Sempre ao seu Lado
47 𝟏𝟒 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 43
A luz da manhã era tímida, filtrada por nuvens densas e pelo orvalho que escorria nos vidros da cozinha. O mundo lá fora seguia encharcado e nublado, mas aqui dentro tudo parecia aquecido por um tipo diferente de calor, o tipo que vinha das pessoas certas por perto. O cheiro de café fresco, preparado especialmente para mim, pairava no ar, misturado ao aroma de pinho molhado que vinha da floresta ao redor e do cheiro suave de lavanda que sempre parecia emanar de Esme, como se ela pertencesse à própria casa. Eu estava sentada à mesa com uma xícara entre as mãos. Não precisava da bebida quente, mas o gesto de segurar, de sentir o calor se espalhar pela cerâmica, me ancorava. Ainda usava meu suéter velho e manchado por cima do pijama, e meu cabelo, solto e desalinhado, deixava claro que eu tinha acabado de acordar. Mas meu olhar... ele estava diferente. Não era só o cansaço. Era como se algo tivesse mudado durante a madrugada, algo sutil e profundo.
Esme preparava algo no fogão, mexendo distraidamente uma panela com movimentos suaves, quase silenciosos. Eu observava de longe, como quem se aquecia do tempo frio. Por um momento, não dissemos nada. Mas ela sabia. Como sempre. Jasper estava aqui também, encostado na porta de vidro, com os braços cruzados, observando em silêncio, possivelmente sentia os sentimentos que eu carregava pulsando como ondas suaves que ele parecia absorver com cuidado.
Eles estavam ali. Sempre estavam. Mesmo nos meus silêncios, nas minhas falhas, nos meus momentos mais quebrados. Isso ainda me surpreendia.
— Eu ainda estou pensando em hoje de madrugada, Esme. — soltei, quase sem querer, com a voz rouca. Ela não se virou, mas ficou atenta, e isso foi o suficiente para eu continuar — Quando ela chorou..., você estava lá. Eu sei que não disse nada demais, mas... — pausei, respirando fundo — Foi bom saber que eu não estava sozinha. Que alguém viu também.
Eu não sabia se estava me fazendo entender. Mas aquilo que tinha acontecido durante a madrugada, aquele momento com a Helena, tinha me mudado de um jeito que nenhuma conversa, nenhum conselho, nenhuma teoria tinham conseguido. Esme se virou devagar, segurando a colher de madeira contra o peito como quem segura um segredo.
— Eu achei que você precisava viver aquilo com ela. — disse com aquele tom manso, cheio de carinho — Mas eu também precisava ver. Foi um momento bonito.
Abaixei o olhar para o vapor que saía da minha xícara. Meus olhos estavam marejados, mas não era por dor. Havia algo parecido com aceitação. Uma rendição suave àquilo que sempre esteve diante de mim, mas que eu relutara em ver com clareza.
— Foi mais do que isso. — falei, a voz embargando de leve. Ela ergueu os olhos, com aquela curiosidade afetuosa que me fazia sentir segura — Foi como se... Foi estranho. Intenso. Aquele som... pareceu me dilacerar. Eu sabia que ela podia chorar, claro, mas ouvir mesmo... — parei, tentando achar as palavras, deixando a xícara sobre a mesa — Como se Helena me chamasse de verdade pela primeira vez. Como se ela dissesse: “Mamãe, me encontra.” “Ei, eu estou aqui. Me vê. Me escuta.” E eu fui. Meio sem saber como, sem certeza nenhuma, mas fui.
Esme interrompeu o que estava fazendo à frente do fogão e, em silêncio se aproximou, pegando Hilary no colo e se sentando ao meu lado, o olhar fixo em mim. Seus olhos me estudavam com doçura e paciência e sua mão fria procurou por uma das minhas, a baixa temperatura de sua mão envolveu a minha com firmeza e ternura.
— Sabe… Por mais que eu não quisesse admitir, eu achava que nunca ia sair daquele buraco. — ergui meu olhar para ela. Pude ver Jasper também; ele não disse nada, apenas observava. Atento. Como sempre — Mas hoje... quando ela chorou daquele jeito, foi diferente. Me puxou pra fora. Eu vi que não era um castigo. Era um chamado. Como se ela dissesse: "Me veja de verdade, mamãe". E eu vi.
— E você viu. E você encontrou. Como foi pra você? — Esme se inclinou minimamente para frente.
— Vi, a encontrei. — murmurei, assentindo, sentindo o calor da lembrança me tomar de novo — E senti também. Como se... Como se ela me puxasse de volta. Me arrancasse daquele lugar onde eu ainda estava meio presa. — fiquei em silêncio por alguns segundos. Esme respeitou — E ali, com você ao meu lado, foi a primeira vez que eu senti... que eu podia fazer isso. Não sei explicar. — soltei um suspiro, sentindo o peso e a leveza daquele instante em meu peito. Parei, tentando achar as palavras — Mesmo com medo, mesmo não entendendo tudo ainda, eu senti que podia ser mãe dela. Não só a mulher que a gerou. Mas alguém que responde quando ela chora. — Esme afagou a mão sobre a minha com tanta leveza que quase não parecia toque — Eu nunca tinha ouvido esse som dela. Da necessidade... Era só um choro, eu sei. Mas foi a coisa mais poderosa que eu já ouvi. Porque foi dela. E..., foi pra mim. Esse foi meu recomeço, Esme. Eu... eu não sei explicar. Antes eu cuidava dela, claro. Alimentava, embalava, fazia tudo. Mas na madrugada... Eu me dei conta de que estava aqui, de verdade. Com ela. Presente. — parei por um momento, a voz embargou um pouco de novo, mas continuei — E pela primeira vez, não foi só medo. Ainda tenho medo, claro... — admiti, com um riso nervoso — Mas teve algo mais forte. Um carinho..., novo. Uma vontade de ser para ela o que ninguém nunca foi para mim. Mesmo que eu ainda me sinta perdida às vezes.
O sorriso de Esme foi imediato, cálido, como o sol escondido por trás das nuvens lá fora. Seus olhos me estudavam com doçura e paciência.
— Você é essa mãe, Amberli. — ela afirmou — Você sempre foi. Desde o início. Mesmo quando achava que não era. O amor não espera a gente estar pronta. Ele começa do jeito que pode. E você tem dado tudo de si. E hoje durante a madrugada, foi o momento em que seu coração entendeu o que o corpo já fazia desde o começo. E você atendeu. Isso é ser mãe, Amberli. Nem sempre a gente entende tudo que um filho sente, mas sente o chamado.
Fechei os olhos, deixando as palavras dela pousarem sobre mim como neve macia. As lágrimas vieram silenciosas, sem sobressaltos. Apenas escorreram, eu não tive vergonha delas.
— Obrigada por ter ficado. — murmurei — Mesmo em silêncio. Eu não teria conseguido sozinha.
— Você não está sozinha. — ela respondeu, suave — Nunca esteve. E nunca vai estar.
— Ela é tão pequena, mesmo que cresça absurdamente rápido. — sussurrei — E tão forte.
— Igual à mãe. — Esme respondeu, apertando minha mão.
— Eu não estou dizendo que tudo passou. Eu fiquei com medo. — admiti — Mas agora... é real. Acho que estou começando a ver a Helena. Eu consegui olhar pra ela como minha filha. Só isso. Minha. Não como um erro, não como um lembrete. Só como... Helena. Só ela. E não os fragmentos invisíveis do monstro que me machucou.
Dizer isso em voz alta para eles me incomodou. Mas também aliviou. Como se cada palavra arrancasse mais um peso do meu peito. Como se, enfim, eu começasse a me separar das sombras ocultas daquele homem, daquela noite, daquela dor, e a me aproximar da minha filha. Jasper sorriu de leve, um daqueles sorrisos silenciosos, que dizem mais do que palavras. Ele se aproximou então, puxando a cadeira e se sentando com cuidado ao meu lado.
— Você tem enxergado além do medo. Isso é mais difícil do que parece. — disse ele, com a voz baixa como um sussurro — E mais valente do que qualquer coisa.
Fiquei surpresa pela intensidade suave das palavras. Jasper sempre parecia tocar direto em lugares que eu nem sabia que existiam.
— Eu achei que nunca conseguiria amar a parte dele nela. — declarei — Mas quando ela chorou... Foi como se verdadeiramente me dissesse: “Me veja. Só eu.” — eu sentia a força invisível que aflorava de mim para que eles pudessem entender o que eu queria tanto expressar — E eu vi. Pela primeira vez, vi minha filha sem a sombra daquele homem! — a verdade pulou dos meus lábios como palavras. O alívio sentido por mim foi tão grande, como respirar depois de muito tempo debaixo d’água.
— E você viu. — completou Esme, com carinho, seu olhar intercalava de mim para Jasper — E agora você está livre para amar a sua filha como ela merece.
Ficamos ali por um instante que parecia fora do tempo. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, era como se os dois estivessem ali não só pra ouvir, mas pra sustentar o que eu ainda não sabia carregar sozinha.
Jasper se moveu na cadeira, seus olhos moveram-se para Esme, depois para mim.
— Você não está mais presa nas sombras daquela noite, Amberli. Cada vez que escolhe enxergar a Helena como sua filha, e não como o que a originou, você caminha para fora da escuridão que prende sua mente.
Assenti devagar. Meus olhos se encheram d’água, mas pela primeira vez, não por dor. Era um alívio estranho. Quente. Como se eu pudesse, de fato, parar de fugir de mim mesma. Me dei conta disso ali, na cozinha, com Jasper e Esme como testemunhas. Eu não estava mais presa. Uma lágrima escorreu, mas havia um sorriso junto. Um sorriso pequeno, tímido, mas real. Meus primeiros passos.
— Isso é mais do que vitória, Amberli. — ele disse, com aquela calma — Isso é cura. Ela começou por você.
Respirei fundo, deixando aquelas palavras assentarem dentro de mim. Cura. Era estranho pensar nesse termo depois de tudo. Mas fazia sentido. A ferida ainda estava lá, mas não estava mais aberta. Já não sangrava toda vez que eu olhava pra minha filha.
— E você... me ajudou mais do que imagina. — falei — Eu nunca teria conseguido sair sozinha. Obrigada. — sorri, a voz embargada — Por me verem. Por não desistirem de mim.
