Sempre ao seu Lado
45 𝟏𝟐 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶
Notas iniciais

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 41
Eu queria muito que estivesse um sol lá fora, daqueles que parece querer provar que existe beleza no mundo, mesmo quando a gente não consegue enxergar. Mas Forks continuava encoberto, mesmo que ainda estivéssemos em meados do outono, o céu estava cada vez mais cinzento, e a luz natural é difusa, às vezes há neblina matinal e até mesmo noturna.
A garoa caía fina desde a madrugada. O som da chuva contra o vidro me acordou antes mesmo de qualquer uma das mulheres da família virem me despertar. Eu permaneci deitada, observando pela janela o céu cinzento e baixo como se o mundo desse lado tivesse esquecido como era ser azul.
Azul...
Me levantei devagar, com a sensação de que o frio da manhã se arrastava por dentro de mim também. Vesti meu suéter grosso, havia uma pequena mancha na ponta da manga, que era de um xarope que Hilary jogou uma vez; e caminhei para o banheiro, minha bexiga pulsava, e eu precisava me arrumar pelo menos um pouco.
Desci os lances de escadas até a cozinha em silêncio. A casa estava quieta, Hilary e Helena ainda dormiam, e a família sabiam respeitar meu silêncio matinal. Esme já está aqui, colocava o bule de vidro límpido sobre um descanso. Seus olhos dourados sorriram antes de seus lábios que marcavam as covinhas profundas, como se me desejasse um “Bom dia” em silêncio. Ela puxou uma das xícaras dispostas, e empurrou em minha direção, sobre a bancada. Me sentei na banqueta à frente, pegando a xícara do chá quente entre as mãos. Atrás de Esme, olhei além dos vidros, a névoa se arrastava pelas árvores do quintal, tornando tudo meio fantasmagórico, por um momento me perguntei se a dor também podia ter essa forma: densa, branca, imóvel.
Os primeiros dias de novembro foram como um luto que nunca fui capaz de colocar em palavras. O céu chorando por mim, o frio entrando pelas camadas da pele..., e o tempo todo, uma parte de mim implorando para seguir em frente, enquanto a outra ainda grita pelo que perdeu.
Pensei na Angie. Acordei pensando na minha primeira menina..., em como nunca vivi um novembro com ela, em como tudo que sobrou foram os ecos dos sonhos que construí antes mesmo dela nascer.
A chuva engrossou.
Apertei a xícara com mais força, e respirei fundo.
Porque às vezes, tudo o que dá pra fazer..., é continuar respirando.
O chá já estava quase ao fim e morno, quando ouvi passos leves atrás de mim, não precisei me virar para perceber ser Esme pois não havia o som costumeiro de saltos finos como os de Rosalie e nem mesmo a maneira teatral dançante como os de Alice, só ela tinha aquele jeito delicado de existir, como se tudo ao redor fosse digno de cuidado.
— Posso me juntar a você? — perguntou, com a voz baixa, quase acompanhando o som da chuva lá fora.
Consenti, ainda olhando pela janela, tem algo de reconfortante nesse som constante, quase como uma canção de ninar que só Forks sabia cantar. Ela se sentou na banqueta ao meu lado com uma caneca nas mãos, mesmo que eu soubesse que ela não precisava beber nada, entendi que era um gesto de empatia, algo que ela fazia tão naturalmente.
— As manhãs em Forks parecem sempre do mesmo jeito. — comentei mexendo distraidamente o chá — Mas, hoje, não sei..., parece mais pesada.
Esme me olhou de lado, com aquele olhar que vê além das palavras.
— Talvez seja porque hoje, você esteja mais leve. — fez uma análise da qual eu não esperava — E isso faz a dor pesar diferente.
Fiquei em silêncio por um momento, tentando entender se aquilo fazia sentido. E fazia. De uma maneira, um pouco desconexa, torta. A chuva continuava a tamborilar sobre a casa como uma canção antiga, o céu pesando sobre as árvores encharcadas, e a neblina continuava ali, rastejava lenta pela vegetação atrás da mansão. Abaixei o olhar, hoje eu tive um sonho em que pude me lembrar, ele ainda me prendia, como um eco que se recusava a desaparecer. Angie. Nos meus braços, viva. Aqueles olhos pequenos, o som de sua respiração... Eu podia jurar que no sonho, seus olhos sem foco me olharam como se transmitisse perdão e me dissesse “Mamãe, não tenha medo de amar de novo.”, não havia som, nunca houve, mas era aquilo que seu olhar me disse. Ergui meus olhos para a janela de novo, a imagem do sonho ainda me acompanhava, como se estivesse ali, do outro lado do vidro que se embaçava. Ao meu lado, Esme se mexeu sobre a banqueta, olhei para ela, a caneca estava apoiada em seu queixo como se ela estivesse inalando o aroma do chá e seu olhar era calmo, acolhedor sobre mim.
Soltei o ar devagar.
— Eu tive um sonho hoje. — a voz saiu rouca quando falei.
— Você teve um sonho, e se lembrou dele... — Esme colocou a caneca devagar na bancada — Como se sentiu depois?
— Sonhei com a Angie. Ela estava nos meus braços..., e me olhava como se me perdoasse por tantas coisas. Como se dissesse que tudo bem eu amar outra filha. E me senti vulnerável, mas também viva. Como se uma parte que eu escondia há tanto tempo finalmente respirasse. E ao mesmo tempo, me sinto culpada. Por deixar alguém entrar de novo. Como se isso traísse a dor.
Esme ficou em silêncio, respeitando aquele momento. Esperei as lágrimas, mas elas não vieram. Só havia aquela sensação de aceitação, como se um nó tivesse se desfeito dentro de mim.
— Amar não apaga o luto, querida. Só mostra que o amor que você tem ainda está vivo. Que ele não morreu com ela. — ela estendeu a mão e cobriu a minha, com calma.
— Eu tenho medo de esquecer ela, Esme. — engoli em seco, sentindo os olhos arderem. A chuva lá fora escorria pelos vidros como se o céu entendesse — Esquecer do seu rostinho, da pele, do som que ela fazia quando dormia..., foram poucos dias com ela. — minha voz demonstrava a dor pelas lágrimas que não vieram.
