Sempre ao seu Lado

50 𝟏𝟕 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶


Notas iniciais
FELIZ ANO NOVOO! Feliz 2026! PS: Eu programei uns cinco capítulos para serem lançados em janeiro, e até agora o "Nyah" não publicou (tenho cara de palhaça, agora?!).


Sempre ao Seu Lado

Capítulo 46



Acordei antes da casa se encher de vozes. As meninas ainda estavam sonolentas quando as coloquei nos cadeirotes altos, uma ao lado da outra, os olhinhos pesados e as mãozinhas esfregando o rosto. O céu lá fora estava numa cor quase metálica, com uma faixa de neblina escorrendo pelas árvores.

A cozinha estava vazia, mas Esme já tinha colocado a mesa. Silenciosa de um jeito que me lembrava mais uma madrugada do que o começo da manhã, e olhando-a dessa maneira, o cômodo me pareceu grande demais para algo tão simples quanto preparar o café da manhã, e que de algum modo, Esme faz esse espaço enorme parecer uma cozinha de verdade, quente, viva, cheia de cheiro de pão e frutas frescas.

Esme não estava ali.

Talvez ocupada em algum cômodo da casa, ou apenas dando a chance de termos esse momento só nosso, eu e as meninas, que agora estavam comendo pedaços de banana que Esme deixara cortadas em tiras pequenas, perfeitas.

Fiquei um momento observando o contraste entre elas, sonolenta o suficiente para não me aguçar aos detalhes. Apenas observava elas comendo.

Não demorou muito para que Esme surgisse como um vapor ali, eu mal tive tempo para me surpreender, talvez já estivesse ficando mesmo acostumada com os rompantes de velocidade que hora ou outra acontecia com eles. Era da natureza deles.

— Bom dia, querida! — ela disse, sorrindo enquanto ajeitava uma toalha de linho junto aos pratos — Dormiram bem?

Assenti, me desencostando da mesa e puxando a cadeira para me sentar.

— Dormimos, sim. Eu, melhor do que eu esperava. — respondi, num tom meio rouco de quem ainda estava acordando por dentro.

Havia uma calma quase ensaiada naquela casa, como se tudo fosse pensado para não assustar, para acolher. Esme me ofereceu uma xícara de chá fumegante. Aceitei, sentindo o calor se espalhar pelas mãos. Não conversamos muito, apenas observávamos a nova interação entre irmãs, as palavras de Helena saindo de seus lábios numa perfeição surpreendente.

Depois que comemos, fui até a bancada, respirei fundo e olhei a pia. Alguns pratos e xícaras usadas estavam ali, dentro e fora da cuba, apoiados sobre o tampo. Nada demais, coisa que eu sei que Esme provavelmente lavaria em menos de dois minutos, com aquela delicadeza que transformava até o ato mais simples num cuidado.

Mas Esme, como sempre, ao perceber que eu tomava uma iniciativa, tentou me impedir.

— Não, Amberli, deixa isso. Eu faço.

Balancei a cabeça, segurando um prato na mão.

— Por favor, Esme. Deixa comigo, ao menos hoje. Eu quero.

Ela hesitou, os olhos dourados buscando algo no meu rosto, talvez certeza de que aquilo não era só um gesto de educação. E quando encontrou, pela primeira vez assentiu devagar, com um sorriso pequeno, quase cúmplice.

— Está bem. — disse numa voz tão suave que parecia envolver tudo — Mas só porque você quer de verdade.

Sorri agradecida e puxei a manga do cardigã, e comecei a recolher os pratos, pronta para lavar a louça. Recolhi as xícaras uma a uma, evitando empilhá-las para não fazer barulho demais. Era quase automático: querer organizar, limpar, arrumar. Talvez fosse culpa de anos tentando equilibrar tudo sozinha. Ou talvez fosse só a fatiga de me sentir hóspede demais, de parecer alguém que só recebe.

A água morna bateu nas mãos, e o cheiro do detergente subiu no ar. Lavar aqueles pratos não era um favor; era quase um pedido meu para sentir que podia cuidar de algo ali dentro. Ser útil, colocar as mãos naquilo que também é meu, sentir que, mesmo em silêncio, eu podia cuidar de algo ali, ainda que fosse só com pratos, talheres, copos manchados de suco. Porque, mesmo sabendo que Esme jamais cobraria nada de mim, eu precisava disso: saber que também oferecia algo, mesmo que fosse só pratos limpos do café da manhã.