— Não subestime a força que tem. — ele disse, os olhos dourados brilhando com gentileza — Eu apenas iluminei um pouco do caminho. Mas foi você quem andou por ele. Com os pés feridos e o coração tremendo. Isso é mais do que coragem. É amor.
— Nós somos família agora. — respondeu Esme, com aquela firmeza doce que só boas mães sabem usar — E a gente nunca desiste da família. — Jasper assentiu, os olhos brilhando de uma emoção que ele não precisava verbalizar. E Esme apertou minha mão.
Um nó se formou na minha garganta. Dessa vez, eu não chorei. Apenas deixei o silêncio falar por mim. Pela primeira vez, o silêncio não me assustava.
Eu tinha vencido.
O relógio da parede marcava o tempo, mas para mim, tudo estava suspenso. O mundo lá fora era frio, húmido e nublado, mas aqui dentro havia calor. Havia presença, conexão e entendimento. Havia algo que, aos poucos, se parecia muito com paz. O cheiro do café, de pão assado, o ruído distante da floresta depois da chuva, a mão de Esme sobre a minha, a presença silenciosa de Jasper, e a lembrança do choro de Helena, como um sino suave anunciando um novo começo. Não importa o que aconteceu antes. Eu podia começar de novo. E Helena marcava o começo. Eu não sabia o que vinha depois. Mas pela primeira vez, não parecia insuportável imaginar o futuro.
Fechei os olhos por um momento, absorvendo o toque gelado da mão da Esme sobre a minha, o olhar compreensivo do Jasper, a paz silenciosa daquele instante. Quando os abri de novo, havia algo novo crescendo dentro de mim. Ainda frágil, mas decidido. Eu queria ser melhor. Não perfeita, porque eu sabia que isso não existia, mas inteira o suficiente para que minha filha se espelhasse em algo firme. Eu não podia mudar o passado, mas podia construir um presente onde Helena fosse amada com tudo o que eu tinha. Levantei meu olhar para os dois, sentindo o peito vibrar com essa certeza que a cada dia se fortificará dentro de mim.
Naquele instante, eu sabia exatamente o que precisava fazer.
Quando Helena acordasse, eu iria segurá-la nos braços como nunca antes. Não com a hesitação de alguém que teme o que não entende, mas com a coragem de quem escolhe amar por inteiro.
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A manhã avançava lentamente, arrastando um céu cinzento que pendia sobre Forks, lá fora, os pingos escorriam pelas janelas como se o mundo chorasse devagar, mas por dentro, algo novo se movia e me renovava.
Eu estava de banho tomado, o cabelo solto só com algumas mechas com as pontas humedecidas pela secagem breve que fiz. Entrei no closet, com as notas melódicas do piano tocado por Edward ecoar dentro da minha cabeça enquanto eu caminhava diretamente para as gavetas que agora eram ocupadas definitivamente com as minhas roupas. Comecei a vasculhar entre cada uma delas algo que agradasse meus ânimos, a dobradura das minhas roupas agora é tão perfeitas e alinhadas que pareciam usar máquinas, pois mesmo que eu tente deixar igual, nunca atingi tal precisão, o que dificultava em colocar a peça no lugar sem deixar o claro vestígios de que eu havia mexido ali, mesmo que fossem as minhas roupas.
Olhei o fundo da última gaveta e encontrei um conjunto antigo: uma blusa de manga longa de algodão macio em tom lilás suave e a calça de tecido canelado combinando, ambas com o tecido já um pouco esmaecido pelo tempo, mas ainda exalava um leve cheiro, ou talvez, mais memória do que o perfume real. A calça de algodão combinava em cor, mas estava um pouco mais desbotada nas dobras. Era uma daquelas peças que antes de eu chegar a Forks me apertavam nas costelas, na cintura, subiam nas mangas, deixavam marcas no quadril, lembrando que o tempo também molda o corpo. Agora, depois de meses difíceis que pareciam ter me esvaziado por dentro e por fora, elas deslizavam com folga sobre mim. Confortáveis. Leves demais para o que carregavam.
Minha mãe me deu esse conjunto num dia comum, depois de uma ida ao centro da cidade. Lembro da alegria dela quando achou a estampa da blusa delicada, dizendo que a blusa tinha um bordado discreto de flores silvestres que lembrava minha delicadeza e que combinava comigo. Meses depois, ela partiu, vencida pelo câncer, e eu... Perdi ainda mais do que podia nomear. Vesti-lo agora era como tocar de novo em um tempo que já não existe, como se o tecido, apesar do desgaste, ainda carregasse a forma do colo dela, como se guardasse o abraço que não recebo há anos.
Voltei ao quarto, apanhando o suéter velho e me aqueci dentro dele, meus pés me conduziram para fora do quarto com um novo destino em mente. Caminhei pelo corredor com passos calmos, ouvindo o ranger familiar do assoalho sob meus pés descalços, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não me importei com isso. Não hoje.
A porta do quarto da Helena estava entreaberta. A luz suave do abajur criava sombras miúdas nas paredes e no berço. Fiquei ali parada por alguns segundos, só observando. Ela estava acordada, os olhos atentos mirando o teto como se ele escondesse algum segredo incrível. Os bracinhos dela se moviam devagar, e as mãozinhas pareciam dançar no ar, como se estivessem aprendendo a tocar o mundo.
— Ei... — sussurrei me inclinando para vê-la no interior, e a doçura que escapou da minha voz me surpreendeu. Eu não sabia que ainda existia algo tão leve dentro de mim, para ela.
Helena virou o rostinho e fez um som baixinho, meio falada, meio brunido. Não era choro. Era... vida. E me fez rir. Rir de verdade. Um riso sincero, meio bobo, mas verdadeiro. Estendi meus braços para pegá-la com um cuidado que, dessa vez, não era feito de medo. Era carinho. Era acolhimento. Ela se encaixou no meu colo como se sempre tivesse pertencido ali. Como se me conhecesse desde antes.
— Você está me ensinando a ser sua mãe, né? — falei, encostando o nariz na cabecinha dela. O cheirinho morno e adocicado me aqueceu o peito — Eu tô aprendendo com você. Um dia de cada vez.
Me sentei na poltrona ao lado do berço, com ela ainda aninhada contra meu peito. Helena resmungou baixinho, depois se aquietou, como se soubesse que aquele som, aquele calor, era lar. Passei o dedo pelas bochechas dela e senti algo se abrir dentro de mim. Um sorriso. Um de verdade. Sem culpa. Sem me perguntar se eu tinha direito. Apenas, porque eu sentia.
— Sabe o que eu pensei de madrugada? Que talvez você não seja só o que me aconteceu. Talvez você seja o que vai acontecer. — as palavras vieram, mas não doeram — Sim..., é isso mesmo. Meu futuro tem seu nome escrito nele, Helena. E isso me assusta..., mas também me dá vontade de ficar. — ela bocejou, a boquinha se abrindo devagar como a de um peixinho. Dei um beijo leve em sua testa quente — É, Helena... talvez a gente consiga.
Naquele instante, eu me permiti ficar com ela nos braços por mais tempo. Cantarolar uma melodia que eu nem lembrava direito. Encostar o rosto na pele quente da minha filha e deixar que isso fosse suficiente, pelo menos por ora. Era um começo. Não era perfeito, mas era verdadeiro.
E eu... enfim... deixava o amor fazer o que sempre soube fazer. Entrar. Devagar, mas fundo.
Ergui meus olhos para a janela mais próxima, percebendo que a chuva havia dado uma trégua. Pela primeira vez em dias, a floresta parecia respirar em silêncio, coberta por uma neblina fina que dançava entre os pinheiros como véu de renda húmida. A casa também silenciava, como se quisesse me dar espaço para sentir. Me levantei da poltrona, acomodando Helena melhor nos meus braços e me aproximei da janela, apertando a manga enorme do suéter grosso ao redor do corpo dela. Um dos punhos estava manchado de xarope, e isso me fez lembrar de uma lembrança de um daqueles cafés da manhã com a Hilary, quando ela derramou a tigela no meu colo e riu como se o mundo fosse engraçadíssimo. A lembrança me fez sorrir. Helena estava tranquila nos meus braços, seus olhos piscavam, curiosos, como se tentassem entender a luz que atravessava as frestas das nuvens e banhava as folhas molhadas.
— Olha isso, filha... — murmurei, como quem divide um segredo precioso — Tudo isso também é seu. Esse mundo..., ele pode ser bom. Juro que pode.
Ela grunhiu baixinho, e o som fez meu peito amolecer. Pressionou o rostinho contra mim como se buscasse mais do que calor. Como se buscasse alguma certeza. Inclinei o queixo e encostei no alto da cabeça dela. Inspirei fundo. Movi a tranca da janela e deixei uma pequena abertura, o cheiro de floresta molhada entrou por ali e pareceu limpar alguma coisa dentro de mim, algo que doía em silêncio.
— Quando eu era adolescente, eu achava que só existia frio no mundo... — falei baixinho, deslizando os dedos pelo corpinho quente dela — Mas olha só..., você tá aqui. E tem calor.
Esse era o tipo de coisa que eu nunca diria diante de ninguém. Mas com ela, eu podia. Mais que isso, eu quis. Queria que Helena crescesse ouvindo minhas verdades, mesmo as pequenas. Mesmo as que me faziam chorar.
Continuei ali, imóvel diante da janela ignorando o peso de Helena adormecendo meu braço, como se o mundo inteiro tivesse parado para que eu pudesse sentir. Helena se remexia de leve e a forma como sua mão minúscula se fechava sobre meu dedo fazia meu coração apertar de um jeito que ainda não sei explicar. O silêncio da casa me parecia diferente agora, carregado de tudo o que eu nunca consegui dizer em voz alta e que agora começava a encontrar espaço dentro de mim. A neblina do lado de fora se desfazia devagar, revelando pedaços da floresta que antes pareciam intocáveis. E, por um segundo, me vi ali também, tentando me revelar, pedacinho por pedacinho, depois de tanto tempo me escondendo até de mim mesma.
— Você me obriga a estar aqui, sabia? — sussurrei, encostando a bochecha no topo da cabeça dela — A estar presente. A não fugir com Hilary para longe...
Helena soltou um suspiro abafado, e eu fechei os olhos. Me permiti respirar junto com ela. Me permitir... tem sido o maior desafio. Mas hoje, por algum motivo, estava mais fácil.