— Você nunca vai esquecer, acredite em mim. — ela respondeu, com uma certeza serena — Mas vai aprender a lembrar sem sangrar, sei que já tem aprendido. E quando isso acontece, vai sentir que ela está em tudo, no cheiro da chuva, no calor do chá, no jeito que a Helena olha.
— Elas não são parecidas. — encolhi meus ombros, meus lábios se contraindo em negação.
— Eu sei que não, mas são suas filhas. Angie, Hilary e Helena. E você as ama.
Fechei os olhos, só por um instante. Porque era verdade. No fundo, eu sabia.
— Eu sempre amei a Helena... — sussurrei — Mas era um amor assustado, bem inseguro. Um amor que agora se esconde atrás da culpa.
— Soube que você e Jasper tiveram um grande avanço com isso. E como está agora? — ela perguntou com ternura.
— Agora eu quero amar com tudo. Está lento, sei que posso regredir um pouco, mas quero que os avanços cheguem sem medo. Porque ela merece. Porque... ela é minha. — olhei para a chuva lá fora mais uma vez. O mundo ainda estava cinzento, mas parecia menos cruel.
— Essa é a mãe que ela estava esperando. E você chegou. Tudo no seu tempo. — Esme apertou minha mão, os olhos brilhando com carinho, ela sabia muito bem ser uma mãe.
Ficamos ali por alguns minutos em silêncio. O tipo de silêncio que cura, não o que pesa. E talvez, naquele momento, com a chuva como testemunha, eu tenha dado mais um passo para voltar a viver.
Foi então que Emmett entrou na cozinha, com os cabelos molhados e um sorriso preguiçoso no rosto, as covinhas leves marcando as bochechas.
— Bom dia, garotas! — disse daquele jeito único que ele tem de ser, sua mão imensa agarrou uma maçã só pelo hábito e a girou no ar e direcionou à mim — Só passei pra avisar que a Rose tá com a Hilary lá em cima. A pequena acabou de acordar e acredite se quiser, mas eu entendi que ela estava pedindo panquecas.
Sorri, o lábio levantando num canto. A Hilary às vezes tinha um apetite engraçado de manhã. E Rosalie..., ela parecia saber exatamente como acolhê-la, mesmo que nos dias mais difíceis minha filha prefira Esme por perto.
— Obrigada, Emmett. — agradeci, sentindo um calor tímido no peito — Acho que vou subir para lá, então.
Ele deu aquela piscada matreira e saiu, como se entendesse que aquele momento entre mim e Esme era mais significativo do que aparentava. Desci da banqueta e Esme me acompanhou. Caminhei em direção à escadaria, no meio do caminho, parei. Voltei o olhar para a cozinha, onde Esme organizava algumas coisas, com aquela presença calma que preenchia a casa inteira sem esforço. Me aproximei em silêncio e, sem dizer nada, envolvi-a num abraço apertado. Ela travou o corpo gelado por um momento, surpresa, mas logo retribuiu com doçura, acariciando minhas costas com leveza.
— Obrigada, Esme... — sussurrei, com a voz embargada — Por tudo, por me acolher sem reservas desde o início, por cuidar das minhas filhas como se fossem suas...
— Você é parte da nossa família, Amberli. — respondeu com ternura — E família é para isso. Para amar; para segurar quando o outro não consegue ficar de pé sozinho.
Assenti, sem conseguir lhe dizer mais nada. Me afastei devagar, e ela me direcionou aquele sorriso calmo que só ela sabia dar. Então subi as escadas com o coração mais leve, o peito mais cheio até o quarto que Rosalie estava com Hilary; a chuva continuava insistente do lado de fora, pintando sombras líquidas na janela do corredor, o som ritmado e constante parecia embalar tudo aqui dentro como um sussurro de proteção, sua melodia preenchendo até mesmo os espaços vazios com um cobertor húmido e contínuo.
A porta estava entreaberta, e logo ouvi o som de risadas baixas. Rosalie estava inclinada dentro do interior do móvel, próximo de si, havia uma poltrona posta ao lado do berço, possivelmente ela estava sentada ali. Hilary segurava um livrinho colorido de capa dura, apontando com o dedinho miúdo e murmurando palavras meio formadas, ao redor dela há muitos blocos coloridos, alguém havia colocado para ela ali dentro.
— Bêlo...,ão — dizia, tentando nomear os desenhos que devia estar vendo — Cabelo!
— Isso mesmo, Florzinha! Cabelo comprido. — Rosalie respondia com paciência, sorrindo — Ela se parece com você, sabia? — disse suavemente, enquanto ria das comparações criativas que minha filha tentava dizer.
— Vestido!... Olha! Roxo! — exclamou Hilary, empolgada.
Fiquei parada ali por um instante, observando aquela cena tão simples e tão cheia de significado. Ver minha filha sendo cuidada com tanta delicadeza..., por alguém, uma família que, no passado, talvez não tivessem se imaginado nesse papel...
Bati levemente na porta.
— Posso entrar?
Rosalie se endireitou e virou-se, o rosto suave se iluminando num sorriso, permitiu minha entrada. Hilary olhou na minha direção entre as madeiras do berço, os olhos castanhos se acendendo de alegria imediata.
— Mamãe! — gritou, se apoiando no berço, colocando-se em pé. Rosalie a pegou no colo, mas ela se contorceu nos braços da loira até que ela a deixou descer.
O livrinho continuou em sua mãozinha, ela veio apressada em passinhos desajeitados, tropeçando nas próprias perninhas, me inclinei e ela se jogou nos meus braços, a abracei forte, sentindo o seu corpinho e cheirando o cheirinho doce do cabelo dela, uma mistura perfeita da fragrância infantil e sua pele macia.
— Oi, minha alegria... — sussurrei — Te amo tanto.
— Mamãe, olha, olha! — disse, tentando me mostrar o livro, empolgada, mesmo sem conseguir formar uma frase completa.
— Ela acordou bem-humorada hoje. — Rosalie disse, assim que me aproximei dela para cumprimentar, Hilary estendeu o livrinho para as mãos dela — Pediu para fazer xixi logo que acordou e quis me mostrar todos os desenhos. — comentou com um carinho quase involuntário no tom de sua bela voz. Hilary soltou uma gargalhada. Eu também sorri, deixando aquele momento se instalar com naturalidade.
