Senhores de Dragões
1 Tiberion 1
O dia estava mais quente que o mais cruel inferno, e nem as paredes frias da taberna o faziam parar de suar. Estava debruçado sobre um largo balcão de madeira revestida com mármore, cuja superfície brilhava com as gotículas de ar condensado que escorriam de sua taça gelada. Tinha vinte e oito anos, mas seus cabelos eram brancos como os de um velho de sessenta, por isso fazia questão de mostrar o rosto jovem raspando a barba diariamente. Seus olhos eram vermelhos, mas de um tom tão claro que quase não era perceptível. Ajeitou-se sobre o banco de madeira, evitando que suas nádegas adormecessem pelo peso do próprio corpo, e aproveitou para olhar o ambiente. O vazio que encontrara ao chegar de manhã cedo já não existia mais, e uns sessenta homens e mulheres já ocupavam as mesas em cada canto do recinto, às risadas e berros banhados em litros e mais litros de cerveja. Tiberion Ameray gostava dessa bebida dourada, mas pretendia estar sóbrio ao início da reunião. Não dormira toda a noite, talvez por ansiedade, talvez porque não fizera nada o dia inteiro, mas estava às portas do Cerveja Fria uma hora antes do dono do estabelecimento chegar.O cheiro de cerveja invadia suas narinas, então pensou que apenas uma taça não seria assim tão prejudicial.
– Jannen! – Tib chamou ao homem de bar. Ele estava acessando um armário alto, mais alto em busca de qualquer coisa, mas arou o que fazia para atender ao chamado do nobre. Tinha olhos castanhos e sobrancelhas louras extremamente espessas, só não tão espessas quanto seu bigode. De uma janela da parede saía um feixe de luz, plenamente refletido em sua cabeça calva. Vestia um conjunto grosseiro de panos brancos que mais pareciam sacos de batata, e pendurada em seu ombro estava uma bolsa de couro cheia de moedas.
– Pois, não, Lorde Ameray¿
– Aqui não, Jannen. – disse Tib, aproximando sua cabeça da do serviçal – Não quero ser reconhecido como nobre aqui, certo¿ — Era só meia verdade. Era certo que ele não queria que ninguém censurasse seu comportamento ou sequer fizesse reverências ao senhor de dragões. O Cerveja Fria era um local de diversão, e ele não pretendia estragar a de ninguém.
– Está bem, senhor... Tiberion. – respondeu – O que deseja¿
– Traga um quinto de cerveja para mim. Quanto custa¿
– Não vendemos quintos, senhor. Um litro completo custa três dragões de prata.
– Então lhe darei uma prata, certo¿ Quero apenas um quinto. Não estou em condições de beber muito neste momento.
– Certo. – ele respondeu, coçando o bigode suado. – Trago em um instante.
Virou-se e andou rapidamente na direção da torneira de cerveja. O espaço que Jannen tinha para trabalhar era grande demais para um homem só, mas ele insistia que era capaz de atender a todos os clientes o dia inteiro. O chão de pedra era mais sujo dentro do que fora do balcão, cheio de insetos que corriam esfomeados pela cerveja doce que vez ou outra era derramada sobre o chão. Uma verdadeira parede de ferro se erguia acoplada à de pedra, ocultando o complicado sistema que mantinha as bebidas geladas mesmo ao sol fustigante de Valíria. Jannen pegou uma taça limpa com formato de cone e a encheu até um quinto de sua capacidade. A espuma se formou e subiu até a boca, descendo enquanto ele fechava a torneira. Trouxe de volta em três passos, já vindo com a mão esquerda estendida para receber o pagamento. Tib enfiou a mão em um bolso e puxou um dragão de prata, entregando ao servente logo em seguida. Ele guardou a moeda em sua bolsa e saiu apressado como sempre. Tiberion acabou por pedir mais um quinto, e mais um, até que percebeu que sua visão começava a se turvar. Levantou-se e decidiu andar um pouco. Em meio à multidão que lotava a taverna, conseguiu passar pela porta dupla de vidro e sair para o pátio externo. Uma centena de cavalos estava amarrada em duas fileiras de portes de madeira, todos cobertos por um teto de palha. Estes eram os freqüentadores mais pobres do local. Quem não tinha condições nem para comprar um cavalo não era digno para freqüentar o Cerveja Fria.
