. Gwen, então, se aninhou ao lado dela, deitando a cabeça perto de seu ombro. Enquanto fazia carinho nos cabelos de Gwen, ela acabou adormecendo, e, em seguida, Kate também caiu no sono.
JC se levantou, pegou uma manta e cobriu as duas. Ficou parado por alguns segundos, observando-as. Havia algo inexplicavelmente reconfortante naquela cena. Pela primeira vez em dias, sentiu uma calma profunda ao vê-las ali, juntas, seguras, e sob seu olhar atento. Apagou a luz do quarto, fechou a porta silenciosamente e saiu.
Na cozinha, Mary estava entretida com sua novela favorita enquanto picava alguns legumes. A faca deslizava com precisão pelo corte, mas os olhos dela estavam grudados na televisão. Quando JC entrou, ela levantou o olhar e deu um sorriso tranquilo, mas curioso.
- Elas estão bem? — perguntou, com sua voz suave e cheia de preocupação.
JC assentiu, enquanto colocava a bandeja em cima da pia.
- Estão. Pelo menos agora, tudo parece em paz. — disse pegando um copo de água.
- É ela, não é? — Mary perguntou, parando de cortar os legumes e fixando os olhos em JC.
JC franziu a testa, tentando ganhar tempo, mas sabia que Mary era perspicaz demais para ser enganada.
- Do que você está falando? — devolveu, tentando evitar a conversa.
Mary estreitou os olhos, cruzando os braços.
- Eu não sou a Gwen para você me enrolar. Ela é a mãe da menina, não é?
JC soltou um suspiro pesado, sabendo que não adiantava negar. Ele balançou a cabeça afirmativamente, sem dizer nada. A verdade era inevitável. Ele podia desejar que as coisas fossem diferentes, mas o passado era imutável. Kathryn havia cometido um erro, e ele, em sua rigidez, tinha feito o que achava certo na época: entregá-la à justiça. Isso havia separado mãe e filha, criando uma barreira que nunca deveria ter existido.
Agora, com Kathryn de volta, a situação parecia ainda mais problemática. Não podiam falar abertamente sobre o passado, nem sobre os laços que uniam os três. O contrato que ele havia feito era uma corda apertada em torno do pescoço de todos, e JC começava a sentir o peso de cada decisão que havia tomado.
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado. Por que tudo tinha que ser tão complicado quando se tratava dela? A história dos dois era um emaranhado de mágoas e erros, mas, no fundo, JC sabia o que queria. Ele queria Kathryn.
Mas isso era impossível, certo? Depois de tudo o que ela havia passado por sua causa, como poderia sequer imaginar que ela estaria disposta a lhe dar outra chance? Pensando em tudo isso, JC se encostou na pia, silencioso, enquanto Mary continuava a observá-lo com um olhar crítico, esperando por uma explicação.
- Quando vão se casar? — Mary disparou a pergunta sem rodeios, olhando diretamente para JC.
JC quase engasgou com o ar.
- Casar? — repetiu, incrédulo. — Nós nem gostamos um do outro... Estamos apenas contribuindo para o bem da Gwen. — Ele deu de ombros, tentando parecer indiferente.
Mary ergueu uma sobrancelha, claramente insatisfeita com a resposta.
- Sempre pensei que você tivesse aprendido com os erros do seu irmão. Mas, pelo visto, você é só mais um Carter.
As palavras dela o atingiram como um soco. JC sabia o peso de carregar o sobrenome Carter, um legado repleto de expectativas e armadilhas. Ele havia passado boa parte da vida tentando se desvencilhar disso, de ser definido pelos erros da sua família. Ser comparado a Justin, o irmão que perdera tudo ao priorizar a carreira em detrimento da esposa, era um golpe baixo.
- Eu não sou o Justin! — JC se exaltou, sua voz ecoando pela cozinha. — Eu escolho por mim mesmo.
Mary não recuou. Seu tom era mais calmo, mas a firmeza em suas palavras permanecia.
- Desculpe, não quis te deixar irritado. — Mas o brilho em seus olhos indicava que ela sabia exatamente o que estava fazendo. — Aliás, você falou com ele recentemente?
JC respirou fundo, tentando recuperar a compostura.
- Não. — sua voz saiu seca. Ele evitava qualquer contato que pudesse puxá-lo de volta para o ciclo tóxico da família Carter. Mas agora, com a menção de Justin, seus pensamentos estavam embaralhados.
Mary voltou a cortar os legumes, como se nada tivesse acontecido.
- Talvez seja hora de uma conversa. — Ela não olhou para ele, mas suas palavras estavam carregadas. — Às vezes, entender os erros de alguém pode ajudar a não repetir os mesmos.
JC não respondeu. Em vez disso, deixou o silêncio preencher o espaço, tentando ignorar o nó que se formava em seu peito.
- Justin está focado em assumir os negócios do grupo — disse JC, soltando um suspiro e relaxando o corpo contra a bancada. — Duvido que queira falar comigo depois que frustrei a aquisição dele. Não acredito que ele estava tão alheio assim.
Mary parou por um instante, como se ponderasse algo antes de dizer algo.
- Acha que ele te usou para parar a aquisição?
JC colocou a mão no queixo, o olhar perdido em pensamentos.
- Talvez — respondeu, com um tom mais baixo. A ideia parecia ganhar forma à medida que refletia. Justin nunca fazia nada sem uma razão.
Ele conhecia o irmão o suficiente para saber disso. Justin não era apenas esperto, era estrategista. Se havia alguém que sabia manobrar as peças no tabuleiro da família Carter, esse alguém era ele. E agora, ao pensar em toda a situação, JC percebeu o padrão. Justin não queria ir contra a decisão da família diretamente, mas também não concordava com ela. Então, fez o que sabia que funcionaria: deixou JC ser JC, o rebelde, o que nunca hesitava em confrontar o sobrenome Carter.
JC balançou a cabeça, um misto de irritação e admiração. Claro que ele fez isso. Justin sempre teve o talento de manipular situações a seu favor, mantendo as mãos limpas.
- Ele sabia exatamente o que estava fazendo — murmurou, quase para si mesmo.
Mary retomou seu trabalho, cortando os legumes com a mesma calma de antes, mas havia um brilho de interesse em seus olhos.
- Talvez ele não seja tão diferente de você, afinal — comentou, sem olhar para JC.
JC riu, sem humor.
- Ele é diferente o suficiente para jogar pelas regras da família. Eu que nunca aprendi a fazer isso.
- Ou talvez só tenha escolhido um jogo diferente — disse Mary, com um leve sorriso enigmático, antes de mudar de assunto, deixando JC perdido em seus pensamentos.
[...]
Na manhã seguinte, Kate acordou com o corpo pesado e dolorido. Cada músculo parecia reclamar de qualquer tentativa de movimento, e até respirar parecia uma tarefa árdua. Ela tentou se levantar, mas desistiu rapidamente ao perceber que, quanto menos se mexesse, melhor seria para suportar a dor.
Deitada ali, sua mente começou a vagar, revivendo o momento em que avistou JC na rua no dia anterior. Naquele instante de desespero, cercada por ameaças e exausta de lutar, vê-lo foi como encontrar um bote salva vidas em meio à tempestade. Sentiu um alívio tão grande que quase chorou. Ele era alguém que ela conhecia, alguém em quem, mesmo com todas as mágoas, podia confiar.
Pensou em Gwen e se deu conta de como a menina tinha sorte por ter JC em sua vida. Ele era um porto seguro, uma presença estável e confiável, mesmo quando estava ocupado travando suas próprias batalhas contra ela. Kate não sabia se poderia se dar ao luxo de se sentir assim em relação a ele, mas sabia que, inevitavelmente, acabaria se apegando a essa sensação de segurança.
Ainda assim, a sombra do contrato pairava sobre ela, lembrando-a de que, no final, JC poderia simplesmente usá-lo para mandá-la embora. Esse pensamento a fazia sentir-se inquieta, uma inquietação que logo se transformou em um movimento involuntário.
