Senhores de Dragões
2 Tiberion 2
Nyah! Fanfiction
Senhores de Dragõesescrita por Caio Tavares
Capítulo 3
Tiberion 3
Tiberion estava decepcionado. Escrevera três cartas ao Cônsul, uma ao senador Gailiam e uma a Daemon Lyys pedindo a re admissão de Gaius Taxx, comprara a convocação de uma assembléia extraordinária e subornara um sem-número de anciãos para que votassem a favor do amigo, e agora ele desistia.
– Você sabe que nunca mais poderá nem sequer sonhar em participar de um Ministério, não sabe¿ — perguntou ao filho de ghiscari.
– Sei sim. – ele respondeu entre suspiros.
– Então prepararei o documento. – disse Asty, e logo em seguida pegou um pergaminho em branco e uma lata de tinta preta.
Eu, Lorde Gaius da Casa Taxx, renuncio por meio desta ao meu direito de participar do Ministério Colonial como planejador de guerra e também a todas as minhas pretensões políticas na Cidade Franca de Valíria. Juro em nome dos deuses, do Senado e do povo valiriano.
Assinado:
E rabiscou seu nome sobre a última linha, sujando um canto da mão com tinta. Levantou-se se a ajuda de ninguém e começou a andar na direção da porta, mas Asty o chamou.
– Você está ciente de que se contar a qualquer pessoa sobre os nossos planos será...
– Condenado à morte por Alta Traição. Sei disso. Não participarei de seu ataque, mas não pretendo impedir que aconteça. – pousou uma mão pesada sobre o ombro de Tiberion – Devolverei o ouro que você gastou.
Não precisarei do seu ouro, Gaius, pensou. Preocupe-se em me devolver sua confiança. Mas não quis expor em voz alta. Taxx saiu do camarote e desceu as escadas em pesados passos, deixando um rastro de silêncio por mais de um minuto.
– Alguém mais se opõe¿ — Asty perguntou.
– Não. – os outros dois responderam em uníssono.
– Neste caso deverei escrever cartas para todos os lordes de Valíria, e os que Aceitarem a proposta se reunirão conosco para planejar o ataque.
– E a autorização do Senado¿ — Tiberion perguntou.
– Não teremos. Em uma manobra desta magnitude o poder dos lordes se torna ilimitado. O Senado perderia seu valor e o governo passaria para as nossas mãos.
– É seguro¿ — Dennae perguntou.
– A que se refere¿
– Ora, houve uma razão para não mandarmos os senadores para o inferno junto com o rei Tarkenay. A Cidade precisa de ordem, e é ele que garante isso.
– A partir de agora nós garantimos isso. Já é tempo de o poder que temos ser realmente valorizado. Além do mais, o Senado não deixará de existir; apenas voltará a ter o pouco poder que tinha durante a dinastia Tarkenay.
– Para mim está bom. – respondeu Tiberion – desde que vençamos.
– Venceremos.
– Para mim também. – disse Dennae – Mas precisamos disfarçar isso do senado, ou eles enviarão a polícia às nossas casas.
– Sim, posso traçar um plano simples de fachada. Algo como...
– A primeira ideia, de enviar destacamentos pelas redondezas de Ghis. – Tib sugeriu.
– Mas duvido que o Senado vá autorizar um ataque de natureza tão suicida.
– Vamos até o Capitólio de dragão. Não há nada que não autorizem.
Durante a hora que se passou os três colegas comeram um porco assado com alguns pães e vinho doce, enquanto Asty Ocarion escrevia cartas para centenas de senhores de dragões. Quando a refeição terminou ele disse:
– Creio que já passe da hora de irmos. Há milhares de cartas para fazer, então devo passar esta noite em claro.
–Se quiser podemos ajudá-lo. – sugeriu Tiberion.
– Não, obrigado. Só eu sei o que escrever.
– Então está bem. – respondeu, se levantando. Vamos embora.
Desceram as escadas em espiral e chegaram ao salão popular, a esta hora bem mais vazio que antes. Lá fora o dia estava caindo e o céu, mais vermelho que o sangue. Chegaram de carruagem ao campo dos dragões, mas somente o gigante de Dennae estava lá. Tinha dezoito metros de altura e mais de cinqüenta metros de uma asa à outra. Por suas enormes dimensões, não era possível montar uma sela sobre ele, então o dono montava sobre sua cabeça e se agarrava nos chifres para governá-lo. Estava deitado no solo como que adormecido, mas quando Dennae caiu sobre ele, despertou. Saiu voando enquanto o dono fazia uma última saudação aos colegas, estendendo o braço direito e gritando “Salve!”.