Enquanto passava a esponja pelas xícaras, vi Esme encostar-se ao balcão, o olhar repousando sobre mim, não como quem vigia, mas como quem acompanha.

E naquele instante, sem uma palavra, senti que ela entendia que para mim, estar ali, com as mãos na água, cuidando daquilo que nos alimentara, era também uma forma de dizer o quanto sou agradecida pela família que me faz pertencer.

As meninas riam atrás de mim, e a casa toda parecia respirar num ritmo mais lento, como se aceitasse que nem tudo precisava ser apressado.

— Vamos deixar tudo limpinho, meninas. — falei, sem saber se falava comigo ou para elas.

Hilary me olhou, o rosto ainda meio amassado de sono, ela mordia a borda do cadeirote, os olhinhos me seguindo como quem guarda na memória aquela imagem. Helena bateu com a mão na bandeja do cadeirote, soltando um som quase alegre, balançando os pezinhos, batendo no ar.

Sorri para elas. Talvez um dia elas lembrassem dessas manhãs, ou talvez não. Mas, para mim, esses minutos importavam. Era o que eu tinha para mostrar que eu não era só quem precisa de cuidado, mas também quem cuida.

Enxaguei o último prato, coloquei devagar no escorredor, e respirei fundo. As mãos ainda quentes da água, o peito menos apertado.

Quando terminei, enxuguei as mãos e olhei para Esme.

Ela não disse nada, só abriu um sorriso tão cheio de ternura que quase me fez esquecer por que aquilo parecia tão importante para mim. E naquele momento, entendi que, para ela, permitir que eu lavasse a louça era também uma forma de cuidar.

Eu estava muito boa em conseguir equilibrar as duas meninas de no mínimo onze quilos nos meus braços, para descer as escadas sem precisar que outra pessoa me acompanhasse com elas para cima e para baixo. A manhã estava fria, a neblina descia tão espessa que parecia se enroscar entre os galhos das árvores. Eu estava sentada no sofá, com uma manta sobre os joelhos, vigiando a brincadeira das meninas. De vez em quando, uma risadinha escapava. Depois, o barulho suave de brinquedos sendo arrastados pelo tapete.

Até que eu ouvi um:

Não, não, Nena. Pega não.

Minha primeira reação foi me impulsionar para frente para me levantar do sofá e ir até lá, ver de perto o que estava acontecendo. Mas percebi que o tom da Hilary não era bravo, era doce, como uma professora de faz de conta.

Observei-as mais atentamente.

Helena segurava uma pecinha pequena, de plástico. Daquelas que facilmente vão à boca. E Hilary, com uma expressão muito mais séria do que sua idade podia sustentar, tirou delicadamente da mão da irmã e a colocou longe.

Essa não. Não pode. Machuca a Nena... a outra bebê da mamãe. Tá bom? — disse, apontando o dedinho com firmeza — Só gândis. Aqui, essa. Aqui, ó.

E ofereceu outra peça, maior, segura. Helena a pegou e sorriu, satisfeita. Hilary então se sentou ao lado, colocando um braço atrás da irmã como se aquilo a tornasse automaticamente mais responsável.

Mamãe disse. Hiwawy, a irmã gândi. A mamãe disse. — comentou baixinho, olhando pra Helena com aquele ar importante de quem guarda um segredo — Eu cuido de você, Nena. Sempre.

Eu me calei. Não quis interromper. Aquilo não era só brincadeira. Era algo que nascia dentro dela. Não era o tipo de proteção que se ensina com palavras. Era instinto, amor em sua forma mais pura. Helena, mesmo tão pequena, parecia entender. Encostou-se em Hilary, encostando a testa no ombro da irmã por um segundo, um gesto breve, mas cheio de intenção. E ali, entre bloquinhos de montar e pedaços de infância espalhados pelo tapete, eu entendi que havia algo sagrado naquela cena: a minha filha ensinando o que é amor à sua maneira. E a outra, recebendo isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Talvez eu tenha quase chorado um pouco. Talvez tenha agradecido em silêncio, e foi nesse momento que eu ouvi a porta da frente se abrir.

Edward foi quem entrou na sala primeiro, trazendo aquela presença silenciosa que preenche o cômodo sem precisar de palavras. Atrás dele, Isabella, carregando uma bolsa de tecido azul, do tipo que só quem trabalha na área da saúde costuma ter, e Renesmee, que não hesitou em apressar seus passos à frente do casal para me cumprimentar com um beijo no rosto e engajar com as meninas como se já estivesse ali com elas há tempos.

