Sempre ao seu Lado
62 𝟏𝟖 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐳𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶
Notas iniciais

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 58
— Ai-ai!
Lancei a fôrma na primeira bancada que meus olhos encontraram, levando o canto do dedo aos lábios para aliviar a queimadura no dedo.
O barulho exagerado chamou a atenção da Hilary, que ergueu os olhos da tigela de frutas sobre a bandeja do cadeirote. Dei uma olhadela para ela, o olhar alcançando a luva térmica abandonada na beira da pia, meus lábios crisparam em desgosto e balancei minha mão, como se o gesto fosse abrandar a dor ardida na lateral da mão e no dedo queimado.
Voltei meus olhos para a fôrma, observando a aparência brilhante do açúcar sobre os biscoitos intactos, o cheiro de lavanda já havia inundado quase todos os cômodos, e a última fornada já estava prontinha ali. Eu nunca pensei que lavanda e limão siciliano daria uma combinação perfeita para a receita de biscoitos amanteigados. Minha boca se aguou só de me imaginar provando.
Abri o registro da torneira, deixando o jato de água cair sobre minha mão, esperando alguns segundos para que isso abrandasse a dor da queimadura. Calcei a bendita luva térmica e pus a fôrma na travessa de descanso junto das outras antes de voltar a me sentar à mesa, arrastando minha cadeira para mais perto de Hilary, puxando a minha própria tigela de salada de frutas que Isabella preparou para mim hoje bem cedo.
Desde ontem nós estávamos acampando na cozinha, cozinhando tudo que estava ao nosso alcance culinário para o extenso cardápio natalino que Alice entusiasmadamente sonhara em montar: mais biscoitos de gengibre, biscoitos escoceses; panetone; chocotone; nougat; julekake, que é um pãozinho com cardamomo, passas e frutas cristalizadas.
Claro que a garota foi ótima no apoio moral enquanto eu e as demais ficamos com a mão na massa.
Mexi as frutas pra lá e pra cá e olhei para Hilary, que continuava comendo uma frutinha atrás da outra, a boquinha formando um biquinho gordinho enquanto ela mastigava com a boquinha fechada, os olhos redondos castanhos intercalavam entre sua colherzinha cheia de tempo em tempo, o seu estimado copo azul, uma bola de Natal que estava na sua outra mão e eu.
— Ôh mamãe. — me chamou, mesmo que eu já estivesse olhando para ela. Seus lábios se moveram num bico de um lado ao outro, terminando de mastigar antes que pudesse falar qualquer outra coisa — Cadê a Nena, mamãe?
— Está láá em cima. — apontei para o alto, me inclinado na sua direção, seus olhinhos acompanharam meu dedo em riste — Com o tio Carlisle e o tio Edward.
Os pézinhos bateram contra a madeira das pernas do cadeirote, como se aceitasse a minha explicação, logo mais frutas foram levadas à boca e mastigadas com gosto. Vendo-a tão quietinha dentro de suas divagações infantis, me forcei a fazer o mesmo e trouxe a tigela à mão e me forcei a comer.
Me remexi sobre o assento tentando ficar mais relaxada, porém ora e outra meus olhos se voltavam para os degraus do piso superior, procurando pelo momento em que trariam Helena de volta para mim. Tirei o celular do bolso da calça, pondo-o em cima da mesa. Engoli seco, selecionando uma fruta aleatória e a coloquei dentro da boca. Era um pedaço de manga só que meu cérebro parecia ignorar o sabor, deixando uma sensação insonsa, deprimente.
Me senti um pouco dramática quando me ouvi suspirar.
Porém meus olhos não se contiveram em erguer o olhar para a escada mais uma vez. Só mais essa vez. A última. Eu acho.
Helena passava um bom período dentro do escritório com Carlisle e Edward. Ora e outra eu ficava sabendo da participação de Esme lá dentro também e até mesmo a ajuda indireta de Jasper quando tudo terminava.
Só que é algo exclusivo entre ela e os dois primeiros.
Desde que Cole incluiu minhas filhas ao convite da comemoração de Natal no centro comunitário da reserva em que ele faz parte, Carlisle mostrou grande interesse em acostumar o olfato da Helena de acordo com a possível movimentação que haverá no local, habituando seus hiper sensores naturais.
Ainda me parecia ter acontecido há minutos o momento em que Carlisle apenas me encontrou no corredor logo pela manhã e disse, com a calma de sempre, que seria bom conversarmos como funcionaria a adaptação da minha filha dentro daquele ambiente.
Ele foi bem de boa, não foi uma abordagem alarmante, ninguém me chamou com urgência, nem houve aquela atmosfera pesada que antecede a más notícias.
Ainda bem.
Edward já estava no escritório quando entrei, Carlisle veio logo atrás, fechando a porta direcionando meus passos até a poltrona, logo Helena estava no meu colo, sentada ereta, observando os dois com atenção. Aquilo já me dizia o seu nível de percepção sobre eles e lembro que Carlisle não perdeu tempo.
— Amberli, o ambiente da reserva será mais estimulante do que qualquer lugar onde a Helena esteve até agora. — começou — Muitas pessoas, proximidade constante… circulação intensa de sangue humano.
Assenti devagar. Eu sabia disso, mas, até aquele momento eu não tinha parado para pensar no que aquilo realmente poderia significar para a Helena; mesmo que ela já tenha interagido com outras pessoas humanas além de mim, como sua irmã e os meninos quileutes. Agora em comparação, seríamos poucos.
Edward caminhava pelo espaço. Quieto. Observando mais a Helena do que qualquer outra coisa, aquilo de alguma forma me deixava ainda mais consciente de que o controle e a segurança precisavam vir de mim também.
Helena permanecia quieta, atenta, os olhinhos acompanhavam cada movimento, primeiro Carlisle, depois Edward, depois o espaço entre eles.
— Não é só o sangue. — Edward acrescentou, com o olhar voltado para Helena, parecia respondê-la diretamente antes de seu olhar encontrar o meu — Emoções também podem influenciá-la. Ansiedade, excitação, medo…, tudo isso altera a forma como ela perceberá o ambiente.
Senti Helena se mover levemente no meu colo.
— Eu sei, tio Edward. — ela disse com clareza olhando diretamente para Edward — Eu sinto quando algo muda.
Eu abaixei o olhar imediatamente para ela.
— O que você sente, filha? — perguntei, mais calma do que eu realmente estava.
Ela pensou por um segundo, não como a bebê que me aparenta ser, eu percebi que ela estava organizando uma resposta.
— Eu entendo que pode ficar mais sensível..., mais alto, mamãe. — explicou — Não o som. As pessoas. Como se tudo dentro delas ficasse mais perto de mim.
Edward assentiu, tranquilo e Carlisle me pareceu prestes a pegar algo para anotar cada palavra dela.
— Isso é consistente com a percepção sensorial ampliada dos híbridos, Amberli. — Edward comentou.
— Helena. — murmurei, sem saber se eu estava chamando ou me acalmando.
Helena então voltou o olhar para mim, os cachos se enroscando nas fibras da minha blusa. Os olhos claros cintilaram ante os meus e um sorriso de dentes em transição moldurou seus lábios. Um sorriso doce como mel.
— Não se preocupa, mamãe. O único pescoço que os meus dentes vão fincar é de um Puma.
Eu não consegui reagir àquelas palavras saindo daqueles lábios miúdos e rostinho angelical.
Talvez eu tenha empalidecido, mas senti que meus lábios formaram um sorriso meigo como o seu, minha mão acarinhando sua pele quente e muito macia ao toque e passei a acenar em qualquer outra informação importante ou não que Edward e Carlisle tenham me passado e, para garantir a decisão final sobre a ida à reserva, Carlisle elaborou um teste simples, controlado, em que mesmo ante a minha falta de palavras, Edward confirmou por mim e acompanhou.
Não foi nada exagerado. Ocorreu uma possibilidade de estímulo mínimo, só o suficiente para que eu pudesse entender as reações do limite dela. Quando o tubo de coleta de sangue, já seco, foi exposto, a reação dela foi imediata. O corpinho ficou mais rígido dentro do meu abraço, o rosto mais sério do que eu jamais tinha visto, o olhar dela muito estranhamente focado.
Ela conseguiu entorpecer ainda mais meus sentidos e me deixar à beira de uma sensação esquisita onde pude perceber que ela era e não era minha filha naquele momento. Minha língua pareceu ser um monte de areia dentro da boca.
Eu me lembro que naquele momento Helena não ignorou a consciência que aquela amostra seca despertava em seu sistema predatório, mas também não avançou. Nem naquilo e nem em mim.
Helena foi clara ante a tudo que Carlisle quis saber. Disse que sentia o estímulo..., e de tudo o que saiu da sua boca, o máximo que meu cérebro quis guardar foi: ardia sua garganta, mas que não era exclusivamente pela fome e, que conseguia diferenciar uma coisa da outra..., e eu só acompanhei por cima sobre tudo aquilo que Edward afirmava e Carlisle especulava e ela prontamente respondia com “sim” “não” poucas vezes usou um “não sei dizer” nada ia muito além das frases curtas.
Ela não tentou negar o que sentiu. Só não respondeu àquilo.
Por fim, Carlisle considerou o controle adequado. Disse que esse era o ponto: reconhecer e decidir, e Edward confirmou: ela entende o que acontece com ela, mesmo que ainda esteja aprendendo a lidar e que a presença dela não apresentará riscos. A partir dali, ficou definido o básico: Helena precisa estar alimentada antes de sairmos para qualquer exposição maior, e deve permanecer próxima de mim ou de alguém já conhecido. E acima de tudo, eu preciso observar os sinais, se algo mudar. Ela mesma me garantiu que vai me mostrar.
Desde então, aquela foi a primeira e última vez que seus treinamentos precisaram ter minha presença. Para o meu alívio Esme foi recrutada e Jasper também e, por mais que eu prefira que continue assim, isso não me deixa menos preocupada com o que pode acontecer.
A preocupação que sinto não é pessimista. Como mãe, isso é quase um direito incrustado que acompanha o título da imensa responsabilidade que se aflora ao ser mãe. A sensação libertadora do alívio que sinto quando ela é entregue aos meus braços é inenarrável e mesmo que sejam treinamentos preparatórios leves, tê-la perto da irmã e de mim, me dava a sensação de até mesmo respirar melhor.
Ergui meus olhos para Hilary, concentrada no próprio mundinho, pegando pedaços de fruta com os dedos pequenos e levando à boca com uma seriedade quase engraçada. Um pedaço de banana escapou e caiu na bandeja, e ela franziu a testa, como se aquilo fosse um problema a ser resolvido com urgência.
— Devagar, filha. Ainda não acabou. — murmurei. Ela nem me olhou. Apenas assentiu, ocupada demais mastigando.