Talvez fosse a trégua da chuva. Ou o modo como a luz pálida da manhã atravessava as folhas e tocava o chão como um carinho silencioso. Não era um sol propriamente dito, Forks raramente oferecia esse tipo de claridade, mas havia algo gentil naquela iluminação filtrada pela neblina. Ou talvez fosse ela.
Sim, era ela.
— Eu tenho tanto medo de não ser suficiente para você. — as palavras saíram baixinho, como se eu as roubasse de dentro — Mas olha só..., você nem parece notar. Você só me ama. Sem manual. Sem cobrança.
E aquilo me esmagava um pouco. Mas também me reconstruía. Respirei fundo reunindo forças para ajeitar Helena contra o peito, como se quisesse protegê-la do que ainda nem aconteceu. Como se pudesse impedir o mundo de tocar onde não deve. Mas eu sabia..., não posso. Só posso estar. E talvez... Talvez isso já seja muito.
— Se um dia eu me perder de novo, me lembra quem eu sou quando estou com você. — a voz embargou; não escondi — Porque, mesmo sem entender nada disso, você me faz querer ser alguém melhor.
Fiquei ali mais um tempo, só olhando a floresta através da vidraça, o corpo quente dela colado ao meu, a respiração ritmada parecia se misturar à névoa que subia lá fora, flutuava entre os pinheiros molhados a floresta parecia respirar com a gente. Não pensei no passado. Nem no que viria. Só existi ali, inteira pela primeira vez em muito tempo. Ela olhava tudo com aquele olhar curioso que só os bebês têm, como se cada detalhe do mundo fosse uma descoberta nova. E eu..., eu olhava com ela. Como se precisasse reaprender tudo também.
— É só manhã, Helena. — sussurrei fechando a janela — Só uma manhã cinza. Mas olha como ainda pode ser bonita. — e de algum jeito, isso me acalmava; como se aquele cenário soubesse dos meus cansaços e, mesmo assim, dissesse: “Você pode ficar.”
Helena se mexeu devagar, fazendo um som baixo, quase um ronronar. Sorri.
— Eu costumava achar que os dias bonitos precisavam de um céu azul e sol. Que tudo só ficava bem se estivesse claro. — fiz uma pausa, observando o mundo lá fora através do vidro — Mas hoje, aqui em Forks..., acho que gosto mais assim. Com essa calma. Com essa cor.
Meu reflexo no vidro me devolveu um rosto cansado, com olheiras fundas e cabelo bagunçado. Mas havia outra coisa ali também. Uma suavidade nova, quase imperceptível. Como se algo em mim estivesse, enfim, se assentando.
— Obrigada por me trazer de volta. — murmurei — Nem que seja por um pedacinho de cada vez.
Helena bocejou, como se me respondesse. E então, como um instinto, eu beijei sua bochecha com ternura. Ficamos assim por mais alguns minutos diante da janela, ouvindo aquele silêncio húmido que vinha da floresta, Helena começava a relaxar completamente contra meu peito, o corpinho entregue. Duas presenças caladas, respirando juntas diante da janela, como se fosse nosso próprio lugar. Um começo singelo, mas real. Ali, com ela nos meus braços, o dia parecia prometer mais do que só sobrevivência. Parecia, de fato, oferecer vida. Beijei o alto da sua cabeça uma última vez, antes de me virar com cuidado.
— Vamos ver sua irmã, pequena? — falei baixo, mas o som pareceu preencher o quarto com suavidade.
Saí devagar, os pés descalços tocando o chão de madeira com passos leves. Cruzei o corredor que exalava o aroma leve de lavanda, que me lembrou de Esme imediatamente. Tudo na casa me parecia gentil de um jeito que eu ainda estava aprendendo a aceitar. A porta do quarto ao lado estava encostada, empurrei com o ombro, mantendo Helena bem junto a mim, e entrei.
Hilary dormia dentro do berço branco, enrolada nos lençóis com seus fios castanhos espalhados no pequeno travesseiro, a chupeta presa em seu pijaminha, o rostinho calmo, sereno. Era uma imagem que sempre me tirava o fôlego, vê-la assim, protegida, em paz. Aproximei-me em silêncio e fiquei ao lado do móvel, com Helena ainda nos braços. Fiquei observando as duas por um instante, como se fosse uma espectadora de algo sagrado. E era.
— Você tem uma irmã maravilhosa, sabia? — murmurei para Helena, que agora olhava o rosto de Hilary como se também o achasse especial.
Hilary se remexeu, resmungou um pouquinho, e então abriu os olhos devagar. Aqueles olhos castanhos, tão parecidos com os meus, me encontraram primeiro. Depois, desviaram para a irmã mais nova, e seu sorriso se abriu, lento, sonolento, mas cheio de luz.
— Mamãe... a bebê tá aqui.
— Tá sim, meu amor. — assenti, sorrindo também — Acordamos cedo hoje.
Hilary se ergueu, ainda com o corpo meio afundado no colchão, e esticou a mãozinha para tocar o pé de Helena com delicadeza. Foi como ver dois mundos se reconhecendo.
— Ela gosta de mim, mamãe? — perguntou, com aquela inocência que me desmontava por dentro.
— Ama você. — respondi, com firmeza, porque era verdade — Desde antes de nascer. Ela já te conhecia.
Hilary sorriu de novo, como se aquela fosse a melhor notícia do mundo, mesmo que ainda não entendesse o valor daquelas palavras e então me abraçou pela cintura, envolvendo também a irmã. Sorri, com minhas duas meninas me cercando, uma nos braços, outra no abraço, eu senti, de novo, aquela coisa que estava tentando nomear desde o começo: Esperança. Amor, talvez; ou só o começo dele.
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A manhã seguiu calma, como um suspiro longo. Após brincarmos juntas no quarto, dei um jeito de descer sozinha com as duas meninas nos braços e segurado pelo meu dedo mindinho, estava a bolsinha da bomba extratora. O chão de madeira estava frio sob meus pés, mas o corpo quente das meninas contra o meu dava um contraste o suficiente para eu não me importar. O sol ainda não aparecia, mas a luz do dia já clareava todo o interior da casa, filtrada pelas janelas altas. Esme continuava na cozinha, com os cabelos presos num coque elegante e um pano de prato pendurado no ombro, fazendo algo que cheirava a alecrim e pão fresco. O cheiro me envolveu e atiçou a fome que até então, eu nem sentia. Sentei-me com Hilary à mesa enquanto segurava Helena, que já começava a mostrar sinais de fome. Aquele resmungo baixinho, a boquinha se mexendo em busca de aconchego. Era engraçado como eu já reconhecia isso, o jeito que ela me procurava quando queria o leite para se alimentar. Desembrulhei a pequena bomba de leite de dentro de sua bolsinha; o processo já era quase mecânico, mas havia uma certa paz naquele gesto repetitivo, principalmente quando eu tinha ciência da presença de Helena próxima de mim. O meu corpo ainda me surpreendia. Mesmo depois de tudo, ele havia escolhido continuar à alimentar. Produzir. Sustentar.
Quando havia o suficiente dentro do recipiente, eu despejei o leite morno na mamadeira especial, que Esme já havia aquecido para mim, dentro de uma tigela com água para manter a temperatura ideal. Tudo era feito com um cuidado quase cerimonial.
— Posso me sentar com vocês? — perguntou Carlisle, surgindo como se estivesse por ali desde sempre. Foi só nesse instante que ouvi os passos leves, quase silenciosos aproximando-se com seu bloco de anotações em cima do tablet em suas mãos. Seus olhos brilharam de entusiasmo respeitoso.
Assenti com um aceno, com um leve sorriso sem constrangimento. Isso era o que eu mais admirava nele: mesmo diante do que parecia incrível do ponto de vista médico, uma humana produzindo leite suficiente para nutrir uma bebê híbrida, ele nunca me fazia me sentir um experimento.
Enquanto Helena se alimentava tranquilamente, os olhos dourados do médico a observavam com uma mistura de fascínio e gentileza. A mamadeira foi tomada em silêncio, e eu a observei, quase hipnotizada, enquanto Helena ficava quieta, satisfeita, seus olhinhos começando a se fechar devagar, em deleite. Eu a segurei mais firme por um momento, como se o simples ato de mantê-la perto fosse a única coisa que importasse naquele instante. A alta temperatura do corpo dela contra o meu era algo que eu ainda não sabia como descrever, mas que preenchia um vazio que eu nem sabia que existia. Senti a intensidade de todos os olhos sobre nós, mas não era desconfortável. Carlisle e Esme pareciam assistir a cena com um cuidado quase reverencial, como se houvesse algo precioso demais sendo compartilhado. E, de certa forma, havia. Helena era um milagre, e o fato de eu ser parte desse milagre ainda parecia surreal.
— A produção do leite continua constante? — Carlisle, sempre tão atento, não resistiu em fazer uma pergunta, anotando algo, como sempre, mas seus olhos estavam focados em mim, mais do que no bloco de anotações — Alguma mudança na cor, odor ou consistência?
Eu tentei responder com a mesma calma, mesmo que a questão me lembrasse o quanto meu corpo havia mudado, de formas que eu nem compreendia totalmente.
— Continua normal, bem... Dentro do que dá pra chamar de normal, né? — disse, tentando soar descontraída, e minha voz saiu mais suave do que eu queria.
Ele parecia genuinamente fascinado. Seus olhos dourados brilharam com um interesse científico, mas também com um carinho que me fez relaxar um pouco.
— Seu corpo é extraordinário, Amberli. Está nutrindo um organismo híbrido com estabilidade. Isso é raro... talvez inédito, exceto pela experiência com Bella.
Fiquei em silêncio, os olhos em Helena, que sugava tranquila, as pálpebras semicerradas como se envolta por uma calma particular. Era difícil engolir o fato de que meu corpo estava fazendo algo tão complexo, tão além do que eu jamais imaginaria. Eu só... vivia, me preocupava com Helena, tentava ser mãe dela. Mas isso era mais do que eu conseguia entender. Eu só queria que fosse suficiente. Olhei para Carlisle, e me senti grata, de uma maneira estranha, por ele nunca pressionar mais do que eu podia dar. Ele sabia que estava diante de algo raro e talvez até perigoso, mas ele respeitava o processo. E isso me dava um pouco de paz.