— Obrigada por ficar com ela, Rose. — falei, de coração. Ela soltou um riso leve.
— Sempre que precisar. Eu já te disse antes, eu me importo com você, vocês duas..., são da nossa família, Amberli.
As palavras dela me comoveram e aqueceram por dentro. Era isso. Eu estava sendo acolhida não só como sobrevivente, não só como hóspede..., mas como algo maior. Como uma mãe em reconstrução. E minha filha, enfim, cercada de amor que transbordava até nos dias de chuva. E ali, com minha filha no colo, toda calorosa, alegre e viva em meus braços, percebi que estava mesmo começando a acreditar novamente nisso. Hilary puxou meu rosto com as mãozinhas e deu um beijo desajeitado na minha bochecha. Meu coração se derreteu com seu carinho.
— Mamãe..., fica? — sua mãozinha correu pelo meu pescoço até chegar aos cabelos da minha nuca, prendendo-se ali como um afago, uma conexão antiga entre nós.
— Fico sim, meu amor. — a respondi com carinho — Hoje a mamãe fica com você.
Rosalie sorriu para nós duas, e se afastou discretamente, deixando aquele momento só para mim e Hilary. Ela saiu do quarto, dizendo-me que Helena havia acordado também.
Me sentei no tapete disposto no quarto com minha filha, e juntas Hilary folheou o livrinho pela possível pela décima vez, como se fosse a primeira. E enquanto a chuva seguia sua própria melodia nas janelas, percebi que o som lá fora combinava com a calma aqui dentro. Hilary levantou seus olhos para mim, quando apontava para uma das imagens infantis dentro da página do livrinho, um sorriso pequeno emoldurando seus lábios, seu corpinho se virou e ela pôs-se em pé caminhando até o berço, estendendo a mãozinha para dentro, no colchão, pedindo para entrar dentro do berço para brincar com os blocos coloridos que havia ali. Concedi o seu pedido, Hilary me apresentou algumas peças, acertando grande parte do nome correto das cores deles; sentei-me na poltrona disposta ao lado, e por um momento, só observei. O jeito como ela organizava as cores, como cantarolava uma melodia inventada de uma maneira tão fofinha, que me dava vontade de apertar suas bochechas.
— Hilary... — chamei, a voz um pouco embargada — Posso te dar um abraço?
Ela não me respondeu com palavras. Se levantou e veio até mim no beiral do berço, erguendo seus braços para eu a pegar, quando a envolvi nos meus braços ela escalou meu corpo, se agarrando a mim, com mais força do que eu esperava. Enterrou o rostinho no meu pescoço e ficou ali. E eu a segurei como se estivesse segurando o mundo. Porque naquele momento, era exatamente isso.
Depois de algum tempo, Esme entrou no quarto convidando Hilary para tomar o café da manhã. Seu leite já estava pronto na mamadeira e as panquecas preparadas; sorrindo, ela escorregou do meu colo para segurar a mão de Esme e saírem juntas até a cozinha. Fiquei mais uns segundos dentro do quarto encarando o céu cinza pálido, ouvindo o som constante da garoa fina nas folhas chegava aos meus ouvidos abafados pelos vidros parecendo um sussurro que não cessava, familiar, reconfortante até, em sua constância melancólica. Dei as costas para a visão e caminhei hesitante para o cômodo onde Helena dormia, bati na porta antes de entrar.
— Posso entrar? — perguntei abrindo uma fresta, com um sorriso tímido.
— É claro! — Rosalie disse, levantando os olhos para os meus, parecia surpresa. Assentiu com um sorriso pequeno.
Rosalie havia acabado dar tomar banho nela e já estava vestida com os padrões de tecidos brancos. Rosalie estava impecavelmente sentada na cadeira frente à penteadeira, com Helena no colo, penteando com delicadeza os fios enrolados da menina. Fiquei ali, apenas observando. Aquela cena me atingiu de um jeito doce e amargo ao mesmo tempo. Ver Helena ser tão bem igualmente cuidada, me fazia sentir grande apreço..., mas também uma pontada de vergonha por ter me mantido distante por tanto tempo.
Rosalie me convenceu a ficar por ali para amamentá-la, insistindo que eu estava pronta para redescobrir o amor no lugar onde antes havia apenas o medo, e acrescentou também que o líquido na mamadeira de anatomia única e totalmente revestida feita de algum material maciço prateado, era meu leite materno, e que não teríamos nenhum problema comigo participando dessa parte da dieta sem que acontecesse algum incidente. Reforçara ainda de que eu já tinha autonomia para descer as escadas com ela no colo sem problemas, e não é como se descer pé ante pé em cada degrau pudesse ser um alto sacrifício depois de tantos dias em fisioterapias ininterruptas, as sessões estavam valendo à pena.
Permiti que ela deixasse Helena em meus braços e pela primeira vez em dias, eu a estava segurando sem sentir aquele aperto no peito, sem o imediato nó no estômago.
Ainda doía, mas de um jeito diferente, e quando ela me deixou ali, não imaginei que o silêncio do quarto pudesse me doer tanto, eu quase podia ouvir os batimentos do meu próprio coração, que para a minha surpresa, estão mais calmos que o habitual. Olhei para o rostinho leitoso dela enquanto sugava o leite, seus bracinhos envoltos no tecido do casaquinho branco de lã que Franchesca havia tricotado semanas antes. A pele de Helena me aquecia num ponto exato do meu corpo, que trazia a minha memória que nada no mundo lá fora poderia atravessar esse laço. Helena é minha filha..., tão pequena, tão inocente. Ela estava calma, os olhinhos semicerrados, as bochechas se enchiam de leite. Eu podia jurar que o som da chuva a acalmava, como acalmava a mim. Talvez fosse uma forma de conexão que herdamos do tempo, ou da dor.
— Me desculpa por demorar tanto..., eu ainda estou tentando. — sussurrei, quase com medo de quebrar o momento.
Fui firme comigo mesma durante todos os minutos necessários que ela precisou durante o tempo da mamada. As vezes minha mente me traía, dando-me a sensação de que paredes claras me sufocavam, ou as flores para a decoração na mesa da penteadeira, vivas e ainda bonitas fossem um confronto interno e não conseguia olhar para elas sem sentir raiva. Raiva porque tudo aqui parece ser calmo, quando dentro de mim começava a existir uma guerra. Helena estava quente em meus braços, a temperatura febril, os olhos atentos. Tão inocente. Tão calma. Tão..., filha de um monstro.