Comecei a recolher a louça desde a mesa até a bancada. O som dos pratos se tocando, a água caindo na pia, tudo aquilo criava um sonzinho gostoso e simples. Eu precisava disso acompanhando a tranquilidade da casa, silenciosa no ponto certo. Peguei um pano e comecei a limpar a mesa, depois fui para as bancadas, empurrando as migalhas para a palma da mão, o cheiro dos biscoitos recém-tirados do forno ainda se sobressaía no ar, lavanda, açúcar e até mesmo o leve cheiro da manteiga derretida parecia grudar até na minha roupa, eu sentia nas mãos, nos dedos ainda levemente grudentos, enquanto eu empilhava os pratos nas grades da lava-louças. Coloquei um dos últimos copos na máquina, a programei e fechei a porta com cuidado.
Ouvi meu celular receber uma notificação. Ergui o olhar na mesma hora, a tela se acendeu e pude enxergar o horário.
Eu estava esperando a Bella. Ontem ela combinou comigo de irmos ao centrinho de Forks, seria algo rápido, mas eu já sentia aquela expectativa silenciosa só de saber que iria sair de dentro da mansão; mesmo no simples fato de sair um pouco, andar pelas ruas da cidade, ver o movimento, já me parecia algo diferente.
Recolhi o copo e a tigela da Hilary, lavei cada um. Sequei as mãos limpas no pano de prato, tirei minha filha do cadeirote, arrancando a bandeja para higienizar, aproveitando para lavar suas mãozinhas lambuzadas.
Ela se esperneou nos meus braços e só sossegou quando a deixei no chão.
— Vá! Vá brincar um pouco. — a deixei livre.
Seus pézinhos foram apressados para a frente da enorme janela de vidro próximo ao sofá. Vi quando ela mal tinha subido no estofado e tornou a descer indo direto para a janela, espalmando as mãozinhas na superfície outrora límpida do vidro.
— Obaa! — a ouvi exclamar — Tem gente! Tem gente entrando aqui, mamãe! — ela exclamou, simples, numa descoberta importante.
Antes que eu respondesse, também ouvi o som de passos, mais de um e rápidos soaram abafados, vindo do hall. Depois, vozes, algumas conhecidas, outras não tanto quanto gostaria. Renesmee foi a primeira a aparecer, o sorriso largo, os cabelos levemente húmidos da garoa.
— Vixii... Nós já podíamos entrar ou só invadimos mesmo? — falou com um riso leve, olhando direto para mim.
— Espero que não seja uma invasão. — respondi, com um meio sorriso, sem realmente me importar.
Atrás dela, os passos mais pesados confirmaram o que eu já suspeitava. Jacob surgiu logo em seguida, ocupando o espaço com facilidade, o jeito dele de ser era sempre o mesmo, direto, sem cerimônia, mas havia um cuidado contido no olhar quando seus olhos passaram por mim e depois por Hilary.
— Relaxa, Nessie, já entramos mesmo. — disse ele, com um meio sorriso.
— Eu falei que tinha cheiro de comida. — disse Thomas, passando primeiro para fora da escadaria, já olhando direto para a bancada.
— Você sempre fala isso. — Isaac retrucou logo atrás, empurrando de leve o ombro do irmão — E quase nunca acerta.
— Dessa vez eu acertei! — Thomas o respondeu, seus braços longos me puxando para dentro de um abraço quente, rápido e apertado, sem nem me deixar falar algo, ele ainda respondia ao irmão — E você vai querer também.
— Oi para você também! — reclamei, arrumando meu cabelo.
— Olá minha querida Amberlizinha! — gracejou, pegando o biscoito sem cerimônia.
— De que país vocês estão chegando? — meus olhos passearam de um para o outro, todos totalmente confortáveis com os braços desnudos — Meu Deus, dá onde vocês sentem tanto calor para andarem com todos esses músculos livres e coletivamente tatuados?
— Esses são os privilégios de ter um sangue indígena, Amberlizinha! — ele voltou a apoiar seu braço nos meus ombros enquanto mastigava mais e mais biscoitos. Senti um pedacinho de um deles cair na minha roupa — Esse privilégio não é pra qualquer um..., a única coisa que faz a Nessie não morrer de inveja da gente é ser uma híbrida, por que veja só, — ele apontou pra ela — vê se ela não tem cara de frienta! Viveria reclamando de estar morrendo de frio o tempo todo!
Renesmee riu baixo e se aproximou da Hilary.
— Oi, Florzinha! — falou, pegando em suas mãos puxando-a para o seu colo.
Jacob pegou minha filha brevemente nos braços a jogando para cima, como Emmett costuma fazer para ouvi-la gargalhar, antes de devolvê-la para Nessie e se direcionar a mim:
— Nós estávamos passando e… — Jacob começou, mas interrompeu a própria frase, olhando para as fôrmas sobre a bancada — Isso é de lavanda?
Assenti.
— Tentei algo diferente.
Ele percorreu a cozinha, pegou um sem pedir permissão, e o lançou inteiro na boca.
— Não é ruim. — disse, mastigando — É… algo novo. Mas bom.
Renesmee revirou os olhos, divertida.
— Isso foi um elogio, tá.
Soltei um riso baixo, voltando a organizar as coisas na pia.
— Vou considerar assim.
Isaac achou um espaço entre os outros dois e eu. Só pegou um biscoito.
— É difícil eu ver alguém usando lavanda nas receitas. — disse, degustando o sabor com mais calma que o irmão — É bom.
— Isso significa que ele aprovou ao ponto de comer todos sozinho, viu Amberli. — Brady comentou, encostando no balcão, cruzando os braços — E é o máximo de entusiasmo que você vai conseguir dele.
— Não exagera. — Isaac respondeu, sem realmente se incomodar.
Martim se aproximou mais quieto, cumprimentando com um aceno de cabeça.
— Oi, Amberli. — disse, direto, respeitoso.
— Oi, Martim. — respondi, no mesmo tom.
Ele não era de muitas palavras, porém eu era sempre conscientizada pelo seu jeito tão observador, seu olhar sempre acabava me chamando a atenção. Hugo se manifestou um tempo depois, olhando ao redor com curiosidade, mais acessível.
— Sempre esqueço o tamanho dessa casa. — comentou olhando brevemente ao redor — Parece que cada vez venho aqui, tem mais espaço.
— Ou é você que ocupa menos. — Ravi respondeu, passando por ele com um leve sorriso de canto — Sei lá, estou achando você meio franzino.
— Engraçadinho.
Taylor ficou mais próximo da escada no início, mais contido que os outros, ainda conferindo o ambiente, mas claramente atento a tudo. Quando nossos olhares se cruzaram, ele fez um pequeno aceno.
Retribuí.
Jacob observava tudo em silêncio, como se deixasse que cada um no espaço se ajustasse sozinho, Renesmee, ao contrário, já estava completamente integrada; ela nasceu nessa casa então não havia motivos para estar retraída, ela ia de um canto ao outro rindo, tocando, se movendo entre eles com intimidade levando minha filha consigo.
— Vocês estão fazendo muito barulho. — ela reclamou, embora estivesse sorrindo.
— Isso aqui é bem silencioso comparado as festividades feitas no centro comunitário da tribo. — Brady respondeu.
— Verdade. — Thomas completou — Lá a gente nem se escuta direito.
— Principalmente você. — Isaac provocou.
— Invejoso.
Hilary começou a bater a mãozinha nas pernas do cadeirote, chamando atenção.
— Ei, Florzinha. — Hugo disse, se aproximando um pouco mais — Ela cresceu.
— Cresceu. — confirmei.
— E continua conquistando todo mundo. — Ravi comentou.
— Como toda criança inteligente! Eu tenho ensinado bastante. — Renesmee disse brincalhona, se gabando, seu olhar passou por mim por um segundo.
Havia algo naquele olhar, foi muito rápido, mas perceptível, como se ela estivesse observando mais do que eu poderia captar. Voltei a colocar os fracos de temperos de volta aos respectivos lugares enquanto as vozes se sobrepunham em comentários leves, provocações rápidas, risadas que surgiam altas.
— Isso aqui é um perigo. — Thomas disse, pegando mais um biscoito.
— O quê? — perguntei.
— Caralho... — ele murmurou por baixo do fôlego — Seus mil doces!... — acusou — se a gente começa, não consegue parar.
— Fale por você, seu esfomeado. — Isaac respondeu — Eu sei me controlar.
Thomas levantou uma sobrancelha.
— Você comeu nove, só dos biscoitos de gengibre.
— Treze. — corrigiu Brady, rindo alto — Nove foram os de flor.
Isaac ficou em silêncio por um segundo.
— Não é sobre quantidade. — disse, por fim.
A risada soou quase como a de uma plateia masculina, coletiva, grave. Encostei levemente na bancada por um instante, só observando; eles se moviam com facilidade entre si, se interrompiam, completavam, provocavam, mas nada de palavreado pesado por causa da presença da minha filha, e ainda assim eles se expressavam sem tensões ou ignorância. Eles ecoam um nível de convivência tão familiar que não exige muita explicação, e eu já não me lembrava de haver algum momento em que me senti deslocada ali no meio deles, nem como alguém de fora; nem como alguém que precisava entender tudo, eu só… estava incluída. E isso já era diferente de tudo que eu estava acostumada a viver antes de Forks.
Thomas voltou a rodear as formas dos biscoitos e dos outros doces feitos na noite anterior, ele ainda estava com meio pãozinho na mão quando seu gêmeo encostou o ombro robusto contra o dele. Duas montanhas de músculos idênticas.
— Você vai acabar deixando migalha pela cozinha inteira! — reclamou.
— Isso se chama: aproveitar. — Thomas rebateu, sem nem o olhar.
— Isso se chama: Esme te olhando daquela maneira, que faz até quem não tem culpa das suas idiotices, querer pedir desculpa mesmo sem ter feito alguma coisa. — Ravi comentou.
Hugo foi o que riu mais alto, a cabeça até pendeu para trás.
— Verdade. Eu já vi o Jake devolver o prato na pia só porque a Esme olhou. — Brady soltou.
Jacob, encostado na madeira da mesa, ergueu uma sobrancelha.
— Eu devolvi porque sou educado.
— Claro. — Isaac disse, seco.
Renesmee riu baixinho e veio até ele.
— Essa hoje não vai colar, Jake. Você tem testemunhas demais. — ela comentou para Jacob.
Hilary observava tudo com aquele olhar castanho e atento, como se estivesse acompanhando cada de voz, cada riso. Em certo momento, ela quis ir para o colo de Jacob e apontou para Thomas.
— A Bebê vê mais! — disse, vendo o pãozinho na mão dele.
— Viu? — Thomas abriu um sorriso — Até a Hilary sabe quem tem bom gosto.
— Por favor, não dê isso pra ela. — falei imediatamente, sem conseguir esconder o tom automático de mãe.
— Eu não ia. — ele respondeu na hora, encolhendo as mãos para trás de si em rendição — Gosto da minha mão onde ela está.
A resposta arrancou uma risada geral.
Martim, que até então observava mais do que falava, apoiou um cotovelo na bancada e olhou para a janela.
— Vai chover de novo.
— Isso nem é uma previsão do tempo válida. — Brady comentou — É só a constatação do óbvio.
— Muito otimista da sua parte achar que tinha parado. — Ravi completou.