– Pretende esperar retorno do seu¿ — Asty perguntou a Tiberion.
– Não. Ele já deve estar em casa.
– O meu também. Quer me acompanhar no trem¿
– Sim, vamos juntos.
Dragões eram animais treináveis, mas nunca domáveis. Se quisessem poderiam abandonar o dono durante dias antes de retornar, o que muitas vezes acontecia quando saíam para caçar. Tiberion e Asty pagaram um dragão de prata cada ao homem da carruagem para que os levasse à estação de trem, e lá chegaram em menos de vinte minutos. Por fora ela era um enorme paralelepípedo de pedra, quase totalmente isolada naquela área da cidade. Perto dela era possível ver o Cerveja Fria e as duas únicas ruas que chegavam até ali, ambas de barro batido. A ala popular era feita de pedra cinzenta e cheia da fumaça que os trens produziam, que se misturava ao terrível cheiro de suor das massas. Às vezes Tib se perguntava se todo esse sofrimento para entrar em um trem não acabaria sendo muito mais caro que o ouro que se pagava na ala nobre. O chão era de mármore e as paredes eram repletas de detalhes em ouro. A linha de ferro ficava um pouco além da entrada, onde cada um pagou dois ouros ao bilheteiro, que lhes entregou as passagens para o Bairro dos Dragões.
A plataforma estava quase vazia, exceto por três senadores que estavam sentados em um bando do outro lado e um estrangeiro rico isolado em um canto. Enquanto o trem não chegava, Asty conferiu todos os documentos em sua pasta e suspirou.
– É impressionante, não¿
– O que¿ — Tib perguntou.
– A tecnologia. Há vinte anos não havia trens, mas agora eles são o transporte mais comum de Valíria. Sabe como funcionam¿
– Tenho alguma noção. – Ele respondeu tentando demonstrar seu desinteresse, mas não foi suficiente.
– Só usam filhotes de dragão nos motores, porque adultos não caberiam. Cortam suas asas e chifres para que demorem mais a crescer. Tem gente que acha isso uma agressão, mas eu prefiro dizer que é necessário, afinal é por um bem maior.
Um som de engrenagens de ferro e vapor invadiu a estação, e em alguns segundos o belíssimo trem nobre estacionou. Era revestido por bronze ouro, e a fumaça que saía da chaminé era canalizada para fora do teto, livrando o ar fresco de dentro da plataforma. Os passageiros entraram e mostraram seus bilhetes, sentando-se nos confortáveis bancos acolchoados. Para seu desespero, Asty voltou a falar.
– Esses filhotes de que te falei recebem uma alimentação especial, sabe, Por alguma razão desconhecida eles ficam mais potentes se comerem prata, então enchem a carne que eles comem de prata em pó. Os motores do trem funcionam com uma série de engrenagens, uma empurrando a outra e todas sendo empurradas por uma forte rajada de água em vapor. É aí que os bichanos entram, eles sopram sobre a câmara de água que faz tudo isso funcionar.é o que eu sempre digo, sem os dragões esta cidade não passaria de um amontoado de barracos, como aquele ali fora.
Disse isso apontando para a janela oposta ao bando em que estavam. Neste momento passavam pela periferia da Cidade, uma área onde vivam aqueles que não haviam conseguido um emprego digno na área urbana nem eram bons em fazer qualquer coisa na área rural. Era freqüente que um ou outro se vendesse para caravanas de escravocratas para não morrer de fome, mas a maioria ainda preferia viver na miséria daquele formigueiro humano. Dizia-se que as pessoas que nasciam ali não costumavam viver mais de vinte anos, isto se as pestes infantis permitissem que chegassem aos dez.
– Não entendo porque o Senado deixa esta porra existir. – Tiberion comentou.
– Porque eles precisam da pobreza. São os pobres que elegem os candidatos populistas. Estes sentam suas bundas gordas no Capitólio e se fartam de vida fácil, enquanto garantem a fidelidade desses paupérrimos enviando-lhes um prato de comida podre.
– Mas se querem agradá-los, por que não dão casas melhores¿
– Deixe-me ensinar uma coisa sobre pobreza, meu caro. Existem pobres e pobres. Um desses não se conforma com sua situação e dá um jeito de aprender a fazer alguma coisa, arrumar um emprego rum que seja suficiente para se alimentar todos os dias. O outro grupo mendiga nas togas dos senadores para que lhes dê um fiapo de carne que está preso entre os dentes. Se contentam com um pé de chinelo e não pedem o outro, votam em quem quer que garanta a sobrevivência de seus filhos. E isso é perfeito para os políticos, Tiberion.