Só de pensar nisso, meu estômago se revira.
E mesmo assim eu não deixei de amamentá-la hoje. O toque da pele dela na minha foi bem quente. Sua quentura incomum e natural. Mas, logo depois, me senti suja. Culpada. Como se estivesse alimentando um erro, um lembrete vivo da noite que destruiu a minha vida e me vi afundada em um mar de dor e desespero, com o peso do mundo sobre meus ombros, e tê-la em meus braços se tornou mais uma vez o constante motivo do trauma que eu havia sofrido. O estupro, a violência, a dor psicológica..., tudo parecia estar ainda mais inconscientemente vivo, tão real; algo impossível para uma mulher que não pode lembrar de um único fragmento de lembrança daquela fatídica noite, e ainda assim, sentir.
Eu não conseguia olhar para Helena, ela não merecia, era para mim mesma a onda de raiva e ressentimento. Como eu poderia tentar amar algo que era fruto de tanta dor e sofrimento, agora? Eu me sentia como se estivesse sendo consumida pela minha própria culpa e vergonha mais uma vez.
Não deixei de ignorar o fato de que Cole veio ontem. Tentou de novo, e o deixaram se aproximar. Ele não bateu à porta do meu quarto com pressa. Ele sempre pergunta primeiro: “Ela quer me ver hoje?”
A minha resposta é sempre a mesma. “Não.”
E toda vez que digo isso, meu peito dói como se uma parte de mim gritasse "deixa ele entrar". Mas a outra parte, a maior, a mais ferida, responde ainda mais alto: "você não merece, não agora, não assim!".
A verdade é que... Eu sinto falta dele.
Sinto falta do modo como ele me olha, como se eu ainda fosse alguém inteira, mesmo quebrada. Sinto falta do silêncio confortável que ele traz, da forma como ele nunca exige, só oferece. Mas... Como posso deixá-lo entrar, olhar essa criança nos meus braços e fingir que está tudo bem? Como posso permitir que ele veja o resultado de algo tão cruel e ainda acredite que existe beleza nisso? Eu vejo beleza nela. Às vezes. Mas no segundo seguinte, o amor vira pavor.
É como viver entre dois extremos: num instante, eu a amo com tudo que tenho. No outro, sinto que estou sendo engolida por algo que nunca pedi, que nunca quis. E isso me destrói. Porque eu sei que ela não tem culpa. E mesmo assim... Parece que não consigo. Não ainda. Não completamente.
Talvez amanhã. Talvez daqui a uma semana. Talvez quando eu conseguir me olhar no espelho sem sentir tanta vergonha.
Por agora..., tudo o que consigo fazer é pedir, mais uma vez, que ele não entre. Que ele espere. Mesmo sabendo que cada vez que digo não, algo dentro de mim implora por um sim.
O som da porta se abrindo me faz virar o rosto imediatamente, aliviada. Helena respirava, um som suave, ritmado, que me lembra que a vida continua, mesmo quando eu acho que estou parada. Esme entra para dentro do quarto, com o mesmo cuidado de sempre. Me observa com ternura, mas sem invadir. Depois fala baixo:
— Ele está aqui, na porta. Disse que não quer te forçar, só... Perguntou se hoje é um dia bom.
Fico em silêncio. Meus olhos descem até Helena. Ela não tem culpa. Nenhuma. Mas ainda assim, conviver com ela e com esse corpo que a gerou é como andar descalça sobre vidro. Respiro fundo. A garganta aperta, mas, desta vez, as palavras saem.
— Diz para ele entrar.
Esme sorri. Não de alegria, mas de respeito. E sai.
Demora alguns segundos até que ele apareça. Cole. Alto, quente, silencioso.
— Posso? — entrou devagar, como se cada passo me pedisse permissão. Meus olhos se enchem d'água só de vê-lo.
— Pode. — dessa vez, eu falei. Ele adentrou daquele jeito dele: calmo, como se o mundo pudesse estar em chamas e ele ainda assim saberia onde pisar. Ele parou a um metro da cadeira, sem saber se devia se aproximar. Os olhos verdes procuram os meus, mas sem invadir. Seu rosto era uma mistura de preocupação e compaixão.
— Obrigado — é tudo o que ele diz.
— Eu quase mandei você embora de novo. — confesso, tentando sorrir — Mas... Estou cansada de fugir de tudo.
Ele dá mais um passo. E outro. Até estar perto o bastante para ver Helena sentada nas minhas pernas.
— Você está com ela. — ele disse, quase surpreso, mas com um sorriso suave.
— É... — suspirei — Hoje eu consegui. Ela está bem. — murmuro — Mais do que eu.
Ele a observa com um carinho que me desmonta.
— Ela parece confortável. — ele se inclinou um pouco para a ver melhor, mas ainda respeitando a distância — E linda. — diz, com tanta certeza que meu peito aperta — E é sua filha. Isso deveria bastar. — desvio o olhar. As lágrimas vêm sem que eu possa evitar — Como você está se sentindo?
Pensei antes de responder. Pela primeira vez, eu queria responder de verdade.
— Horrível, mais uma vez. — minhas palavras pareceram ter um sabor amargo na minha língua. Há uma sensação na manhã de hoje, algo estava diferente. Eu sentia dentro de mim uma inquietação, como se algo estivesse prestes a romper — Cole. — olhei para cima, chamando-o.
Minha voz soou mais baixa do que pretendia, quase imperceptível aos meus próprios ouvidos. E ainda assim, ele olhou nos meus olhos na hora, atento, sem se mover de imediato.
— Pode..., pode vir aqui?
Ele se aproximou com cuidado, parou bem ao meu lado sem saber se deveria sentar ou ficar em pé.
— Pode me tocar? — sussurrei — Só..., segura a minha mão. Por favor.
E sem dizer uma palavra, esticou seu braço e colocou uma mão quente em meu ombro. Seu toque fez um arrepio percorrer meu corpo, eu não soube como reagir, como responder à sua gentileza. Sua mão correu sobre a extensão do meu braço até envolver minha mão com uma delicadeza que fez meu peito se abrir como uma ferida exposta. Mas, desta vez, não doeu. Foi um calor discreto. O sol numa presença real.