A dor a atingiu como uma lâmina, arrancando-lhe um suspiro entrecortado. Kate fechou os olhos com força, tentando se acalmar. Não havia muito o que fazer, além de esperar que o dia passasse e que, de alguma forma, ela encontrasse forças para lidar com o que quer que viesse a seguir.
- Você acordou — a voz de JC quebrou os pensamentos de Kate, puxando-a de volta para o presente. — Está sentindo dor em algum lugar?
Ela respirou fundo e forçou um sorriso, tentando minimizar a preocupação dele.
- Só um incômodo.
JC a observou por um momento antes de se aproximar e ajudá-la a se ajustar na cama para que pudesse se sentar. Ele pegou um copo de água e alguns comprimidos da mesinha de cabeceira.
- Aqui — disse, estendendo os remédios. — Beba, vai se sentir melhor.
Kate pegou o copo e os comprimidos, engolindo tudo de uma vez. Seu rosto imediatamente se contraiu em uma careta, as sobrancelhas franzidas enquanto ela lutava contra o gosto amargo. JC observou a cena e não conseguiu evitar um sorriso.
- Você faz a mesma careta que a Gwen quando toma remédio.
Sem pensar, ele estendeu a mão e tocou o meio das sobrancelhas dela, alisando as linhas formadas pela expressão. Kate relaxou o rosto instintivamente, mas o toque provocou uma onda de formigamento que percorreu sua pele. Sua respiração ficou mais lenta e pesada, e por um momento, os olhos dos dois se encontraram. O ar entre eles parecia denso, carregado de algo não dito.
JC foi o primeiro a desviar o olhar, recuando a mão como se o contato tivesse demorado tempo demais.
- São mais parecidas do que você pode imaginar — comentou com um sorriso, tentando aliviar a tensão no ambiente.
Kate abaixou o olhar, um sorriso tímido surgindo em seus lábios. Mesmo com tudo o que havia entre eles, aquelas pequenas conexões pareciam derrubar as barreiras que tinham construído. Mas, ao mesmo tempo, só tornavam tudo mais complicado.
- Falando em Gwen, onde ela está? — Kate fingiu não ouvir sobre a semelhança das duas.
- Hmmm... — ele consultou o relógio de pulso. — Daqui a pouco vou buscá-la.
Mais tarde, quando Gwen e JC já estavam de volta em casa, Kate despertou ao som das vozes e risadas deles vindo da sala. A princípio, o som a envolveu como um abraço caloroso, mas logo despertou algo inesperado e inquietante em seu peito. Virando o rosto, seus olhos se prenderam ao quadro na parede, a sua pintura, vibrante, mas solitária.
Um sentimento não familiar tomou conta dela, tão forte que a fez engolir em seco. As dores no corpo ainda eram um incômodo, mas agora pareciam distantes, quase irrelevantes, comparadas ao que sentia em sua mente e coração.
Deitada de lado, Kate ficou olhando para a porta entreaberta, imaginando algo que sabia ser impossível. Ela podia quase visualizar os três juntos no jardim, sorrindo e brincando no lugar favorito de Gwen. Os sons de felicidade que vinham da sala pareciam completar essa imagem idealizada, tornando-a ainda mais dolorosa.
A realidade, porém, era muito diferente. Seus erros do passado, o contrato que a prendia e a constante sombra de separação a lembravam de que esse sonho nunca poderia ser real. Uma família unida, risos despreocupados... Tudo isso estava tão distante quanto as estrelas no céu.
Kate fechou os olhos, tentando afastar a imagem, mas ela continuava ali, pulsando em sua mente. E pela primeira vez em muito tempo, deixou-se levar pelo pensamento: E se...?
[...]
Os dias se passaram e a rotina simples de Kate voltou ao normal conforme seu corpo se recuperava. De manhã, trabalhava na cozinha do café, à tarde, passava com Gwen na casa de JC e à noite, retornava ao seu apartamento, embora frequentemente dormisse com a menina. Gwen estava se tornando uma parte essencial de seus dias, algo que Kate não tinha planejado, mas que agora parecia inevitável.
As manhãs eram sempre movimentadas, com Jenny passando pelo café com Duda, sempre em clima de pressa, como se estivessem trabalhando em algo muito importante. O inverno começava a se anunciar, com o frio deixando os dias mais curtos e as noites mais longas.
Naquela tarde, Kate já tinha terminado de preparar tudo na cozinha para encerrar o expediente. Era quase uma da tarde, e ela se apressava para tirar o avental quando Robert entrou.
- Kate?
Ela se virou, notando o sorriso amigável do chefe.
- Oi, chefe!
- Amanhã não vamos abrir — informou ele. — Pode aproveitar o dia de folga.
Kate sorriu, aliviada por ter um tempo extra para descansar ou, quem sabe, passar mais tempo com Gwen.
- Obrigada, Robert.
Ele acenou com a cabeça, ainda sorrindo.
- Eles já estão aí.
Ela soube imediatamente a quem ele se referia. Tim, o motorista de Gwen, era sempre pontual e zeloso. Não apenas a levava e trazia da escola, mas também se certificava de que Kate chegasse em segurança ao seu apartamento à noite, trancando portas e janelas. Apesar disso, Kate ainda se sentia desconfortável com a presença dele, mesmo reconhecendo a boa intenção.
- Até segunda-feira, então. — ela tirou o avental e o guardou rapidamente, despedindo-se de Robert antes de sair apressada para encontrar Gwen.
Elas tinham planejado um piquenique no jardim da casa de JC, um último antes que o frio do inverno tornasse impossível desfrutar do lugar favorito de Gwen.
Era como um déjà vu. JC e Gwen rindo e brincando juntos na mesa do lado de fora, como se nada pudesse abalar aquele pequeno mundo que haviam criado. Kate observava à distância, a cena lhe trazendo uma estranha sensação de familiaridade. Seu coração se apertou ao se lembrar do dia em que os dois haviam entrado juntos no café. Naquele momento, ao invés do pânico e medo que costumava sentir, algo diferente surgiu: felicidade. Ela quase não reconheceu o sentimento.
Sem pensar muito, Kate caminhou até eles. Logo Gwen a percebeu e sua atenção voltou-se para ela.
- Kate! — Gwen desceu de uma pequena cadeira e correu para abraçar as pernas dela com entusiasmo.
Kate acariciou os cabelos da menina, um sorriso sincero iluminando seu rosto. JC, observando a interação, deu um pequeno gole no café que segurava e começou a recolher as coisas de Gwen.
- Vamos? — ele perguntou casualmente, enquanto Kate e Gwen concordavam com um aceno.
Gwen estendeu os braços para Kate, pedindo para ser carregada. JC imediatamente fez um movimento para pegá-la no colo, mas a menina desviou, indo direto para Kate. Com um olhar de triunfo, Gwen se aninhou no colo dela, deixando JC para trás com um sorriso resignado.
- Você venceu essa, hein? — ele brincou, enquanto segurava a porta para as duas saírem.
Kate riu baixinho, ajustando Gwen nos braços. JC a seguiu, carregando a bolsa da menina, e juntos, os três entraram no carro.
Dentro do café, Jenny parou ao lado de Robert, observando-os com atenção enquanto o carro desaparecia na avenida principal.
- Eles ainda têm sentimentos um pelo outro! — comentou, cruzando os braços e balançando a cabeça com um sorriso astuto.
Robert, sem dar muita importância, bagunçou o cabelo dela antes de voltar ao trabalho.
- Não se meta no relacionamento deles! — advertiu, meio brincando, antes de sair para atender outros clientes. Jenny, no entanto, ficou olhando para a porta, certa de que aquela história ainda estava longe de acabar.
[...]
No jardim da casa de JC, o piquenique já estava quase pronto. Kate ajeitava a manta que Mary havia trazido, enquanto JC carregava a estrutura para armar sombra. Gwen, como sempre cheia de energia, carregava suas bonecas e andava em círculos ao redor deles, ansiosa para começar a diversão.