— Bom dia, Amberli. — Edward disse, com a voz baixa, quase musical; Bella o acompanhou, acenando com um leve entusiasmo e um sorriso nos lábios — Pronta para hoje?

Tentei sorrir, mesmo com o rosto ainda meio sonolento.

— Mais ou menos... — confessei, ajeitando a manta — Mas vamos lá.

Ele se aproximou, puxou a poltrona mais próxima e se sentou de frente para mim. Tirou da mochila um inspirômetro de incentivo, aquele aparelho de plástico transparente, com uma câmara que tem bolinhas coloridas dentro. Só de ver, meu peito já doeu um pouco, lembrando do esforço que sempre fazia. A fisioterapia iria começar.

— Vamos começar com o de sempre. — disse ele, encaixando o bocal do inspirômetro e entregando na minha mão — Respira fundo, devagar, e tenta subir as três bolinhas.

Segurei o aparelho, inspirei pelo bocal. O ar entrou frio, fazendo o peito arder levemente. Com insistência respiratória as bolinhas subiram, mas a última hesitou, quase caiu.

Edward observava, paciente, sem pressa.

— Muito bem! — elogiou — Mais uma vez.

Enquanto repetia o exercício, percebi Bella agachada perto do tapete, falando baixinho com Hilary, que parecia encantada com o estetoscópio pendurado no pescoço dela. Helena, no colo da Renesmee, balançava as perninhas, curiosa. Bella tirou da bolsa um oxímetro de dedo, colocou delicadamente no dedinho da Hilary, e depois no pezinho da Helena. Falava com elas num tom suave, quase cantado, perguntando coisas bobas só para que se distraíssem. Entre uma sequência de respiração e outra, Edward pegou um pipa de resistência, uma espécie de bico de silicone ligado a um balão grosso.

— Agora, vamos fortalecer mais um pouco. — disse ele — Sopra devagar, até sentir resistência.

Segurei com as duas mãos, soprei. O balão inflava devagar, cada milímetro me custando bastante esforço, mas me fazia sentir viva. Ele observava a expansão do meu tórax, atento a cada movimento.

— Se cansar, avise. — disse — Não é força bruta, é constância.

Assenti, parando para recuperar o fôlego. Possivelmente meu rosto já estava vermelho. No canto da sala, Bella media o perímetro torácico da Helena com uma fita macia, sorrindo ao ver o quanto ela crescera de ontem para hoje.

— Ela tá ganhando peso muito bem! — ela comentou, me olhando por cima do ombro — E a Hilary também. É só manter como está.

Eu sorri, meio aliviada.

Depois, Edward pegou a bola de sopro, simples, de borracha vermelha.

— Último exercício de hoje. — explicou — Enche até onde conseguir. Conta até três, e solta devagar.

Fiz como ele disse. Na terceira tentativa, senti o ar esquentar por dentro, o peito abrir mais do que costumava.

Ele percebeu.

— Muito melhor! — elogiou, com um brilho satisfeito no olhar dourado — Está funcionando.

Repeti a sequência por mais três vezes. Após, fiquei um instante com a bola nas mãos, olhando a superfície lisa e vermelha refletindo a luz cinzenta que entrava pela parede de vidro. Enquanto segurava a bola de sopro no colo, senti o peito subir e descer mais devagar, como se o ar finalmente circulasse por lugares que costumavam ficar fechados.

Mas era mais do que isso.

Ali, sentada no sofá, ouvindo Renesmee e o som das risadas das meninas ao fundo, percebi o quanto eu estava cansada. Não só o cansaço do corpo, mas aquele outro: o de segurar tudo por dentro, de organizar cada sentimento antes que alguém visse. E, pela primeira vez em tanto tempo, me dei conta de que não precisava organizar nada naquele instante.

Edward continuava sentado à minha frente, o inspirômetro apoiado ao lado dele. Não dizia nada, só me olhava com aquele jeito tranquilo, paciente. Os olhos dele não me pressionavam, mas de alguma forma me viam. E saber que ele via sem julgamento, sem pressa, sem perguntar, é ao mesmo tempo assustador e leve. Na mente, eu quase desejei que ele não lesse o que se passava.

Porque havia medo ali: medo de falhar, medo de não melhorar nunca, medo de não ser suficiente para cuidar das meninas.

Mas também havia algo pequeno, quase tímido, que queria crescer: uma esperança delicada, quase sussurrada.