— E se eu nunca conseguir amá-la do jeito que ela merece? — perguntei para ele com tanta sede, que minha língua parecia seca dentro da boca.
Inesperadamente então, Cole se inclinou e beijou minha testa. Foi um beijo suave, gentil, mas que me fez sentir como se estivesse sendo vista, ouvida, compreendida.
Eu senti um nó na garganta.
E eu chorei.
Sem vergonha, sem esconder o rosto.
Ele se abaixou por completo e me abraçou, não disse nada, apenas me segurou com a menina entre nós, enquanto eu chorava. Eu me senti como se estivesse sendo envolvida em um abraço quente, seguro, que me fazia sentir como se eu não estivesse sozinha. Quando eu finalmente parei de chorar, ele se afastou e olhou para mim. Seus olhos estavam cheios de amor, compaixão e entendimento.
— Eu estou aqui para você, Lee. — disse ele — E até mesmo para a bebê. Nós vamos enfrentar isso juntos.
Sua mão grande envolveu a minha, mas eu não queria sentir o seu toque; eu me sentia tão vulnerável, tão exposta.
— Cole, por favor, vá embora. — eu disse, tentando manter o tom de voz firme, mesmo que meus lábios tremessem devido ao choro.
— Não, Lee. — ele negou, sua voz calorosa — Eu não vou embora; eu preciso estar aqui com você.
— Eu não quero que você esteja aqui. — eu disse, negando a mim mesma, tentando me afastar dele. Uma parte de mim chorou pelos delírios que eu permitia sair da minha boca, mas não pude me controlar — Cole, por favor, entenda. Eu não estou pronta para isso, — engoli em seco, tentando não voltar a chorar mesmo que minha voz já estivesse se afinando e as lágrimas embaçando minha visão — eu não estou pronta para compartilhar isso com você.
— Compartilhar o quê, Lee? — ele perguntou, seu olhar penetrante — A sua dor? A sua raiva? Eu já sei tudo isso. Eu sei que você está sofrendo. Eu sinto e quero ajudar.
— Você não pode ajudar. — eu disse, sentindo as lágrimas dolorosas começarem a escorrer pela borda — Ninguém pode ajudar, não vê? Não entende? Nem eu sei como lidar com isso.
— Lee, você não precisa lidar com isso sozinha. — disse pegando minha mão com mais força — Eu estou aqui todos os dias disposto a te ajudar, toda a família Cullen está aqui para cuidar de você e de suas filhas. — disse olhando para mim com determinação — Eu sei que você não está pronta para aceitar isso, mas eu estou aqui para você Amberli. Eu vou cuidar de você por toda a minha vida, não importa o que aconteça.
Eu olhei para ele, sentindo uma mistura de emoções, eu estava tão confusa, tão perdida, mas ao mesmo tempo e pela primeira vez, senti uma conexão nova e real com ele. Eu vi o amor e a compaixão em seus olhos, e soube que ele estava falando sério. Eu soube que eu não estava sozinha, que eu tinha alguém que me apoiava e me entendia. Me entende mais do que eu mesma.
— Cole, eu... — eu comecei a dizer, mas ele me interrompeu.
— Lee, você precisa confiar em mim. — ele disse, seu olhar sério — Você precisa saber que eu estou aqui para você, que você não precisa acreditar que lidará com isso sozinha. Eu, Cole, estou aqui para ajudar.
E nesse momento, eu senti uma pequena faísca de esperança. Uma faísca que me fez sentir como se eu pudesse, finalmente, começar a curar, a me recuperar, a encontrar o amor e a felicidade novamente. Eu senti que eu podia, finalmente, começar a lutar para amar Helena, a amar a mim mesma, a amar a vida novamente.
— E respondendo sua pergunta: você já ama. — ele responde — Só tá com medo. E o medo não anula o amor, Lee. Ele só o desafia.
Silêncio.
— Eu não sei como seguir com tudo isso. — digo com minha voz falhando, tirando devagar minha mão da sua para poder enxugar meus olhos, e ele colocou a mão em meu ombro — Tem instantes que eu não sei como ser a mãe dela, nem como ser mulher de novo. Eu... não sei nem como ser eu, isso me deixa tão assustada e cada vez que Jasper vêm conversar comigo eu me sinto menos paralisada. Ontem, pelo menos eu me senti assim.
— Isso é enorme, — ele ponderou, como se entender-me fosse natural para ele — mesmo que pareça pequeno.
Houve uma pausa. Eu olhei novamente pra ele. A claridade fria de fora batia em seu rosto de um jeito bonito, destacando sua pele e os olhos verdes que me observavam com uma gentileza que às vezes me desconcertava.
— Você não cansa? — perguntei, de repente — De estar aqui, todos os dias. De esperar que eu me recomponha, mesmo sem saber quando, ou se, isso vai acontecer?
Ele sorriu, aquele sorriso que ele só dava quando diz algo para me tranquilizar.
— Eu não estou esperando que você se recomponha. Só quero estar por perto enquanto você descobre que não precisa se reconstruir sozinha.
As palavras dele me pegaram de surpresa. Meus olhos marejaram de novo, mas dessa vez, a emoção era diferente. Não era só dor. Era gratidão, era medo de perder aquilo…, era esperança.
— Eu não sei o que fazer com isso que você sente por mim. — abaixei o olhar, encarando os fios encaracolados de Helena.
— Não precisa saber. — ele respondeu — Só precisa saber que é real. E que não depende de você estar inteira para existir.
Fiquei em silêncio, mas estendi minha mão livre até ele. Foi quase um reflexo. Um pedido mudo e isso, hoje, é tudo que consigo dar de mim. E ele aceita, segurou com cuidado, como se fosse algo frágil. E era. E ele ficou ali, só me segurando a mão, enquanto tudo dentro de mim começava, muito devagar, a cicatrizar.
Helena resmungou no meu colo, mexendo os bracinhos. Cole olhou para ela de uma maneira que me desmontou.
— Ela tem sorte de ter você como mãe. — ele disse, baixo.
— Ainda não tenho certeza disso. — digo, com a voz trêmula.
