Sensação de paz
1 Capítulo 1: Além das colinas e bem distante
Era uma noite amena com diversas estrelas no céu. O vento suave batia contra o seu o manto grande e negro, fazendo-o se mexer levemente. Notou a breve abertura em seu colarinho e tratou de fechá-la rapidamente; não poderia arriscar sua saúde ainda mais, não até amanhã. Olhou novamente para o céu enquanto segurava o chapéu de palha, parando de andar logo em seguida. A noite estava linda e trazia uma sensação de paz, de que tudo estava bem, e aquilo era o que Itachi mais desejava para sua vida. Fechou os olhos para respirar lentamente a brisa carregada com o cheiro da dama-da-noite, uma bela flor. Talvez ela agraciasse sua alma com a paz quando fosse embora, talvez. Ainda que ele não fosse o melhor exemplo de merecedor daquilo.
— Itachi-san, está tudo bem? — Ouviu a voz preocupada de seu parceiro alguns passos à frente.
Soltou o ar contido na esperança de que ele levasse todos os seus pecados juntos. Tolo, ao imaginar isso.
— Está sim. — Encurtou a distância em passos leves. — Estamos chegando.
Tomou a dianteira e colocou o olhar atento sobre a floresta a fim de achar um antigo esconderijo de seu clã, agora abandonado. Tudo aconteceria naquele lugar, então o mais fácil era ficar por lá, aguardando.
Encontrou a pequena abertura envolta de pedras cheias de musgo, evidenciando o notório tempo que ninguém passava por lá para cuidar. O esconderijo subterrâneo não tinha mais coisas de valor, ao seu ver; talvez saqueadores tivessem descoberto o local, mas também não fazia muita diferença para si. Conforme ia passando pelos corredores escuros, acendia as velas empunhadas nas paredes em pequenos castiçais até encontrar o primeiro quarto empoeirado no qual dividiria com seu parceiro. Colocaram os mantos por cima da cama para evitar maior contato com o mofo e poeira que tinha lá. Ao menos ainda era um lugar confortável para passar sua última noite.
— Eu já volto, Kisame — anunciou, para o parceiro, sua saída com uma caixa em mãos.
Kisame sabia muito bem o que era aquela caixa. Dangos. Ele nunca descobria de onde Itachi os tirava, fazendo-lhe, novamente, contorcer o rosto em frustração.
— Cuidado com sua saúde, Itachi-san. Leve, pelo menos, o meu manto para cobrir suas costas.
Itachi sorriu com a preocupação alheia, mas ignorou o pedido.
— Não se preocupe, não irei demorar.
[...]
Para evitar o vento excessivo direto em seu corpo, Itachi se sentou em um galho e encostou-se no tronco da árvore. Não era o corta vento mais eficiente do mundo, mas serviria de desculpa caso Kisame o seguisse.
Colocou o primeiro dango na boca, delicioso. Fechou os olhos por um instante apenas para saboreá-lo melhor. Logo após, riu-se contido ao se lembrar de sua fuga para comprá-los escondidos, sabia que não havia problema algum falar para o parceiro sobre os doces, porém, na primeira vez que isso aconteceu, Kisame ficou tão curioso com seu sumiço que Itachi não pôde evitar de fazê-lo propositalmente.
Olhou para o céu novamente percebendo as poucas nuvens indo embora. O dia de amanhã seria limpo, ficou satisfeito já que era uma data especial, até porque não gostava de chuvas ou tempos fechados. A diversidade de estrelas parecia brilhar mais que o normal. Era até irônico. Será que alguém o esperava por lá? Seria uma pena, pois seu destino estava traçado para algum lugar bem distante do paraíso.
Sua atenção foi tirada do céu ao escutar o mínimo do barulho dos passos de seu parceiro no chão. Kisame, em um salto, chegou ao tronco em que estava com um objeto estranho e se sentou próximo.
— Pegando vento a essa hora? — repreendeu-o. Itachi apenas revirou os olhos.
— Não é como se fosse fazer diferença para amanhã.
— Não precisa falar assim — resmungou Kisame com um sorriso desconfortável.
Itachi sorriu, deixando o assunto de lado, queria focar em outras coisas.