Kate terminou de organizar os lanches que havia preparado com cuidado: pães, sanduíches e um bolo simples, mas delicioso. Mary havia cuidado das bebidas, deixando tudo pronto para um dia tranquilo no jardim. Quando a manta foi finalmente esticada, Gwen e JC se sentaram, brincando e rindo, enquanto Kate fazia os últimos ajustes com as comidas.
Depois de servir os dois, Kate se acomodou um pouco mais afastada, observando-os. Gwen, com um sorriso radiante, decidiu buscar um dos brinquedos que havia deixado perto da casa. Foi nesse momento que JC se levantou e se sentou ao lado de Kate.
- Você leva jeito com meninas — comentou Kate, com um pequeno sorriso.
- Aprendi na prática — respondeu JC, lançando um olhar rápido na direção de Gwen.
- Obrigada — disse ela de repente, a voz baixa, quase hesitante.
JC franziu o cenho.
- Pelo o quê?
- Por ter cuidado dela todo esse tempo — explicou Kate, pegando uma fatia de bolo, mais como uma desculpa para segurar o choro do que por fome.
JC ficou em silêncio por um momento, escolhendo as palavras com cuidado antes de falar:
- Eu nunca fui muito de repensar as decisões que tomo. Uma vez tomadas, estão lide com as consequências. Mas... não se prenda ao passado, Kate. Ele não pode ser mudado, mas o presente e o futuro, sim. — Ele fez uma pausa, como se o peso daquelas palavras estivesse tão direcionado a si mesmo quanto a ela. — Você já cumpriu sua pena. Não é mais uma criminosa.
Kate mordeu o lábio, absorvendo aquelas palavras, enquanto uma brisa fria do fim de tarde passava pelo jardim. Mas antes que pudesse responder, uma pequena figura se enfiou no meio deles.
- Papai, você está muito perto aí! — Gwen exclamou, empurrando JC, para abrir espaço para si mesma.
Kate riu enquanto Gwen se ajeitava entre os dois, trazendo um novo brinquedo e monopolizando a atenção de Kate com histórias e brincadeiras. JC apenas suspirou, sacudindo a cabeça com um sorriso, observando as duas se divertirem.
Enquanto assistiam ao pôr do sol juntos, a tranquilidade do momento foi quebrada quando chegou a hora de arrumar o que haviam usado no piquenique. Gwen, com o rosto manhoso e braços cruzados, se recusava a guardar seus brinquedos, enquanto Kate tentava convencê-la.
- Gwen, você fez a bagunça, agora precisa arrumar — Kate disse, mantendo a calma pela última vez.
- Mas eu não quero! — Gwen reclamou, olhando para JC como se pedisse socorro.
JC, sempre indulgente com a menina, interveio
- Ela está cansada, Kate.
Kate virou-se abruptamente, cruzando os braços com firmeza.
- Se ela fez a bagunça, ela vai arrumar, JC! — Sua voz ficou um pouco mais firme, revelando a paciência no limite. — E se você acha que ela não precisa fazer isso, então vá ajudar!
JC tentou argumentar, mas o olhar fulminante que Kate lançou o fez repensar suas palavras. Pela primeira vez, ele a viu verdadeiramente irritada, e a surpresa o deixou sem reação.
- Certo, certo... — ele levantou as mãos em rendição, abaixando-se para ajudar Gwen a recolher os brinquedos. Gwen, percebendo que não escaparia, começou a pegar suas coisas, embora resmungando baixinho.
Enquanto isso, Kate organizava as comidas, guardando tudo na cesta. Quando olhou de relance para JC dobrando a manta e ajudando Gwen, ela suspirou, sua raiva já se dissipando.
Ao terminar, todos voltaram para dentro da casa. JC, ainda pensando no pequeno confronto, se pegou observando Kate. Havia algo irresistível na forma como ela lidava com as coisas, uma mistura de força e determinação que o cativava cada vez mais.
Se as coisas entre eles fossem diferentes, se não houvesse o peso do passado, o contrato, ou os muros que ela mesma erguia, ele teria cruzado a distância entre os dois ali mesmo, roubando-lhe um beijo para apaziguar aquela chama de raiva que ainda brilhava em seus olhos. Mas, ao invés disso, apenas a seguiu silenciosamente, guardando o desejo para si.
Mais tarde, com Gwen já profundamente adormecida após o banho, Kate, exausta, deitou-se ao lado dela e também caiu no sono. JC, ao perceber o silêncio vindo do quarto, soube que ambas estavam esgotadas. Ele hesitou em entrar, preferindo apagar a luz e fechar a porta suavemente. Decidiu deixá-las descansar ali, juntas.
Sem ter o que fazer foi para o escritório, JC encarou a pilha de papéis sobre sua mesa, um lembrete constante do quanto havia negligenciado o trabalho nos últimos dias. Sebastian, sempre meticuloso, havia enviado boa parte do serviço diretamente para sua casa, deixando JC sem desculpas para adiar as tarefas.
Ele se acomodou na cadeira e começou a revisar contratos, relatórios e decisões pendentes. O som do relógio preenchia o silêncio da noite enquanto ele trabalhava. O peso das responsabilidades o levou a se lembrar de um período mais simples, os primeiros meses com Gwen.
Naquela época, ele costumava trabalhar de casa enquanto cuidava de uma bebê que demandava atenção constante. As noites eram longas, divididas entre relatórios financeiros e mamadeiras. Ele suspirou ao perceber como aquele momento, por mais caótico que fosse, ainda guardava uma doçura que agora parecia tão distante.
Quando o relógio passou das 21h, JC finalmente decidiu parar. A fome o lembrou de que havia passado horas sem comer. Ele desceu para a cozinha, o som de seus passos ecoando na casa silenciosa. Enquanto procurava algo rápido na geladeira, não pôde deixar de pensar em Kate e Gwen.
Mesmo sem querer admitir, a presença das duas estava mudando algo dentro dele, uma mistura de nostalgia e esperança que o assustava e, ao mesmo tempo, o atraía.
[...]
Na manhã seguinte, ele levantou da cama por volta das oito horas, ainda meio dormindo meio acordado e com fome. Ele foi até a cozinha ao ouvir vozes vindo de lá.
JC respirou fundo antes de entrar na cozinha, ajustando o humor para enfrentar a visita inesperada. Alice Carter era uma mulher imponente, com uma presença que parecia preencher qualquer ambiente. Vestida impecavelmente em um conjunto de alfaiataria que exalava luxo, com sua bolsa Chanel estrategicamente colocada sobre a mesa, ela sorriu levemente ao vê-lo.
- Mamãe — JC cumprimentou com um aceno contido, caminhando até a cafeteira para preparar uma xícara. — O que a traz aqui a essa hora?
Alice cruzou as pernas com elegância, observando-o como se estivesse estudando cada movimento.
— Não posso visitar meu filho sem um motivo?
JC arqueou uma sobrancelha, não acreditando por um segundo naquela desculpa.
- Você nunca faz visitas casuais, Alice. Então, vamos pular a parte diplomática.
Ela inclinou a cabeça, o sorriso se ampliando ligeiramente.
- Justin me disse que você tem estado... ausente.
- Justin parece muito preocupado ultimamente. Talvez devesse se concentrar nos negócios dele ao invés dos meus — JC respondeu, levando a xícara de café aos lábios.
- Ele só está preocupado com a família, assim como eu — ela rebateu suavemente, mas o tom carregava um leve aviso. — E eu também fiquei curiosa sobre... quem é essa mulher que está dormindo na sua casa com sua filha?
JC sentiu o estômago revirar. Claro que Alice saberia. Ela sempre sabia de tudo. Tentou manter o rosto impassível.
- Kathryn é uma velha conhecida. Ela está aqui porque Gwen gosta dela, só isso.
Alice sorriu, mas seus olhos brilhavam com ceticismo.
- Uma "velha conhecida" que de repente aparece e se instala na sua vida e na da sua filha? Isso parece um pouco mais que coincidência, não acha?