Uns duzentos metros à diante ficava o campo de pouso para dragões. Um serviçal vinha com uma carruagem e trazia os senhores de lá até a porta do salão principal, de onde geralmente subiam as escadas para os camarotes. Era em um destes que Tiberion haveria de se reunir hoje com seus amigos, ou melhor, seus colegas de função. Um lampejo de luz jorrou dos céus, anunciando a chegada do dragão dourado de Gaius Taxx. A fera batia as asas tão lentamente que parecia que iria cair, mas nenhum dragão poderia cair dos céus, a não ser que estivesse morto. Xinarittia, o dragão de Tiberion, contorceu o pescoço e agitou as asas ao sentir o cheiro que fogo que vinha do alto, mas não tentou voar, pois já sabia que atrapalharia o pouso do outro animal Era interessante ver como os dragões eram capazes de se comportar sem precisarem ser amarrados ou chicoteados. Graças aos deuses por isso, pensou, ai do homem que tentar chicotear um dragão. Um serviçal aprontou sua carruagem e estava prestes a partir, quando Tib lhe deu um dragão de bronze para que o levasse até lá. Depois de quatro horas debruçado sobre o balcão do Cerveja Fria, tudo pelo que ele ansiava era um rosto conhecido. Pararam à distância segura e esperaram a chegada do enorme dragão.
Ele pousou em uma explosão de poeira que inundou o ar à sua volta. O serviçal correu para ajudá-lo a descer, e como sempre a manobra quase resultou em um osso quebrado. Gaius não era um homem gordo, era o homem gordo. Seus pés tinham o tamanho de cabeças e só os deuses sabiam como ele conseguia enxergar em meio àquele rosto mole e inchado. Como a maioria dos senhores de dragões, ele montava o seu sobre uma cela armada em grandes estruturas de madeira sobre o lombo de seu animal, mas no caso dele a sela mais parecia um salão de festas. Vestia um conjunto de tecidos leves que misturavam o tokar ghiscari à toga nobre valiriana, algo que em outra situação poderia ser usado para construir uma tenda, e sobre a cabeça trazia um turbante branco encharcado de suor na base. Tiberion não entendera muito bem por que Gaius insistira tanto neste assunto tão delicado. Era valiriano, filho de mãe nativa e criado na Cidade Franca, mas seu pai vinha de uma linhagem nobre ghiscari, linhagem tal que ainda existia, e estava prestes a entrar em guerra contra Valíria.
– Salve, Gaius. – cumprimentou-o Tib, enquanto o outro adentrava à sombra da carruagem.
– Salve, Tiberion. – ele respondeu, estendendo o antebraço na direção do colega, no momento em que a carruagem partia em um sofrido ranger das rodas pelo enorme peso que suportavam. Tocaram um a mão no antebraço do outro, no cumprimento tradicional da nobreza. A pele de Gaius Taxx era marrom-clara, mas perto do braço pálido de Tib parecia ser tão preta quanto ônix.
– Está mesmo certo de que quer participar disso¿ Você sabe, Claudyon e Reixxe não vão partir para a guerra.
– Por favor, Tiberion, não me importune com isso. – ele começou a falar, fazendo os mil quilos de gordura do seu queixo liso vibrarem. Seus olhos eram pretos, ou tão perto disso que não faria diferença, e as pálpebras suadas quase não tinham cílios. As sobrancelhas eram crespas como de qualquer ghiscari, mas graças aos deuses ele raspava a cabeça em vez de fazer esculturas com o cabelo. Nenhum bigode ou barba brotavam de sua face, provavelmente por ter gorduras demais. – Desde que chegaram os primeiros rumores de guerra vocês têm me tratado como estranho, como se não nos conhecêssemos há uma década!