Respirei fundo, tentando abafar aquele turbilhão interno, mas sabia que não adiantava, Edward provavelmente captava cada fragmento, cada lembrança solta, cada pedaço de cansaço disfarçado de força. Por um instante, meu olhar encontrou o dele. E nesse segundo suspenso, não precisei dizer nada, porque havia algo naquele silêncio, quase uma conversa muda.

Como se ele me dissesse, sem palavras: eu sei.

E como se eu respondesse, ainda que só por dentro: obrigada por saber, mesmo assim.

Olhei para as mãos, sentindo-as tremerem levemente, não de fraqueza, mas da intensidade de tudo que não disse. Era estranho… essa sensação de estar exposta e, ao mesmo tempo, segura...

Ali perto, Isabella ajeitava as meninas, e eu as ouvi chamando por mim. Mas por um breve instante, só existiam nós dois e aquele silêncio. Não era um silêncio vazio. Era cheio de compreensão. Cheio do que fica depois que se confessa algo sem precisar de palavras. E por mais breve que fosse, me senti menos sozinha dentro da própria mente.

Isabella se aproximou, apoiou a mão de leve no meu ombro.

Pisquei os olhos antes de erguer o olhar para ela.

— Vocês estão indo tão bem! — disse ela, o rosto calmo, quase materno — De verdade.

Suspirei, soltando a bola no colo.

— Ainda dói. — confessei — Mas parece… menos impossível do que no começo.

Edward fez que sim, os olhos claros tão pacientes que chegava a dar vontade de chorar.

— É isso que importa. — disse ele — Que hoje doa menos do que ontem. Amanhã, menos ainda. Você está indo melhor do que imagina, Amberli.

Fiquei quieta, respirando fundo, deixando o ar entrar até o fim dos pulmões. Continuei sentada ali por mais alguns segundos depois que Edward se afastou, arrumando devagar os aparelhos sobre a mesinha.

A frase dele ainda ecoava por dentro, como algo morno que ia se espalhando devagar, do peito até a garganta, depois até a respiração: Você está indo melhor do que imagina.

Fechei os olhos por um instante, sentindo como era deixar essas palavras ficarem sem tentar afastá-las. Não era que o medo tivesse sumido, mas parecia… menor. E, eu quis que essa sensação durasse mais.

Quando abri os olhos de novo, vi Bella sentada no tapete com Renesmee e as meninas; Hilary ainda brincando com o estetoscópio pendurado no pescoço dela, e Helena segurando um bloquinho colorido, mordendo a ponta com aquela curiosidade inquieta de bebê. Fiquei observando a cena antes de levantar. O modo como Bella tocava nas mãos delas, tão leve, tão cheia de cuidado… Parecia natural, como se sempre tivesse sido assim. Aproximei-me devagar, até ficar perto o bastante para ela levantar o olhar e sorrir.

— Estão ótimas! — disse ela, antes mesmo que eu perguntasse — A Hilary tá ganhando peso devagar, mas constante. E a Helena... — Ela fez um carinho rápido na bochecha da pequena — Perfeitamente dentro do esperado.

Sorri, sentindo o coração ficar leve.

— Obrigada, Bella. — murmurei — Por cuidar delas… e de mim.

Ela tirou o estetoscópio do pescoço e o colocou na bolsa, ainda com aquele jeito calmo que nunca parece apressado.

— Eu gosto de cuidar. — respondeu, olhando de novo para mim — E você faz parte disso, Amberli.

Baixei o olhar por um instante, ajeitando a manga do cardigã, mas não consegui segurar.

— Hoje foi… diferente. — confessei, a voz um pouco rouca — Senti que consegui respirar melhor. — hesitei — E… senti algo aqui dentro também. Como se… como se eu não precisasse me esconder tanto.

Isabella não disse nada de imediato, apenas me olhou, os olhos amarelos cheios daquela escuta que não julga. Depois, num tom mais baixo, falou:

— Porque você não precisa.

Respirei fundo, deixando que aquelas palavras se acomodassem dentro de mim, do mesmo jeito que as de Edward tinham feito.

— Às vezes eu acho que eles percebem tudo… até o que eu não digo. — murmurei, meio sem graça.

Ela riu baixinho, desviando o olhar por um instante.

— Edward… principalmente. — disse — Mas não de um jeito ruim. Ele só… quer que você saiba que não precisa carregar tudo sozinha.

Fiquei em silêncio, olhando para as meninas brincando, até que a voz dela voltou, ainda mais suave:

— E mesmo que ele não dissesse nada… você também tá começando a perceber, não tá?