- Você está lendo muito nas entrelinhas, como sempre — JC retrucou, tentando manter o tom casual. — Kathryn não tem segundas intenções.
- Oh, querido, eu não estou preocupada com as intenções dela. Estou preocupada com as suas.
JC colocou a xícara na pia com mais força do que pretendia, mas não respondeu. Alice sempre um passo a frente, e dessa vez ela não estava errada.
- Bem, se isso é verdade, espero que saiba o que está fazendo. — continuou ela.
O clima na cozinha ficou pesado, como sempre acontecia quando Alice e JC estavam no mesmo ambiente e discordavam. Alice cruzou os braços, assumindo a postura autoritária que usava para controlar qualquer situação. Mary saiu sem ser notada.
- Quando vai parar de brincar de casinha com Kathryn? foi você quem a colocou atrás das grades! — JC se sentiu envergonhado, Alice sabia como atingir o ponto fraco de uma pessoa. — Se estão pensando em ficar juntos pode esquecer! Porque a última coisa que o nome Carter precisa agora é de um escândalo.
- O que te faz pensar que pode decidir com quem me relaciono? — ele fechou a cara. — Não sou Justin. Se quer brigar vamos brigar!
Sentia-se com os nervos a flor da pele. Desde sua saída do grupo Carter a relação com sua família tinha ficado conturbada, e após a vinda de Gwen tudo piorou.
Sua mãe tentava a todo custo separar Gwen dele. Isso ele não permitiria.
- Não preciso decidir com quem você se relaciona, Jamie. Mas sei onde essas escolhas levam. Não quero que você cometa os mesmos erros que já vimos em outros membros dessa família. — A voz dela era firme, mas não gritava, suas palavras carregavam uma fria determinação que era ainda mais impactante.
JC soltou uma risada seca, balançando a cabeça. Isso nunca funcionou com ele, então não era hoje que ela iria conseguir.
- Erros? Acha que eu não sei o que é errar? Eu vivi errando, mãe, e talvez esse seja mais um erro. Mas é meu. Você não pode passar a vida controlando tudo ao redor.
Alice o observou por um momento, como se estivesse pesando suas próximas palavras. Então, com um suspiro que quase parecia de exasperação.
- Você sempre foi impulsivo, Jamie. Sempre agiu como se estivesse tentando provar algo para mim, para o mundo. Kathryn? Gwen? — ela fez um gesto com as mãos, como se apontasse para a casa inteira. — Isso não é diferente. É só mais uma tentativa de desafiar tudo o que foi ensinado a você.
JC deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela.
- Não tem nada a ver com você. Nada disso é sobre a família Carter, ou sobre desafiar regras, ou sobre heranças. Gwen é minha filha. E Kate... — ele hesitou, como se as palavras pesassem na língua. — Kate é a mãe dela. Querendo ou não, ela faz parte da minha vida agora.
Alice estreitou os olhos, notando a hesitação no tom dele.
- Você sente algo por ela, não sente? — Foi mais uma constatação do que uma pergunta.
JC respirou fundo, cruzando os braços.
- Isso não é da sua conta.
Alice soltou uma risada breve, mas cheia de entendimento. Então era isso. Jamie o Sr. Sempre estou certo, estava hesitando, essa ela queria pagar pra ver.
- Tudo bem. Continue fingindo que está no controle, Jamie. Mas um dia, vai perceber que esse mundo que você está tentando construir com Kathryn é tão frágil quanto o passado que vocês dois compartilham. E quando ele desabar, você vai lembrar dessa conversa.
JC ficou em silêncio por um momento, sentindo o peso das palavras de sua mãe. Ela sempre soubera como usar as palavras para mudar o jogo, era como se tivesse uma habilidade sobrenatural de manipular situações. JC era imune a ela, apenas a ignorou completamente.
- Kathryn ameaçou a família da professora que estava fazendo bullying com Gwen! — Alice disse e se levantou preparando-se para ir. — Embora eu ache que as ameaças são todas mentiras. Gwen não vai mais ter problemas com isso.
O fato de saber sobre o bullying envolvendo Gwen, e ainda assim usava isso a seu próprio favor, o fez questionar até onde sua mãe estava disposta a ir para manter o controle sobre todos ao seu redor. Ele nunca fora um filho fácil, e ela sabia disso. Eles estavam, mais uma vez, em um impasse, onde ambos tentavam se provar.
- Você não sabe de tudo, Alice. — JC finalmente respondeu, a voz mais baixa, mas firme. — Gwen não é uma simples peça no seu jogo. Já disse que se você que brigar, vamos brigar!
- Na verdade esqueça, vim aqui perguntar porque parou a aquisição da galeria. — ela o questionou.
- Entreguei os documentos relacionados as irregularidades ao grupo, e Justin não parecia supreso. — JC jogou o irmão na fogueira de propósito.
Sabendo que ela iria investigar essa informação, JC se sentiu aliviado por estar fora do foco de Alice Carter.
Ela pegou sua bolsa e se levantou, preparando-se para sair. Antes de ir, fez uma última observação:
- Só espero que Gwen não pague o preço pelos seus erros. Eu posso ser presidente Alice Carter e você me renegar. — ela parou e virou-se para ele. Ela não queira brigar com seu filho, mas Jamie era igualzinho a ela. O conflito era inevitável. — Mas no fim, eu sou sua mãe e você meu filho.
Sem mais palavras, Alice saiu pela porta, deixando JC em um turbilhão de pensamentos. Ele se perguntava até onde ela iria para mantê-lo na sua órbita, mas, mais do que isso, ele estava começando a questionar se ele próprio conseguiria manter o controle sobre sua própria vida sem que as sombras do passado e a pressão da família o sufocassem.
Quando finalmente ouviu o barulho do carro da mãe se afastando, ele passou as mãos pelo rosto, sentindo o peso da conversa.
- Maldita mania de sempre precisar ter a última palavra... — murmurou para si mesmo antes de se sentar à mesa novamente, o café na xícara já frio e amargo, combinando com o gosto que a visita da mãe havia deixado.
Ele olhou na direção do quarto onde Gwen e Kate dormiam, se perguntando se a presença delas realmente era tão simples quanto tentava convencer a si mesmo.
Uma coisa que o intrigou foi a revelação de sua mãe sobre a ameaça de Kate. Com uma ligação JC descobriu que no mesmo dia que Kate se revelou na escola ela sofreu o atentando. Será que uma coisa tinha relação com a outra. Ele estava mantendo elas fora do radar desse dia em diante.
JC se recostou na cadeira, perdido em seus pensamentos. A revelação de sua mãe sobre Kate ter ameaçado a professora de Gwen mexeu com ele de uma forma estranha. Ele sabia que Kate não era alguém agressiva, mas a ideia de que ela pudesse ter se envolvido em algo tão impulsivo, até violento, o fazia questionar sua compreensão sobre ela.
Decidido a entender melhor a situação, fez uma ligação rápida para um de seus contatos na escola. Queria saber mais sobre o que realmente aconteceu naquele dia. Assim que a ligação foi atendida, ele não perdeu tempo.
- Oi, é o JC. Preciso de informações sobre a professora de Gwen, o que aconteceu exatamente no dia em que ela foi ameaçada.
Do outro lado da linha, uma voz hesitou por um momento, antes de fornecer a resposta que JC buscava.
- Bem, JC... Naquele dia, tudo aconteceu muito rápido. A professora, recebeu uma visita inesperada de Kate logo após deixar Gwen na sala e Kate ouviu a professora fazendo uns comentários. Não tivemos muitos detalhes, mas sabemos que foi algo sério.
JC franziu a testa, sua mente já ligando as pontas. Então Kate se tornava uma pessoa diferente quando Gwen precisava dela.
- Obrigada! — ele desligou a ligação e suspirou. Kate resolvera um problema que ele ainda não tinha solução.