– Porque você tem sangue ghiscari, oras. E um nome ghiscari.
– Não, Ameray. O nome da família de meu pai era Taxxaniazka, o nome que ele me deu quando nasci foi Gacchos. Minha mãe fez a bondade de me chamar por um nome mais simples desde a infância, e quando me tornei suficientemente rico, fui ao cartório e mudei de nome. Ainda mais, meu caro. Creio que se eu participar desta vitória finalmente receberei as honras do Senado.
– Se você diz, não vou mais insistir.
– Agradeço.
A carruagem parou em mais um ranger de madeira e Gaius estendeu a mão direita para que o serviçal o ajudasse a descer. Os dois passaram juntos pela porta principal do Cerveja Fria, que milagrosamente era suficientemente larga, e seguiram pelo corredor à esquerda que daria acesso às escadas. Dizia-se que aquela taverna fora construída sobre as fundações de um palácio de algum nobre deposto da Era da Dominação, por isso era tão grande e cheia de espaços luxuosos. Mas por ser tão antiga, não possuía um elevador, o que fez Gaius Taxx gemer de dor simplesmente por ver as escadas em espiral.
– É só um andar, Gaius. – Tib tentou tranqüilizá-lo.
– Nem sei se eu caibo nesta porra. – ele respondeu – Por que não me disse que não tinha elevadores¿
– Pensei que já tivesse vindo aqui antes, é a taverna mais famosa da cidade.
– Sim, eu vim aqui, mas foi há uns quinze anos e eu pesava cem vezes menos. E não vim aos camarotes, não. Naquele tempo meu dragão ainda era jovem e não tinha me conseguido muito dinheiro – ele se adiantou na direção da escada e subiu os três primeiros degraus, já arfando – Espero que os serventes aqui sejam rápidos, precisarei de um litro de água gelada quando chegar lá em cima.
– Há uma equipe exclusiva nos camarotes, pode ir tranqüilo.
– Certo, mas vá na frente. Não quero atrasar você.
Assentiu com a cabeça e subiu. Contou trinta e três degraus, imaginando o sofrimento do amigo gordo que subia, mas não se apiedava dele. Conhecera Gaius doze anos antes, enquanto os dois eram apenas rapazes e voavam alegremente pelos campos agrícolas das Terras do Longo Verão, ameaçando os grandes fazendeiros em troca de uns punhados de ouro. Neste tempo Tib era um banal filho de um comerciante razoavelmente rico, e o outro era um entediado filho de um nobre ghiscari. Depois de um tempo descobriram que poderiam criar colônias e contratar homens para governá-las para lhes render impostos, assim como poderiam comprar escravos para escavar minas de ouro. O filho do ghiscari era o mais rico nesta época, mas em poço tempo milhares de ovos de dragão foram chocando e gerando novos magnatas de Essos. Expulsaram a nobreza dominante e incendiaram o palácio do rei Tarkenay para tomarem o poder, mas mantiveram o Senado, porque a sabedoria deles seria importante para administrar a cidade.
Tiberion fazia parte do Ministério Colonial, um conjunto de sete lordes que decidia sobre a administração de tudo o que estava fora de Valíria, mas com supervisão do Senado. Não era o órgão mais poderoso, mas garantia uma vida agradável. Hoje deveria se reunir com seus parceiros de trabalho para juntos criarem um plano de guerra contra os exércitos de Ghis. A milenar cidade estava incomodada com a expansão das colônias valirianas e iniciara uma série de pequenos ataques às periferias, tomando terras e saqueando bens. Depois desta reunião, deveriam entregar tudo aos senadores para a aprovação, e então poriam o plano em prática. Lorde Gaius Taxx pedira autorização para participar do planejamento desta guerra com o intuito de poder entrar para a política valiriana, não só como dominador, mas também como administrador. Tib considerava isso boa coisa, já que dois lordes do Ministério haviam pedido renúncia do cargo e se retirado para suas colônias, prometendo voltar após o fim da guerra. Gaius conseguiu subir, em um tempo surpreendente para ambos.