— Por favor, só me avise sobre o tempo quando podermos aproveitar um dia inteiro ensolarado. — emendou Brady.
O grupo voltou a se dissolver em pequenas conversas. Hugo comentava alguma coisa com Taylor sobre algo no porto; Isaac implicava com Thomas por causa do terceiro, talvez quarto pão. Renesmee distraía Hilary, e Jacob escutava um pouco de tudo assim como eu. Foi então que ouvi a notificação do meu celular vindo da mesa. Por um instante, achei que talvez fosse Bella avisando que estava chegando. Limpei as mãos no pano de prato sem tanta necessidade e me aproximei.
Eram mais mensagens de Cole.
Só de ver seu nome na tela, senti uma coisa leve e imediata se mover em mim. Desbloqueei o celular, percebendo que algumas já haviam chegado minutos antes. Reli as mensagens que já havíamos trocado pela manhã rapidamente antes de começar a ler as novas.
“Já posso garantir o meu Chocotone”“A Bella já já chega”“Você está calma?!”“O que aconteceu?”“Tive a impressão e ver umas fumacinhas”“subindo pelas árvores da floresta aí por perto...”Parei por um segundo absorvendo. Olhei ao redor discretamente buscando pelo visor do forno para ver se estava deixando algo queimar sem saber.
Então entendi. Olhei automaticamente para o forno de novo, soltando um risinho.
— O que foi? — Renesmee perguntou, percebendo meu rosto.
Balancei a cabeça, já sentindo o calor subir ao meu rosto pela lembrança. Ainda bem que só estava a Hilary aqui comigo.
— Nada… é só o Cole.
Thomas surgiu ao meu lado esticando o pescoço com curiosidade nada discreta. Não que eu realmente tenha me sentido muito ofendida com sua intromissão.
— Isso me parece tão meloso. — ele revirou os olhos.
— Parece protetor. — Isaac contrariou, o corpo logo atrás do irmão. Ele também havia fisgado a conversa...
Ponderei as suas palavras, e realmente era. Protetor. Minha mente voltou a minutos antes da chegada deles, eu tirando os biscoitos do forno. Na pressa de alcançar o pano direito, encostei a lateral da mão no metal quente. Não tinha sido grave, mas doeu o bastante para me arrancar um “ai” irritado e alguns segundos de raiva silenciosa. E, claramente, alguém tinha visto, ou Edward pode ter contado. Ou Jacob percebido alguma coisa e passado adiante... Ou o próprio universo estava conspirando.
Enchi meus pulmões de ar, e sem pensar muito, comecei a digitar.
“AAAAAAAAAAAAHH QUEIMEI A MÃO NA ÚLTIMA FÔRMA DE BISCOITOS!!!” — carinha de ódio.Enviei. Quase no mesmo instante, senti vários olhares calorosos ao redor de mim.
— Isso explica o “fumaça”. — Hugo comentou.
— Eu gostei mais da parte do “AAAAAAAH”. — Brady disse.
— Três pontos de exclamação! Muito expressiva. — Ravi acrescentou.
Jacob soltou um riso curto, balançando a cabeça.
— Ele não perde uma oportunidade.
— Não mesmo. — murmurei, e percebi tarde demais que estava sorrindo.
Renesmee percebeu. Claro que percebeu, mas não disse nada. Só me olhou por um segundo com aquele brilho gritante no olhar, quase cúmplice.
O celular tocou de novo na minha mão, baixei os olhos para a tela, aproximando mais do meu rosto antes que alguém resolvesse se aproximar ainda mais.
“Foi uma queimadura muito grave?”“Está doendo muito?”A pergunta singela teve uma reação em mim. O barulho das vozes continuou pela cozinha, palavras cruzadas, Hilary batendo um brinquedo cantante um no outro, mas naquele instante, minha atenção me estreitou, meus olhos foram para a minha mão: a lateral ainda estava levemente avermelhada próximo da base do polegar. Nada preocupante, só permanecia sensível e se eu procurasse pela sensação sentiria que pulsava num leve ardor.
Digitei:
“Não.”“Foi mais pelo susto”“Fiquei mais irritada do que com dor.”A resposta levou poucos segundos:
“Lee”“Você tem o hábito de diminuir as coisas”“Tem certeza de que a pele não derreteu com a queimadura?!”Soltei um pequeno ar pelo nariz, quase um riso.
— O que foi agora? — Thomas perguntou, sem nem disfarçar.
— Nada. — respondi, guardando o celular mais perto de mim.
— Isso foi claramente “alguma coisa”. — Brady observou.
— Concordo. — Isaac disse.
— Vocês são impossíveis! — Renesmee reclamou, mas estava sorrindo.
Ignorei os três e digitei de novo.
“Tenho certeza”“Não se preocupe”- risos.“Estou começando a achar que”“você tem o hábito de aparecer do nada pra me fiscalizar”A vibração veio quase imediata.
“Não estou fiscalizando.”Continuei com o olhar preso na tela aguardando a mensagem que estava sendo escrita.
“Só imaginei você tirando uma fôrma do forno”“com pressa”“está pensando em três coisas ao mesmo tempo”Fiquei olhando para aquilo um instante maior e tive vontade de rir. Porque era exatamente isso. Eu tinha mesmo pensado em Hilary terminando a salada de frutas, na louça que iria separar para lavar, em Bella chegando, em Helena no andar de cima e no meio disso, minha mão tinha encostado no metal.
— Agora ela ficou bem séria... — Brady comentou, baixo, para Hugo.
— Não. Só ficou quieta. — Hugo corrigiu.
— O que normalmente significa estar séria. — Ravi completou.
— Ou distraída. — Martim disse pela primeira vez em alguns minutos.
Olhei para eles.
— Vocês fazem isso com todo mundo?
— Só quando está acontecendo na nossa frente. — Thomas respondeu enquanto mastigava alguma coisa.
— E quando é interessante. — Isaac completou — Não é todo dia que podemos ver o Cole tão assim...
Antes que eu respondesse, Hilary estendeu a mão na minha direção.
— Mamãe, mamãezinha.
Aproximei-me automaticamente me agachando para ela.
— Pode falar.
— Dodói aqui? — ela apontou para a minha mão; o simples fato de ela ter percebido me desarmou — Dói?
— Um pouquinho. — disse, inclinando o rosto — Mas já passou.
Hilary analisou minha mão com concentração, numa expressão séria que às vezes me fazia esquecer o quanto ainda era pequenina. Então tocou de leve meus dedos, com cuidado segurou-os e devagar ela levou minha mão aos lábios dando um beijinho ali.
— Aí mamãe. Melhor.
Todo mundo ali pareceu amolecer por um segundo. Renesmee sorriu, depois Jacob, até Martim abaixou o olhar com um leve sorriso quase invisível.
— Acho que temos mais uma especialista da saúde. — Hugo comentou num elogio direcionado a ela.
— A única com um diagnóstico oficial. — Brady concordou.
Meu celular notificou outra vez.
“Como você está agora”“recebendo todos os cuidados da especialista aí?”Meu cenho se franziu e ergui os olhos no mesmo instante, procurando Jacob por reflexo. Ele percebeu.
— Não fui eu. — disse, levantando uma mão negando — Ainda.
A risada veio fácil dessa vez. Olhei para Hilary, ela já estava de novo ocupada com os brinquedos recebendo toda a atenção possível dos meninos.
“Também cuidando de mim. Acabou de avaliar meu caso.”“Disse que vai melhorar.”Olhei mais uma vez para a minha filha, um leve sorriso puxava o canto dos meus lábios, ela se debruçava nos braços do Isaac toda cheia de gracinha. Demorou um pouco mais para chegar outra mensagem.
“Então acredito nela.”Parei com o polegar sobre a tela. Era uma frase simples, discreta, que me fazia sentir acompanhada de um jeito diferente e novo.
Hilary me chamou pedindo por minha atenção. Deixei o celular sobre a mesa outra vez.
Foi nesse momento que ouvi um carro sendo estacionado, pela proximidade do som, na entrada.
Renesmee virou o rosto para a janela.
— É a Bella. — anunciou simplesmente, antes mesmo de vê-la.
Jacob soltou um riso curto.
— Impressionante. Ela reconhece o barulho do novo motor da mamãe.
— Ou reconhece a direção perigosa. — Brady comentou, travesso sendo fortemente apoiado por Thomas.
— Ei! — Renesmee protestou imediatamente.
— A culpa não é minha se a Bella dirige como alguém que já morreu uma vez. — Thomas respondeu.
Isso arrancou uma gargalhada de Hugo antes que Isaac desse uma cotovelada nele, meus olhos se arregalaram em horror para ele.
— Você não pode falar isso dentro da casa dos Cullen. — o gêmeo censurou.
— Tecnicamente eu posso. Eu só falei baixo.
Bella apareceu na da cozinha num caminhar elegante, ainda tirando as luvas, o cabelo escuro com leves cristais da garoa fina lá de fora. Os olhos dela passaram rapidamente pelo ambiente cheio antes de pousarem em mim.
E então ela sorriu.
Aquele sorriso tranquilo dela, discreto, mas genuíno.
— Então era aqui que estava o movimento da cidade inteira! — comentou.
— A culpa não foi minha, Bells! — Jacob respondeu imediatamente — Cada um simplesmente só apareceu.
— Isso normalmente já basta, né Jake! — Bella retrucou, aproximando-se.
Hilary começou a se remexer nos meus braços assim que Bella chegou perto.
— Oi, Florzinha. — Bella disse suavemente, beijando a testa dela antes de olhar para mim — Espero não estar atrasada. — pareceu se desculpar.
— Não está. — respondi — Na verdade, acho que perdi um pouco a noção do horário. — franzi as sobrancelhas.
— Acontece... — Bella comentou, olhando ao redor da cozinha — Principalmente quando eles começam a falar todos ao mesmo tempo.
— Somos muito acolhedores. — Thomas disse.
— E barulhentos por natureza. — Isaac emendou.
Bella riu baixo e então seu olhar caiu sobre a bancada cheia de doces.
— Esses são os biscoitos de lavanda? — apontou.
Senti Jacob olhando imediatamente para mim.
— Ah, então você já soube da fumaça? — perguntou.
Fechei os olhos por um segundo.
— Ness comentou alguma coisa. — Bella me encarou com uma inocência quase convincente demais.
— Claro que comentou. — murmurei.
— Vocês realmente esqueceram que não existem segredos nessa família? — Renesmee sorriu de canto mesmo que o centro de sua testa já estivesse se avermelhando.
— Existem. — Ravi comentou — Eles só devem durar uns três minutos.
Enquanto as risadas voltavam a preencher a cozinha sem que eu percebesse, a tarde tinha avançado bem.
— Então, — Jacob começou, apoiando os braços no encosto de uma cadeira — vocês vão mesmo pro centro daqui a pouco?
Assenti.
— Bella pediu para me mostrar algumas lojas antes que todo mundo resolva fazer as compras de Natal de última hora.
— Boa sorte! — Hugo comentou — Forks inteira parece entrar em pânico na última semana.