— O que é isso?
— Achei jogado em uma das salas. Conhece? — Referiu-se ao instrumento.
Itachi negou com a cabeça e voltou a comer um dos dangos, antes, ofereceu ao parceiro que, com um sorriso acolhedor e brilho nos olhos, negou.
Kisame adorava contemplar a calmaria que Itachi passava. Talvez fosse por isso que eram tão bons como parceiros, diferente das outras duplas que juravam a morte um do outro.
— Sabe usar isso? — o Uchiha perguntou curioso.
— Aprendi uma única música quando mais novo.
— Adoraria ouvi-lo tocar.
O Hoshigaki sentiu-se persuadido com aquele pedido. Itachi não era de pedir coisas, mas, talvez por saber que não teria muitas mais oportunidades de fazê-lo, fez. E, com toda certeza, Kisame nunca poderia negar naquelas circunstâncias.
— É claro.
O violão começou tocando lentamente, uma nota ou outra desafinava, afinal, havia tempo que não tocava. Como o ritmo era semelhante e repetido, conseguiu pegar melhor na terceira tocada e logo sentiu sua mão passar livremente pelo violão.
— É uma melodia agradável. Você também canta?
— Você vai sair correndo assustado daqui se ouvir. — Nisso o maior dos dois parou de tocar para encarar o outro e perceber como a luz da lua era bela em contraste com sua face. Timidamente, Itachi colocou a mão sobre a boca e riu. Logo em seguida, quando uma brisa gélida passou pelos dois, começou a tossir.
— Está tudo bem? — o parceiro perguntou preocupado e recebeu um aceno positivo de volta.
— Cante, quero ouvi-lo.
Hey lady, you got the love I need
(Ei, moça, você tem o amor que preciso)
Maybe more than enough
(Talvez mais do que o suficiente)
Oh darling, walk a while with me
(Oh, querida, ande um pouco comigo)
You've got so much, so much, so much
(Você tem tanto, tanto, tanto)
Conforme Kisame cantava, Itachi fechou os olhos, finalmente acalmando-se. Sentia o coração desacelerando e batendo na velocidade correta. Esteve o dia todo conturbado com seus pensamentos, além da ansiedade notável pelo o amanhã. Seu parceiro notou e por isso foi atrás de si. Itachi sabia, pois não era costume de Hoshigaki incomodá-lo.
Com a mudança dos acordes, acabou trocando algumas notas e recomeçou o que seria o início do refrão, com o ritmo um pouco mais acelerado, porém, ainda agradável.
Many have I loved
(Muitas eu amei)
Many times been bitten
(Muitas vezes me frustrei)
Many times
(Muitas vezes)
I've gazed along the open road
(Eu observei a estrada aberta)
— É uma bela música, Kisame — Itachi admitiu enquanto voltava a abrir os olhos e encarar o parceiro; ele apenas sorriu de volta para continuar a música.
Many times I've lied
(Muitas vezes eu menti)
Many times I've listened
(Muitas vezes eu escutei)
Many times I've wondered
(Muitas vezes eu pensei)
How much there is to know
(O quanto há para aprender)
Aos poucos o violão foi parando, talvez Kisame tivesse cansado, pensou Itachi.
— Eu esqueci a música — admitiu envergonhado. Itachi riu brevemente.
— É muito bonita, gostei mesmo assim — suspirou. — Senti como se um peso tivesse saído dos meus ombros, mas sei que isso só vai acontecer amanhã.
O ar melancólico voltou ao ambiente e, mais uma vez naquele dia, a carranca de agonia e medo pairou sob a face de Itachi. Aquilo era uma tortura para o parceiro que, momentos antes, estava vendo-o sorrir tão confortavelmente. Kisame não sabia de onde tirou coragem o suficiente para inclinar-se para frente e selar seus lábios com os do Uchiha. Não houve sequer algum movimento diferente do outro, apenas o acatamento de ser beijado. Foi um breve selar que se dissipou tão rápido quanto começou.
— Itachi-san, espero profundamente que fique bem assim que alcançar seus objetivos.
Ele ficaria.
Over the Hills and Far Away — Led Zeppelin
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