— Às vezes, me dá medo pensar no que tem de “inédito” nela... — minha voz saiu baixinha, mais para mim mesma — E em mim.
Carlisle não respondeu de imediato. Ele apenas me olhou com aquela expressão serena, como se estivesse pesando minhas palavras.
— Eu entendo. — disse ele finalmente, com suavidade — Mas o novo não é, por si só, uma ameaça. Helena está saudável. E você... Você está conseguindo algo que parecia impossível.
Eu só assenti, sem responder de imediato. Era mais do que eu conseguia processar naquele momento. Era difícil aceitar que algo em meu corpo, tão marcado por dor, pudesse agora ser fonte de vida. Mas aqui estou eu, viva, inteira o suficiente para dar de mim a alguém. Eu sabia que Helena estava bem. Mas e eu? Eu estava tão longe do que eu pensei que seria capaz de ser. Não era só a mãe que ela precisava, era tudo isso, o milagre, a vida, o medo, o amor.
Enquanto Helena se alimentava, eu ficava ali, observando cada movimento dela com atenção. Carlisle, ainda com seu bloco de anotações, se aproximou um pouco mais. Seus olhos dourados estavam intensos, mas suaves, e isso me dava uma sensação estranha de segurança, como se ele realmente estivesse buscando entender e não apenas analisar.
— Estou fascinado com a resposta do seu corpo, Amberli. — disse ele, fazendo mais uma anotação — O seu organismo está adaptando sua biologia para atender a todas as necessidades de uma híbrida, de maneira mais eficiente do que eu poderia prever. — ele pausou, seus dedos passando pela folha com detalhes meticulosos, e seus olhos se ergueram para mim — Você sabia que os processos de lactação em uma humana são regulados por hormônios como a prolactina e a ocitocina? Mas no seu caso, além da prolactina, existe uma produção exacerbada de outras substâncias que são raramente encontradas em humanos normais.
— Você acha que é por causa dela? — perguntei, olhando para Helena, que mamava tranquila, alheia ao mundo — Por ela não ser totalmente humana?
Eu engoli em seco, sem saber exatamente o que ele queria dizer. Mas sabia que, quando Carlisle se empolgava com algo, ele não deixava de explicar até os mínimos detalhes.
— Em parte, sim. — ele passou os dedos pela tela do tablet — Mas é mais do que isso. O seu corpo não só reconhece a presença dela, ele parece…, responder. Como se tivesse se adaptado à composição genética da Helena. A ocitocina, que é o hormônio associado ao vínculo maternal, está intensificada em você de uma maneira incomum. Talvez isso seja o que explique a conexão tão forte entre você e Helena, desde o momento em que ela tocou em você pela primeira vez. Como se seu corpo tivesse "lembrado" o que era necessário, o que estava por vir. — eu olhei para Helena, com os olhos fixos nela, e senti uma onda de proteção, algo ainda mais intenso que o que eu já sentira antes. Carlisle continuou — Além disso, desde aquele dia em que você acordou, o seu corpo está produzindo um leite com uma composição única. Não é apenas um leite comum, Amberli. Ele contém uma quantidade considerável de anticorpos e propriedades de cura, o que provavelmente está ajudando no desenvolvimento do sistema imunológico de Helena.
Suspirei, e uma pequena parte de mim se sentiu nervosa. “Propriedades de cura”, ele dissera. Como isso seria possível? Como meu corpo, que havia sido ferido e destruído de tantas formas, agora estava sendo um protetor? Era como se meu corpo tivesse se reconstruído, adaptado a uma nova necessidade, uma nova missão.
— Quando você se alimenta ou descansa, o leite parece ficar mais denso e mais nutritivo. — continuou Carlisle — Isso é extremamente raro, especialmente considerando as condições em que o seu corpo foi alterado. A lactação, normalmente, não se adapta tão rapidamente às necessidades da criança. Mas o seu... Bem, sua capacidade de adaptação é impressionante. A quantidade de nutrientes e lipídios que Helena está recebendo é bem maior do que o normal para um híbrido. Isso deve ser... altamente benéfico para ela.
Fiquei em silêncio, absorvendo tudo o que ele estava dizendo. Não era como se eu não estivesse ciente do que acontecia dentro de mim, mas ouvir tudo de Carlisle, com a precisão médica e científica dele, parecia torná-lo ainda mais real.
— É como se você fosse uma versão otimizada da biologia humana. Só que, com o componente vampírico, é claro. — explicou ele se referindo à Helena, enquanto anotava mais algumas coisas — E o mais intrigante é que o seu corpo mantém essa produção constante. Não há sinais de que isso vá cessar tão cedo, o que nos dá a oportunidade de estudar como isso pode afetar a saúde de Helena a longo prazo.
— Vai querer que eu leve sua comida aí? — Esme perguntou de repente, chamando a nossa atenção momentaneamente, sorrindo de um jeito acolhedor demais.
Assenti. Já era automático. Já havia percebido que Helena estava em fase de mamadas constantes, e negar isso era impossível e, para minha surpresa, agora..., eu não queria mais negar.
Eu fiquei ali, processando tudo, enquanto olhava para Helena, que agora estava tomando os últimos resquícios do leite. Quando ela terminou a mamadeira, a segurei por mais um instante, aninhada contra o meu peito, sentindo sua respiração tranquila, o rostinho relaxado, e tudo parecia se acalmar dentro de mim e agradeci em silêncio. Quando tirei a mamadeira vazia de seus lábios, senti o peso das palavras de Carlisle se instalando dentro de mim, como se, de repente, tudo o que estava acontecendo fosse parte de um experimento que ainda estava longe de ter todas as respostas.
— Eu pensei que não conseguiria. — confessei — No começo, eu achava que..., não era capaz de dar nada de bom a ela. Mas agora, ela me chama pra perto o tempo todo. É como se dissesse que eu posso. Que eu sirvo.
Carlisle me ouviu em silêncio, e depois sorriu, não como médico, mas como pai, avô, como parte daquela casa.
— Você serve muito bem, Amberli. E está dando mais a ela do que qualquer ciência poderia prever. — ele olhou para minha filha de maneira pensativa, e seus olhos brilharam levemente — Estou sendo cuidadoso, é claro. — disse ele, sua voz um pouco mais contida — Mas, Amberli, é importante entender o quão rara e preciosa é essa situação. Helena está se desenvolvendo de uma maneira que, para mim, é..., bem, única. Eu poderia escrever outros artigos só sobre isso.
Minha respiração ficou mais lenta. A ideia de que Helena era parte de algo tão incomum e, por consequência, eu também; como a única progenitora sobrevivente humana, era assustadora, mas ao mesmo tempo, eu sabia que era isso que ela precisava: proteção, cuidados e uma mãe que ainda estava aprendendo a dar tudo o que ela precisava.
— Não quero te preocupar. — disse Carlisle, de forma suave, percebendo a tensão no meu rosto — Estou apenas observando. E, caso você se sinta desconfortável com os estudos, podemos ajustar os protocolos. Seu bem-estar é a prioridade.
Eu balancei a cabeça, tentando relaxar, mas a verdade é que uma parte de mim ainda estava bem surpresa. Eu não sabia mais o que era normal, o que era real. Mas ver Helena ali, tão tranquila, me fazia sentir que, de algum modo, estava fazendo o certo. Mesmo que não fosse de uma forma convencional. Helena bocejou, e seus cílios tremeram antes de cair como cortinas sobre os olhos. Dormia. Confiando em mim.
— Tudo bem, Carlisle. — murmurei, com um sorriso tímido — É que hoje, quando ela chorou..., algo em mim mudou. Pela primeira vez, eu senti que era a mãe dela. De verdade. Não só a mulher que deu à luz, não só alguém que sobreviveu..., mas como sua mãe. E isso me fez ver tudo com outros olhos.
Ele não disse nada, apenas escutou, como sempre fazia. E isso me deu forças para continuar.
— Eu tenho medo, Carlisle. Tenho muito medo. — Minha voz tremeu um pouco, mas não desviei o olhar. — Do que ela vai ser, do que pode acontecer com ela... das coisas que eu nem imagino que existem nesse mundo. Mas eu não quero fugir disso. Eu quero entender. Quero estar pronta. Quero aprender tudo. Desde o que ela é até como posso cuidar dela em cada fase.
— Você não sabe o quanto fico feliz em ouvir isso, Amberli. — ele assentiu lentamente, os olhos cheios de compreensão e de orgulho — O desenvolvimento de um híbrido é complexo, mas com o amor e o instinto que você demonstrou hoje, você já está muito mais preparada do que imagina.
— Então... você me ajuda? — perguntei, com uma voz quase sussurrada.
— Claro que ajudo. Nós todos vamos ajudar. Mas se você está pronta para saber, então eu vou te mostrar tudo o que sei. E o que ainda não sei, nós vamos descobrir juntos.
Naquele instante, senti um alívio profundo. Eu não estava mais no escuro. Eu tinha um caminho e uma família ao meu lado para me guiar por ele, eu estou pronta para ouvir. Pronta para aprender.
— Apenas..., continue. Estou pronta para isso.
Ele sorriu, com aquele sorriso compreensivo, como se soubesse exatamente o que se passava pela minha cabeça. Então, ele fez uma última anotação, pediu licença e se afastou. Helena estava agora adormecida nos meus braços, o rostinho sereno, satisfeita. Eu a olhei com ternura, agradecendo silenciosamente por cada momento que ela me dava, por cada novo dia. Ela era o meu mais novo milagre. E eu, ainda que insegura, estava aprendendo a ser a mãe que ela merecia.
Esme começou a servir o almoço, mas, para mim, a cena da cozinha era como um quadro em movimento. Tudo se misturava com a imagem de Helena dormindo no meu colo, e eu me permiti ficar ali por um momento, sem pressa de nada. Não era perfeito, mas estava bem. A mesa foi posta com discrição, pratos leves e quentes. Esme fez questão de me servir primeiro, e houve algo maternal nesse gesto que quase me fez chorar. O almoço se seguiu com uma calma que eu não sabia que podia existir. Hilary balançava as perninhas na cadeira, distraída com os legumes cortados em formas de estrela que Esme colocava no prato. E eu, ali, com Helena no peito e o aroma de comida quente preenchendo tudo, senti algo apertar dentro de mim, não de dor, mas de esperança. Como se aquela vida que eu achava que nunca teria voltasse a me caber de novo.
