Estava andando pela rua gélida e fria, olhando a janela das casas com janelas apagadas. Todos haviam dormido. Então, porque eu não? Pisando firme no cimento da calçada, que de tão velho parecia rachar a cada passo meu. Parei na frente de uma casa diferente das outras . Era verde-musgo , e havia flores em toda parte, sendo em vasos ou na terra. Ali morava a tia de... Bem, um garoto. O jardim era dele na verdade, a tia não tinha paciência pra cuidar de "meras" plantas. Então ele passava o dia cuidando dele. Ele fez um trabalho espetacular. Desvio meu olhar do jardim , para a janela emitindo uma luz branca, estava aberta. A casa tinha pedras ali e aqui na parede, o que facilitava escalar até as janelas. A casa era térrea, mas obviamente tinha um sótão acima dela. Era ele que a janela estava aberta, e com a luz acesa. Uma das poucas janelas com lâmpadas acesas da cidade. Da minha pequena cidade. Mas,porquê estava acesa ? Quem estaria lá em cima? A tia dele, provavelmente não está em cssa. Todas as terças ela vai beber. E ele fica em casa. Essa semana, ela não foi só às terças, mas sim todos os dias, talvez por causa do trabalho de consultora. O que ele estaria fazendo? Não é da minha conta, mas eu quero saber. Agarro com a mão umas das pedras na altura de minha cabeça, e coloco p pé em outra . Eu havia aprendido a escalar com... Bem, isso não importa. Eu sabia, isso é o ponto essencial. Cheguei até a janela do sótão, mas continuei escondida, observando o quarto. Pelo que vejo, era o quarto dele. Bonitinho, mas um tanto ... Cliché, talvez ? Na parede à frente da janela , tinha um uniforme de soldado militar, embrulhado em plástico. Parecia nunca ter sido usado. Impecável. Ao lado dele, uma estante. Lá havia roupas dobradas e algumas figure action. A esquerda da janela, havia a cama, forrada com um xlençol xadrez cinza com branco. Encima dela, havia um pôster do homem indo à lua. À direita da cama, uma pequeno escravo- mudo com duas gavetas, e encima dele, um abajur laranja, manchado de azul. Na parede à direita da janela, havia uma pequena TV de plasma. Na estante onde estava a tv, havia várias pilhas de CD's. Aliás, havia filmes espalhados por todo o quarto. Na parede que se encontrava a janela, não havia nada. Somente a janela e uma cortina cinza de plástico, suja de tinta. O garoto não estava lá. Quero ver tudo mais de perto... Não faz mal! Entro pela janela , e observo os CD's que estavam jogados no chão. A maioria, eram filmes desconhecidos, o único que não era foi Titanic. Nunca assisti. Fui até o traje militar. Realmente, era muito impecável. Nenhum humano deve ter sequer ter entrado nele. Entra um vento forte pela janela, derrubando algumas pilhas de CD'S. Me viro até a janela, lá havia um vulto, sentado na barra da janela. Tenho um susto. Não só por causa do vulto. Na parede havia uma sombra, sem nenhum dono, sendo que, nela no lugar dos olhos havia dois círculos brancos. Não se movia. Era uma pintura talvez... O vulto ainda na janela, tinha em mãos um grande bloco de notas. Nele tinha escrito : "Sabia que a noite pode durar uma vida ? "

O vulto se levanta e vem até mim.Era o garoto. Tinha o cabelo castanho raspado no lado direito, usava uma regata branca rasgada na barra e nas "mangas". Também usava uma calça de moletom cinza. Rosto neutro, apesar que eu estava dentro de seu quarto, à noite, sendo uma completa desconhecida. Ele pega o bloco de notas que havia colocado no bolso e começa a escrever.

"O que você tem na mochila?"

Pego a mochila e jogo perto dele. Ele faz um gesto, perguntando se poderia ver o que havia dentro. Balanço a cabeça, concordando. Ele começa a tirar as coisas que há dentro. Mas... Ainda tenho uma dúvida. Eu me lembro que, quando passei em frente a essa casa semana passada, ele estava regando as flores e conversando com a vizinha, que morava num prédio cinza sem graça. Mas porquê ele não fala agora? Quando ele finalmente terminou de tirar tudo, pega o bloco de notas no chão e começa a escrever novamente.

"Posso comer essa jujuba?"

Balanço a cabeça, mostrando que sim. Infelizmente, a curiosidade se apossa de mim.

-Porque você não fala?- digo, olhando o garoto ainda com rosto neutro comendo a jujuba. Ele pega o bloco.

"Não gosto de falar à noite, minha tia disse que falo demais, principalmente a noite. Porquê está aqui ? "

- Eu não sei... Algo me trouxe aqui.

"Claro que sabe ! Como chegou aqui ?" diz, levantando a sobrancelha, como se estivesse realmente falando.

- Escalando. — digo, olhando a sombra que havia na parede, que continuava imóvel.

"Wow ! :p Muito radical essa ação, não acha ?"

- Pra mim é normal. — digo.

"Entendo. O faz com frequência? "

- Sim e não. Costumo usar quando... Ah, deixa pra lá.

"Então, mudemos de assunto. Gosta de filmes, certo?"

- Sim. — tive uma pequena impressão que a sombra havia se movido.

"Qual seu preferido?"

- Realmente, concordo com sua tia, você fala demais! Seja escrevendo ou não. — ele ri. — Não tenho um filme preferido.

"Já assistiu Hitman ? "

- Não, e nem tenho ideia do que posssa ser.

"Escolha um desses filmes que estão aqui no quarto, e assistimos. "

Olho pra ele. Como ele pode confiar tanto em mim ?

"Quer dizer, se você for ficar aqui mais um pouco."

- Okay, me diga os melhores que você tem aqui. — dou um sorriso, e ele faz o mesmo.

Ficamos escolhendo entre vários, e vários filmes. Acabei não só assistindo ao filme, como também dormi por lá. Quando acordei, levantei-me e olhei para o garoto que antes estava ao meu lado. Rosto sereno. Ainda estava dormindo. Em suas mãos, havia o bloco de notas.

"A vida pode durar uma noite. "

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.