— Principalmente porque só existem três lojas úteis na cidade. — Brady completou.
— Quatro. — Taylor falou pela primeira vez em um bom tempo.
Todos olhamos para ele, que deu de ombros.
— A farmácia conta.
Thomas apontou imediatamente.
— Isso foi inteligente.
— E preocupante. — Isaac acrescentou.
Taylor apenas deu de ombros mais uma vez e pegou um biscoito em silêncio. Bella terminou de falar alguma coisa com Nessie e olhou para mim.
— Podemos sair quando você quiser.
Olhei ao redor da cozinha uma última vez, os irmãos quileutes espalhados pelo espaço; Renesmee distraindo Hilary, Jacob discutindo com Thomas sobre quem tinha comido todo o panetone e mais biscoitos. O cheiro gostoso dos doces ainda pairava no ar. Por um instante, tive aquela sensação estranha de estar observando algo importante sem que ninguém percebesse... a vida acontecendo.
Assenti, deixando que Renesmee ficasse à vontade com os meninos.
A chuva tinha diminuído quando deixamos a mansão Cullen, mas o céu continuava coberto pelas costumeiras nuvens densas e baixas, tingindo tudo de cinza-claro. As árvores ao redor da estrada pareciam ainda mais escuras por causa da humidade, e a neblina fina entre os troncos dava à floresta aquele aspecto contínuo vivo, frio e quieto.
O caminho até o centro me parecia menor com Bella. Talvez porque ao contrário do que Brady e Thomas deram a entender, eu já sabia que ela dirige com tranquilidade, é silenciosa, e sua quietude preenchia os espaços sem que precisássemos conversar o tempo inteiro. Ou talvez porque eu estivesse saindo sem sentir que precisava me preparar emocionalmente para o mundo lá fora.
Era capaz que fosse por isso mesmo.
Hilary estava presa, bem segura, na cadeirinha atrás de nós, distraída com um novo pequeno brinquedo que Renesmee insistira para levar. O som ocasional das pecinhas batendo umas nas outras preenchia os silêncios dentro do carro.
Bella mantinha as mãos pálidas relaxadas no volante.
— Eu gosto de como dezembro deixa a cidade mais movimentada. — comentou, olhando a estrada — Principalmente depois que começaram um festival perto da praça.
— Um festival? — perguntei.
— Uh-hum. Mas nada cheio de coisa, mas as pessoas gostam. Tem musicais, chocolate quente, decoração…, coisas assim.
Assenti, observando a paisagem mudar aos poucos.
A estrada cercada pela floresta começou a dar espaço para construções menores, logo circulávamos entre placas iluminadas e vitrines já muito bem decoradas para o Natal. Guirlandas pendiam dos postes, algumas tortas pelo vento constante da cidade. Pequenas luzes amareladas apareciam nas janelas dos cafés e das lojas locais, refletindo no asfalto molhado.
Percebi que Forks nunca parecia exatamente movimentada, mesmo em dezembro. Passamos pelo posto de gasolina perto da entrada principal da cidade, depois pela pequena farmácia que Taylor tinha defendido como “uma loja útil”. Isso me fez sorrir sozinha.
Bella percebeu.
— O quê? — perguntou com curiosidade.
— Nada não. Só lembrei deles discutindo sobre comércio local.
Ela riu baixo.
— Jake e os meninos conseguem transformar qualquer assunto em competição. Você vai ver e se acostumar daqui algum tempo.
Viramos uma esquina mais estreita, onde os estabelecimentos começavam a ficar mais próximos uns dos outros. Algumas vitrines tinham neve artificial acumulada nos cantos. Outras exibiam árvores decoradas demais, piscando em padrões quase caóticos.
Alguma cafeteria próxima provavelmente estava lotada, o cheiro inundou no carro antes mesmo de estacionarmos. Canela. Café. Açúcar quente.
Bella estacionou o Jaguar perto da calçada principal e desligou o carro. Por um instante, fiquei apenas olhando através do vidro, as pessoas caminhavam com sacolas nas mãos, casacos grossos, algumas até com gorros coloridos. Um casal tentava fechar um guarda-chuva ao mesmo tempo enquanto trocavam palavras entusiasmadas e riam. Mais adiante, duas crianças apontavam para uma vitrine cheia de luzes azuis.
Tudo parecia simples, normal, e talvez fosse isso que me fazia observar tanto como se fosse uma primeira vez... Porque durante um tempo minha vida pareceu distante desse tipo de cena, como se eu tivesse sempre do lado de fora das coisas comuns.
Bella soltou o cinto e se virou um pouco para mim.
— Preparada?
Olhei mais uma vez para a rua iluminada e húmida além do vidro, então assenti.
— Acho que sim.
Bella saiu primeiro, ansiosa para pegar Hilary, enquanto eu ajustava o casaco e conferia automaticamente a bolsa infantil: mamadeira, lenços, um casaco extra, e recolhi o novo brinquedo para dentro. Suspirei parando o movimento. O hábito de verificar tudo mais de uma vez já acontecia sem que eu percebesse.
Quando desci do carro, o frio cortante e húmido de Forks me atingiu imediatamente. Não era tão agressivo, mas estava constante, um frio que se infiltrava devagar pelas mangas do casaco e fazia o ar cheirar a chuva e pinheiro molhado.
A calçada estava movimentada para os padrões da cidade, os piscas-piscas refletiam no chão molhado, tremendo levemente conforme as pessoas passavam. Um grupo de adolescentes atravessou a rua correndo antes que o sinal de pedestre fechasse, enquanto um senhor terminava de pendurar uma guirlanda torta na vitrine de uma loja de ferragens.
Hilary se aninhou no colo da Bella, seu olhar me alcançando como se quisesse ter certeza de que eu não estaria tão distante, e só quando teve essa certeza sozinha, ela passou a olhar à novidade ao seu redor, observando tudo com atenção e ficou mais silenciosa.
— Ela fica muito séria quando está curiosa. — Bella comentou.
— Não costumava ser, acredito que esteja com a mania igual da Helena.
Bella sorriu de leve.
— Verdade, deve ser.
Começamos a caminhar devagar pela rua principal. O som da cidade era um burburinho baixo; espaçado; passos; portas abrindo; vozes em conversas abafadas, músicas natalinas escapando de dentro de algumas lojas.
Forks parecia ser pouco até ao fazer barulho.
Passamos pela livraria Charlie’s Corner Books, a fachada estreita estava decorada com pequenas estrelas douradas penduradas no vidro. Mais adiante estava a loja de artesanato, ao contrário da última vez que estava com sinos de vento pendurados do lado de fora, agora havia cachecóis feitos à mão expostos em manequins de madeira, e uma confeitaria de onde saía o cheiro forte de baunilha e café recém-passado.
Bella me observou por um instante.
— Engraçado... Amberli, você está olhando tudo como se fosse a primeira vez por aqui.
Pensei um pouco antes de responder.
— Ainda estou me acostumando, você sabe... É que faz tempo que eu não saio sem correria. Aqui estou tendo a oportunidade...
Ela pareceu entender imediatamente, não insistiu em mais explicações, apenas diminuiu ainda mais o ritmo da nossa caminhada. Passamos pela praça central, onde algumas pessoas vestidas com coletes da prefeitura, terminavam de instalar mini lâmpadas coloridas em uma árvore enorme perto do coreto. Havia caixas de enfeites abertas no chão e fios espalhados entre as botas dos funcionários.
Hilary apontou na mesma hora.
— Pisca-pisca! Uaau!
— Muitos piscas-piscas! — Bella concordou.
Parei por alguns segundos observando a árvore.
As lâmpadas ainda estavam apagadas, mas mesmo assim já havia um aspecto bonito nela. Talvez porque parecesse inacabada. Humana. Como se alguém ainda estivesse tentando fazer tudo funcionar antes do Natal chegar.
— Eu soube que eles acenderão amanhã à noite. — Bella comentou — A cidade inteira costuma aparece pra ver, mesmo sendo sempre igual há alguns anos.
— Acho que as pessoas gostam justamente por causa disso. — respondi.
Ela me olhou rapidamente, depois sorriu de canto.
— Eu percebi que você está mesmo se acostumando com a ideia de estar em Forks.
Seu comentário ficou na minha mente enquanto voltávamos a caminhar. Porque talvez fosse verdade. Talvez eu estivesse começando a reconhecer os ritmos daquele lugar, algo mais certeiro além da chuva constante e o silêncio entre as árvores, no jeito como as pessoas parecem se conhecer e, mais do que isso… talvez eu estivesse começando a permitir que aquele lugar me reconhecesse também. Bella parou diante de uma loja iluminada por pequenos fios de fada amarelos nas vitrines.
— Aqui. — disse — Eu queria te mostrar essa primeiro.
Olhei através do vidro. Cobertores grossos, velas aromáticas, louças antigas, pequenos enfeites de madeira e caixas de chá organizadas em prateleiras apertadas. Assenti e Bella abriu a porta.
O som do sino ecoou acima de nós.
↠.Esme.↞
O ambiente estava absurdamente limpo, apenas prevalecia o cheiro de papel antigo, couro, álcool antisséptico e vidro esterilizado.
Eu já havia transformado parte do escritório num espaço clínico improvisado para aquela avaliação. Pequenos frascos identificados por etiquetas médicas estavam alinhados ao lado de recipientes herméticos contendo amostras sanguíneas laboratoriais e fiz questão de deixar os papéis do meu marido alinhados de acordo com as etapas que ele e Edward planejaram para serem aplicados de forma didática para Helena.
Tudo alinhado com precisão.
É uma novidade para nós a maneira que tratamos a sua experiência com humanos, Nessie teve a presença de Charlie e Sue tão logo no seu cotidiano que eu sequer imaginei participar dos bastidores de uma nova adaptação. Eu sei que a Helena é muito bem instruída por Edward, Jasper e até mesmo Renesmee sobre sua vigilância com a mãe e irmã, as três estão constantemente protegidas pela minha família, eu sequer duvidei de que a pequena Helena se curvasse ao instinto predatório contra sua família. Ela é uma boa filha, por Amberli ela se esforça até demais.
Helena se contém em muitas particularidades na presença da mãe, diminui sua cadência constantemente e até mesmo se limita a ser parecida com a maneira frágil e limitada da fase infantil da sua irmã, tudo para preservar as reações da mãe. É curioso como isso não é movido pelo receio de ser rejeitada, apenas pelo medo de causar horror na genitora. Nos momentos limitados em que Amberli não está acompanhada dela, eu pude ver com meus próprios olhos a maneira cirúrgica a qual ela se comporta tão diferente na presença humana; os reflexos contidos simplesmente desaparecem e é trago à tona todo o potencial híbrido que vivifica suas células sobrenaturais; Helena é uma exímia caçadora e tão bem desenvolvida quanto Renesmee, tem facilidade fonética para outros idiomas e aprendeu a ler e escrever tão bem quanto.