Eu ainda tinha receio de como a vida se transformava ao meu redor, mas enquanto Helena estava ali, ainda nos meus braços e Hilary na cadeira ao meu lado, nada parecia mais importante. E talvez fosse isso. Talvez o segredo estivesse em simplesmente deixar acontecer. Em não correr, não esperar perfeição. Apenas..., ser. Juntas.
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O céu do fim da tarde era um cinza espesso, quase uniforme, mas quando notei, o quarto utilizado por Helena começava a escurecer. A luz cinzenta que entrava pela janela já era mais fria. A chuva caía mansa, mas constante, como se o tempo estivesse cansado, assim como eu costumava estar. Mas hoje, realmente havia algo diferente no ar. Helena dormia profundamente, aninhada em meu colo. Não quis deixá-la sozinha, não ainda. Então a enrolei com cuidado no cobertorzinho creme que outrora eu havia recolhido de dentro do berço dela e desci as escadas com passos suaves, quase solenes. O som da madeira sob meus pés me pareceu mais acolhedor do que antes. A casa dos Cullen tinha esse dom de guardar silêncio como se fosse algo sagrado. Quando cheguei na sala, a feição de Helena dava indícios de que ela logo iria acordar se eu continuasse me movimentando dessa maneira. Sentei-me no sofá devagar e acomodei Helena no meu colo, sentindo seu corpinho se moldar ao meu. Passei os dedos nos cabelinhos dela e comecei a cantarolar. Era uma canção boba, inventada na hora, meio desafinada, entrecortada por pausas e pequenos risos que escapavam sem que eu controlasse. Mas era nossa. E parecia funcionar.
E só quando Helena estava dormindo profundamente, e que eu acomodava o seu corpinho ao meu lado, foi que percebi que não estávamos sozinhas. Quando percebi sua presença, corei na hora. Era como se tivessem me pegado fazendo algo íntimo demais.
Renesmee estava ali, deitada num canto mais distante sobre o tapete, com um livro aberto nas mãos, os olhos fixos numa página. Ela ergueu o olhar quando me viu, mas não disse nada. Sorriu apenas. Helena resmungou no sono, toquei em seus cabelos e comecei a cantarolar baixinho a melodia num som manso, só nosso. Um canto de instinto, de afeto.
Renesmee observava. Silenciosa. Atenta. E respeitosa.
— Eu… só estava tentando acalmá-la... — falei, quase num sussurro, sem saber ao certo se pedia desculpas ou explicava.
Renesmee fechou o livro e se aproximou, sentou-se sobre o tapete ao lado da minha perna esquerda com suavidade, como se o ar ao redor fosse feito de vidro. O livro foi deixado sobre suas pernas, o volume era grosso, encadernado em couro gasto pelo tempo. As bordas das páginas estavam amareladas e, mesmo à distância, eu podia sentir o cheiro de papel antigo e terra molhada que parecia emanar dele. Desviei meus olhos do livro quando ela ergueu o rosto para cima, me olhando com aquele olhar que só ela tem. A sua aproximação, não invadia meu espaço, ela sempre foi uma boa companhia.
— Eu sei. E você tá fazendo isso muito bem. — ela sorriu.
Baixei os olhos, sem saber como responder, sentindo um sorriso pequeno e tímido nascer nos meus lábios. Ainda havia partes em mim que se encolhiam ao serem vistas. Mantive a mão sobre os cabelos de Helena, fazendo movimentos circulares quase imperceptíveis.
— Eu... só queria que ela dormisse bem. — quebrei o silêncio, um pouco sem jeito — Não sou muito boa com canções de ninar.
— E ela dormiu. — Renesmee disse. Sua voz era baixa, agradável e respeitosa — E isso diz tudo.
— Às vezes eu acho que ela sente quem eu fui..., e me ama mesmo assim. — suspirei — E isso me dá medo. Porque... Sei lá se eu consigo ser tudo o que ela vai precisar.
— Ninguém sabe. Nem mesmo nossas mães sabiam. — ela sorriu — A diferença é que você está tentando. E tá amando. Isso pra mim, é ser mãe.
Houve um silêncio bonito entre nós. Não desconfortável. Um silêncio de entendimento.
— Você acha que eu vou dar conta, Nessie? — perguntei, quase num fio de voz.
— Eu acho que você já tá dando. — Renesmee olhou para Helena, e depois para mim — E o resto..., aprende com o tempo. Com os erros. Com o amor também.
Helena se remexeu, e sua boquinha fez um biquinho sonolento. Quando voltei meu olhar para Renesmee, ela já não estava sentada aos meus pés, e sim ereta à minha frente, os olhos castanhos gritantes sobre mim. O livro antigo que repousava em seu colo agora estava em suas mãos. A capa de couro envelhecida parecia ter atravessado gerações, bordada com símbolos que eu não reconhecia, mas que instintivamente senti que carregavam significados profundos.
— Vou passar na reserva…, visitar o Jacob. — disse ela, com um pequeno sorriso, enquanto alisava a borda do livro com o polegar — Preciso devolver isso pra ele.
— Que livro é esse? — perguntei, não tanto por curiosidade intelectual, mas porque algo naquilo me chamou a atenção.
Ela virou a capa em minha direção antes de responder. Não havia título, apenas desenhos gravados à mão no couro: símbolos circulares, penas, rostos meio humanos meio animais, olhos grandes demais para serem só de gente, uma figura que parecia um lobo em pé, outra que lembrava uma mulher com os cabelos ao vento. Era um livro sobre os Quileutes, não havia dúvida.
— É uma coletânea de histórias Quileute. — explicou — Lendas, na verdade. Histórias que os anciãos passam de geração em geração há séculos. Coisas que eles carregam no sangue e no silêncio. Algumas falam da conexão com os lobos…, sobre a ligação espiritual com os lobos e os espíritos da natureza, sobre transformações, elo de almas e outras sobre algo chamado imprinting.
A última palavra desconhecida ficou pendurada entre nós. Engoli em seco, sentindo uma pontada estranha na boca do estômago. Não sei bem por que aquilo me afetou, mas me afetou. Ela notou meu olhar perdido e sorriu de leve, como se tivesse medido bem o que podia ou não dizer. Ainda assim, Renesmee apenas sorriu, como se tivesse mencionado algo tão comum quanto o clima.
— São histórias bonitas. — continuou com doçura, como quem tenta suavizar um peso — Intensas, às vezes. Mas... são só histórias, claro.
Assenti com a cabeça, mesmo sem saber ao certo se concordava, como se estivesse processando mais do que ela tinha dito. Ela se aproximou, inclinou para me dar um leve abraço.
— Até mais tarde, Amberli. — se despediu.
— Boa visita, Ness... — respondi, quase num sussurro.
Observei-a cruzar a sala com passos leves, quase flutuantes. O som se findou quando ela desceu as escadas, mas o que me dissera permaneceu em mim como um eco. Lendas e palavras soltas que eu não compreendia direito, mas que mexeram com algo em mim. Algo que se agitou lá no fundo, como uma memória que ainda não aconteceu, ou que aconteceu e foi arrancada de mim.
Havia um motivo para ela ter mencionado aquilo? Ou era apenas minha mente buscando significados onde não existiam?
Fiquei olhando para o espaço vazio por onde ela passara, sentindo uma estranha quietude se instalar na sala. Apoiei as costas no sofá e fechei os olhos por um instante, tentando afastar os pensamentos. Mas eles ficaram ali, pareciam bater nas paredes da minha cabeça procurando espaço para se encaixar, pairando como a bruma constante lá de fora. Invisíveis, densas... e insistentes.
Os minutos foram passando, a casa estava quase silenciosa, exceto por vozes baixas que ecoavam até mim. O céu lá fora escurecia rápido, encoberto por nuvens densas, como se a noite tivesse pressa; nos corredores, e lances de escada a luzes amareladas das arandelas iluminavam o caminho. Helena continuava a dormir tranquila no estofado do sofá, seus pezinhos tocavam a minha coxa, e dentro de mim, o caos havia dado lugar a um silêncio suportável. Hilary estava sob os cuidados de Esme; Alice comprou bombas de banho para deixar o banho de Hilary mais colorido e elas estavam juntas, entretendo minha filha.
Ergui meu olhar com calma, virando o rosto para a esquerda; Jasper se aproximava em silêncio, vindo da escadaria do andar de cima. Seus passos o levaram para mais perto, como esteve tantas vezes antes, sentando-se na poltrona mais próxima, o corpo relaxado, as mãos entrelaçadas no colo. Havia algo nele que inspirava quietude, mesmo quando o mundo parecia um vendaval.
— Dois meses. — eu disse, quebrando o silêncio — Você sabia que hoje faz exatamente dois meses desde a primeira vez que eu desabei na sua frente?
— Eu sabia. — ele sorriu com os olhos, o canto da boca quase imperceptivelmente curvado — Vampiros têm memória boa. — brincou, com aquele tom arrastado e sutil.
Soltei um riso fraco. Fazia tempo que eu não conseguia rir com alguma leveza num único dia.
— Eu estava em pedaços. Nem queria segurar a Helena... Lembra? Eu tremia só de chegar perto dela.
— Lembro. — ele respondeu, sem pesar — Mas também lembro que, mesmo assim, você ficou. Todo dia. Mesmo quando não conseguia olhar para ela..., você insistia. Você não desistiu.
Acariciei a cabeça da minha filha, sentindo a textura anelada de seus cachos. Ela estava quentinha, entregue ao sono profundo. Eu percebia sua respiração suave mover seu peito e, pela primeira vez, olhá-la dessa forma me dava paz e não medo.
— Acho que eu tinha medo de me apegar e depois... rejeitá-la de novo. — confessei voltando meu olhar para ele, sem vergonha. Jasper tinha me visto nos meus piores dias. Já não havia máscaras entre nós — Como se o trauma fosse um monstro que pudesse me engolir de volta a qualquer momento.
— E agora? Ainda sente isso?
Demorei alguns segundos para o responder. Não porque eu não soubesse a resposta, mas porque ela era tão preciosa que eu queria saboreá-la antes de pronunciá-la.
— Não. Pela primeira vez... não. — respirei fundo — Quando ela chorou hoje, não foi mais como um gatilho. Foi como um despertar. Como se algo dentro de mim dissesse: "Você pode. Você é capaz."
— Isso é grande, Amberli. Isso é o coração se religando à vida.
