Sempre vai ser assim?
1 Capítulo Único
Fight, babe, I'll fight
To win back your love again
I will be there
I will be there
Scorpions
— Ada. Ada Wong... Sempre vai ser assim? Você apenas fugindo?
Ada parou por um instante, mas não se virou imediatamente. Um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios, mais divertido do que culpado. Quando finalmente olhou para Leon por cima do ombro, seus olhos permaneciam tão indecifráveis quanto sempre.
— Fugindo? — respondeu com uma sobrancelha arqueada. — Estou trabalhando, senhor Leon Scott Kennedy. Sou uma espiã. Uma mercenária. E, principalmente, não devo nenhuma satisfação a você.
Leon soltou um suspiro frustrado. Era sempre assim. Sempre que acreditava que finalmente conseguiria entendê-la, Ada erguia outra muralha entre os dois. Sempre haveria aquela parede invisível entre eles? Para o grande ranço de Leon?
Tudo começara dois anos antes, na remota vila rural da Espanha. Ou, no caso, só piorou algo que já acontecia há anos. Há quanto tempo se conheciam, afinal?
Enviada por Albert Wesker, Ada tinha uma missão clara: infiltrar-se no território controlado pelo culto Los Iluminados e recuperar uma amostra do parasita conhecido como Las Plagas, um organismo capaz de controlar a mente de seus hospedeiros. O objetivo era simples na teoria, embora a execução estivesse longe disso.
Foi durante essa missão que seus caminhos voltaram a se cruzar.
Leon S. Kennedy estava ali em uma missão completamente diferente. Como agente do governo dos Estados Unidos, sua prioridade era encontrar e resgatar Ashley Graham, a filha do presidente, sequestrada pelo culto fanático liderado por Osmund Saddler.
Durante aqueles dias, os dois trabalharam lado a lado diversas vezes, ainda que por interesses distintos. Ada aparecia nos momentos mais improváveis para ajudá-lo, eliminava inimigos antes que eles o alcançassem e desaparecia antes mesmo que Leon pudesse fazer perguntas.
Era o mesmo jogo de gato e rato de anos atrás.
No confronto final contra Saddler, Ada foi decisiva. Lançou para Leon o equipamento necessário para derrotar o líder dos Iluminados, permitindo que ele encerrasse o pesadelo de Las Plagas. Mas sempre tinha um mas. Mas, contudo, todavia, porém e como sempre, cada favor tinha um preço. Assim que Saddler caiu, Ada tomou para si a amostra dominante do parasita, exatamente o que Wesker havia ordenado que recuperasse. Ignorando os protestos de Leon, embarcou em um helicóptero e desapareceu no horizonte, deixando para trás apenas o som das hélices e inúmeras perguntas sem resposta.
Dois anos se passaram.
Durante esse tempo, Leon nunca soube onde Ada estava, para quem trabalhava ou sequer se ainda estava viva. Apenas seguia em frente, convencendo a si mesmo de que ela era apenas mais uma lembrança impossível de esquecer.
Até que ela surgiu novamente. Como sempre, inesperadamente.
Mais uma missão. Outro desastre prestes a acontecer. Outra vez, Ada parecia estar vários passos à frente de todos. Leon tentou arrancar alguma explicação, perguntou para quem ela estava trabalhando, qual era seu objetivo e por que continuava aparecendo apenas para desaparecer logo depois.
Ela não respondeu nenhuma dessas perguntas. Em vez disso, aproximou-se lentamente.
Pousou a mão delicadamente sobre o rosto dele, acariciando sua pele como se tentasse memorizar cada traço. Seus dedos percorreram sua mandíbula com uma ternura que contradizia completamente a imagem fria e calculista que sempre sustentava.
Leon permaneceu imóvel. Por um instante, não havia missões, armas, monstros ou conspirações. Qualquer zumbi ou iluminado? Bem longe dali! Apenas os dois. Ada então encostou os lábios nos dele. Depois de tantos anos, o primeiro beijo deles. Foi um beijo de língua demorado, com Ada continuando a acariciar o rosto do homem por um bom tempo. Um beijo carregado de tudo aquilo que jamais tiveram coragem de dizer em voz alta. Era bom sentir o perfume de Leon de tão perto, finalmente, sentir o calor de seu corpo...
Durou muito menos tempo do que Leon gostaria. Quando ele abriu os olhos novamente, ela já estava se afastando. Céus, ela estava tão linda com aquele kimono vermelho. Aquela bota de cano alto que não combinava com aquela vestimenta. Por que raios ela precisava ir? O que diabos ela aprontaria dessa vez?
— Ada… Vamos embora comigo, Ada!
Ela sorriu, tentando disfarçar a tristeza em seu olhar. Ao menos, ela se sentia levemente satisfeita por parar de adiar um ato que sempre quis fazer. Satisfação, entretanto, estava longe de ser a palavra mais apropriada. Havia um misto de decepção, por não poder ficar mais tempo.
— Não torne isso mais difícil do que precisa ser.
Sem esperar resposta, virou-se e partiu outra vez, desaparecendo na escuridão exatamente como sempre fazia. Por que caralhos não podia ficar mais tempo? Por que caralhos levou para frente uma vida de mercenária, não uma vida ao lado dele? Afinal, naquele momento que Ada finalmente aceitou uma verdade que vinha evitando havia anos. O sentimento era recíproco. Leon a amava. E ela também o amava.
O sentimento era recíproco. Nunca mais precisaria fingir que era apenas interesse profissional ou uma conveniência do destino. O vínculo entre os dois era real, profundo e inevitável.
Is there really no chance to start once again?
I'm loving you
O sentimento era recíproco. Nunca mais precisaria fingir que era apenas interesse profissional ou uma conveniência do destino. Ainda assim, Ada conhecia seu próprio mundo. Ela vivia entre mentiras, contratos, organizações clandestinas e traições. Por que caralhos? Dinheiro. Sua vida exigia desaparecer sem deixar rastros, mudar de identidade quando necessário e colocar a missão acima de qualquer sentimento. A grana era alta, cacete! Talvez, compensasse mais a grana que qualquer homem.
E Leon, por outro lado, era exatamente o oposto. Não era só pelo dinheiro. Ele acreditava em salvar pessoas, em fazer a coisa certa, mesmo quando isso lhe custava tudo. Era um homem que carregava o peso do mundo nos ombros sem abandonar seus princípios. Ele quase morreu, enquanto procurava por Ashley na Espanha. Não ganhou só dinheiro, mas também uma melhor amiga, graças a missão. Ao menos, Leon tinha amigos, não tinha?
Era uma guerra? Se sim, então eles pertenciam a lados diferentes da mesma guerra. Por isso, Ada fez a única escolha que acreditava ser possível. Continuaria amando Leon. Contudo jamais permitiria que esse amor se transformasse em uma vida ao lado dele. Talvez ela gostasse mais de dinheiro. Talvez, ela acreditasse que heróis não foram feitos para amar mulheres como Ada Wong.
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