Pediram água depois cerveja, e demorou quinze minutos até mais dois membros chegarem. Asty Ocarion era o homem mais inteligente do grupo. Baixo e magro, permanecia fisicamente idêntico à primeira vez que fora avistado sobre um dragão azul , exceto por um dente que substituíra por uma peça de ouro. Seus olhos e cabelos eram cinzentos e sem graça, formando uma estranha harmonia com a cabeça em formato meio quadrático e expressão de nada no rosto. Asty era um pouco feio, como todos os camponeses eram naturalmente feios. Ninguém poderia confirmar sua história, afinal ele nem sequer fora registrado em cartório, mas dizia que furtara um ovo de dragão da carroça de um mercador qualquer que passava pela fazenda para comprar qualquer coisa, e depois de uma noite no fogo havia conseguido uma bênção voadora. Não havia sequer uma grama de ouro no cofre deste homem, mas provavelmente era o mais rico dentre os senhores de dragões. Ele não acreditava em deixar o dinheiro acumular, mas investia em empresas de Qarth e Asshai, construtoras de barcos e cobrava impostos do tráfico de escravos. Até tinha uma colônia, mínima, mas existente, um pequeno pedaço do norte de Naath, mas seu lucro partia das manobras e investimentos que fazia.
– Desculpem pelo atraso. – ele disse, olhando para baixo e coçando o pescoço, como costumava fazer quando se sentia errado – Minha reunião com a representante do Banco de Asshai de estendeu.
– Se estendeu na sua cama, imagino. – zombou Dennae Sharmen, que entrava no salão logo atrás do outro. – Vocês tinham de ver, que bela representante era ela! – soltou uma gargalhada – Quando fui chamar Asty eles estavam com as roupas amassadas e cabelos embaraçados, senhores. Parece que nosso colega além de um grande gênio é um grande conquistador!
– Pare com essas idiotices, Dennae! – exclamou Asty, com numa irritação risível – Minha vida pessoal não é da sua conta.
– Ah, sim, creio que não seja. – ele respondeu, enquanto murchava o sorriso e piscava um olho na direção da vítima. Seu rosto era simples, não muito belo, mas também não era feio. Os cabelos eram louros e os olhos, dourados. Seu rosto era coberto por uma barba jovem de uns cinco centímetros de comprimento, tão leve quanto fios de linho fino.
Dennae Sharmen era o único ali que herdara o dragão que possuía, assim como todas as suas colônias. Seu pai era carregador de caixas em um dos navios do pai de Tiberion, e encontrara em uma carga de Asshai um belíssimo baú com dois ovos de dragão, na época em que ninguém tinha muita certeza sobre como essas coisas funcionavam. Aegon Sharmen roubou um e Tiberion roubou outro, mas aquele chocou antes e cresceu mais rápido. O dono foi o primeiro membro do Ministério Colonial, convocando os outros seis que ainda faziam parte deste, mas acabou morrendo cinco anos depois, deixando seu filho de catorze anos no seu lugar. Hoje Dennae estava com vinte e três anos, mas com mentalidade de quinze. Gostava de passar diversas noites seguidas em orgias com moças e rapazes, e só os deuses sabiam como ele conseguia governar o maior dragão do mundo estando quase que permanentemente bêbado. Mas por alguma honra especial ele resolvera entrar para este conselho de guerra, provavelmente porque não queria perder as honrarias do Senado.