E uma coisa que continuou a mesma é sua maneira de ser discreta. Mesmo tendo a liberdade de perguntar sobre suas dúvidas de tudo e todos, ela não o faz, mas a mim é perceptível o quanto a segunda natureza quente dos quileute a faz olhá-los por mais microssegundos do que a qualquer outro que entre dentro da minha casa.
— Então, o risco de algum humano ter uma fissura enquanto eu estiver lá serão baixas...
A sua voz tranquila pediu pela confirmação. Eu observava a doce menina sentada na cadeira giratória próxima da mesa, meiga demais para o ambiente formal ao nosso redor, mas estranhamente adequada dentro dele. As perninhas ainda não alcançavam o chão e se balançavam devagar sem ansiedade; Helena mantinha as costas ereta numa postura impecável, os olhos azuis-claros percorriam cada objeto numa concentração genuína, sem nenhum receio. Suas mãozinhas seguravam um dos papéis cravados de estatísticas de sua evolução entendendo o suficiente do que eles representavam sobre si. Uma cena cômica de se ver; uma criança tão pequena segurando aquela folha com tanta confiança como só um adulto conseguiria.
Ainda assim, havia algo profundamente inadequado em associá-la a qualquer fragilidade infantil, o primeiro erro, seria olhar para Helena e esquecer o que ela era e a aparência dela fazia isso com facilidade. Mas eu já existia havia tempo suficiente para reconhecer um predador quando via um; ainda mais agora assistindo os dois lados dela coexistirem no mesmo corpo com uma graciosidade questionável àqueles que não entendem.
— Isso mesmo. — foi Edward quem respondeu e acrescentou algo de uma pergunta silenciosa — Você não pode imaginar por que nunca viu e estou confiante de que não precisará ver tão cedo, Helena.
Edward permanecia próximo à janela, atento de uma forma diferente da nossa. Mais profunda, dentro de cada mente de maneira incessante.
— Mas tio Edward, deve ser como as minhas marcas naquele herbívoro. — piscou as pálpebras graciosamente.
— Não... — Edward arrastou a resposta — Isso é pior, e nem um pouco assustador para você. Na pele humana possa ser que seja tão pequeno que você mal veja, mas o cheiro pode te perseguir por muitas milhas. E não queremos que isso te perturbe num dia tão especial para você, sua irmã e para a sua mãe.
— Não vai. — respondeu convicta. Os cachos se movimentaram como molas sobre meus ombros e um leve brilho de seus brincos reluziu.
Jacob tinha deixado as peças de roupa para nós essa manhã; moletons, camisetas e jaquetas pertencentes aos rapazes quileutes, todas usadas recentemente. Eu reconheci alguns cheiros antes mesmo de Carlisle separar os tecidos em embalagens individuais esterilizadas: Brady, Jacob, Ravi, Thomas e Isaac, misturados um no outro de uma forma quase inseparável.
A presença lupina impregnava cada fibra.
— O senhor vai começar pelos estímulos hematológicos ou pelos olfativos de origem humana? — perguntou ela, com perfeita clareza. A pergunta teria parecido absurda vinda de qualquer criança de aparência tão jovem.
Meu marido apenas ergueu os olhos para ela com naturalidade.
— Hoje vamos iniciar com exposição olfativa. — respondeu calmamente — Depois observaremos sua resposta aos diferentes tipos sanguíneos.
Helena assentiu como se já esperasse aquela metodologia. Com alguma permissão silenciosa, Edward abriu um dos recipientes laboratoriais enquanto meu marido anotava observações no tablet.
— Primeiro, faremos a exposição olfativa cruzada indireta. — Carlisle apresentou calmamente e começou a calçar as luvas — Sem contato físico inicial.
— Entendi. — Helena assentiu, vi quando Edward conteve um leve sorriso ao ouvir aquilo.
Edward cruzou os braços.
— Ela está tranquila. — comentou.
Eu sabia que ele não falava apenas do comportamento visível. Carlisle se aproximou com a primeira embalagem de roupa dobrada.
— Este pertence a um quileute geneticamente transformado. — explicou — Quero que descreva o que percebe, dessa vez, sem tentar interpretar emocionalmente o estímulo.
Helena abandonou o papel sobre suas coxas roliças e estendeu a mão pequena para o tecido antes mesmo que ele o abrisse completamente. O cheiro se espalhou ao seu redor no mesmo instante e Helena aproximou o rosto do tecido e inspirou profundamente uma vez, depois outra, o efeito nela foi imediato, as pupilas se ajustaram rapidamente, seu corpo ficou mais atento, os sentidos se ampliando sem nenhuma tensão agressiva.
— Temperatura olfativa elevada. — disse, pensativa — Há uma presença predominante de cortisol e salinidade residual.
— Isso foi extremamente específico. — Edward sorriu discretamente — Excelente diferenciação sensorial, não acha? — Edward comentou trocando um olhar rápido com Carlisle, que anotou algo imediatamente.
— O cheiro dele é muito distinto. — respondeu Helena sem desviar a atenção da peça — Não é semelhante aos... outros. Este pertence a Jacob.
— É alguma reação instintiva adversa? — meu marido perguntou tirando os olhos da tela do dispositivo — Alguma resposta instintiva predatória?
Helena pensou por um momento antes de responder.
— Não é adversa e nem predatória. Apenas intensa.
Meu marido anotou algo rapidamente, eu cruzei os braços num movimento bem devagar, a naturalidade com que Helena descrevia aquilo era um pouco desconcertante para mim. O tablet foi deixado de lado apenas para que a próxima embalagem fosse separada para a nova análise de Helena que, dessa vez, teve uma reação diferente; não precisou se concentrar tanto quanto na anterior, foi bem mais rápida.
— Menor densidade hormonal, menos agressivo. Mais jovem. Frequência cardíaca geralmente acelerada..., mesmo sem a presença física.
Edward ergueu levemente as sobrancelhas.
— É o cheiro do Taylor. — ela identificou voltando seus olhos para os dele — Ele pensa rápido, sabia, tio Edward?
Vi meu filho cruzar os braços e ficar em silêncio por um instante maior.
— Correto. — foi Carlisle quem confirmou.
Ela olhou para ele.
— O cheiro lupino altera significativamente a percepção hematológica humana, tio Carlisle.
Carlisle ergueu as sobrancelhas de forma quase imperceptível. Ainda era estranho, mesmo para eles, perceber o nível de percepção híbrida dela.
— Você pode explicar, por favor?
Helena devolveu a peça e apoiou as mãos no colo antes de responder.
— O organismo deles mantém a temperatura corporal elevada e a circulação acelerada. O sangue humano comum parece menos… presente depois da exposição contínua aos amigos do Jacob.
O silêncio breve que surgiu depois da sua explicação não era ocasionado pela surpresa, era apenas uma análise silenciosa entre as mentes dos dois homens.
Edward foi o primeiro a falar.
— Ela está categorizando os estímulos.
— Sim. — Carlisle respondeu baixo — E criando distinções cognitivas complexas sem dificuldade aparente.
Eu continuei observando Helena, pensando sobre o modo como ela falava, a serenidade tão característica, a ausência completa da impulsividade infantil. Era mesmo muito fácil, vendo-a dessa maneira, esquecer que ela ainda aparentava ter apenas dois anos, talvez menos, aos olhos humanos. Amberli jamais imaginaria.
— Vamos continuar com exposição olfativa ambiental. — explicou ele — Presença humana não lupina. Diferentes idades. Diferentes níveis hormonais e metabólicos.
Helena assentiu sem reclamar.
Carlisle abriu a nova embalagem e o cheiro se espalhou imediatamente, o teor mais humano, mais comum, sem a rastro intenso dos quileutes metamorfos. Eu reconheci vários aromas misturados ali dentro dos saquinhos: detergente; sabão barato; cinzas de lenha; retalhos de tecido húmido, variações da vida humana cotidiana.
Carlisle retirou a primeira peça: um casaco infantil azul-marinho. Helena recebeu o tecido com cuidado e inspirou sobre a peça uma vez.
— Filha de Embry Call. — explicou — Sete anos.
Achei que a reação dela foi diferente das anteriores, foi menos instintiva, mais observacional.
— Tem açúcar elevado. — disse calmamente cheirando um pouco mais — Provavelmente consumiu doces recentemente.
Edward tinha um pequeno sorriso no canto do lábio.
— Mais alguma coisa? — Carlisle anotou.
— Bem... — Helena aproximou um pouco mais o tecido — A peça é exposta ao ambiente externo frequente. Terra molhada. Exposição constante ao frio.
Ela devolveu o casaco as mãos do meu marido sem desconforto. Carlisle então separou uma camiseta masculina mais antiga.
— Homem humano de cinquenta e oito anos. Pelo odor forte de água salgada e animais marinhos, é um trabalhador portuário da reserva.
O cheiro era mais denso, mais cansado. Até eu percebia isso. Continuamos em silêncio esperando por mais análises; Helena levou alguns segundos antes de responder.
— Pressão arterial alterada. Tem tabaco residual antigo nas fibras e dor muscular frequente.
Olhei imediatamente para Carlisle, ele apenas assentiu lentamente.
— Bastante preciso.
Helena não demonstrava orgulho quando acertava, apenas aceitava e partia para a próxima como se estivesse organizando as coisas ao redor em categorias compreensíveis para ela.
A próxima peça desembrulhada era menor, um cachecol infantil vermelho. Helena segurou o tecido no nariz por mais tempo dessa vez, algo na sua postura mudou sutilmente, uma leve reação movida pelo emocional.
— Menina humana. Quatro anos. — apresentou — Esse cheiro parece com o da Hilary quando ela cochila depois do banho. — disse mais baixo.
O escritório inteiro ficou quieto por um instante.
Porque essa não havia sido observação clínica, foram raras as vezes em que ela apresentava “um laudo” interligado a um vínculo. Olhei ao redor para perceber se mais alguém tinha reparado, Edward desviou os olhos primeiro, Carlisle apenas aguardava por mais.
Helena passou os dedinhos pelo tecido antes de devolvê-lo.
— Isso me ajuda. — disse depois de alguns segundos.
— O quê? — Carlisle perguntou.
Ela olhou para ele.
— Pensar que são parecidos com ela.
Meu olhar foi imediatamente para Edward, que já observava Helena de uma forma diferente agora. Eu não precisei de muito para perceber o instinto paternal cuidadoso compreendido naquele olhar.
— Você pensou na Hilary durante o treinamento? — Carlisle apoiou as mãos na mesa.
— Sim. — Helena assentiu sem hesitar, como se fosse óbvio.
— Explique para mim o motivo, por favor. — Carlisle pediu gentilmente.
Ela ficou em silêncio breve antes de organizar a própria explicação.
— Os humanos são mais difíceis de absorver as fragrâncias necessárias para mim quando me parecem distantes. Como se fossem apenas desenhos... — disse — Quando penso só no cheiro… fica bem incompleto.
Edward permaneceu imóvel, Helena continuou:
— Mas Hilary é humana. — ela falou aquilo como se resolvesse tudo. Como se fosse impossível separar uma coisa da outra — Então eu precisei aprender do jeito certo.