Com essa decisão em mente, JC levantou-se e pegou seu celular. Precisava se certificar de que não havia mais surpresas esperando por ele. Finalmente usou seus contatos para silenciar as ameaças de Kathryn.
Kate acordou com Gwen em cima dela. Ela estava ficando cada vez mais apegada, por um momento Kate tinha se esquecido que estar ali tinha um prazo de validade. Tentou evitar pensar nisso, quando JC a mandasse embora aí sim lidaria com isso. Sofrer por antecipação no mínimo sofreria duas vezes.
Ela deu um beijo na testa de Gwen e deu duas batidinhas nas costas para acordá-la, quase todos os dias estava dormindo ali com ela. Isso poderia ser um problema. Já que ela já estava na escola e o contrato acabaria em poucos dias, teria que achar uma maneira de começar a se afastar, mas pensaria nisso outro dia.
- Gwen, querida! — ela deu duas novas batidinhas — Vamos levantar?!
- Não quero! — ela murmurou.
- Então eu vou levantar sozinha. — Kate fez menção para levar-se.
- Não! — Gwen disse ainda com os olhos fechados se agarrando mais a ela.
- Vamos levantar, se não o mostro das cosquinhas vai atacar. — Kate fez cosquinhas no pescoço dela.
Ela riu alto, e abriu os olhos. Kate fingiu dormir e ela tocou o rosto dela.
- Você é tão bonita! — Gwen a elogiou. — Mas o mostro das cosquinhas vai te atacar...
Gwen fez cosquinhas no pescoço dela e ambas começaram a ser atacar os risos eram ouvidos lá da cozinha onde Mary preparava um novo café da manhã quando JC entrou novamente com um meio sorriso só rosto.
- Elas estão se divertindo!
- É, estão sim. — ele disse com uma pontinha de ciúmes.
- Vocês vão ter mais filhos? — Mary foi direta.
JC olhou para Mary, tentando entender se aquilo era uma provocação ou um comentário inocente. Ele não sabia como responder, estava perdido entre a ideia de Kate se afastar e o fato de que, nos últimos dias, ela parecia cada vez mais ligada à vida dele e de Gwen. Era algo que não tinha planejado, mas que, de certa forma, parecia natural.
- Estou apenas perguntando. Vocês dois têm que se resolver. — Mary comentou casualmente, mexendo na panela com o café da manhã. — E Gwen adora a Kate, isso é óbvio. Eu também gosto muito dela.
- Não sei que resposta você quer de mim. — ele disse, passando a mão pelos cabelos, tentando disfarçar o desconforto.
- Talvez respondendo com sinceridade? — ela sugeriu, com um tom de quem sabia mais do que dizia.
JC soltou um suspiro e pegou uma xícara de café. Observava pela janela as árvores balançando ao vento, enquanto ouvia as risadas de Kate e Gwen vindas do andar de cima. Ele queria negar qualquer ideia de "mais filhos" ou "família", mas parte dele sabia que estava gostando daquela rotina, mesmo que não tivesse coragem de admitir.
- Vamos por partes, Mary — ele finalmente disse. — Primeiro, preciso resolver a situação de Kate. O nosso trato está quase acabando, e não sei como isso vai impactar Gwen... ou a mim.
Mary apenas sorriu, entregando-lhe um prato com ovos mexidos.
- Acho que você sabe exatamente o que fazer, JC. Só precisa admitir isso pra si mesmo.
- O... O que? — JC que estava bebendo o café quase engasgou. Não tinha pensado tão longe assim..
- Formar uma família, JC! Casamento e filhos! — ela disse impaciente. — Vai esperar alguém vir e roubá-la debaixo do teu nariz?
- Não queime a largada! — ele largou o café na mesa e preferiu esperar elas descerem. Hoje o dia estava sendo desafiador, só queria tomar um café em paz.
Ele balançou a cabeça, mas não conseguiu evitar um sorriso tímido. Mary sempre fora perspicaz demais. Enquanto comia, ouvia os passos de Kate e Gwen descendo a escada, ainda rindo juntas. Quando elas entraram na cozinha, ele olhou para Kate e percebeu algo: a ideia de uma vida sem ela parecia mais complicada do que ele imaginava. O cheiro doce do shampoo de Gwen invadiu o ambiente, misturando-se com o aroma do café fresco. Gwen parecia radiante, os cabelos úmidos cuidadosamente penteados. Era evidente o cuidado que Kate tinha com ela, um cuidado que, ele tinha que admitir, era muito melhor do que ele conseguia oferecer sozinho.
Ao chegarem à mesa, JC esperava, como de costume, que Gwen corresse para se sentar ao seu lado. Mas, para sua surpresa, ela ignorou completamente a cadeira ao lado dele e foi direto para Kate, puxando o prato e o copo para mais perto dela. Kate, sem pensar duas vezes, começou a colocar comida no prato da menina, cortando tudo em pequenos pedaços para facilitar. Enquanto comia, Gwen gargalhava com os formatos engraçados das frutas que Kate preparava, como corações e estrelas.
JC observava tudo em silêncio, um leve incômodo crescendo dentro dele. A harmonia entre Kate e Gwen parecia perfeita, quase como se ele fosse o estranho naquela dinâmica. O mundinho das duas parecia tão natural, tão tranquilo. Ele não sabia se era ciúmes, orgulho ferido ou medo de perder aquele vínculo que tinha com Gwen, mas se sentia à margem.
Kate ergueu os olhos e percebeu o olhar de JC, mas decidiu ignorar, mantendo-se focada em Gwen, que contava algo sobre a aula de artes.
- JC, hoje estou de folga. Posso levar Gwen para a escola? — ela pediu, com um tom casual, enquanto terminava de cortar outra fatia de fruta para a menina.
A pergunta o pegou de surpresa. Ele hesitou, sentindo uma mistura de alívio e desconforto.
- Eu levo vocês! — ele se prontificou para não ficar de fora.
O telefone dele vibrou em cima da mesa, chamando sua atenção. Ele suspirou, pediu licença e saiu da sala de jantar para atender a ligação no corredor.
- Sebastian? — atendeu com um tom sério.
- JC, tenho uma má notícia — a voz do outro lado estava séria e direta. — Algo está acontecendo com a empresa. As ações estão flutuando de forma anormal. Preciso que você venha para cá urgente. Chega de brincar de casinha.
As palavras atingiram JC como um golpe. Ele sentiu o peso de cada sílaba, ecoando na sua mente como uma acusação. "Brincando de casinha." Era isso que ele estava fazendo? Escondendo-se da realidade, criando um pequeno refúgio confortável enquanto o mundo real esperava lá fora, exigindo que ele fosse o homem responsável que todos esperavam?
Ele olhou para a sala de jantar. Podia ouvir o som das risadas suaves de Kate e Gwen. A imagem delas juntas, tão conectadas, tão distantes dele, lhe dava uma pontada no peito. A verdade era que ele estava dividido. Gwen era parte da sua vida. Ele havia prometido a si mesmo que nunca iria abandoná-la, que seria um pai presente. E agora, com Kate ali, criando uma bolha de normalidade ao redor de ambas, ele sentia algo crescer, um desejo de que tudo desse certo para os três, como uma família.
Mas as palavras de Sebastian ecoavam, frias e implacáveis: "Chega de brincar de casinha." Ele sabia que o que acontecia na empresa era importante, crítico até. Não podia ignorar suas responsabilidades. Ao mesmo tempo, um sentimento amargo crescia. Gwen estava tão bem com Kate, tão feliz, que parecia nem sentir falta dele. Será que ele era realmente necessário ali?
Seu coração pesava com a dúvida. E se os três ficassem juntos? Uma ideia ousada e quase impossível. Ele balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Isso não é simples assim, pensou. Ainda assim, uma centelha de esperança permanecia. Se ele fosse esperto o suficiente, forte o suficiente, talvez pudesse ter tudo: Gwen, Kate e uma carreira estável.