Todos se sentaram e trocaram cumprimentos vagos, entrecortados por piadas de Dennae, algumas bem ruins e outras piores, mas todas eram absolutamente hilárias para ele. Depois de trinta minutos de conversas aleatórias sobre a guerra regados a algumas taças rasas de cerveja e cidra, Gaius levantou a voz e questionou:
– Senhores, creio que já é tempo de começarmos.
– Ainda não, falta chegar Maegor. – argumentou Tiberion.
– Já faz quase uma hora. Creio que já esteja tarde demais para alguém mais chegar, e em breve estaremos todos bêbados.
– Exceto por você, Gaius. – interveio Dennae – Precisaria de uns oitenta litros de cerveja para encher essa sua pança. – e soltou uma gargalhada logo em seguida, revelando seus dentes já amarelados pela cerveja.
Gaius Taxx suspirou e ignorou o comentário, para o alívio de todos. Ele fazia esforço para controlar os próprios impulsos desde a última vez que explodira e esmurrara Lorde Aegon Sharmen dez anos antes, perdendo assim seus direitos políticos em Valíria. Tiberion resolveu tomar a palavra desta vez. Endireitou-se na cadeira e ordenou ao serviçal que limpasse a mesa e Asty abriu uma pasta para tirar um conjunto de mapas dos domínios de Ghis e de Valíria, com marcações a tinta vermelha nos locais onde já havia acontecido ataques. Puxou também uma lata de tinta e algumas penas, posicionando tudo sobre a mesa de uma maneira metódica e rápida.
– Não podemos nos dar ao luxo de esperar previsibilidade. – Asty começou a falar, desta vez com a voz bem mais firme que de costume, enquanto apontava uma área no mapa. Até Dennae o respeitava nesses momentos – Atacaram primeiro aqui, na foz do Roine. Depois em Lhazar e finalmente ao sul da Península. São lugares totalmente aleatórios, portanto difíceis de se prever.
– Talvez não seja tão aleatório assim. – comentou Gaius – Vieram de um lugar mais distante para um mais próximo, isso pode indicar alguma coisa.
– Não podem pretender atacar a Cidade Franca. – disse Tiberion.
– Não, não pretendem. – Asty respondeu – Mas não duvido que pretendam avançar mais nos nossos domínios. Sabemos que diversos lordes já se deslocaram para as suas colônias periféricas, desde a costa oeste de Essos até as proximidades de Ibben.
– Quem é dono de Ibben¿ — Tiberion perguntou.
– Maegor Dicaryen. – respondeu Gaius, seguido por um momento de silêncio – Acham que ele partiria sem nos avisar¿
– Talvez, mas seria compreensível. – Asty falou.
– Por quê¿
– Pela notícia que chegou hoje. – disse isso puxando uma pena e abrindo a lata de tinta vermelha. Folheou alguns mapas até encontrar o que mostrava o norte de Essos – Temo que vocês dois não tenham tomado conhecimento, afinal foi pouco depois de eu sair de casa. – Fez um círculo vermelho no mar que ficava entre a ilha e o continente – A frota de Yunkai está ancorada perto de Ibben. Ainda não invadiram, mas bloquearam a maior parte do comércio no porto. Por enquanto só estão permitindo a entrada de água e alimentos.
– Então não é um cerco definitivo.
– Não, mas seria suficiente para Maegor sair voando daqui em desespero.
Os outros homens se entreolharam por alguns instantes em silêncio, até que Dennae abriu a boca para falar algo de útil;
– Você disse que ele voaria¿
– Sim.
– Não sabia que travávamos guerras com os dragões, Asty. O Senado fez leis sobre isso, não fez¿
– Fez sim. – Tiberion respondeu – A lei diz que só se pode usar um dragão para matar uma pessoa com a autorização do Cônsul, algo que Maegor certamente não teria.