Minha garganta apertou discretamente, e um suspiro estrangulado escapou pelos meus lábios, a maneira como ela disse aquilo deixou claro que a pequena nunca enxergou o próprio controle como uma obrigação para si mesma, nem como apenas um exercício moral, era amor e proteção.
— Você quer mantê-las seguras. — Carlisle pontuou.
Helena olhou imediatamente para ele.
— Sempre.
— Mesmo quando o cheiro incomoda?
Ela assentiu.
— Principalmente.
Meu marido então retirou outra peça da embalagem: uma blusa feminina com perfume floral suave impregnado no tecido. Helena recebeu a peça já mais tranquila.
— Mulher humana. — inspirou lentamente — Trinta e dois anos. Professora da reserva. Ansiedade frequente... — comentou — Há pouco descanso, alguma coisa parece indicar que ela não dorme de maneira comum. Mas… não acumula irritabilidade, parece ser uma mulher gentil.
Edward ergueu os olhos para ela.
— Você percebe isso pelo cheiro?
— Uh-hum. E pelo coração. — respondeu Helena calmamente — Os corpos humanos mudam o cheiro quando sentem certas coisas...
Meu marido absorveu essa informação com atenção profunda agora, mas eu já não estava focada nele, nem nas suas anotações, nem nas embalagens; eu observava Helena e a maneira como ela se mantinha concentrada, no esforço adaptativo que fazia para transformar instinto em compreensão. Era dolorosamente claro para mim que ela não fazia com esmero pelos Cullen, nem pela segurança da reserva em que visitaria, nem sequer porque pedíamos. Ela fazia por Amberli e pela Hilary. Porque, dentro da mente jovem e extraordinariamente consciente daquela híbrida, amar alguém devia significar nunca permitir que essa pessoa tivesse medo dela.
Carlisle não encerrou o procedimento depois daquilo. Depois de todos esses minutos em silêncio, achei que encerraria por hoje. A mão dele permaneceu apoiada sobre a bancada metálica enquanto observava Helena em silêncio, avaliando alguma coisa que parecia ir além da reação fisiológica imediata que ela tinha com a coleta da percepção olfativa.
O silêncio continuou a se estender, cada um imóvel a sua maneira, a chuva continuava descendo pelas janelas altas do escritório, deformando a iluminação externa da floresta em manchas líquidas. Helena permanecia olhando para as próprias mãos, os dedinhos apoiados sobre o colo, tensionados.
Edward era o único que continuava observando algo além do que nós víamos. Isso era evidente na maneira como o rosto dele mudava em detalhes quase invisíveis. Às vezes parecia acompanhar uma conversa inteira acontecendo sem som algum, em outras parecia apenas suportar.
As mentes ao redor continuaram a debater naquele silêncio por mais um breve minuto, e logo meu marido recolheu caminhou até a minicâmara laboratorial no canto daquela parte do escritório, retirando alguns recipientes identificados.
— Vamos alterar o protocolo. — anunciou calmamente — Eu imaginei que iria apresentar isso na próxima adaptação, mas acredito que apresentando todos ainda hoje me trará mais resultados...
Recolhi cada peça de volta para o seu respectivo saco plástico para que eu pudesse lavá-los tocando-os o mínimo possível para serem devolvidos devidamente. Empilhei as embalagens nas poltronas à frente da escrivaninha de madeira do meu marido e retornei exatamente ao mesmo lugar, ficando imóvel no mesmo canto do escritório, atenta ao que viria.
Helena ergueu os olhos imediatamente, o azul translucido brilhando em expectativa não verbalizada. Carlisle apresentou a próxima etapa: hemoglobina, plasma e concentrado plaquetário.
Tudo fracionado.
— Você quer diminuir a associação corporal completa. — Edward observou o movimento dele.
Carlisle assentiu.
— Quero entender qual componente desencadeia maior resposta cognitiva nela.
Helena acompanhava tudo em silêncio, o rosto infantil tinha voltado àquela serenidade que dava a estranha sensação de não se parecer realmente infantil.
Carlisle selecionou o primeiro tubo pequeno de plasma, quase translucido sob a luz, amarelado. Ele abriu o frasco lentamente, o odor menos agressivo ao nosso olfato; tanto que a mudança em Helena foi mínima, seus olhos só focaram o líquido de modo analítico. Nada além disso.
— Instinto responsivo? — meu marido a observava atentamente.
Ela inclinou levemente a cabeça, os cachos acompanharam o movimento.
— Fraco.
— Não há impulso predatório?
— Não o suficiente.
Edward cruzou os braços num movimento lento.
— O cérebro dela não responde apenas à presença biológica humana, é curioso a maneira como responde à integridade vital do sangue.
Carlisle assentiu, absorvendo aquilo rapidamente.
— O plasma isolado reduz a percepção de organismo completo.
— Isso daí me parece incompleto. — ela continuava atenta ao líquido dentro do tubo.
Helena percebi a maneira curiosa nos nossos olhares, porque a maneira dela descrever o cheiro era totalmente fora do comum, ela expressava como se houvesse alguma ausência específica naquele componente. Meu marido pegou então outro tubo, o de hemácias concentradas, algo mais denso e escuro. O efeito foi imediato antes mesmo da tampa terminar de girar, o olhar de Helena alcançou o frasco com demasiado interesse, os músculos de seu pescocinho tensionaram discretamente.
Edward olhou diretamente para Carlisle agora.
— Esse ativa o reconhecimento. — pontuou.
Carlisle manteve o fraco parcialmente aberto, o cheiro metálico começou a propagar no ambiente. Helena não se mexeu, e com isso identifiquei um foco progressivo nas suas reações silenciosas, como se partes do cérebro dela começassem a desligar os estímulos irrelevantes automaticamente.
Me aproximei dela com cautela, tocando o papel que continuava sobre suas coxas, ela sequer pareceu me perceber na sua lateral. Puxei o papel, a textura da matéria roçando no tecido da sua roupa. Ela sequer ligou, tudo parecia perder a importância, seu foco totalmente voltado para a matéria do sangue bem ali na sua frente.
Devolvi a folha entre as outras e continuei a assistir.
— Helena. — meu marido a chamou, a voz entoando o nome da menina com lentidão.
— Sim? — ela respondeu imediatamente.
— Pode descrever?
— Sim. — os olhinhos claros ainda permaneciam fixos no tubo — Parece mais quente.
— Mesmo refrigerado? — Carlisle inquiriu.
Ela assentiu devagar.
— É que..., meu cérebro corrige a temperatura.
Edward não conseguiu o leve chiado que veio de dentro da sua garganta. Ele se virou para a janela, fechando brevemente seus olhos.
— Ela reconstruiu o corpo inteiro mentalmente a partir do cheiro.
— Você imaginou o doador? — meu marido manteve a voz estável quando perguntou.
Ela demorou um pouco para assentir positivamente.
Carlisle caminhou mais para a lateral e abriu outro compartimento refrigerado menor. Dessa vez, as amostras estavam separadas num volume reduzido, cada um identificado em uma precisão quase obsessiva.
Ali estavam as amostras sanguíneas.
Essas não eram como o sangue animal que armazenamos em casa. Nem como o aroma discreto das bolsas hospitalares seladas que Carlisle às vezes trazia do hospital quando nós a alimentávamos, meses atrás. Aqueles dali estavam frescos, densos, com vida e mais humanos; estes recipientes laboratoriais continham amostras maiores dessa vez, recém-transferidas para análise hematológica, coletas feitas de pacientes desta manhã.
O escritório nunca me era um lugar confortável quando havia sangue humano aqui dentro. Não pela tentação, isso já fazia parte de nós há tempo o suficiente para se tornar administrável mesmo com a secura ardente da nossa garganta. O meu desconforto vinha por outra questão.
O líquido escuro movia-se lentamente dentro do vidro conforme Carlisle os posicionava sobre a mesa metálica com a precisão habitual.
Percebi imediatamente a mudança quase imperceptível na Helena antes mesmo que o primeiro frasco fosse posicionado: as pupilas se dilataram num movimento rápido demais para olhos humanos acompanharem, os dedinhos pararam de se mover e ela parou de balançar as pernas.
Os olhos dela fixaram imediatamente nos recipientes. Sua postura, mesmo que mínima, ficou diferente; ela estava mais atenta, mais afiada.
Tudo no meu marido permanecia estável mesmo diante de situações que fariam outros vampiros perderem completamente a compostura. As etiquetas dos recipientes estavam alinhadas identificando o tipo sanguíneo, horário da coleta e a temperatura ideal de conservação.
Edward estava bem quieto. Mas eu já o conhecia o bastante para perceber quando sua atenção deixava de ser superficial e passava a ser daquela outra maneira. Mais inevitavelmente invasiva e profunda; a mente em foco. Se alguém abrisse a porta naquele momento, sem saber o que acontecia aqui dentro, veria apenas uma criança muito comportada acompanhando adultos em uma conversa séria demais para sua idade.
Voltei meu olhar para ela, talvez fosse exatamente essa situação que tornasse tudo mais difícil de encarar por muito tempo. O corpo dela se mantinha inerte, ela não avançou, nem se moveu abruptamente; não houve nenhum reflexo dramático. Mas eu percebia que a atenção dela há muito tempo havia mudado completamente: o som da chuva perdeu sua importância; o movimento de Carlisle tornou-se secundário; minha presença, a de Edward, as estantes, os livros; tudo pareceu deslizar para fora do foco dela ao mesmo tempo em que os frascos foram posicionados sobre a mesa.
O rostinho delicado e amoroso continuava sereno, mas o olhar... Os olhos não pertenciam a uma criança. Havia uma fixação letal neles, algo ardiloso e concentrado de uma forma que humanos raramente compreenderiam corretamente, porque associam violência à desordem.
Separando um deles, meu marido retirou lentamente a tampa de vedação de um dos recipientes, abriu-o apenas o suficiente para permitir dispersão mínima do odor. O sangue ainda conservava a viscosidade elevada. Recém-processado, a temperatura ligeiramente acima do padrão de armazenamento deixava o cheiro mais ativo. Eu ouvi a mudança na respiração dela, foi gracioso, quase inexistente, mas aconteceu.
Edward virou o rosto discretamente naquele instante, não para evitá-la fisicamente, mas aos pensamentos; ele fazia isso quando precisava se reorganizar com tudo o que estava ouvindo na mente. Até porque, era impossível banir os pensamentos sem o escudo da esposa.
Carlisle continuava a observar Helena com aquela atenção médica absoluta quando Edward se moveu, foi um único passo quase imperceptível, percebendo algo mudo as nossas percepções. Helena pôde perceber o movimento sem sequer olhar para ele.
— Eu ainda estou bem, tio Edward. — afirmou; a voz saiu perfeitamente clara, educada, mas havia outra coisa encoberta por trás de sua entonação vocal invisível para humanos: a sede.
Edward descruzou os braços devagar.
— A frequência respiratória aumentou. — comentou.