Levantei o olhar para ela, devagar, quase surpresa com o que ouvi. E, pela primeira vez, me vi assentindo sem hesitar.

— Tô, sim. — sussurrei.

Bella sorriu, daquele jeito que não precisa de mais palavras. E ali, de pé ao lado dela, com as meninas rindo baixinho no tapete junto de Renesmee, senti o peito ficar menos apertado, como se, só por hoje, fosse permitido acreditar que eu estava mesmo indo melhor do que imaginava.

Eu tinha saído para caminhar pelos corredores da casa, mais para respirar do que por vontade real de andar. Quando dei por mim, estava parada na frente de uma porta entreaberta, um local onde não estive antes. Olhei de um lado ao outro no corredor, e num impulso de coragem, toquei o trinco e abri a porta, me deparando com uma minibiblioteca. Adentrei o cômodo alcançando uma das prateleiras, passando a ponta dos dedos pelas lombadas de couro antigo.

— Oi. — disse Bella, tão baixinho que eu só percebi porque tive a impressão de ouvir um chamado. Ela estava ali, sentada na poltrona próxima à janela, com um livro fechado no colo, como se me esperasse — Quer se sentar?

Continuei de pé por um segundo, segurando o ar, antes de aceitar. Me sentei de frente para ela, com as mãos fechadas sobre o colo, torcendo devagar os dedos, como quem esconde uma confissão que insiste em escapar, os ombros tensos. Isabella percebeu antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Ela sempre me pareceu ter esse jeito quieto de ouvir, sem pressa, como se pudesse esperar o tempo que fosse até que as palavras viessem.

— Você parece... distante. — ela disse, com um meio sorriso, puxando a manga do suéter até cobrir o punho.

Hesitei, olhando para as janelas embaçadas.

— Eu tô... — comecei, mas a frase morreu antes de nascer.

— Você não precisa explicar nada. — ela falou, com uma delicadeza que quase doeu — Mas se quiser, eu estou aqui.

Ergui os olhos para ela. O rosto perolado sereno, quase impossível de ler, mas não vazio. Era como se ela guardasse lembranças demais atrás daquele silêncio.

— É sobre o Cole. — confessei, baixinho. As palavras saíram mais roucas do que eu esperava — Tenho notado os olhares dele. Como se ele sempre estivesse esperando algo de mim. Algo que eu não sei se posso dar. Ou se tenho coragem de dar. — engoli em seco — E isso… me assusta. Mas ao mesmo tempo… é quase como se fosse um convite. Um convite silencioso. Porque eu... Eu… sinto algo quando ele está perto. É difícil de descrever. É como se o ar mudasse, ficasse mais... vivo. — parei, buscando as palavras que não vinham.

Isabella não se moveu. Só ouviu como quem compreendia mais do que dizia. Essa quietude dela sempre me deixou sem saber se eu estava sendo julgada ou acolhida; até perceber que era só acolhimento mesmo.

— Você acha que ele quer que você dê alguma coisa? — ela perguntou, muito calma.

Suspirei.

— Eu não sei. Talvez ele queira só que eu seja… eu. Mas mesmo isso parece demais, às vezes. — baixei os olhos para as minhas mãos — Eu tenho medo, Bella. Medo de me perder de novo. Medo de ele ver as partes que eu mesma não sei aceitar.

— Isso não faz de você fraca. — ela disse — Faz de você alguém que já foi ferida.

Levantei o olhar. Bella sorriu, tão pequeno que quase não existiu.

— Quando eu conheci o Edward, também tive medo. Muito medo. — ela inclinou a cabeça, os cabelos escuros caindo para frente — Não porque ele fosse perigoso, mas porque amar alguém é perigoso. Porque a gente abre portas dentro da gente que nem sabia que existiam.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra como quem segura algo frágil.

— E como você soube que podia confiar? — perguntei.

— Eu não soube. — ela respondeu, com uma honestidade que me desarmou — Eu só… decidi tentar. Um pouco de cada vez. — respirou fundo, como quem volta no tempo — Às vezes, o que machuca mais não é o que o outro pode fazer com a gente… mas aquilo que a gente mesma não consegue permitir. — seus olhos dourados encararam o profundo dos meus castanhos — E Cole não é do tipo que força nada. — ela comentou, com a voz tão calma que parecia deslizar pelo ar — Às vezes, a gente acha que precisa retribuir tudo imediatamente. Mas às vezes... só precisa permitir que alguém esteja ali.