– Quando fala assim eu entendo por que quer acabar com o Senado.
– Sim, é por isso também. Para dizer a verdade, foi nestas bandas que eu nasci. Não era assim tão deplorável, mas nem de longe era bom. Meu pai morreu de tanto beber e minha mãe me levou com meus dois irmãos para uma fazenda, onde ela tratou de cozinhar e as crianças aprenderam a plantar. Trabalhamos para vários senhores durante muitos anos até que ela morreu. Depois disso meus irmãos fizeram a estupidez de voltar para esse monte de merda, mas eu encontrei um ovo de dragão. – fez um sorriso feio depois de terminar de falar.
– Sabe onde estão seus irmãos¿
– Mortos, provavelmente. Ou cheios de filhos bastardos que comem nas mãos dos senadores. Mas não são problema meu, eles eram tão estúpidos quanto o pai que os gerou.
Tiberion não sabia o que pensar daquilo. Nunca tivera irmãos, mas se tivesse certamente os ajudaria. E seu pai fora a única família que tivera até morrer, então ele jamais cogitaria chamá-lo de estúpido ou qualquer coisa que o valha. Com o tempo as casas pobres foram ficando rarefeitas e deram lugar à Cidade propriamente dita. As ruas de pedra eram sem dúvida as mais belas do mundo. Há alguns anos todos os caminhos de barro batido haviam sido cobertos por pedras e estas derretidas pelo sopro de dragões. Hoje eram absolutamente lisas e extremamente resistentes, perfeitas para realizar qualquer atividade. Prédios de pedra e madeira se erguiam na beirada das ruas, alguns residenciais e outros comerciais. As pessoas transitavam freneticamente realizando suas atividades. Banqueiros, açougueiros, tintureiros e barbeiros, todos constantemente vigiados pela Polícia, um conjunto de cavaleiros elegantemente montados a cavalo com enormes mantos vermelhos, insígnia do Senado cosida no peito e capacetes de bronze com plumas vermelhas no topo.
Em alguns becos escuros, prostitutas baratas se ofereciam aos transeuntes, mas os bordéis eram certamente mais bem freqüentados. O dia já estava quase no fim, por isso neste horário os policiais passavam com tochas acendendo os postes da cidade. Depois do centro comercial, passaram pelo Bairro Político, onde ficavam as casas dos senadores e do cônsul. Pararam em uma plataforma naquele local, onde os três senadores desceram e o rico estrangeiro também, e Tib concluiu que ele provavelmente era algum embaixador. Um servente da plataforma local entrou com quatro archotes acesos e os pendurou no vagão onde os dois passageiros estavam, e assim o ambiente interno ficou mais visível. Além destas residências ficaria o Capitólio, o local de reunião para os bandidos de alto calibre, e ainda mais além ficavam as montanhas e os aquedutos, que traziam água limpa para a cidade. Já se passara meia hora desde que haviam entrado no trem quando este chegou ao Bairro dos Dragões.
Por mais bela que fosse a cidade de Qarth, nem de longe se comparava a este bairro. Fora construído em dois dias por uma força de oitocentos mil escravos e mil dragões, que fizeram as ruas com ouro maciço e as paredes com mármore fundido. Os dois saíram da plataforma e foram juntos a pé. Por mais que fosse realmente enorme, o bairro convidava a andar para admirá-lo. Mansões cem vezes maiores que o Capitólio se estendiam em duas fileiras, interpostas pelo maior campo de pouso para dragões que poderia existir. Córregos artificiais de água fresca tornavam o clima perfeito e levemente úmido, enquanto as fileiras de árvores e arbustos o revigoravam a cada fôlego. Sobre as mansões iluminadas pela luz dos postes, dragões dormiam pesadamente como animais quase domésticos. Em dado momento os dois tiveram de se separar, então trocaram um cumprimento e seguiram cada um o seu caminho.
Tiberion passou pela frente de doze mansões antes de chegar na sua. Xinarittia estava acima do teto, embalado em um sono quente e profundo. Então subiu as escadas da fachada e bateu à porta. Rexx, seu escravo doméstico mais fiel abriu a porta. Os outros cinco estavam ocupados acendendo archotes e tirando a poeira de móveis, então Tib subiu um lance de escadas para chegar ao seu aposento privado e tomar um banho para depois dormir. O dia fora cheio hoje.Cheio de idéias, pensou. Tentou se imaginar lutando em uma guerra no lombo do dragão, queimando aqueles cabelos esculpidos dos ghiscaris e depois transformando seus ossos em água. Toda a cerveja do dia resolveu pesar de uma só vez, então deitou-se e dormiu.
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