Assenti, sentindo os olhos arderem pelo acúmulo de lágrimas momentâneo. Mas desta vez, não era tristeza. Era gratidão.
— Você me ajudou a chegar aqui, Jasper. — deixei que ele percebesse o quanto minhas palavras significavam — Eu precisei de alguém que não apenas me escutasse, mas que sentisse comigo. E você fez isso. Até quando eu nem conseguia explicar o que sentia... Você já sabia.
Ele abaixou um pouco o olhar, modesto. Jasper sempre evitava carregar os méritos, mas era impossível ignorar o que ele tinha feito por mim.
— Quando eu chegava no escritório e você dizia que não queria estar viva, Amberli... Eu sentia sua dor como se fosse minha. E não só porque tenho o dom de sentir emoções, mas porque eu já estive nesse lugar também. Onde existir dói mais do que desaparecer.
Essas palavras tocaram um ponto profundo. Nós tínhamos algo em comum, afinal, cicatrizes que não se viam, mas que moldavam tudo.
— Às vezes eu achava que a Helena merecia outra mãe. — confessei — Alguém que já passasse o amor para ela de imediato. Que fosse forte. Que não tremesse toda vez que a ouvia respirar. Mas agora…, agora eu vejo que talvez ela tenha a mãe que precisa. Não a perfeita. Mas a real.
— Crianças não precisam de perfeição. Precisam de presença. — disse Jasper, com firmeza — E você esteve aqui. Isso é amor, Amberli. Mesmo quando você não conseguia nomear, ele já estava lá.
Assenti, com um aceno da cabeça, concordando. Helena se remexeu um pouco, e eu acariciei seus pezinhos com carinho.
— Eu achava que o amor ia chegar como um raio de esperança. — comentei — Que um dia eu ia acordar e saber que tudo estava bem. Mas não foi assim. Foi silencioso. Foi num toque. Num olhar. Num sorriso. Em cada passo pequeno.
— Como todo amor verdadeiro. — ele respondeu, com aquele brilho tranquilo nos olhos.
Ficamos em silêncio por um tempo. Não era um silêncio vazio, mas daqueles que só existem entre pessoas que realmente se entendem. Lá fora, a chuva começava mais uma vez. E, dentro de mim, algo parecido também.
— Hoje… Eu venci, Jasper. Não todo o passado. Mas essa fase. A pior. A mais escura.
— E agora vem a parte bonita. — ele disse — Agora vem a construção.
Sorri com os olhos marejados.
— E dessa vez, eu quero estar presente para cada tijolo.
Desci meu olhar para minha filha, a maior parte do corpinho aquecido pela manta, um sono gostoso de observar. O céu, pesado e cinzento, parecia pressionar o mundo inteiro contra o chão, como se Forks estivesse sempre suspensa entre o hoje e o nunca. Eu aprendi a gostar desse silêncio cinza, com ele, as palavras dentro de mim não pareciam tão altas. Me perdi na visão que eu ainda podia enxergar da paisagem do lado de fora, mas isso não me impedia de perceber que de vez em quando, Jasper levantava os olhos e me observava, de maneira sutil, mas atento. Sabia que ele estava cuidando de mim. Era o tipo de coisa que Jasper fazia sem palavras.
— Ela está em paz. — disse ele, baixando o olhar para Helena — Isso ajuda você a se acalmar também, não?
— Acho que sim. — assenti, num murmúrio. Ele sentia. Até o que eu me recusava a sentir.
O som de passos suaves ecoando no piso de madeira me fez virar o rosto para a escada. Levantei o olhar.
Cole.
Ele descia os degraus devagar, acompanhado de Esme, os dois conversando em voz baixa. Ela parecia sorrir com algo que ele dissera, e ele... bem, ele parecia confortável ali, como se já pertencesse àquela casa, àquela família. A imagem deles ali; ele tão grande, de ombros largos, e ela tão leve, tão maternal, formava um contraste curioso. Por um instante, me perdi na visão. Meu coração tropeçou dentro do peito, num compasso tolo. E então percebi algo estranho.
Eu não o tinha visto entrar.
Eu não o tinha visto passar pela porta da frente. Jasper também não reagira à chegada dele, e isso me incomodava de maneira irracional. Meus olhos buscaram Esme, como se a resposta estivesse nela. Meu olhar deve ter denunciado minha confusão, porque Esme logo notou.
— Ele veio pelos fundos. — explicou gentilmente, com aquele tom sereno que só ela tinha — Estávamos na cozinha.
Assenti, tentando esconder o rubor que me aquecia às bochechas. Ah! Claro, o deck. Esme sempre deixava aquela porta aberta quando sabia que alguém viria. Era estranho vê-lo emergir do interior da casa, mas agora tudo fazia sentido: ele devia ter entrado pelos fundos com Esme, direto pela cozinha. Foi por isso que não percebi sua chegada, só o senti, quando ele já estava ali. E Cole… parecia cada vez mais à vontade aqui.
— Boa tarde, Lee. — disse ele, com aquele tom tranquilo que me deixava sem saber se respondia com palavras ou com um sorriso.
— Oi, boa tarde! — respondi, limpando a garganta — Eu só... achei que não tinha te escutado chegar.
Ele deu de ombros de leve, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, com aquele jeito contido e ao mesmo tempo sólido, como alguém que sabe exatamente quem é, e ainda assim não impõe nada a ninguém. Estava com os cabelos escuros húmidos da chuva, o tecido do casaco molhado nos ombros e mesmo assim parecia aquecer o ambiente só com a presença.
— Não quis interromper. — ele disse — Vim ajudar Esme com umas coisas... — disse, com um olhar rápido para a minha filha — e prometi passar aqui antes de voltar pra La Push.
Helena se remexeu no estofado, e instintivamente levei a mão às costas dela, fazendo carinho. Cole olhou para ela, e seu olhar se suavizou de um jeito que me desmontava por dentro; não com intensidade, mas com um calor discreto, constante, como uma brasa que se recusa a apagar. Ele sentou-se na poltrona ao lado de Jasper, à minha frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Seu olhar encontrou o meu e ali havia um calor. Um tipo de presença que fazia a casa parecer menos fria, mesmo com o céu desabando lá fora.
— Ela dormiu depois do almoço? — ele perguntou, mais baixo, quase como se não quisesse acordá-la.
— Sim..., teve uma manhã agitada. — sorri, olhando para minha filha.
Eu ia dizer mais alguma coisa, talvez um comentário sem importância, só para ocupar o espaço entre nós, mas a cena diante de mim mudou novamente. Um novo som de passos ecoou no alto da escada, leves como se o salto fosse um mero detalhe. E então apareceu Rosalie, descendo com elegância impecável, como se carregar uma criança fosse parte de um desfile silencioso.
No colo dela, Hilary, que vestia um pijaminha cor-de-rosa com estrelinhas prateadas. Os cabelos castanhos, ainda húmidos, estavam bagunçados nas pontas. O cheiro suave de frutas doces chegou até mim antes mesmo de ela sorrir quando me viu, devia ser das bombas de banho coloridas. Coisa da Alice.
— Temos uma princesa recém-banhada! — anunciou Rosalie, com um sorriso que só usava quando estava com Hilary — Toda perfumada. — era um tipo de doçura reservado. Quase raro.
Hilary abriu os bracinhos ao me ver, mas não pediu colo de imediato. Ela ergueu as mãos, exibindo-as cheias de brilho colorido, como se tivesse encontrado tesouros.
— Mamãe! — os olhinhos dela me encontraram e se iluminaram — Banho cor-de-arco-íris!
— É mesmo? — perguntei, tentando conter o riso — A Alice exagerou nas bombas, né?
— Tinha bolinha, mamãe! Azul! — ela disse, encantada, gesticulando tanto que Rosalie teve que ajustar o apoio nos braços. Nas mãos da loira, havia uma tiara de brinquedo que Hilary agora usava no banho.
Cole sorriu, visivelmente encantado.
— Essa é nova. — ele comentou, olhando para Esme — Acho que nunca tomei banho com bolinhas de arco-íris.
Antes que Esme pudesse responder, um barulho vindo do corredor nos fez todos virar a cabeça.
— E nem vai! — a voz de Emmett surgiu do outro lado da sala, respondendo Cole — Atenção, atenção! — bradou Emmett, surgindo com um aparelho embaixo do braço e um novelo de fios emaranhados pendurado no outro — Sessão “Popeye” com a Hilary, em trinta segundos ou menos! — anunciou, como se fosse um apresentador de televisão.
— Emmett… — começou Esme com um tom de advertência, suspirando com ternura — Não vai conseguir instalar isso sem bagunçar todos os cabos, pra tentar conectar esse aparelho de DVD na televisão.
— Claro que vou! — disse ele, já ajoelhando em frente ao móvel. — Fiz isso na década de 90 com os olhos vendados e um chiclete na boca. Confia em mim.
Jasper ergueu uma sobrancelha, quase sorrindo. Cole riu baixinho, cruzando os braços enquanto observava a cena. Eu, por outro lado, olhei para Helena, que ainda dormia. Era questão de minutos até ela acordar...
— Ela vai amar. — murmurei à respeito de Hilary.
Não era a primeira vez que Emmett assistia esse desenho do tempo das cavernas com ela, o bom que isso a cativou, mal ouvia a música tema do desenho, e corria direto para a tela como se Popeye fosse um velho amigo deles.
— Foi o que pensei. — disse Emmett, piscando para mim — E, honestamente, eu também. Aqueles episódios antigos ainda são um clássico.
Rosalie riu, e Hilary desceu do colo dela e correu para mim, tropeçando levemente no tapete, mas sem se machucar. Abri meus braços para recebê-la, e a pequena escalou minhas pernas e agarrou meu pescoço num abraço que cheirava a sabonete infantil e açúcar.
— Eu tô limpa, mamãe.
— Tô vendo. — sussurrei no ouvido dela — E cheirosa também. — murmurei, beijando sua testa. Ela riu, com aquele som engasgado e sincero de criança pequena.
Hilary olhou ao redor, curiosa. Apontou pro aparelho nas mãos de Emmett e sorriu.
— Quer ver o desenho? — perguntei.
— Tê-tê! — ela balançou a cabeça, muito séria — Popái.
Cole riu baixo, ergui meu olhar para Cole, que observava Hilary com aquele olhar cheio... Aquele que dizia mais do que qualquer fala. E quando Hilary o viu, seus olhos se iluminaram.