Fiquei um momento em silêncio.

— É que eu tenho medo. — confessei, com a voz um pouco trêmula — Medo de me apegar, medo do que ele possa querer. Medo de não ser suficiente… ou de ser demais.

Bella soltou um suspiro leve, quase maternal.

— Eu também tive medo. — ela disse — De machucar, de ser machucada… de perder o controle sobre o que eu sentia. — ela se inclinou um pouco, até que nossos joelhos quase se tocassem — Mas algumas pessoas… vale a pena descobrir. Mesmo devagar.

Nesse momento, ouvi passos vindos do corredor. Um ritmo seguro, quase firme demais para ser distraído. Rosalie apareceu na porta, os braços cruzados sobre o peito.

— Vocês duas estão com cara de quem pensa demais. — comentou, arqueando uma sobrancelha — Estão conspirando contra quem? — perguntou, os lábios curvando num meio sorriso.

Bella balançou a cabeça, rindo de leve. Eu soltei um riso fraco, meio sem jeito.

— Só conversando. — disse Isabella.

Rosalie me olhou por um instante. Aquele olhar dela que sempre parece atravessar a gente, mas sem a frieza que os outros enxergam. Era quase preocupação, só que do jeito dela.

— Sobre o Cole, não é? — ela disse, direta.

Eu fiquei constrangida, meu rosto esquentou, devia estar vermelha; as palavras se perderam na garganta. Rosalie descruzou os braços e veio até mim. Se apoiou no encosto da poltrona, perto demais para eu fingir que não senti o cheiro doce do perfume dela.

— Você não precisa fugir dele. — ela disse, sem rodeios — Ele não vai te engolir. — seus olhos ficaram um pouco mais suaves — Mas também não precisa correr na direção dele se não estiver pronta.

Eu assenti, sentindo as lágrimas quase chegarem, mas sem força para cair.

— Às vezes, Amberli, — Rosalie continuou, a voz mais baixa — o melhor que você pode fazer por si mesma é não fechar as portas antes de ver quem está batendo.

Ela tocou de leve meu ombro, um gesto breve, mas sincero. Isabella sorriu, um sorriso cheio de ternura.

— Você não precisa ter todas as respostas agora. — disse Isabella — Às vezes, só precisa permitir sentir.

Fiquei ali, respirando devagar, ouvindo a chuva que começava a riscar o vidro da janela, a conversa não me fez sentir menor, fez com que eu sentisse… que talvez houvesse espaço para ser quem eu era, com todos os meus medos. E quem sabe, só quem sabe; espaço também para deixar alguém entrar.

— Você não precisa decidir tudo hoje. — Rosalie disse, com aquela voz firme, mas que carregava um fundo de doçura difícil de admitir — Só… não se feche tanto. Nem todo mundo quer arrancar algo de você.

O calor subiu até o meu rosto. Eu não respondi. Mas Rosalie passou a mão rápida no meu cabelo, num gesto breve e voltou a olhar para Isabella, como se nada tivesse acontecido. Isabella me lançou um olhar cheio de significado, quase cúmplice.

— Talvez… — Bella murmurou — seja só o momento de deixar alguém chegar mais perto. Mesmo que você não tenha todas as respostas ainda.

A chuva seguia lá fora, lavando o vidro da mesma forma que aquelas palavras lavavam um pouco da culpa que eu carregava. Eu não sabia o que faria dali pra frente. Mas, por dentro, algo parecia ter afrouxado.

Só por hoje… talvez fosse suficiente.

Saí da biblioteca com passos lentos, quase arrastados. O corredor estava quieto, iluminado só pela claridade leitosa que vinha das janelas altas. Era sempre assim naquela casa: mesmo vazia, nunca parecia solitária, havia uma presença em cada objeto, em cada detalhe, como se tudo respirasse em conjunto. Meus dedos escorregaram pelo corrimão, seguindo o contorno da madeira antiga até chegar ao andar de cima. Abri a porta do quarto devagar, como quem não quer acordar lembranças. Aqui dentro, o cheiro suave de lavanda do difusor que Esme tinha deixado preenchia o ar. Fechei a porta atrás de mim e soltei um suspiro que parecia preso desde a conversa.

Aproximei-me da janela.

A luz estava baixa, quase cinzenta, e a chuva recomeçava em filetes finos que riscavam o vidro. Apoiei a mão contra a vidraça fria, sentindo o contraste entre o calor da pele e o frio do vidro. Olhei para o quintal, para além das árvores molhadas, como se esperasse ver algo… ou alguém.

