Estava em casa trancada no meu quarto junto com a minha gatinha, Maeli, ela adorava ficar deitada nas minhas pernas enquanto eu ficava sentada na cama lendo algum livro.

Estava quase terminando o livro, O alienista de Machado de Assis, que era pra um trabalho de escola, um livro em que o personagem acredita que todos ao seu redor estão loucos e acaba percebendo no final que o maior louco de toda a história era, na verdade, ele mesmo. São poucas páginas e por isso acabo logo, assim que termino meu dever, expulso Maeli do meu colo e visto um short e uma regata por cima do top para ir à praia, pego meu celular, fones de ouvido e saio do meu quarto.

Quando passo pela sala em direção à porta, meu pai pergunta a que horas pretendo voltar, mas eu não o respondo, apenas atravesso a porta e a bato com força. Tivemos uma briga mais cedo e eu estou completamente sem paciência para falar com ele. Além do mais, ele já sabe que vou à praia e que costumo voltar sempre um pouco após o pôr-do-sol, isso não é segredo pra ninguém.

Faço o de sempre, ando de uma ponta da praia até a outra com meus fones de ouvido no volume máximo ao som de Apanhador Só. É uma das minhas bandas nacionais favoritas e adoro caminhar pela praia ouvindo suas músicas.

— Ei! – Alguém me toca no ombro e eu me viro para olhar, ao mesmo tempo em que pauso minha música para poder ouvir melhor. – Lembra-se de mim? – É o mesmo guri de ontem, aquele que me pediu informação sobre um hotel. Balanço minha cabeça afirmativamente em resposta a sua pergunta e ele vem com outra: — Qual o seu nome?

— Iara e o seu?

— Rafael. Você mora aqui perto?

— Mais ou menos. – Respondo e um silêncio se cria entre nós. Encaro-o e ele me encara de volta, como se estivesse esperando que eu dissesse algo, mas eu não sou boa com essas coisas. Permaneço calada, esperando que ele perceba o meu desconforto e se mande daqui, mas ele faz o contrário, quando percebe que eu não irei puxar assunto, ele resolve fazê-lo.

— Você sempre vem aqui no mesmo horário?

— E por que quer saber? Não saio por aí falando sobre meus hábitos diários com desconhecidos.

— Desculpa, não foi minha intenção ofendê-la. Só pensei que seria legal fazer amigos já que vou ficar aqui por algumas semanas.

Olho para ele com um olhar desconfiado. Analisando-o. Decidindo se devo dar trela à conversa ou terminá-la por ali, não tenho amigos, não me dou bem com a minha família, então, praticamente sou apenas eu e mais ninguém. Estar sozinha cansa às vezes e ter um amigo não seria de todo ruim. Resolvo dar-lhe uma chance para conversa.

— Sim. Sempre aqui e no mesmo horário. Gosto de subir nas dunas para observar o pôr-do-sol.

— Legal... – Ele diz com um sorriso no rosto que parece ser sincero. – Sozinha?

— É... Não tenho muitos amigos, mas eu nem ligo, contato que eu esteja assistindo ao pôr-do-sol, pouco me importa se estou acompanhada ou não.

— Então eu lhe farei companhia essa tarde. – Ele diz entusiasmado mas eu não fico muito feliz com a ideia, quando ele percebe minha falta de entusiasmo, completa: — Se você quiser, é claro.

Reflito bem por um minuto enquanto ele não para de me encarar nos olhos.

— Não creio que seja uma boa ideia. Eu mal te conheço. – Digo e passo por ele. Saio andando em direção as dunas, o sol vai logo se pôr e eu não quero perder este espetáculo.

Penso que ele já foi embora, quando escuto ao longe um grito “Até amanhã, Iara”. Não me viro para trás e nem o respondo de volta, mas uma parte minha fica contente.

Notas finais
Os próximos capítulos já estão escritos, vou postando a medida que for recebendo comentários. Bjos ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.