Ele não respondeu, apenas apertou meu ombro com mais força, não o bastante para que desse desconforto. Cole se inclinou para frente, ajoelhando à minha frente, com os olhos atentos em Helena. O modo como ele a olhava... Sua íris esverdeada me alcançou e num impulso rápido de seu corpo, seu lábio me tocou, beijando minha bochecha, próximo aos meus lábios, deixando em mim um rastro quente que me deixou sem reação. Foi um toque febril, sensível e gentil, mas que me fez sentir-me viva. Senti um nó na garganta e a vontade de chorar me apertar, tive medo de me acostumar com seu cuidado se o aceitasse. De depender da presença dele, como se fosse algo certo, garantido.
Cole me assegurou de suas palavras mais uma vez, deixando marcado em mim o quanto que ele estava falando sério. Eu ergui meus olhos para ele, e tentei sorrir, mesmo que meus lábios tremessem e sorrissem fracamente, e ele sorriu de volta. Foram gestos pequenos, mas significativos.
Cole ajeitou o relógio no pulso, um movimento pretencioso que me dizia que em breve ele não estaria mais aqui.
— Eu preciso ir. — disse ele, baixando a voz — Tenho que estar na sala de controle antes das liberações portuárias, daqui meia hora.
Eu assenti, um pouco chateada e não respondi de imediato.
— Se precisar qualquer coisa de mim, me liga. — murmurou — Mesmo que seja só pra ouvir minha voz.
Eu olhei para ele, enfim, “Até pra ouvir sua voz?!”, quase perguntei. Mas só murmurei:
— Vai pescar com uma mão e atender com a outra? — apenas para não deixá-lo ir sem eu dizer nada.
Ele riu, e aquele som ecoou dentro, como calor em dia gelado.
— Se for por você, viro malabarista. — respondeu, com um olhar que dizia muito mais do que as palavras.
— Vai com cuidado, e boa sorte no mar.
Ele sorria, aquele sorriso calmo que fazia o mundo parecer menos duro, e então saiu, a porta se fechou com um leve clique, deixando o quarto mais frio, mais silencioso, quebrado apenas pelo som distante da natureza. Suspirei, tentando me agarrar à tranquilidade da respiração de Helena.
Fiquei parada, encarando meus olhos arregalados no reflexo do espelho da penteadeira sentindo o corpinho de Helena por um tempo, sentindo o espaço onde ele estivera, como se o ar ainda carregasse a presença dele. Helena soltou um suspiro leve e se aninhou mais contra minha barriga.
Minutos depois, uma batida leve na porta. Esme surgiu do corredor, seus passos tão leves quanto a expressão serena no rosto, um sorriso afetuoso e as mãos delicadamente cruzadas à frente do corpo.
— Amberli? — disse com aquela calma maternal — O jardim está lindo, mesmo com a névoa. Quer caminhar um pouco comigo?
Olhei para Helena, ainda em paz, instintivamente apertei meus braços ao seu redor com carinho; e então pensei em Cole. Em como ele vinha até aqui todos os dias, sem saber o que encontraria; em como Helena, por mais que eu não consiga imaginar o contrário, me dizem em alívio o quanto ela estava mais calma nessa casa... Em como, talvez, ela também pudesse estar aprendendo a florescer ali, aos poucos. Depois, olhei pela janela, onde a névoa parecia vagar entre as árvores como véus de algodão.
— Quero sim. — aceitei. “Sim..., acho que vai ser bom respirar um pouco de ar puro”.
Me levantei devagar, abraçando a barriga da minha filha, mantendo seu corpinho à frente do meu, e segui Esme até aonde as flores de inverno insistiam em resistir ao frio.
— Venha. As flores de inverno sempre têm algo a ensinar.
Com passos tranquilos, eu a acompanhei, levando Helena ainda aninhada nos braços, como se aquele jardim escondido sob a melancolia do frio, pudesse oferecer algo que eu nem sei que procuro. Caminhamos pelos corredores amplos da casa até a porta do deck, antes que ela abrisse a porta, me ofereceu uma de suas botas de jardinagem e fez-me vestir um casaco com capuz por cima do que já estou vestindo. Quando em voz baixa questionei sobre uma proteção em Helena, ela apenas disse que minha filha consegue resistir muito bem à baixa temperatura. Esme deslizou a porta de vidro onde o frio nos recebeu com o cheiro do musgo na terra molhada.
Esme caminhava ao meu lado, em silêncio. Sempre tão elegante, tão serena, como se nada no mundo pudesse realmente tocá-la. E eu me sentia segura com ela por perto, como se, mesmo quando tudo dentro de mim estivesse tremendo, o simples fato de segui-la ali me mantivesse de pé. E enquanto caminhávamos entre as plantas húmidas, sentindo os calçados afundarem suavemente na terra molhada e o som suave da brisa nas folhas, tive a estranha sensação de que estava, finalmente, deixando algo dentro de mim começar a respirar outra vez. Desci meu olhar para Helena, arrumando meus braços ao seu redor para acomodar seu peso sobre eles; seus olhos límpidos iam de um lugar ao outro, de cima à baixo como se pudesse ver mais do que eu podia perceber.
— Ela gosta da chuva. — murmurei, como quem confessa um segredo, minha voz num tom baixo, me senti envergonhada de quebrar o silêncio.
— Assim como você. — Esme sorriu com doçura, aquele sorriso que nunca era grande demais, mas sempre sincero — Percebo o quanto fica longe quando a chuva cai.
Assenti, mas não disse nada por um instante.
O jardim da mansão Cullen nunca me parecia real à primeira vista. As pedras molhadas delineavam caminhos tortuosos entre arbustos bem cuidados e pequenas roseiras, que, mesmo no frio de novembro, insistiam em exibir algumas flores tímidas. A umidade fazia a vegetação brilhar, como se o orvalho tivesse bordado as folhas com cristal, sempre parecia mais bonito sob os cuidados dela, mesmo nos dias cinzentos como hoje. Havia algo de simbólico ali, a forma como Esme cuidava das plantas como se fossem frágeis vidas que mereciam atenção e cuidado, mesmo no frio. Mesmo quando tudo parecia adormecido, como se ainda assim a vida pudesse brotar, se houvesse quem acreditasse nela.
— Carlisle plantou essas roseiras para mim. — disse Esme, com a voz calma, como quem também revela um segredo antigo — Disse-me que a beleza precisa resistir ao tempo, mesmo nas estações mais cinzentas.