Cole.

O nome dele apareceu na minha mente sem esforço. Doía admitir, mas pensar nele era fácil demais. Lembrei do jeito que ele olha, daquele olhar profundo que parece não pedir nada e, ao mesmo tempo, pede tudo. Lembrei também do silêncio dele: nunca pesado, sempre evidente. Um silêncio que me deixava constrangida não por medo, mas por perceber que talvez ele enxergasse partes minhas que eu mesma tento não ver. Fechei os olhos por um instante, deixando o som da chuva me preencher. Era quase como se o mundo inteiro respirasse devagar comigo.

Abri os olhos quando ouvi o som bem distante de lobos uivarem, fixei o olhar no borrão das árvores ao longe.

O que ele via quando me olhava? Será que via só uma mulher quebrada, remendada por dentro? Ou será que enxergava algo que nem eu consigo aceitar?

Eu queria fugir, queria levantar muros. Mas parte de mim… uma parte pequena, quase esquecida… queria ficar. Queria saber como seria se eu não corresse. Se eu só… deixasse.

Passei a mão pelo vidro, sentindo a frieza húmida que ficou nos meus dedos. Talvez Bella e Rose tivessem razão. Eu não precisava saber de tudo agora. Não precisava entregar nada, só permitir que ele estivesse perto.

A chuva engrossou, batendo mais forte contra o vidro, e eu me deixei ficar ali, olhando para fora. Sem respostas, mas, também, sem pressa.

Afastei a mão do vidro devagar, como quem solta algo frágil.

O quarto parecia maior naquele instante, tomado pelo cheiro de lavanda e pelo som da chuva que se espalhava pelo telhado. Virei-me, sentindo o peso leve do meu próprio corpo, uma estranha contradição que só existe depois que a gente admite o que carrega por dentro.

Sentei na beira da cama.

O colchão cedeu debaixo de mim, e por um segundo, só ouvi minha respiração misturada ao bater irregular da água nas janelas.

Cole.

O nome dele surgiu, quase sem convite.

Cole.

Ecoou de novo, mais suave, mais íntimo, como se a mente quisesse testar como soava quando era pensado sem medo. Fechei os olhos, deixando que ele ocupasse o espaço entre um pensamento e outro. Não havia perguntas, nem respostas. Só a sensação estranha de que o vazio que ele deixava não era ausência, era expectativa. A chuva pareceu acompanhar aquele ritmo, ritmada e constante, como um coração que espera, mas não exige.

Cole.

O nome dele voltou, agora mais baixo, mais próximo, quase como se fosse dito contra minha pele. E eu deixei. Deixei que ficasse, que me atravessasse, que não fosse embora tão depressa.

Por um instante breve, quase nada, não senti medo.

Só senti.

E mesmo sem ter coragem de dizer isso em voz alta, soube, no fundo, que aquilo bastava. Pelo menos… por agora.

A varanda estava quase silenciosa, exceto pelo leve ranger da madeira sob meus pés. A luz das arandelas me dava uma pequena melhora na visão limitada pela escuridão da noite, mas não havia nada de extraordinário que eu pudesse ver. Renesmee estava ali, sentada no banco do canto, com um livro fechado no colo.

Ela me olhou como quem já sabia que eu viria.

— Tá tudo bem? — perguntou, com a voz baixa, como se o vento também estivesse escutando.

Sentei-me ao lado, no banco gelado, e respirei fundo antes de falar.

— Não sei… Acho que sim. Mas ao mesmo tempo… tem algo em mim que não para de se mover.

Ela sorriu com suavidade.

— Cole?

Olhei para ela. Não com surpresa, mas com a sensação de que ser compreendida por mais uma mulher assim era… um alívio.

— Eu não entendo o que está acontecendo. — pausei — Ou talvez eu entenda, mas não sei o que fazer com isso.

Renesmee me observou com carinho.

— Você não precisa fazer nada. Só sentir. O que quer que isso seja… vai se mostrar no tempo certo.

Suspirei. Levei uma das mãos até o batente do banco, me inclinando um pouco para frente.

— Às vezes, ele me olha como se já soubesse de tudo. Como se eu fosse algo que ele encontrou… e esperou. E eu…

— …Se sente puxada pra ele? — completou ela com um sorriso leve nos lábios.

Assenti, era algo assim.