Carlisle assentiu sem desviar o olhar dela abrindo cada vez mais o frasco. O cheiro se espalhou de vez agora e foi violento; mesmo para mim, vampira há décadas, o aroma cortou o ambiente como uma lâmina flamejante. O sangue humano fresco sempre carregava algo profundamente perturbador, um chamado primitivo impossível de ser descrito adequadamente.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Helena. — chamou sua atenção calmamente, apesar dela não desviar seus olhos gesticulou que estava o ouvindo — Bolsa laboratorial, O+. — informou, em tom clínico — Coleta recente. Um doador real. Quero a descrição fisiológica da sua resposta. Quero que verbalize o que está sentindo.
Helena observava o recipiente com olhos fixos, concentrados. Ela permaneceu imóvel e em silêncio por seis segundos completos antes de responder.
— Há uma diferença significativa, existe uma atividade instintiva, — respondeu com clareza — mas controlável.
— Pode especificar? — Carlisle pediu.
— Sim. Esse possui uma resposta mais aguda. A composição parece..., mais limpa.
— Isso. Menor presença de lipídios e alterações metabólicas. — meu marido lhe explicou. Os olhinhos claros piscaram para ele com doçura absorvendo a informação — É de um doador saudável, com dieta controlada.
Ela assentiu lentamente, engolindo em seco. Edward observava atentamente cada microexpressão dela.
— Frequência respiratória aumentou apenas dois ciclos. Dilatação pupilar extrema. Resposta instintiva preservada. — ele comentou para Carlisle, que buscou pelo dispositivo para mais uma anotação.
— Excelente estabilidade.
Foi assim que percebi o que havia de tão importante, a Helena não estava sentadinha ali tentando “parecer controlada” diante da exposição do sangue; ela realmente estava controlada.
Edward me olhou rapidamente, e eu sabia o motivo daquele breve olhar; ele estava confirmando os pontos interligados da minha mente. É surpreendentemente diferente perceber como muitos de nós passavam décadas aprendendo aquilo. O lado humano realmente apresentava bons benefícios, na natureza de Helena e Renesmee isso apenas..., era compreendido pelo próprio organismo.
Carlisle então aproximou o segundo recipiente: AB-. Mais raro e mais rico. A mudança corporal da pequena híbrida aconteceu no mesmo instante da minha percepção, ela havia percebido quase no mesmo nanossegundo; os dedos pequenos apertaram levemente o tecido da própria roupa, o corpinho ficou imóvel de um jeito antinatural. Não havia nenhuma hesitação infantil, nem confusão. Os olhos azuis perderam completamente qualquer traço dócil por um segundo breve, havia uma maquinação ali.
Edward ficou atento. Ele viu, eu vi e meu marido também: a predação pura, fria e precisa da sua natureza vampírica.
As mãozinhas se soltaram do tecido, apertando o braço da cadeira com força o suficiente para a madeira estalar discretamente sob os dedinhos. E ainda assim, Helena não avançou, sequer inclinou o corpo, ela continuou parada.
— Helena? — Edward a chamou, o tom de sua voz transpassava segurança e não o contrário.
Ela não respondeu de imediato, e pude ver quando a tensão surgiu no pequeno maxilar, depois aos ombros. O controle dela era tão impressionante quanto perturbador porque não parecia desesperada para se conter, estava mais como uma criatura segurando conscientemente os próprios dentes.
— Esse é mais difícil. — admitiu baixinho, piscando lentamente sem desviar os olhos do sangue.
— Por quê, Helena? — Carlisle manteve a voz estável.
— Eu consigo ouvir. — disse baixinho engolindo seco — E é mais doce..., há mais glicose. Minha resposta instintiva é... maior, existe mais estímulo predatório.
— Ouvindo exatamente o quê, querida? — Carlisle perguntou, precisávamos de mais informações.
Ela demorou alguns segundos para o responder.
— O movimento.
— Explique melhor, por favor. — Carlisle franziu levemente a testa.
— O sangue não parece sem movimento para mim, tio Carlisle, alguns parecem mais vivos.
Eu compreendi imediatamente, nós todos compreendemos. Helena não absorvia apenas o cheiro que ardia sua garganta e inflamava a sede, ela era capaz de perceber a matéria viva, as propriedades biológicas; a vida residual.
O rostinho meigo e infantil permaneceu sereno, mas os olhos…
Meu. Deus.
Os olhos dela estavam famintos. Não de maneira animalesca, pior, consciente. Ela sabia exatamente o que queria e exatamente o que estava impedindo a si mesma de fazer.
— Frequência muscular elevada. — meu marido comentou calmamente — Tempo de fixação visual aumentado em dezessete segundos.
Helena continuava olhando o sangue. A mandíbula pequena tensionou discretamente. Engoliu seco.
— O cheiro muda quando fica exposto ao ar... — ela notou.
Carlisle assentiu.
— É a oxidação.
Ela respirou mais fundo, dessa vez involuntariamente, alguma coisa nela começava a se aproximar perigosamente de um limite, Edward percebeu primeiro. Claro que percebeu, antes mesmo que minha apreensão se elevasse eu vislumbrei os olhos dele escurecerem levemente.
— Carlisle. — Edward tensionou a mandíbula, deu um passo discreto à frente e Helena ergueu a mão pequena imediatamente.
— Eu sei. — a voz dela saiu mais áspera.
— O que está acontecendo agora? — Carlisle foi firme.
— Eu estou controlando. Não vou avançar, tio Edward. — ela disse imediatamente, insistente, a voz tranquila quase ofendida pela necessidade silenciosa de supervisão.
— Eu sei. — Edward não se aproximou mais.
“Edward”, pensei "querido, Helena precisa ser tratada com cuidado..., mas com respeito também; porque ela entende perfeitamente o que está acontecendo ao redor dela”.
Edward mal moveu a esclera dos olhos para aceitar minhas palavras para dentro da sua mente.
— Helena. — Carlisle disse calmamente — Quero que continue verbalizando.
Ela não respondeu de imediato. Os olhos permaneciam fixos no sangue, as pupilas dilatadas demais agora. O rostinho delicado continuava sem expressão aparente, mas eu comecei a perceber pequenas mudanças difíceis de explicar para alguém humano, a precisão excessiva no alinhamento do corpo, a imobilidade absoluta, a maneira como os ombros dela pareciam preparados para movimento mesmo sem se moverem. Predadores muito eficientes raramente desperdiçam energia.
Edward falava baixo agora, um murmúrio direcionado apenas para Carlisle.
— Ela está tentando diminuir estímulo visual porque o olfativo já ultrapassou o aceitável.
Carlisle permaneceu atento.
— Ela ainda mantém clareza cognitiva, Edward?
Edward demorou, e seu pequeno atraso foi pior do que qualquer resposta imediata.
— Sim.
Depois acrescentou:
— Completamente.
Aquilo era o mais assustador. Carlisle finalmente afastou o recipiente, observando-a atentamente.
— Resposta extremamente acima do esperado para estabilidade híbrida. — foi o que meu marido declarou.
Foi então que Helena finalmente desviou os olhos do sangue e olhou firmemente para ele. Depois para Edward e então para mim. A mudança foi assustadora justamente porque aconteceu tão rápido. A fome, a sede ainda estava ali, violenta, latejando sob a superfície; mas havia a inteligência por cima disso, o controle racional, a escolha de não atravessar uma linha que claramente conseguia enxergar.
— Eu posso fazer de novo. — foi convicta.
— E como você está fazendo isso? Por que você não avançou? — ele quis saber.
Ela demorou um pouco mais para responder dessa vez.
— Estou... Separando a necessidade de impulso. Porque eu não sou só isso. — respondeu.
O escritório ficou silencioso por um momento, ela não voltou os olhos cristalinos para o frasco aberto por conta própria, a tensão saindo do seu corpinho quase imediatamente. E, por um instante terrível, eu consegui imaginar perfeitamente o que ela poderia se tornar um dia caso escolhesse parar de se controlar. Minha mente retomou os estágios dela até aqui, a velocidade, sua precisão, a ausência frequente de hesitação... Helena Adhara não seria uma predadora descontrolada. Seria algo muito pior. Uma criatura plenamente consciente da própria violência e talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão impressionante, ou tão perigoso. Porque mesmo agora, pequenina, sentada numa cadeira robusta demais para sua estrutura infantil e amável, ela me parecia estar segurando algo monstruoso dentro de si com as próprias mãos e estava conseguindo. Por enquanto.
Edward soltou o ar lentamente.
— Controle consciente. Isso é muito acima do esperado.
Olhei para o meu marido, parecia profundamente concentrado, quase fascinado.
— É o esperado, Edward. O desenvolvimento neurocognitivo híbrido é extraordinário.
Eu voltei meu olhar para Helena, não conseguia desviar os olhos dela por muito tempo, era desconcertantemente irresistível assistir à reação física evidente que o organismo híbrido dela apresentava e o processo mental acontecendo em tempo real dentro de um corpinho tão delicado. Eu comecei a entender por que Helena media tanto as próprias palavras perto da Amberli.
Até então, eu imaginava que fosse apenas cuidado emocional. Proteção infantil. O instinto natural de preservar a mãe de assuntos difíceis. Mas não era só isso, havia uma elaboração instintiva consciente e, acima de tudo, percepção do efeito que ela causava.
Troquei o peso do corpo para o pé direito, apenas pela mania, meus ombros reproduzindo um movimento que eu não fazia; eu não estava respirando e indiferente a isso, o aroma ao redor parecia ocupar um espaço físico dentro do ambiente.
Meus olhos se desviaram da Helena para as amostras abertas por um instante, ainda era avaliado a estabilidade responsiva da menina, ainda era monitorado a persistência do autocontrole.
Edward permanecia próximo agora, mais perto dela do que antes e muito mais atento.
Meu marido percebeu uma alteração muscular nos ombros dela.
— Há contração involuntária dos flexores. — comentou em voz baixa, mantendo o tom clínico habitual — Ela está contendo impulso motor consciente.
Edward já estava completamente fisicamente concentrado nela agora, e eu duvidava muito que sua mente tivesse tirado o foco. Os olhos dele se estreitaram minimamente por um instante.
Meus olhos pularam para Helena, ela ainda permanecia sentada no mesmo lugar, mas o corpo pequeno estava longe de parecer relaxado, a tensão começava a se acumular nela de formas discretas, e havia outro detalhe que não me escapou, ela estava muito quieta. Uma quietude excessiva, não aquela calma que ela normalmente demonstrava e isso já havia sido percebido por Edward antes de qualquer um de nós; a feição dele endureceu quase imperceptivelmente.
— Carlisle. — disse em tom baixo.
— O que foi?
Edward não respondeu de imediato, continuou ouvindo.
— Ela está fragmentando os estímulos, Carlisle. — disse.
Aquilo sempre me causava desconforto. A expressão dele mudava muito pouco quando se concentrava a ler os pensamentos de um indivíduo específico sem o dom da Bella de auxílio, mas existiam momentos específicos em que o silêncio dele parecia pesado demais.
Carlisle desviou parte da atenção para ele.
— Como?