— Cól! — ela desceu do meu colo no mesmo instante.
Ele abriu os braços no mesmo instante, como se já esperasse por aquilo. Hilary correu até ele com passinhos desajeitados. Se jogou no seu colo, enroscando-se como um gatinho, subindo no colo dele com a confiança de quem sabe que ali é um lugar seguro.
— Oi, estrelinha. — disse ele, apertando de leve os bracinhos dela — Você está brilhando mesmo, hein? Tomou banho colorido?
Ela assentiu, rindo.
— Azul! Bola! Muitas cores! — disse, orgulhosa, batendo palminhas pequenas.
— Muito colorido, né? Isso parece mágico.
— Tiara! — disse ela de repente, apontando pra Rosalie, que segurava a coroa de brinquedo. Ela escorregou para o chão e agitou os bracinhos para cima — Popái tiara!
Todos riram, até mesmo Jasper, com um sorriso discreto.
— Acho que alguém quer assistir Popeye com estilo. — comentou Rosalie, já caminhando pra entregar a tiara.
Hilary colocou sozinha na cabeça, e ficou ainda mais feliz, ela não precisava saber que a coroa estava toda torta. Sorri, encantada pela minha princesa de estrelinhas prateadas e brilho na pele. O brilho da infância era assim: bastava pouco para ser tudo.
A sala estava cheia. Não só de vozes, mas de vida. Jasper mantinha o olhar atento nos detalhes, talvez nas pequenas interações, talvez só em mim... Alice organizava as almofadas do sofá com eficiência teatral pelo tapete. Rosalie sentou-se com Hilary em seu colo, encaixando a pequena entre as pernas com o cuidado de quem sabia exatamente o quanto podia apertar sem sufocar. Emmett conectava todos aqueles cabos ao aparelho de DVD como se estivesse montando um experimento científico. Tudo com aquele leve caos amoroso que só os Cullen conseguiam transformar em rotina.
Cole me olhou por um instante, talvez captando algo na minha expressão ou apenas me percebendo, como fazia às vezes. Esme se aproximou, gentil como sempre, pondo a mão em meu ombro.
— Que tal subirmos um pouco? — ela sugeriu, quase sussurrando — A cozinha está tranquila. Tem bolo, chá fresco... e sossego.
Olhei para Cole, ele fez um leve movimento com a cabeça que me incentivou a aceitar a proposta dela. Assenti em silêncio, e me inclinei sobre Helena, reunindo forças para segurá-la com firmeza contra meu peito, ajustando-a dentro da manta. Ela dormia profundamente desde o fim da tarde, numa tranquilidade fora do berço que até fiquei com dó de tirá-la do sofá. Acomodei o rostinho voltado para meu ombro, um murmúrio baixo escapando dos lábios a cada ciclo de respiração. Ela ainda cheirava a leite morno e sabonete infantil. O braço do Cole se moveu para abrir caminho, nos separando de leve do grupo da sala e ele me acompanhou com naturalidade, subindo atrás de mim, como se aquilo já fosse hábito.
Esme seguia à frente, e eu, logo abaixo, ajustava o peso de Helena nos braços. Subíamos devagar, e mesmo sem olhar para trás, eu sabia que ele estava ali. Perto demais. Sentia. Cada passo meu parecia sincronizado com o dele, como se a escada nos obrigasse a manter um ritmo íntimo que eu não estava pronta para aceitar. O peso de Helena nos meus braços era um lembrete doce e constante de que eu precisava manter a calma. Às vezes, até o roçar sutil da bota dele no piso atrás de mim fazia meu coração saltar, e eu me obrigava a seguir, como se nada tivesse mudado.
Senti primeiro a mudança no ar. Quente. Mais espesso. Como se o mundo afunilasse atrás de mim, forçando minha pele a prestar atenção e meu corpo inteiro despertasse em alerta, consciência. A distância entre nós era curta demais. A ponto de eu conseguir imaginar a barra da camisa dele se movendo por debaixo do casaco. Meu corpo reagiu antes da minha mente entender: o calor que vinha dele tocava minhas costas sem realmente me alcançar. Um arrepio subiu pela minha nuca e desceu entre as omoplatas, como se alguém tivesse passado a ponta dos dedos por ali. A pele da minha nuca formigou, e eu engoli em seco. Tentei me concentrar nos degraus, tentei focar no cuidado com cada passo, no barulho da chuva lá fora, em qualquer coisa, menos no fato de que meu corpo inteiro parecia reagir à simples presença dele.
Helena se remexeu um pouco, inspirando fundo como se o cheiro da madeira da escada fosse o suficiente para chamá-la de volta. Meus braços apertaram Helena com um pouco mais de força, talvez buscando ancorar meu corpo ao que realmente importava. Mas era impossível ignorar o que acontecia comigo. Meus ombros se enrijeceram, e eu respirei mais fundo, tentando parecer natural.
— Vou levá-la ao quarto. — murmurei para eles — Ela está começando a despertar.
Cole se inclinou levemente para espiar o rostinho da bebê no meu ombro. O ritmo da respiração dele se encaixava com o meu, como se até isso ele acompanhasse. Havia algo na maneira como ele se aproximava, como se tomasse cuidado demais para não me tocar. Meu estômago apertou, e não era um nervosismo comum, era aquela tensão aguda que nasce quando sinto algo que não deveria, mas não consigo evitar. As pernas ficaram estranhamente leves, quase trêmulas. O calor se espalhava devagar, das costas ao peito, como se o simples fato de ele estar ali, tão próximo, bastasse para incendiar cada centímetro da minha pele.
Essa delicadeza me desarmava mais do que qualquer gesto ousado. O jeito como ele respeitava meu espaço, mas ainda assim se fazia presente… Isso me fazia sentir mais do que eu gostaria de admitir. A leveza estranha nas pernas. O nó na boca do estômago. O coração acelerado como se eu estivesse fugindo, quando, na verdade, tudo que eu fazia era subir uma escada com minha filha nos braços e um homem enorme atrás de mim.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Desejo não era a palavra certa. Era mais profundo. Mais silencioso. Algo que crescia por dentro, mas que eu mantinha trancado, por mim, por minhas filhas. Por tudo o que eu não sabia lidar ainda. Mas, mesmo assim, meu corpo sentia. Como se tivesse memória de algo que nunca viveu. Como se reconhecesse nele algo que minha mente ainda se recusava a aceitar.
E então ele respirou mais fundo. Tão perto que eu quase senti o ar quente bater na minha nuca. Minhas mãos estavam frias, mas a base da minha coluna queimava. Fechei os olhos por um instantinho, só para tentar conter o turbilhão, pedindo a mim mesma que mantivesse o controle. Mas bastou mais um passo dele, mais um suspiro dele, para que meu coração acelerasse.
— Ela dorme como você respira. — sua voz veio baixa, tranquila — Serena.
Sorri de canto, grata pelo elogio camuflado. Eu não queria virar o rosto. Tinha medo do que poderia encontrar nos olhos dele, ou pior, do que ele encontraria nos meus. Eu não podia sentir aquilo agora. Não com minha filha nos braços. Esme tocou meu braço de leve, um gesto de despedida breve e alheio.
— A gente espera você na cozinha, querida. Vá com calma.
Assenti com um aceno curto e segui pela escada do próximo lance, enquanto os dois entravam na penumbra quente da cozinha. Senti os degraus rangendo sob meus pés, um de cada vez, e me obriguei a manter o olhar fixo à frente. Não era uma escada longa, mas agora cada degrau parecia mais alto do que o anterior. Helena se mexeu novamente, e sua mãozinha escapou da manta, procurando algo no ar, no automático. Sua respiração mudou, denunciando o despertar lento, como quem sonhava algo bom demais para largar de uma vez.
— Shhh... A mamãe tá aqui... — murmurei, encostando o rosto no alto de sua cabeça. O calor do seu corpinho era reconfortante, mas seu resmungo engasgado começava a surgir na garganta.
Empurrei a porta do quarto com o quadril, mantendo o balanço suave, e entrei com ela, a luz baixa do abajur estava acesa, tingindo o ambiente, iluminando meu caminho. Helena soltou um gemido curto. Um som como se quisesse protestar, mas não tivesse energia.
— Já passou, já passou. É só soninho teimoso. — beijei sua testa e sussurrei mais uma vez, afundando os dedos nos fios de seu cabelo.
Ela se acalmou um pouco quando sentiu a textura do meu toque, e então seus olhos entreabriram, turvos, embaçado. Por um momento, ela olhou diretamente pra mim. E eu juro que vi um reconhecimento ali. Como se soubesse que era seguro. Que ali, nos meus braços, não havia mais dor. Nem memória. Nem sombra. Só amor. Sentei-me na poltrona ao lado do berço, ajustando Helena com cuidado sobre o meu colo, ela se recusou a deitar, então deixei suas perninhas encaixadas na minha cintura. O embalo dos meus braços ao seu redor era suave, mas parecia funcionar melhor em mim do que nela. Ela piscava devagar, resistindo ao sono como se temesse perder algo importante.
— Você pode dormir... — murmurei, com os lábios quase colando em sua pele quente — Tá tudo bem agora... mamãe tá aqui.
Passei o dedo indicador por sua sobrancelha, de leve, desenhando o arco com a ponta da unha curta. Aquilo às vezes ajudava a induzir o sono. Foi um truque que aprendi nos primeiros meses de Hilary, quando as cólicas, os sustos noturnos e a insônia vinham. Ela gemeu baixinho e encostou o rosto na base do meu pescoço, os dedos apertando um pedaço do meu suéter como se pudesse ancorar-se ali, caso o sono a puxasse forte demais.
Eu não me movi. Nem respirei profundo. Na penumbra do quarto, com as luzes baixas e a chuva insistindo lá fora, não havia pressa; meus olhos se voltaram para ela, para o rostinho tão parecido com o dele. Não com o homem. Com o monstro. Ainda era difícil separar as coisas. A pele dela era minha e era dele, mas também era dela. Ela existia para além da origem. Era um milagre. Meu milagre. E mesmo sabendo disso, às vezes era difícil segurar o medo. Fechei os olhos por um instante, inspirando fundo. Pensei em Cole.