Parei por um instante, observando uma flor solitária que desafiava o vento gelado. Senti uma comoção no peito, nada que referisse à dor, mas a saudade de mim mesma. Como se houvesse, dentro de mim, uma parte que já soubera florescer e agora estivesse apenas adormecida, à espera de um novo ciclo.
— Às vezes… Acho que esqueço quem eu era antes de tudo isso. — murmurei, quase sem perceber que estava pensando em voz alta — Antes do hospital, antes daqui…, antes de tudo desmoronar.
Esme observou com a suavidade de quem ouve com o coração. Não apressou consolo, não ofereceu respostas prontas. Apenas tocou de leve no meu ombro. Senti o gelo de sua mão por cima das camadas de tecido que me abrigavam.
— Ninguém esquece de verdade, Amberli. Às vezes só precisamos de um lugar seguro… e tempo.
A brisa carregou o aroma terroso do jardim e o som longínquo de um corvo entre as árvores. Abaixei os olhos para Helena em meus braços, seus dedinhos entrelaçados no tecido do meu casaco, o pulso branco destacando a pulseira dourada e o rostinho tranquilo como se o mundo estivesse em paz, e por um momento, isso bastava. "Um lugar seguro e tempo." Talvez fosse exatamente isso que eu precisava, não para esquecer o que havia acontecido, mas para me lembrar de quem ainda poderia ser. A ideia dançou pela minha mente naquele momento, e, pela primeira vez em muito tempo, aquela ideia não pareceu tão impossível.
— Tem dias que eu acho que não vou conseguir ensinar nada a ela. — deixei escapar. Minha voz saiu baixa, como se temesse quebrar algo invisível entre nós — Que ela vai sentir o vazio que eu carrego…
Esme parou, voltando-se para mim com os olhos ternos. Não havia pressa em seu rosto, nem julgamento. Aqueles olhos pareciam entender tudo sem que eu precisasse explicar.
— Você já está ensinando, Amberli. — ela disse, com uma suavidade que me desmontou por dentro — Só por estar aqui. Por segurá-la assim, com tanto amor. — Ela estendeu a mão, ajeitando uma mecha do meu cabelo que havia escapado do capuz — Não subestime o que é amar alguém incondicionalmente. — olhou para algo mais à frente — Iremos passar pelas últimas hortênsias que ainda resistem.
Fiquei em silêncio, mas dessa vez não me senti sozinha dentro dele, era preenchido por algo diferente. Helena soltou um som suave, beijei a sua cabeleira e fechei os olhos por um instante. O cheiro da terra molhada, da madeira húmida e do perfume leve de Esme, que parecia sempre me lembrar de lavanda e aconchego. Seguimos em frente, mais ao fundo do jardim. A cerca branca começou a surgir através da névoa, e logo os contornos das flores resistindo ao frio também apareceriam. Um pequeno milagre de cor em meio ao cinza constante de Forks.
O portão rangeu suavemente quando Esme o empurrou. A madeira úmida do arco, coberta de musgo e rosas secas, parecia quase viva, como se respirasse junto com o jardim. Entrei atrás dela, ainda com Helena aninhada nos meus braços. O chão de terra estava encharcado, mas firme, coberto por folhas amareladas e pétalas que o vento espalhara. O jardim continuava silencioso, mas não morto. Havia uma quietude ali que parecia me acolher, me envolver, como se cada flor, cada caule que Esme plantara, entendesse de dor e recomeço. As últimas hortênsias balançavam levemente, as cores desbotadas resistindo bravamente ao fim do outono. E mesmo assim… havia beleza.
Esme se afastou um pouco, indo em direção aos canteiros. Me deixou sozinha com Helena, como se soubesse que aquele momento precisava ser só nosso. Sentei-me no banco de pedra sob a pérgola, ainda úmido pela chuva, mas não me importei. Segurei minha filha mais firme, acomodando-a melhor no colo. Seus olhos estavam bem abertos agora, observando o mundo com uma calma quase misteriosa. Como se enxergasse mais do que eu jamais conseguiria ver.
— Você está gostando, minha pequena? — sussurrei, encostando a ponta do meu nariz no dela — É bonito aqui, né? Esme cuida desse lugar com tanto carinho…
Helena mexeu os bracinhos, fazendo um som suave, uma espécie de chiado alegre. Seus olhos encontraram os meus. Os castanhos tão escuros, os azul-claros tão profundos. E então, como se algo dentro dela tivesse despertado… Ela sorriu.
Um sorriso pequeno, mas cheio. Espontâneo. Delicado como o abrir de uma flor sob o orvalho da manhã.
Fiquei imóvel. Meus olhos encheram de lágrimas, que arderam um pouco antes de escorrer quente pela minha bochecha. Um aperto doce tomou meu peito, como se por um instante eu pudesse sentir a alma dela tocando a minha e dizendo: “Eu vejo você, mamãe. Eu estou aqui.”
— Oh, Helena… — sussurrei, a voz falha, abobalhada. Toquei sua bochecha com a ponta dos dedos, com medo de que o gesto quebrasse o encanto — Você sorriu..., para mim. — mais lágrimas pingaram para fora da borda dos meus olhos quando um sorriso choroso apertou minhas pálpebras.
Esme voltou com passos silenciosos e parou a uma distância respeitosa. Sorriu ao ver minha expressão, como se soubesse exatamente o que havia acontecido.
— Ela esperou por você desde o começo. — disse baixinho — Esse sorriso é só o primeiro de muitos.
Abracei minha filha com força, fechando os olhos. O peito tremia. A dor ainda estava ali, claro. Sempre estaria. Mas pela primeira vez, ela parecia menor do que a esperança. E naquele instante, no jardim silencioso, sob a chuva de Forks, o mundo inteiro se resumia àquele sorriso.
Meus braços travaram ao redor de Helena por mais tempo do que deveria. Seu calor era bem-vindo e eu ainda estava emocionada. Mas, ela já começava a resmungar, querendo se mexer, só que eu não conseguia soltá-la de imediato. Havia algo em mim que ainda tentava compreender o milagre daquele sorriso. Era só um gesto, eu sabia..., mas também era tudo.
— Ela sorriu. — repeti, quase para mim mesma — Ela sorriu para mim.