- Estou indo — respondeu para Sebastian, desligando a ligação. Mas no fundo, sabia que antes de sair precisaria tomar outra decisão importante, uma que não estava em nenhuma planilha ou gráfico. Uma decisão sobre o que realmente queria para sua vida.
Voltando para a mesa do café da manhã Gwen e Kate estava quase no fim.
- Não vou poder levar vocês, surgiu algo importante na empresa e preciso ir. — ele abaixou para dar um beijo em Gwen e se segurou para não fazer o mesmo com Kate. — Chame Tim para levá-las.
- Tá bom, papai eu vou com a Kate! — disse Gwen e o ignorou completamente.
- Tudo bem, obrigada! — agradeceu ela.
Um pensamento fugaz passou por sua mente, inesperado, mas impossível de ignorar: Estava apaixonado? Era difícil definir o que sentia, mas sabia de uma coisa com clareza. Queria vê-la feliz, mesmo que não fosse com ele. Mas, ao mesmo tempo, queria que fosse. Queria muito que fosse.
Decidiu naquele momento que faria acontecer. Não importava quão complicado fosse o caminho, ele encontraria um jeito. Um sorriso sutil surgiu em seus lábios. Chega de brincar de casinha. Se era para construir algo, seria real, sólido. Com esse pensamento, levantou-se determinado, indo direto para o escritório. Ao abrir uma das gavetas, encontrou o que procurava: o telefone que tinha comprado para ela. Ele o pegou com firmeza, já traçando os próximos passos em sua mente.
Enquanto isso, Kate estava ajudando Gwen a descer da cadeira, rindo enquanto recolhia o prato e limpava os restos de comida. Mas o som dos passos de JC voltando à sala chamou sua atenção. Ele parou na porta, segurando algo nas mãos. Seus olhos cruzaram com os dela, e pela primeira vez, ele disse seu nome com firmeza, de um jeito que a fez congelar por um instante.
- Kate? — foi a primeira vez que ele a chamou assim e a maneira como sua voz soou fez um arrepio percorrer sua espinha. Ela engoliu em seco, sentindo constrangida.
- Alguma coisa errada? — ela perguntou, deixando de lado o que estava fazendo para olhá-lo de frente.
Ele hesitou por um segundo, mas apenas o suficiente para escolher bem suas palavras.
- Vou ficar ocupado nos próximos dias com alguns assuntos importantes, então... — Ele estendeu a mão, revelando uma pequena caixinha. — Salvei meu contato aqui. Se precisar de algo, me ligue.
Ela olhou para a caixinha na mão dele, sentindo um misto de surpresa e nervosismo. Não era só o gesto que a abalava, mas o jeito como ele a olhava naquele momento, como se houvesse algo mais que ele queria dizer, mas não sabia como.
- Eu agradeço muito, mas não posso aceitar. Parece demais... — ela se sentiu envergonhada.
- Bem, entendo... Não é nada demais. É algo que queria te dar. Ficaria feliz se aceitasse. — ele tentou persuadi-la.
- Não quero que se sinta na obrigação de me dar algo assim. — ela ficou na defensiva.
- Não é obrigação alguma, também não é para se sentir desconfortável, é apenas um presente, nada demais — ele pegou a mãos dela e colocou sobre a caixa. — Pense em algo como me manter informado sobre Gwen.
- Você faz parecer tão simples...
- Talvez seja porque eu quero que fique com ele!
Kate aceitou a caixinha finalmente, seus dedos roçando os dele por um breve instante, enquanto Gwen, alheia à tensão no ar, puxava a barra de sua camisa, distraída com qualquer outra coisa.
- Certo... — ela respondeu baixinho, desviando o olhar para esconder o rubor que subia em seu rosto. — Obrigada.
JC assentiu, tentando manter a compostura, mas o leve sorriso em seus lábios era impossível de conter. Ao virar-se e sair, sua mente estava clara: estava pronto para enfrentar o que viesse, na empresa, na família, e com Kate. Não havia mais dúvidas sobre o que queria. Uma vez que tinha se decidido, iria com tudo.
Kate deixou Gwen na escola como combinado. Foi difícil se despedir, já que a menina estava mais apegada do que nunca, mas Kate sabia que precisava começar a estabelecer algum espaço entre elas. Enquanto saía, o telefone no bolso vibrou, mas, sem o hábito de conferir mensagens imediatamente, ignorou o som, ocupada demais com seus próprios pensamentos.
Seguindo direto para o escritório de advocacia onde Jenny e Duda trabalhavam, convenientemente localizado acima do café onde ela passava as manhãs. Kate foi recebida por Jenny ao abrir a porta. O sorriso caloroso da advogada foi imediato enquanto falava aí telefone.
- Olá, Duda — cumprimentou Kate ao perceber a outra sócia do escritório também presente.
- Nossa visita favorita! — Duda respondeu animada, olhando por cima dos óculos. — Anda sumida, hein?
Kate deu um leve sorriso, tentando se acostumar com a informalidade e acolhimento que Duda sempre demonstrava. Era algo tão diferente do que ela estava acostumada, mas que a fazia se sentir um pouco mais confortável a cada vez. Ela se aproximou da mesa de Jenny e sentou-se, observando a pilha de papéis aparentemente sem organização espalhados pelo espaço.
Jenny, ao telefone, ergueu uma mão em cumprimento enquanto gesticulava algo com a outra. Kate, inquieta, começou a reorganizar os papéis em pilhas bem definidas, categorizando-os de acordo com o que sabia que Jenny preferia. Era automático para ela, organizar era algo que lhe dava uma sensação de controle.
Duda, vendo a cena, balançou a cabeça em negação e riu suavemente.
- Jenny gosta quando você vem porque você sempre arruma a bagunça dela! — comentou com bom humor.
- Bagunça? Isso aqui é o caos — respondeu Kate, brincando, mas ainda focada em sua tarefa.
Jenny desligou o telefone, finalmente livre para dar atenção à amiga. Olhando para os papéis que agora estavam perfeitamente organizados, ela soltou uma risada divertida.
- Como você está? — Jenny logo questionou.
- Bem! — disse Kate.
- JC fez alguma coisa com você? — ela continuou perguntando.
- Não, estamos bem. Gwen está tão linda e feliz, quando saio do trabalho já penso logo nela, quero ficar com ela o tempo todo.
- Você não quer desistir de trabalhar lá fora e ficar aqui comigo? — Jenny pediu. — Prometo horário flexível para nossa mamãe!
- Kate não ceda para Jenny. — Duda brincou.
- Se eu não soubesse que você é cozinheira, diria que perdeu sua vocação, Kate. Já pensou em ser minha assistente?
Kate apenas riu, balançando a cabeça.
- Já tenho trabalho o suficiente tentando colocar a minha vida em ordem. Não posso assumir a sua também.
As três riram juntas, mas, por um momento, a realidade de suas palavras pesou. Kate sabia que estava adiando decisões importantes e que, mais cedo ou mais tarde, teria que lidar com elas. E, sem que ela percebesse, o telefone vibrou novamente no bolso. Outra mensagem de JC, aguardando ser lida.
Elas riram, mas o barulho de uma segunda mensagem chegou para Kate, e ela ia ser ignorada mais uma vez. Quando Jenny e Duda se olharam.
Kate hesitou por um momento antes de tirar o telefone da bolsa, sentindo-se um pouco constrangida. Jenny a observava com curiosidade enquanto ela finalmente revelava o aparelho.
- Você comprou um telefone? — Jenny perguntou casualmente, mas com um tom que sugeria interesse.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Ah... não exatamente. JC me deu hoje de manhã — Kate respondeu, com um meio sorriso que parecia mais um pedido de desculpas. — Eu queria recusar, mas...
- Ele insistiu, dizendo que era pela segurança de Gwen? — Jenny a interrompeu, adivinhando com precisão. Ela estendeu a mão, e Kate entregou o telefone sem resistência.
- Isso mesmo. — Kate suspirou, encolhendo os ombros. — Não sei... Achei exagerado, mas ele foi bem convincente.
- Vocês dois parecem estar se resolvendo bem!