Não no Cole que chegou pela cozinha, nem no que sorriu ao ver Hilary com a tiara torta. Pensei no Cole que viu a mim. Que me olhou com aquela intensidade silenciosa, como se algo dentro dele reconhecesse a dor que eu ainda não nomeava. Como se cada gesto simples, de abrir espaço, pegar Hilary no colo, me ouvir sem me interromper, fosse um modo de me dizer que eu não estava sozinha. Às vezes eu me pegava querendo confiar plenamente nele. Não só pela forma como Hilary se jogava em seus braços, nem pela familiaridade com que caminhava pela casa dos Cullen. Mas pela calma que ele trazia. Como se a presença dele reduzisse o peso que eu carregava no peito. Mas e se não fosse real?
E se fosse só o eco de um desejo antigo? De ter alguém por perto. De sentir que, mesmo depois de tudo, eu ainda poderia ser vista com ternura?
Helena soltou um suspiro mais longo, e senti seu corpo relaxar um pouco mais nos meus braços. O sono voltava, devagar, como quem chega de mansinho para não assustar. Continuei balançando levemente na poltrona, embalando-a com o ritmo que o corpo dela me pedia.
E, por um instante, me permiti imaginar um mundo em que tudo fosse mais simples. Um mundo onde eu pudesse, um dia, abaixar a guarda. Onde a maternidade não fosse um escudo constante, mas um espaço de abrigo. Às vezes eu me pergunto... Como seria se a maternidade não fosse esse escudo constante que eu carrego? Essa armadura invisível que me mantém de pé, mas também me afasta? Como seria se, em vez de me proteger do mundo, ela pudesse me abrigar dele? Um espaço onde eu pudesse simplesmente... Repousar. Respirar. Ser só eu, sem medo. Onde ser mãe não fosse a minha única forma de sobreviver, mas o lugar onde, finalmente, eu pudesse viver.
Olhei para a porta entreaberta. Da cozinha, vinha um sussurro de vozes, o cheiro do chá de camomila, e o som distante de risadas abafadas. Eu sabia que Cole ainda estava lá. E que esperava. Sem pressa. Sem cobrança.
Helena dormiu de verdade no momento em que a coloquei no berço, a respiração ritmada e os braços soltos, como se o mundo tivesse se afastado o suficiente para deixá-la em paz. Cobri-a com uma manta fina, ajeitando os cantinhos perto dos pés, e fiquei observando por mais tempo do que o necessário. Era difícil me afastar quando ela finalmente relaxava. Como se parte de mim ainda precisasse confirmar, repetidas vezes, que ela realmente estava segura. Fechei a porta devagar, só até encostar para que os sons externos não a incomodassem, e desci o lance de escadas guiada pelas luzes das arandelas. Meus passos estavam leves, mas não tanto quanto meu coração. Ainda havia aquela hesitação discreta, o peso de ser vista quando me sentia à flor da pele.
Quando cheguei ao último degrau do lance, a cozinha me recebeu com o cheiro adocicado do chá e a luz amarela e baixa sobre a bancada onde Cole estava encostado com um dos quadris, as mãos nos bolsos do jeans escuro, sem o casaco, deixando à mostra a camisa com as mangas dobradas até os antebraços. Ele conversava com Esme, a expressão era calma e os olhos, aqueles olhos verdes, se voltaram para mim assim que me viu. Esme estava de pé, perto da chaleira, mexendo algo em uma caneca. Ela me viu quando ele desviou a atenção para mim, e sorriu, como quem me esperava.
— Ela já dormiu? — ele perguntou, a voz mais baixa, quase como se temesse quebrar a quietude do momento.
— Está tudo bem com a pequena? — Esme perguntou com suavidade, sem invadir.
— Ela está bem, dormiu. — respondi num sussurro cansado. — Finalmente. Como uma pedra. Quase sorriu no meu colo antes de eu colocá-la dentro do berço. — falei, e só depois percebi o quanto aquilo soava íntimo. O quanto eu mesma me soava diferente ao dizer.
Ele sorriu, de leve, mas foi como se o sorriso me alcançasse.
— Isso é bom. — ele disse — Você parece mais tranquila também.
Esme assentiu, concordando com ele, e estendeu a caneca para mim sobre o balcão, o vapor subindo em espirais calmas.
— Camomila com mel. Sem açúcar.
— Obrigada. — murmurei, aceitando.
Desviei meu olhar para ele mais uma vez. Cole não disse nada de imediato, só me observou por um segundo que pareceu mais longo do que era. Parei diante da bancada, mais perto do que eu teria ficado em outro dia. E não me afastei. Sentei-me no banco mais próximo, tentando não parecer tão exausta quanto me sentia. Puxei a caneca para mim e dei um gole pequeno no chá, e deixei o calor preencher minha boca antes de engolir.
— Ela é uma lutadora. — comentei, como se ainda estivesse no quarto — Parece frágil, mas resiste ao sono como se o mundo fosse acabar enquanto ela dorme.
Esme riu baixinho, sentando-se do outro lado da bancada.
— Talvez ela só não queira perder nada..., como você.
Levantei os olhos e a encarei por um instante. Não havia julgamento em seu rosto, apenas aquela gentileza constante, o olhar que não pressionava, mas enxergava fundo.
— Eu não sei se isso é bom ou ruim. — respondi.
— É humano. — ela disse — E bonito.
Houve um silêncio confortável depois disso. Cole finalmente se moveu, indo até a chaleira para servir-se também. Seus gestos eram sempre contidos, quase silenciosos, como se soubesse exatamente quando falar e quando apenas acompanhar.
— Você parecia bem com Hilary no colo... — falei sem olhar diretamente para ele. Era só uma constatação. Mas também era algo mais.
Ele se virou para mim, apoiando-se na bancada.
— Ela é incrível. Esperta..., engraçada. E ela gosta do DVD do Popeye, aparentemente.
Soltei uma risada curta e contida.
— Ela viu uma vez só. Mas decorou a música. Vive repetindo o refrão com a língua enrolada... do jeito dela. Emmett adora.
— Ela é do tipo que deixa sua marca. — ele disse, e havia uma sinceridade tão limpa naquilo que me peguei desviando o olhar para a caneca.
Assenti devagar.
— Eu só espero conseguir não estragar isso.
— Você não tem ideia do quanto está acertando.
Levantei os olhos para ele, e vi de novo aquele olhar que não me cobrava nada. Só me oferecia presença intencional. Como se estivesse disposto a ficar, mesmo se eu não dissesse nada. Mesmo se eu não soubesse o que fazer com isso.
Talvez fosse isso que mais doía. O quão fácil era me acostumar com essa calma... e o quanto eu temia que ela acabasse.
— Acho que estou começando a entender o que significa cuidar da Helena sem me perder. — encarei as mãos — E talvez cuidar de mim também.
Cole assentiu, com aquele jeito silencioso de quem respeita cada espaço. Mas havia algo nos olhos dele que parecia sorrir antes dos lábios. Ele estendeu um prato com uma fatia de bolo, eu nem tinha percebido quando Esme o colocou ali.
— Coma algo. — ele disse, inclinando o corpo para perto — Você esquece de se alimentar quando pensa demais.
Houve um tempo em que essa frase teria me feito enrijecer, erguer muralhas. Hoje, só me fez sorrir. Um pouco irônica, um pouco grata.
Peguei o prato.
— Obrigada. — agradeci, dando-lhe um sorriso.
Ele se afastou, não por recuo, mas para me dar espaço. Mesmo assim, senti a presença dele pairando ao meu lado, firme, constante.
Eu não disse mais nada. E ele não precisou.
Mas quando Esme ofertou outro prato com um pedaço generoso do bolo, e ele se sentou ao meu lado, em silêncio, deixando aquele espaço entre nós não como uma distância, mas como um convite... eu entendi.
Eu podia me permitir. Aos poucos. Sem pressa. Sem culpa. E naquele instante, com um pedaço de bolo na mão e o som da chuva voltando lá fora, percebi que o recomeço não era só meu e da Helena. Talvez fosse meu com o mundo.
Com ele... E dessa vez, ponderei, e percebi não estar com medo.
Ficamos ali, cada um degustando do seu pedaço de bolo em silêncio, com o som da chuva contra as vidraças. Um cenário tranquilo demais para tudo o que eu carregava dentro. Talvez por isso, o passado tenha batido à porta da minha mente, não com força, não como antes, mas como uma lembrança que vinha pedir passagem, não invadir.
Foi um cheiro.
Não do bolo. Não do chá. Mas do tecido do meu suéter, que ainda tinha o perfume do quarto da Helena, aquele cheiro de pele de bebê e loção. Doce e morno. Fechei os olhos, e por um instante, eu não estava mais na casa dos Cullen. Estava em outra casa. Outra cama. Outro berço.
Angie.
Vi o rostinho dela. Tão pequeno, tão frágil. A memória não vinha em flashes, vinha em detalhes. A curva dos lábios, a forma como ela se agitava, o som que fazia quando mamava, aquele choro fraco..., tão fraco. Senti o coração apertar, mas não de forma sufocante. Era uma dor resignada. Uma saudade quieta.
— Amberli? — a voz de Cole veio baixa, atenta — Você sumiu por uns segundos.
Abri os olhos e me dei conta de que as lágrimas estavam ali. Não caindo, mas represadas.
— Eu... Estava lembrando da minha outra filha... — encolhi os ombros. Ele não disse nada. Não ofereceu pena, nem uma pergunta forçada. Só esteve ali — Ela também dormia no meu colo às vezes. Mas não sorria. Nunca chegou a sorrir. — as palavras saíram como folhas levadas pelo vento, simples, inevitáveis.
— Sinto muito. — ele disse, e era verdadeiro.
— Eu também. — assenti, apertei meus lábios um no outro —Mas pela primeira vez... Lembrar dela não me rasga. Me abate, mas... eu fico de pé.
Olhei para ele. Cole estava me observando com aquele olhar que não julgava, nem tentava consertar nada. Apenas ele, simplesmente ele.
Respirei fundo.
— Eu acho que é isso que muda tudo, sabe? A gente continua sendo atravessado..., mas não se quebra mais do mesmo jeito. — ele esticou a mão, devagar, e tocou meu braço.
Não foi um gesto ousado, foi firme. Real. E eu deixei. Porque eu queria sentir. Porque, talvez, amar alguém, seja uma filha, seja um homem, não fosse um erro.
Era só..., o caminho de volta para mim mesma.
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