Notas iniciais
Bom, esta fic é completamente novidade para mim: primeira vez que consigo fazer one-shot, primeira vez que consigo fazer algo neste estilo. Acho que até ficou levinho, mas enfim.

Era uma mulher sensível. Na infância, teve uma saúde frágil. Na adolescência, sofreu bullying por ser considerada baixa e gorda. Quando adulta, teve dois bebês: um, dois anos mais velho que o segundo e que morreu por aborto espontâneo; e o mais novo, que vingou e tornou-se uma garota normal. No entanto, teve que cuidar da menina quase sozinha, pois o pai trabalhava em outra cidade.

Desde nova precisou de psicólogos. Motivo: depressão crônica. Maldita seja, serotonina. Por culpa dela, precisou de Prozac.

Tinha dificuldade em superar perdas. Nunca superou a perda do filho mais velho. Ainda por cima, no mesmo ano do filho, o pai dela foi-se. Aos dois uniu-se a mãe, oito anos depois. Todas mortes que ela não superou.

Trabalhava, teve uma vida feliz apesar das perdas. Sua vida eram o trabalho e a filha. Que fazer, quando foi demitida? Que fazer, quando se viu às voltas com um divórcio? Que fazer, quando em seguida descobriu um câncer?

Lentamente, desabou. Tinha se acostumado a se fazer de forte, mas não a ser forte. Foi o mais forte que conseguiu. "Deus nunca nos dá um fardo maior do que o que podemos carregar", não é? Essa mulher provou a falha dessa crença.

Fez quimioterapia, sua depressão agravou, desenvolveu síndrome do pânico — se sentia feia demais para sair de casa -, tinha insônia, dor nas costas, dor nos rins... O que fazer?

Pediu ajuda dos parentes. Eles tentaram ajudar no que puderam. Mas também tinham suas próprias vidas, e moravam longe. O ex-marido ajudava financeiramente, só que tinha medo de se aproximar. Por causa da carência, quando ele ficou mais presente ela quis reatar o casamento. Ele não queria.

Com a decaída, deixou de frequentar a terapia. Àquela altura, já era não um psicólogo, mas sim um psiquiatra. Por causa da insônia, ela precisava de remédios tarja preta para dormir. Precisava dos remédios da quimioterapia. Precisava de remédio para o estômago, por causa de tantos medicamentos...

Amigos visitavam. Não conseguiam fazê-la sair de casa. Acordava às duas da tarde, dormia às cinco e meia da manhã. Fumava, bebia cerveja — ou vinho, dependendo da temperatura do dia — e via televisão o dia todo. Ligava durante a madrugada para todos que conhecia, afim de afogar as mágoas. Os amigos, com o tempo, também se afastaram. Que fazer por ela? Como ajudar?

Uma vez que todos se afastaram, houve a certeza: estava sozinha. Só tinha a filha. Filha essa que não lhe fazia companhia alguma. Não a ajudava. Não fazia nada. Era bem-intencionada, mas bem que podia ser mais carinhosa. Se preocupava, mas bem que podia ajudar mais. Não era de baladas, mas bem que que podia fazer mais companhia, ao invés de ficar trancada no quarto. Não fumava, era saudável, mas bem que podia ser mais magra. Não gastava dinheiro com bobagens, mas bem que a mensalidade da escola podia não ser tão cara. Era uma boa menina, mas bem que podia fazer as coisas direito. Sempre o maldito mas.

Começou a ficar cada vez mais irritadiça. Ambas discutiam todos os dias, até que a menina — na verdade, adolescente -, deixou-a. Foi morar com o pai. Estava, definitivamente, sozinha.

Em uma reunião familiar — sem a presença dela -, os parentes avaliaram-na como insana. Cadê os exames? Quem vai com ela às sessões do quimioterapia? Ela se internou esses dias, quem cuidou da papelada?

Em uma última conversa, desta vez com ela inclusa, foi dito: seria internada em uma clínica psiquiátrica. O problema era mais mental. Era verdade. Nem ela sabia.

Não havia câncer. Não havia médico. Não havia doença alguma, era apenas uma hipocondríaca. Não estava feia coisa alguma, era só autoestima baixa. Não estava sozinha, apenas tinha se auto-isolado, ao não permitir que ninguém a ajudasse.

Sua vida inteira tinha sido uma ilusão. Nunca houve aquele marido que ela imaginava. Ele existia, mas não era o que ela tinha imaginado. A filha idem. Sempre se achou doente, mas não havia doença alguma. Seu trabalho também tinha sido uma farsa: trabalhou a vida inteira por um ideal, só que todos só estavam preocupados em encher os bolsos. Imaginava que sua filha ficaria consigo para sempre. Não foi assim. Não havia nada de palpável na sua vida. apenas ela e um apartamento cheio de lembranças, histórias e nada mais.

Foi até o quarto, repensando sua vida. Pegou um velho 3.8 que tinha, herança do pai. Fechando os olhos, atirou em sua têmpora.

... Realmente, era uma mulher sensível demais.

Notas finais
Dedico à minha mãe... Pois é, ela deve estar bem feliz ao ter uma death fic dramática dedicada a ela. Juro que foi de coração, mãe!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!