A verdade era outra, porém. Kate não queria aceitar porque não sabia mexer no aparelho. Nunca havia sido muito ligada em tecnologia e, depois de cinco anos longe do mundo, sentia-se completamente perdida com os novos dispositivos. Não queria admitir isso, mas a insegurança estava ali, pairando como uma sombra.
Jenny abriu o telefone com um gesto rápido e familiar, seus olhos arregalando-se levemente quando viu o modelo.
- Uau. O último modelo dos dobráveis. JC sabe escolher — ela brincou, girando o aparelho nas mãos. — E olha só... Duas mensagens de JC.
Kate sentiu o rosto esquentar.
- Eu não tive tempo de olhar — tentou justificar, embora fosse óbvio que estava apenas evitando.
Jenny arqueou uma sobrancelha, o típico olhar de quem sabia mais do que dizia, e abriu as mensagens. Seus olhos correram pelas palavras na tela e depois em Kate, e um sorriso divertido surgiu em seu rosto.
- Bem... Pelo jeito, até o Robert pode perder sua funcionária favorita — ela disse, fechando o telefone e entregando-o de volta a Kate.
- O quê? — Kate franziu a testa, confusa.
- Só digo que ele parece bem determinado. Talvez mais do que ele mesmo quis mostrar. — Jenny deu uma piscadela.
Kate olhou para o telefone em suas mãos, ainda sem coragem de abrir as mensagens. Jenny parecia estar se divertindo, mas Kate sentia um peso no peito. JC parecia sempre tão seguro, tão no controle, e ela, por outro lado, tinha a sensação de que estava tentando acompanhar uma corrida em que mal sabia as regras.
Jenny não perdeu tempo e, com um sorriso travesso, pegou da mãos de Kate novamente desbloqueou o telefone e abriu as mensagens.
- Ele te convidou para jantar mais tarde! — anunciou, animada, girando o aparelho para mostrar as mensagens.
Kate arregalou os olhos, sentindo uma onda de surpresa e nervosismo.
- Eu... Nem vi isso. — Tentou pegar o telefone de volta, mas Jenny recuou, rindo.
- Deixa eu te mostrar como usar isso primeiro, antes que você acabe ignorando outro convite importante! — Jenny começou a mexer no aparelho, explicando cada passo com paciência. — Aqui você responde mensagens, aqui vê as notificações, e este botão liga direto pra ele. Não tem segredo.
Enquanto falava, Jenny salvou os números dela e de Duda no telefone de Kate.
- Agora você tem um telefone de verdade e contatos confiáveis. Nada de desculpas para não nos chamar, hein? — brincou.
Kate riu, mas logo desviou o olhar para o aparelho, sentindo-se estranhamente intimidada pela facilidade de Jenny com a tecnologia.
- Obrigada... Acho que já aprendi algumas coisas — disse, tentando absorver tudo.
Jenny devolveu o telefone e voltou a se acomodar na cadeira.
- E Gwen? Como ela está indo nas aulas? — puxou assunto, mudando o tom para algo mais leve.
Kate relaxou um pouco e sorriu.
- Está indo tão bem! — respondeu, com uma ponta de orgulho. — JC a criou tão bem. É uma menina esperta, gentil... Sou muito grata por tudo que ele fez por ela.
Duda, que estava folheando um arquivo, ergueu os olhos e entrou na conversa.
- Você não quer pegar ela de volta? — perguntou, direta. — Podemos tentar. É o seu direito.
Kate balançou a cabeça rapidamente, como se essa ideia fosse impensável.
- Não, não... — começou, a voz ficando mais baixa. — Quando o contrato acabar, nós acabamos também. Não quero atrapalhar a vida que ele construiu com ela.
A sala ficou em silêncio por um momento. Jenny e Duda trocaram um olhar, percebendo o tom melancólico nas palavras de Kate. Ela tentava soar firme, mas sua expressão mostrava outra coisa: uma mistura de saudade antecipada e resignação.
- Ainda está tentando se acostumar com essa ideia, não é? — Duda comentou, suavemente.
Kate assentiu, evitando olhar para elas diretamente, mexendo no telefone para disfarçar.
- Vou me acostumar... É só uma questão de tempo. — Mas nem ela parecia acreditar nisso.
[...]
Quando Kate chegou à casa de JC com Gwen nos braços, já era noite. A pequena estava cheia de energia, mas Kate sabia que, com o banho e a rotina, ela logo cairia no sono. E assim foi. Enquanto Kate se arrumava no quarto de hóspedes com as roupas que Mary havia lhe entregado, Gwen brincava no sofá da sala até, exausta, acabar adormecendo ali mesmo.
JC chegou pouco depois, já vestido para a ocasião. Ele estava impecável, usando um terno bem ajustado que destacava sua postura forte e elegante. Assim que entrou na casa, olhou ao redor procurando por Kate. Quando a viu descendo as escadas, ele parou por um momento, impressionado. Ela usava um vestido azul, mas que parecia feito sob medida para ela. A simplicidade destacava sua beleza natural, algo que ele apreciava mais do que queria admitir.
- Está pronta? — ele perguntou, a voz grave, mas suave.
- Já sim. Estamos prontas! — respondeu, apontando para o sofá.
Foi quando JC percebeu que Gwen estava profundamente adormecida, com uma boneca nos braços. Ele suspirou, um pequeno sorriso escapando, e então chamou pela governanta:
- Mary?!
Mary veio apressada da cozinha, enxugando as mãos no pano de prato, com a curiosidade estampada no rosto.
- Sim? O que houve? — perguntou, e então viu Gwen dormindo no sofá. Ela sorriu, entendendo imediatamente. — Podem ir, eu cuido dela.
JC assentiu em agradecimento, enquanto Kate, ainda hesitante, olhava de Gwen para JC, sem saber o que fazer. Estar sozinha com ele em um jantar parecia uma ideia... estranha, como se saísse de algum filme ou história que não era a sua.
- Vamos? — JC ofereceu o braço para ela, algo que nunca havia feito antes.
Kate hesitou por um segundo, mas aceitou, com um pequeno aceno. A ideia de questionar o que estava acontecendo passou por sua mente, mas ela decidiu não o fazer. Apenas o seguiu, tentando esconder a mistura de nervosismo e curiosidade que começava a brotar.
[...]
O lugar era monumental, uma verdadeira mansão ostentando um luxo exagerado. Lustres de cristal pendiam do teto alto, lançando reflexos brilhantes pelas paredes de mármore impecável. O ar era preenchido com um misto de perfumes caros e conversas animadas, intercaladas por risadas que ecoavam como uma coisa muito distante. Kate não conseguia evitar o desconforto, sentindo-se completamente fora de lugar. O vestido elegante que usava, gentilmente oferecido por Mary, parecia quase uma afronta àquela opulência, destacando ainda mais sua desconexão com aquele mundo.
Ela permanecia ao lado de JC, que atraía olhares por onde passava. Ele conversava com fluidez, sempre polido, enquanto Kate se limitava a observá-lo, a sensação de ser uma mera sombra ao seu lado cada vez mais forte. Quando ele pediu licença e interrompeu a conversa com alguns convidados, Kate não conseguiu segurar o comentário:
- Todos querem falar com você! — disse, a voz baixa, mas carregada de uma leve ironia.
JC lançou-lhe um olhar que misturava exaustão e divertimento. Ele pegou uma taça de champanhe de um garçom que passava e entregou a ela antes de responder:
- Eles querem que eu invista em suas empresas. — Ele deu de ombros, como se estivesse acostumado àquilo. — Mas, na verdade, estou procurando alguém.
Kate arqueou uma sobrancelha, curiosa.
- Como você sabe que essa pessoa está aqui? — perguntou, sem conseguir esconder sua preocupação.
- Recebi um convite suspeito enquanto algo estranho acontecia com as ações da minha empresa. — Ele tomou um gole de sua própria bebida, os olhos atentos varrendo o salão. — Achei que valia a pena investigar. E trouxe você para aproveitar um pouco também.