– Talvez não queira matar. – opinou Gaius – Pode estar só ameaçando, como nós fazemos vez ou outra para garantir que paguem os impostos.
– Temo que não seja isso. – Asty respondeu – Os ghiscaris conhecem nossas leis, não adiantaria ameaçar seus exércitos desta maneira. E nós sabemos que Maegor nunca foi homem de pensar antes de agir.
– Se for verdade, é lamentável. – Gaius Taxx continuou – Então precisaremos apelar para a força máxima¿
– Somente em último caso. Por enquanto meus planos são reforçar a segurança de Valíria implantando mais postos militares nas redondezas. Além destes deveremos mandar destacamentos na direção de Ghis.
– Invadi-la¿ — Dennae questionou.
– Sim, invadi-la, afinal eles nos invadiram.
– Isso seria insensato, Asty. – Gaius falou – Nosso exército é eficiente, mas contra tribos, khalassares e bárbaros da Colina. Não podemos simplesmente invadir os domínios ghiscaris sem receber uma retaliação forte.
– Não tão forte quanto um dragão. – Asty respondeu.
– Você sabe que... que vai ter que ir para o campo de batalha, certo¿ — Dennae disse, com a voz trêmula – Que todos nós teremos de ir.
– Eu sei disso, e estou disposto. Claro que vou compreender se Gaius não for, mas o restante de vocês tem plenas condições...
– Eu vou, Asty. – Gaius o surpreendeu – Quem voa é o dragão, quem mata também é ele. Eu ficarei confortavelmente sentado em minha cela.
– Fico feliz por isso. Tiberion¿
Virar um maldito soldado, ele pensou. Mas não poderia ser algo assim tão ruim. Não tinha esposa nem filhos que pudessem chorar sua morte, e se vencesse...
– Qual será a nossa recompensa após a vitória¿ — perguntou a Asty.
– Se o fizermos com os dragões, certamente receberemos a autorização para matar quando bem entendermos.
– Isso não me parece algo positivo. – acrescentou Dennae – Haveria problemas com a ordem pública.
– Ninguém vai sair matando gente aqui na Cidade, estou me referindo aos campos longínquos e às terras ainda não conquistadas.
– Como Ghis¿ — Gaius perguntou.
– A longo prazo, sim.
– Já pensou nas conseqüências políticas disso, Asty¿ — Tib questionou – Há uma enorme rede de comércio dominada pelos ghiscaris há pelo menos nove mil anos. Se tomarmos o poder dos Mestres, o que haverá para fazer¿
– Não precisamos tirá-los de lá, apenas tirar suas coroas. Veja, Lorde Aegon foi o primeiro a conquistar as terras dos roinares, mas não tirou o príncipe do poder. Hoje eles continuam fazendo o que sempre fizeram, mas nos pagam os impostos que devem.
– O príncipe do Roine se rendeu ao meu pai. Não espera que Ghis se renda, espera¿
– Ghis não. Esta precisará receber uma lição um pouco mais severa, então as outras terão de se render.
– E o que sugere¿ — Gaius perguntou.
–Dizimação. Destruiremos totalmente as pretensões dos ghiscaris, faremos esta civilização deixar de existir. – Asty falava com um estranho brilho nos olhos, como se ansiasse por aquele momento. Alguns segundos de silêncio se passaram, e em algum momento todos dirigiram olhares constrangidos a Gaius Taxx, mas este parecia não estar reparando.
– A ordem que recebemos do Senado foi traçar um plano de defesa, meu caro. – começou a falar, enquanto deslizava as mãos gorduchas uma na outra. — O que está propondo é uma manobra monumental de ataque, algo simplesmente sem precedentes. Imagine quantas vidas inocentes serão tiradas em uma operação de dizimação!
– Como as crianças dothrakis que você matou¿ — respondeu Asty, em um tom ameaçador.
– Aquilo foi diferente, pelos deuses! Não foi com o dragão, foram meus exércitos. São humanos lutando contra humanos, um combate justo, e mesmo assim sempre vencemos.