— Mas eu ainda tenho medo. — continuei, num sussurro — Não dele. De mim. De não estar pronta.

— Você já se deu conta de que estar pronta…, nem sempre significa estar inteira? — Renesmee disse, com o olhar sereno. Fiquei em silêncio. Uma brisa gelada tocou minha nuca — Você ama as suas filhas com tudo o que tem. É nítido. — ela continuou — Mas também precisa cuidar de quem você é além da maternidade. Cole parece enxergar isso em você. E isso, Amberli… não é comum.

Virei o rosto, com os olhos marejando pelo vento forte que batia no meu rosto.

— É como se ele enxergasse até as partes que eu escondo. — comentei.

— É porque ele sente. — ela tocou minha mão, uma leve emoção pareceu surgir. Pisquei os olhos, focando em seu rosto iluminado pelas luzes externas — E a pergunta não é se você vai corresponder… é se você vai se permitir.

Eu já tinha aproveitado o jantar com minhas meninas.

Os longos minutos de embalos carinhosos, mesmo quando meus braços ardiam em cansaço pelo peso de cada uma, já havia acabado.

Cada uma dormia em seu quarto, amadas, protegidas e quentinhas dentro de seus respectivos berços.

A casa estava mergulhada no som do vento noturno.

Desta vez eu não pude resistir de entrar dentro da banheira com água quente e perfumada pelos sais de banho escolhidos a dedo por Alice.

E tive que me vigiar para não acabar dormindo por lá mesmo.

Agora estou só, dentro do meu quarto. O quarto que têm me hospedado desde antes de eu saber onde estava. Soltei um suspiro longo, sentindo o corpo ceder de leve, como quem larga um peso que nem sabia que carregava. Deitei devagar, primeiro encostando as costas no colchão frio, depois puxando a manta até a altura do peito. O tecido roçou na pele do meu braço, trazendo um conforto quase infantil, quase esquecido.

Fechei os olhos, e por um instante tudo pareceu caber naquele silêncio.

Cole.

O nome dele voltou, suave, ecoando no escuro atrás das pálpebras fechadas.

Não vinha acompanhado de medo, nem de planos, nem de culpa. Era só um nome. E mesmo assim… preenchia um espaço que antes estava vazio. Do lado de fora, a chuva engrossava, batendo no telhado e nas janelas como um tambor distante. Um som antigo, quase hipnótico, que me embalava sem pedir nada em troca.

Cole.

Senti o calor subir até as bochechas, e deixei que ficasse ali, não como algo a ser dito, mas como algo que finalmente me permiti sentir.

A manta estava pesada sobre meu peito, como se quisesse me segurar naquele instante, impedindo que eu fugisse de novo.

E eu não fugi.

Apenas abracei a mim mesma, os braços envolvendo o próprio corpo num gesto contido, mas verdadeiro. Deixei que a respiração desacelerasse, e que o nome dele ecoasse, cada vez mais baixo, até virar só um sussurro no pensamento.

De repente, não pensei em Cole. Não naquele momento.

Pensei em antes.

Naquela Amberli que andava pelas ruas com medo do dia seguinte.

Na Amberli que chorava escondida atrás de caixas de papelão, tentando descobrir onde sua vida tinha desmoronado... As lembranças vinham em ondas curtas, como lampejos:

O hospital.

A polícia.

O som da respiração presa no peito quando me perguntavam o que eu me lembrava. E eu nunca soube o que responder.

A dor não tinha nome. Era apenas um peso constante, como uma névoa escura.

Agarrei os dedos à manta e encarei o vazio.

Não aceitei os ataques inesperados da minha mente "Eu preciso deixar isso ali. Onde pertence." ,"No ontem!"

Porque o hoje…

O hoje já tem outros nomes: Hilary. Helena.

E talvez... Talvez, Cole.

Toquei meu próprio peito, sentindo o coração. Ainda quebrado em alguns lugares, mas batendo com esperança.

Fechei os olhos e deixei as lágrimas virem, não como desespero, mas como libertação, como quem entende que o luto não some… Mas muda de lugar.

Eu não era mais a mulher caída no chão de um mundo cruel. Eu era mãe.

Eu era caminho.

E estava pronta para deixar o passado parar de escrever meu futuro.

Pela primeira vez, não lutei contra o que sentia. Só permiti que ficasse. E, devagar, com o som da chuva preenchendo tudo, adormeci, com o pensamento fortificado ainda ali, pairando silencioso, como uma promessa que eu não sabia explicar… mas também não queria negar.