Kate soltou uma risada curta, sem humor, olhando ao redor.
- "Aproveitar" não é exatamente como eu descreveria isso. — Ela olhou de soslaio para ele. — Você traz Gwen para esses eventos?
JC sorriu, um sorriso quase enigmático que parecia esconder mais do que revelava.
- Geralmente sim. — Ele inclinou a cabeça, lembrando-se de sua pequena. — Quando quero uma boa desculpa para ir embora mais cedo, trago Gwen. Ninguém questiona um pai que precisa colocar a filha para dormir.
Kate riu suavemente, imaginando a cena. Era difícil associar o homem sério ao seu lado com um pai carinhoso fugindo de festas pomposas. Mas, ao mesmo tempo, fazia todo o sentido. A imagem de JC se inclinando para dar boa-noite a Gwen parecia muito mais real do que o homem que agora caminhava entre investidores e acionistas, jogando um jogo de poder. Isso fazia ela se lembrar de JC na delegacia anos antes.
- Não é um lugar para crianças! — ela imaginava o desconforto de uma criança permanecer assim.
- Vou te contar um segredo — ele se aproximou do ouvido dela. — Gwen me pede pra ir embora em menos de vinte minutos, e eu posso ir sem ser barrado.
Kate riu.
- Você é esperto!
O grupo que se aproximou de JC era composto por figuras importantes, homens e mulheres com sorrisos ensaiados e olhares calculados. Kate percebeu imediatamente que aquele tipo de conversa se estenderia por muito tempo. Sentindo-se um tanto deslocada e sufocada pela atmosfera carregada, decidiu que precisava de um momento para si.
- Com licença, já volto. — murmurou para JC, que estava distraído com as apresentações.
Sem esperar por uma resposta, Kate se afastou, caminhando com passos firmes em direção a um dos pátios externos. O ar fresco da noite foi um alívio imediato. A brisa suave acariciava seu rosto, trazendo consigo o aroma das flores que decoravam o ambiente. Ali, longe das vozes altas e dos olhares inquisitivos, ela finalmente pôde respirar.
Seus pensamentos, no entanto, não lhe deram descanso. "Então essa é a vida de JC?", refletiu. Era estranho vê-lo naquele papel, tão formal e polido, interagindo com outros executivos com a facilidade de quem faz isso diariamente. Não conseguia conciliar o homem de terno impecável, com o rosto limpo e a postura confiante, com o JC de casa, descalço, usando roupas simples e com a barba por fazer. Ele estava deslumbrante naquela noite, disso não havia dúvida, mas parecia uma versão distante do homem que ela conhecia. Uma versão que ela não gostava muito.
Enquanto seus olhos vagavam pela escuridão acolhedora do pátio, sentiu um breve alívio, como se aquele fosse um refúgio seguro dentro de um mundo ao qual não pertencia. Mas sua paz foi abruptamente interrompida. Uma sombra se moveu em seu campo de visão, e seus instintos a alertaram.
Virou-se rapidamente, e seu corpo enrijeceu ao reconhecer a figura que se aproximava. A presença era familiar, mas carregava consigo uma tensão palpável que fez seu coração acelerar. A pessoa que agora estava diante dela trazia lembranças que ela preferia esquecer. O que fazia ali? E, pior, o que queria com ela?
- Você? — a figura perguntou com um sorriso frio, enquanto Kate sentia seu sangue gelar.
Ella.
Quando ela percebeu que Ella agora a olhava com um sorriso ameaçador. Seu coração disparou.
- Surpresa! — ela disse, seus olhos brilhando com uma malícia que a fazia sentir um frio na espinha.
— O que você está fazendo aqui? — Kate perguntou visivelmente perturbada.
Ela se forçou para manter a compostura, mas a ansiedade crescia em seu peito.
— Por favor, vá embora. Não quero conversar com você — pediu, a voz tremendo.
Ella hesitou por um momento, mas finalmente acatou seu pedido, movendo-se lentamente em direção à saída. Antes que Kate pudesse relaxar, Ella parou e se virou, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que a fez lembrar do terror que viveu nos últimos anos.
- Você realmente acha que pode se livrar de mim tão facilmente? Quando eu disse para não procurar JC quando saísse da cadeia e você foi direto para ele?! — com um movimento rápido, Ella pegou no pescoço de Kate forçando olhar para ela. — Gwen está bem esses dias?
- Por favor! — Kate implorou com um fio de voz.
Ella soltou o pescoço de Kate com um sorriso diabólico no rosto, mostrando as feições tão parecidas com as de Kate.
- Como você não cumpriu sua parte, me vejo no direito de não cumprir a minha! — dizendo isso ela finalmente saiu deixando Kate atordoada para trás.
Kate não tinha ideia de quanto tempo havia se passado desde que deixara o salão e encontrara aquele refúgio no pátio. As palavras ameaçadoras que ouvira ainda ecoavam em sua mente, como se cada sílaba estivesse gravada a fogo. O medo misturava-se com uma sensação de vulnerabilidade que fazia o frio da noite parecer ainda mais penetrante. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, numa tentativa inútil de aquecer-se e, talvez, proteger-se das emoções que a consumiam.
O toque em seu braço a pegou de surpresa. Ela sobressaltou-se, seus olhos arregalados encontrando os de JC. O choque inicial logo deu lugar a uma mistura de alívio e segurança. A presença dele, no entanto, tinha um peso reconfortante, como uma âncora em meio ao caos.
- Kate, você está tremendo — disse ele, com a voz baixa e preocupada.
Antes que ela pudesse responder, JC tirou o paletó do terno e o colocou delicadamente sobre os ombros dela. O calor do tecido e o gesto gentil trouxeram um alívio imediato, mas foi o olhar dele, cheio de preocupação, que realmente a aqueceu. A conexão que sentia com JC naquele momento era diferente de qualquer coisa que experimentara antes.
Kate tentou esboçar um sorriso, mas não conseguiu. O medo e a confusão ainda estavam ali, pesando em seu peito. JC percebeu, inclinando-se ligeiramente para olhá-la melhor.
- O que aconteceu? — perguntou, sua voz agora firme, mas ainda gentil.
Ela hesitou, incapaz de colocar em palavras o que sentia. Em vez disso, um impulso inesperado tomou conta dela. Sem pensar, Kate deu um passo à frente e envolveu JC em um abraço apertado. Era uma busca desesperada por segurança, por algo que pudesse afastar a insegurança. JC não hesitou, seus braços a envolveram com força, como se ele também precisasse daquele momento tanto quanto ela.
A proximidade entre eles carregava uma tensão diferente agora. Não era apenas medo ou consolo. Era algo mais profundo, mais intenso. JC inclinou a cabeça levemente, seus olhos fixos nos dela. O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelo som suave de suas respirações.
- Acho que vou cometer uma loucura... — ele sussurrou, sua voz baixa e carregada.
Antes que Kate pudesse reagir, JC se inclinou e a beijou. O contato foi suave no início, quase hesitante, como se ele estivesse testando os limites. Mas rapidamente o beijo se aprofundou, uma fusão de sentimentos reprimidos e desejos incontidos. Tudo ao redor desapareceu: as ameaças, o evento, até mesmo o frio da noite. Só existiam eles dois, presos naquele momento.
Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, seus rostos ainda próximos. Kate olhou nos olhos de JC, sentindo uma mistura de incredulidade e confusão.
- Desculpe, eu... não sei o que... — começou ela, mas ele a interrompeu com um sorriso calmo e compreensivo.
- Não precisa se desculpar. — Ele a estudou por um momento antes de acrescentar: — Vou te levar para casa.
Kate assentiu em silêncio, incapaz de encontrar as palavras para expressar o turbilhão de emoções que sentia. Enquanto JC a guiava de volta para o carro, ela sabia que algo havia mudado entre eles. Aquele beijo não era algo que poderia ser ignorado. E, no fundo, ela tinha a sensação de que nada entre eles jamais seria o mesmo.
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