– Exceto pelo fato de que os exércitos ghiscaris não são humanos. – Tiberion acrescentou – São Imaculados. Até hoje não se tem notícia de terem sido vencidos.
– Por isso pretendo atacar com os dragões.
– Olhe aqui, Asty. – Gaius interrompeu-o – Eu disseque estava disposto a realizar a missão com o uso de dragões. Sim, mataria imaculados e torraria os saqueadores com o maior prazer. Mas a cidade de Ghis não é um simples posto militar. Algum de vocês já esteve lá¿
Olhou em volta, como que à procura de algum olhar de aprovação, mas ninguém reagiu, e então ele continuou.
– Pois eu estive quando meu pai morreu, dezoito anos atrás. Não vi toda a cidade, na verdade só fiquei lá durante três dias para o funeral, mas do que vi, acreditem, é uma cidade fantástica. Não só pelos elefantes que dividem o espaço da rua com cavalos e gente, não só pelas enormes pirâmides de mármore vermelho, não. Mas também pela história. Existem bibliotecas em Ghis que poderiam abrigar dez mil prédios como o Cerveja Fria, completamente cheias de pergaminhos com todos os assuntos possíveis. São quase dez mil anos de história, desde uma época tão longínqua que não havia nenhum outro povo até hoje. Não podemos simplesmente dizimar esta cidade.
– Para falar a verdade, Gaius, pouco me importa esta sua cultura ghiscari. – Asty respondeu friamente – E além disso, devem existir cópias e mais cópias destes malditos documentos em Meereen ou Astapor, sempre há.
– Mas não podemos negar a perda...
– Mas não podemos negar o ganho! – desta vez Asty quase gritou. – Por favor, Taxx, o que há de errado com você¿ Garantiu que participaria da operação sem objeções, mas agora defende Ghis¿
– Uma operação de defesa! Nunca disse que faria parte de um extermínio de gente e de cultura. Por favor, alguém esclareça a este ambicioso sem limites o que estamos fazendo.
Tiberion e Dennae se entreolharam, completamente sem ação. Para Tib também pouco importava a história ou a cultura de uma nação, afinal se ele não precisava conhecê-la hoje, as pessoas no futuro também não precisariam.
– Para falar a verdade, Gaius, – ele começou a falar – Eu vejo mais vantagens que desvantagens aqui. Exterminaremos apenas uma cidade e todas as outras passarão ao nosso domínio. Nós, que planejamos o ataque, poderemos dividir a recompensa e cada um terá o controle de uma cidade escravagista. O ouro que você já tem será multiplicado por um milhão quando estiver no comando de Astapor ou Yunkai, e quem sabe um dia poderemos conquistar Qarth.
– E sobre estes pergaminhos. – Dennae acrescentou – Imagino que não queimaremos toda a cidade em um minuto, certo¿ — ele olhou para Asty, que assentiu com a cabeça – Você pode colocar tudo em um navio e deslocá-lo para longe da confusão. Nem precisará estar no meio do fogo, pode simplesmente ficar no navio e voltar para Valíria. Só depois disso queimamos as bibliotecas.
– Porra, não é assim tão simples. – O homem gordo passou as duas mãos pelo rosto – Não posso concordar com isso, a família de meu pai vive lá. Se me permitissem avisá-los.
– Não pode. Nunca, em hipótese alguma. – Asty respondeu.
– É verdade, Gaius. – Tiberion acrescentou – Já tivemos muito trabalho para conseguir sua autorização do Senado para participar deste conselho; não podemos estragar tudo transformando você em um informante.
– Neste caso terei de abster.
– Neste caso não receberá as honras do Senado.
– Por fratricídio¿ Prefiro me deslocar para Vaes Dothrak e desfrutar da hospitalidade dos senhores de cavalos até esta guerra acabar.
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