Senhorita Grey
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Assisto minha respiração se condensar no ar gelado do alto da ponte Memorial George Washington. Já é tarde, e eu sei sobre o perigo de estar aqui a essa hora, ainda por cima tão próxima da falha na cerca de proteção.
Nunca fiz algo dessa magnitude e o medo me deixou paralisada. Mesmo que eu quisesse, meu corpo não obedeceria ao comando de voltar atrás e deixar para lá.
— Jesus, o que eu fiz? – Fico enjoada só de pensar em toda a aflição que devo ter causado e ainda vou causar. Meu pai deve estar furioso, e a perspectiva de o plano ir, literalmente, por água abaixo me deixa doente. Se eu puder contar com as suas reações exageradas dessa vez, ele já deve ter colocado todo mundo à minha procura a essa altura.
A espera dura mais do que eu pensava, mas um carro diminui e a luz dos faróis lançada sobre mim me deixa cega. Ele para na pista ao lado da passagem para pedestres, e o meu coração descompassa. Demoro alguns segundos até conseguir me mover na direção da contenção e passar a perna trêmula para o lado do rio. Seguro firme na barra metálica para não escorregar para a morte certa no lago.
O vidro desce e a luz interna é acesa, revelando o motorista: não é o meu pai, nem ninguém da equipe de segurança. O homem ligeiramente inclinado sobre o banco do passageiro hesita décadas antes de falar. Ele usa óculos escuros no alto da cabeça, o que é ridículo, porque está de noite.
— Você precisa de ajuda? – É uma pergunta estúpida, sinceramente.
— Não, obrigada. Posso fazer isso sozinha – ironizo.
— Não foi o que eu quis dizer... Eu...
— Não é o que você está pensando. É melhor você ir embora antes que o meu pai chegue.
Ele avalia o aviso e desliga o motor.
— Eu só estava tentando dizer que você não parece saber muito bem o que está fazendo.
O modo presunçoso como ele diz isso me dá vontade de rir. — Ah, não? – Ergo uma sobrancelha. — E o que você sabe sobre se atirar de uma ponte?
Um sorriso atravessa o rosto do homem, o que me deixa confusa e assustada. Ele liga o pisca-alertas e sai do carro.
— Não se aproxime! – Advirto e sinto o pânico crescente e opressivo no peito. Por instinto, me afasto perigosamente na direção do céu aberto. E se ele quiser me empurrar? Ninguém vai pensar que não é um suicídio. A ponte é famosa por pessoas que a procuram para tirar suas vidas.
— Calma, por favor – ele pede alarmado, com as palmas das mãos viradas para cima. — Eu sei tudo sobre se atirar de pontes. Sou instrutor de bungee jumping.
Encaro-o, sem resposta para isso. Alguns carros que passam desaceleram para ver o que está acontecendo. Estamos chamando a atenção, preciso me livrar dele logo.
— Escuta, você quer ajudar, não quer?
— Sim, mas não vale me pedir para ir embora – sua voz está firme, mas seu corpo está tenso, traindo a apreensão que sente. O que ele está pensando? Que pode bancar o herói com completa uma estranha?
— Tudo bem. Quero que você ligue para o meu pai e diga o que eu mandar.
Articulo algo na minha cabeça enquanto ele pega o celular no console do carro. Ele espera pelas minhas instruções com um olhar apiedado que faz eu me sentir miserável. Estou prestes a jogar esse pobre homem que só quer ajudar na boca do dragão.
— Antes de tudo, você precisa saber que o meu pai é uma pessoa difícil. Ele provavelmente vai querer falar comigo, mas isto está fora de cogitação...
Ele aquiesce sem dizer nada, então continuo.
— Diga a ele que sua filha está na ponte Aurora.
Quando o silêncio se prolonga, ele ergue uma sobrancelha com a pergunta “É só isso?” implícita no gesto. Encolho os ombros e dou-lhe o número.
Ele digita e chama. — Com quem eu vou falar? – Pergunta, afastando o telefone do ouvido.
— Christian.
Esperamos pelo que parecem minutos, mas não passam de segundos. O suspense me faz prender a respiração.
— Alô, Christian? Sua filha está... não, eu... não, escute... Kevin Sater. Estamos na ponte Aurora. Sim. Não, senhor, ela não quer falar com o senhor... não posso fazer isso, desculpe. – Ele desliga o telefone abruptamente, e sua expressão consternada confirma o que eu havia presumido. Christian Grey não gosta de ser contrariado.
Olhamos ansiosamente um para o outro.
— Kevin?
— Sim.
— Vá embora agora, por favor.
— Não posso – ele retira os óculos da cabeça, os guarda dentro do carro e pega uma manta do banco de trás. Depois, caminha até a mureta e para, como se esperasse a minha permissão para saltar. Remexo-me desconfortavelmente sobre a barra. Minhas mãos já estão brancas e dormentes, tamanha é a força que faço para não escorregar.
— Por quê? – Pergunto apreensiva. O meu pai deve chegar a qualquer momento e eu não quero que esse estranho esteja aqui para ver isso. Meu corpo todo treme de ansiedade e arrependimento por ter, voluntariamente, me colocado nessa situação.
— Porque você ainda está fazendo errado – Kevin sorri. Contra a minha vontade, retribuo o sorriso. Incentivado pela minha reação, ele continua. — E porque não quero que alguém tão jovem e bonita morra... de frio.
Lentamente, ele se move por cima do muro com a manta aberta e estendida, como se mostrasse que está desarmado. Mordo o lábio para conter a vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, enquanto sou envolvida no tecido verde e felpudo.
De repente, o giroflex de uma ambulância nos avisa da sua chegada e o som da sirene fica mais estridente à medida que ela se aproxima... perto e rápido demais, nos jogando para os braços abertos da noite atipicamente clara. Para o colo do rio gelado.
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