Esme se sentou ao meu lado, o corpo imóvel como o de uma escultura viva. Sua presença era sempre assim, discreta, mas profunda. Ela não falava muito, e talvez por isso suas palavras sempre parecessem mais valiosas.
— Quando a Nessie era pequena..., bom, tão pequena quanto uma híbrida pode ser, — ela sorriu de canto, nostálgica — ela costumava a tocar o piano que colocamos numa antiga sala da casa, ainda sem saber o que fazia. Só apertava as teclas, uma a uma. Mesmo assim, eu me sentava ao lado dela todos os dias, fingindo ouvir as melodias mais lindas do mundo. — ela me olhou então. Os olhos cor de ouro tinham um brilho húmido que só quem já havia sentido perdas conhecia — Esse sorriso, é a sua música.
Abaixei o olhar, deixando que uma lágrima escorresse livre. O vento soprou mais forte, fazendo as folhas bailarem em redemoinhos aos nossos pés. Helena olhou em volta, fascinada pelas formas e cores em movimento. Pela primeira vez, reparei que ela estava crescendo. A expressão dela era menos de recém-nascida, mais desperta, mais presente. Havia tanto dela que eu ainda não conhecia, e tanto de mim que, ao vê-la, eu finalmente entendia.
— Eu tenho medo, Esme. — confessei — De não ser o suficiente. De não saber protegê-la..., de não saber quem eu sou, com ela.
Esme pegou uma folha que caíra no banco ao nosso lado. Era alaranjada, quase translúcida sob a luz cinzenta. Ela a entregou a Helena, que a agarrou sem esforço, fascinada com a textura.
— Você não precisa ser perfeita. Só precisa estar aqui. E estar aqui já é um ato de coragem.
Suspirei, sentindo o peso daquelas palavras como se fossem raízes se fixando dentro de mim. O jardim parecia mais vivo de repente, as flores úmidas brilhavam, como se tivessem acabado de acordar; um pequeno pássaro pousou no galho próximo, sacudindo as penas, indiferente à chuva miúda.
— Talvez seja isso, — murmurei, mais para o vento — Cuidar dela, será como cuidar de um jardim. Não é sobre controlar o que vai florescer; é sobre garantir que haja luz, abrigo..., e paciência.
Helena soltou um som mais alto, uma risadinha abafada. Um segundo sorriso. Quase uma resposta.
— E veja só!... — Esme sorriu também — Sua pequena flor está desabrochando.
Sorri junto, apesar do nó na garganta. Olhei para Helena e pela primeira vez em muito tempo, senti que podia respirar fundo sem medo de desmoronar. Ela também era minha flor. Minha esperança. E eu... Tentaria ser o jardim.
Helena continuava ativa, olhando em volta, tudo era novo desse lado para ela. Esme se levantou, sorrindo para mim como se estivesse testemunhado algo sagrado. Algo que só quem havia vivido tantas transformações era capaz de entender.
— Vamos voltar para dentro, antes que a chuva aumente. — Esme sugeriu, olhando para um lado específico do céu. As nuvens, espessas como lã de algodão, começavam a se arrastar de forma ameaçadora.
Caminhamos de volta para a casa em silêncio, a trilha encharcada com a umidade do outono, os passos ressoando nas pedras do caminho. Helena, com sua cabecinha repousando em meu ombro, parecia absorver o mundo em cada respiração.
Quando chegamos à porta do deck novamente, Edward apareceu, vindo da sala, com Renesmee ao seu lado. Eles nos observaram com curiosidade. Renesmee, como sempre, tinha um sorriso amigável, mas havia algo de diferente gritando em seu olhar, algo que transbordava de alegria por ver o vínculo crescendo entre mim e minha filha.
— Como foi no jardim? — Edward me perguntou, os olhos dourados brilhando com interesse genuíno.
— Ela sorriu, Edward! — a voz de Esme se entrelaçou com a minha. Continuei — Ela sorriu pela primeira vez! — eu estou verdadeiramente alegre.
Os olhos de Edward se suavizaram. Ele se aproximou de mim, os braços abertos, como se quisesse compartilhar a intensidade do momento. Renesmee, ao lado dele, olhava com uma expressão de compreensão profunda.
— Eu sabia que ela era especial. — Edward murmurou olhando para Helena, seus olhos brilhando de uma maneira quase etérea.
Fiquei em silêncio por um momento, deixando que a paz daquelas palavras se entranhasse em mim. As batidas do meu coração eram mais calmas agora.
— Ela é. — respondi, sentindo um peso saindo de meus ombros — Ela é minha nova esperança.
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Mais tarde, já na quietude da noite, me sentei à beira da janela do quarto em que Helena dorme, a visão é muito mais ampla do que a que tenho no meu quarto e não resisti em ficar olhando para uma parte do céu escuro, que agora bem ao longe, estava limpo de nuvens. A lua cheia iluminava as árvores à distância, enquanto ao redor da mansão o som suave da chuva parecia mais distante, mais acolhedor, como se estivesse longe de mim, mas ainda ali batendo contra o vidro, como um lembrete silencioso. Helena dormia em seu berço ao meu lado, o pequeno corpo tranquilo, envolto em seu cobertor macio. Eu a observava com uma mistura de amor e incerteza, sentindo a responsabilidade pesar sobre mim, como sempre. Mas o sorriso dela…, aquele sorriso que surgiu inesperado no jardim era a luz que eu precisava.
Será que eu seria capaz de ser tudo o que ela precisasse? O que eu poderia fazer para ser a mãe que ela merecia, sem mais medos, sem mais arrependimentos?
A verdade é que, ao vê-la sorrir, percebi que talvez não houvesse fórmula mágica. Não era sobre ser perfeita. Era sobre estar ali, apesar das dificuldades. Sobre ser a mãe que ela pudesse ver, sentir e, um dia, amar.
— Eu vou fazer tudo certo. — sussurrei para mim mesma — Eu vou tentar.
O silêncio foi ocupado por um uivo longo que me envolveu, mas não de maneira opressiva. Era um som em meio ao silêncio, um som de acolhimento. De que, talvez, o simples fato de amar, como Esme disse, já fosse o suficiente.
Eu não sabia o que o futuro reservava, mas agora, enquanto a chuva continuava a bater nas janelas, eu sabia que poderia enfrentá-lo.
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