Edward levou alguns segundos antes de responder, não porque meu filho tivesse dificuldade em compreender, mas porque parecia estar tentando organizar algo extremamente complexo.
— Ela não processa o sangue como um único estímulo contínuo. — explicou — O cérebro dela separa tudo imediatamente.
Helena permanecia olhando para os cantos da mesa, evitando um olhar direto aos recipientes. O corpinho imóvel demais, os dedinhos ainda pressionados contra a madeira violentada da cadeira.
Edward continuou.
— Temperatura. Densidade. Composição metabólica. Frequência cardíaca residual do doador antes da coleta. Ela categoriza tudo individualmente.
Meu marido permaneceu em silêncio enquanto absorvia aquilo.
— Processamento neuroassociativo avançado. — murmurou quase para si mesmo.
— Muito acima do que vimos na Nessie. — Edward assentiu.
Ao ouvir aquilo, Helena finalmente piscou de novo e desviou os olhos do sangue pela primeira vez desde a abertura dos recipientes.
— A Ness sente primeiro. — disse ela calmamente — Eu analiso primeiro.
Edward olhou diretamente para ela.
— Exatamente.
Havia algo desconfortável na precisão daquela conversa. Porque não parecia um adulto tentando interpretar uma criança, me parecia uma troca entre inteligências diferentes tentando traduzir mecanismos internos complexos. Carlisle aproximou-se lentamente da mesa.
— Helena, quero que tente descrever o impulso predatório da maneira mais objetiva possível. Pode fazer isso?
Ela pensou, apertou os olhos por um instante. O cheiro do sangue ainda saturava completamente o escritório. Mesmo sem precisar respirar, eu conseguia senti-lo aderindo ao ambiente, às roupas, à madeira antiga das estantes, aos tecidos das cadeiras.
— Não parece como a fome da minha parte humana. — Helena finalmente respondeu, engolindo seco, um gesto humano demais para a situação.
— Continue, querida. — incentivou Carlisle, mantendo o olhar atento nela.
— Não é algo vazio, nem doloroso. Nem mesmo uma necessidade física imediata. — ela apoiou as mãozinhas sobre o colo agora. O gesto foi minucioso, controlado — É mais parecido com reconhecimento biológico mesmo que minha garganta sofra. — continuou — Meu organismo entende que o sangue é algo importante antes de decidir o que fazer com ele.
Edward fechou os olhos brevemente. Eu percebi no mesmo instante que ele estava ouvindo e vendo mais do que as palavras dela. Muito mais.
— Ela não pensa em violência primeiro. — ele passou para Carlisle, estava aliviado — Isso é importante.
Carlisle ergueu discretamente as sobrancelhas.
— Explique, por favor.
Edward olhou novamente para Helena antes de responder.
— O impulso inicial dela não é atacar. É compreender a origem do estímulo. O cérebro híbrido dela cria associação cognitiva antes da resposta física completa.
Carlisle absorveu aquilo rapidamente.
— Diferente do comportamento vampírico padrão.
— Muito diferente. — Edward confirmou.
Helena observava os frascos outra vez, mas agora parecia menos fixa neles. Como se parte do processo interno já tivesse passado. Carlisle pegou um dos relatórios laboratoriais sobre a mesa.
— A atividade ocular dela permaneceu estável mesmo durante pico de estímulo olfativo. — comentou — Não houve dissociação motora significativa.
Edward deu um pequeno aceno afirmativo.
— Porque ela mantém consciência integral durante todo o processo. — o escritório permaneceu silencioso por alguns segundos. Então Edward falou outra vez — Renesmee funciona de maneira diferente.
Carlisle ergueu os olhos do relatório.
— Em que aspecto especificamente, Edward?
Edward respondeu imediatamente:
— A Nessie sempre teve uma resposta emocional mais dominante. Curiosidade, empatia, conexão afetiva. O controle dela foi adquirido pela sociabilidade. — ele então voltou a atenção para Helena — A Helena não depende disso.
O ar pareceu mais pesado depois daquela frase. Porque todos nós compreendemos o significado dela.
Carlisle fechou lentamente a pasta de relatórios.
— O controle dela é estrutural.
— Sim. — Edward respondeu — Ela não evita atacar porque sente proximidade emocional imediata com as pessoas. — olhou para Helena outra vez — Ela evita porque escolhe conscientemente não fazer.
— Eu não vou fazer nada. — ela encolheu os ombros, mas isso não amenizou a frieza de como sua voz interrompeu.
— Nós sabemos disso, querida.
— Você sabe porque consegue me observar aqui.
— É isso que significa... — os olhos dourados de Edward pareceram mais intensos quando voltou a falar com Carlisle — Ela está criando simulações mentais involuntárias.
— Predatórias? — meu marido franziu levemente a testa.
— Extremamente detalhadas. — Edward assentiu uma vez — Com frequência cardíaca, pressão vascular e até mesmo o ciclo da respiração.
Observei Helena imediatamente. Aquilo alterava tudo, inclusive os riscos.
— Helena, quero que continue verbalizando. — Carlisle manteve a voz tranquila.
Helena então falou novamente, ainda olhando os recipientes:
— Meu cérebro faz isso automaticamente, tio Carlisle, eu tentei esconder. — se defendeu.
Edward continuava escutando tudo o que se passava na cabeça dela. E eu percebi que ele estava escolhendo cuidadosamente o que dizia em voz alta, o que omitia, o que suavizava, e Helena olhou diretamente para ele quando abriu a boca para falar:
— Você não precisa esconder, Helena.
Edward permaneceu em silêncio por um momento que seria breve demais para um humano reparar, mas suficiente para mim, e Carlisle percebeu sua hesitação também.
— Edward...
Ele respirou desnecessariamente antes de responder.
— Ela consegue visualizar o processo inteiro muito rápido... — Carlisle esperou que ele continuasse. Edward finalmente desviou os olhos para os recipientes de sangue sobre a mesa — Ângulo de aproximação. Tempo de reação. Resistência muscular humana. Ruptura vascular. — a voz dele permanecia clínica, controlada, talvez justamente para impedir que aquilo parecesse pior do que já era. Mas não adiantou muito, porque Helena ainda tinha aparência de uma criança pequenina enquanto escutava tudo aquilo sem desviar o olhar — Não é igual aos vampiros recém-criados. — Edward continuou — Não existe perda cognitiva. Não existe frenesi.
Carlisle ficou completamente atento agora.
— Então o que existe?
— Perspicácia.
O silêncio que recaiu sobre nós foi o mais desconfortável em dias.
Vi quando Helena desviou os olhos cristalinos para suas próprias mãos. Pequenas, gordinhas, quentes e delicadas. As mesmas a qual eu tinha visto racharem a madeira há poucos minutos sem dificuldade alguma.
— Eu consigo imaginar exatamente como seria, só que não penso exatamente em machucar alguém. — a voz ainda presa na entonação de bebê soou. Ninguém interrompeu, então continuou, a voz dela permanecia tranquila demais — Mas eu sei exatamente o que aconteceria se eu quisesse machucar alguém. A distância. A velocidade necessária. Onde eu seguraria primeiro. Eu penso em como seria fácil.
Carlisle não demonstrou reação emocional aparente, mas eu percebi Edward endurecer levemente a postura enquanto absorvíamos a sua verdade objetiva.
Helena continuou:
— Eu pensei nisso rápido. Muito rápido.
— Ela não associa isso à crueldade visceral. — Edward explicou baixo — É apenas a percepção predatória objetiva.
— Quando o cheiro do sangue humano está tão exposto assim… Eu começo a perceber partes do corpo humano separadamente. As veias primeiro. Depois a temperatura da pele, e então especulo a pulsação. E aí, eu começo a perceber lugares específicos. — mantínhamos a atenção exclusiva sobre ela, porque ninguém precisava perguntar o que ela queria dizer. Helena levantou lentamente uma das mãos pequenas e tocou o próprio pescoço, na lateral, logo abaixo da mandíbula fofinha — Aqui. — depois deslizou os dedos até o pulso — Aqui também.
Edward mudou de postura no mesmo instante, virando o rosto para olhar lá fora como se as imagens mentais associadas àquilo fossem excessivas até para ele.
Pela primeira vez, desde o início do treinamento, meu marido demorou para responder. Eu percebi quando a preocupação médica começou a se misturar a algo mais íntimo. Ele não a temia, mas o peso que aquilo representava para alguém tão nova...
Helena abaixou a mãozinha devagar os olhos ainda sendo atraídos pelos frascos, enquanto meu marido estava escolhendo cuidadosamente suas próximas palavras.
— E o que aconteceu depois?
Helena finalmente desviou os olhos do sangue de novo. Olhou diretamente para ele.
— Eu travei o pensamento antes da execução motora.
Edward soltou o ar devagar, passou a mão pela nuca discretamente, eu conseguia perceber o desconforto crescendo nele conforme escutava os pensamentos dela em tempo integral.
— Ela criou um bloqueio cognitivo voluntário. — explicou em voz baixa — Não foi uma repressão emocional. Aconteceu uma interrupção racional de comportamento. Houve sim uma influência emocional, mas não tão forte quanto.
— E por que você não quis realizar? — Carlisle se aproximou lentamente dela.
Helena levantou os olhos límpidos para ele e foi a primeira vez que pareceu realmente desconfortável, não pela influência do sangue, mas pela pergunta.
— Porque depois minha mamãe olharia para mim diferente.
Aquilo nos atingiu de uma vez. Mesmo distantes, eu senti o corpo do meu marido se enrijecer.
— Ela ainda me vê como sua filha antes de me ver como uma híbrida. Eu não gosto quando isso acontece perto dela, porque eu começo a perceber ela assim também.
As palavras dela saíam organizadas demais para alguém tão pequena, parecia tão impossível aqueles lábios fofos admitirem tais palavras. E talvez fosse justamente isso que tornava tudo mais difícil de suportar, porque Helena compreendia perfeitamente a diferença entre o que era… e o que Amberli conseguia suportar emocionalmente. Ela sempre soube.
Edward falou baixo:
— Sabemos que ela filtra muito do que pensa perto da Amberli.
Carlisle desviou a atenção para ele e Helena respondeu antes dele dessa vez.
— Eu entendo que os humanos reagem primeiro ao medo. — ela disse aquilo como se descrevesse um mecanismo biológico comum, sem tristeza explícita, mas eu senti que havia alguma coisa muito silenciosa escondida ali — Minha mamãe tenta não ter medo de mim. — continuou — Então eu ajudo ela.
Eu senti algo profundamente pesado se acomodar dentro do escritório naquele momento, uma sensação de esmagamento tomou o lugar onde teria meu coração; Helena não estava apenas escondendo impulsos violentos da mãe, ela estava administrando emocionalmente a percepção humana que a Amberli tinha dela.
Uma criança, fazendo isso constantemente.
Edward então falou outra vez, ainda atento à mente dela:
— Ela continua a reduzir o vocabulário, simplifica o raciocínio e evita verbalizar certas associações predatórias quando está perto da Amberli.
Carlisle permaneceu olhando Helena por longos segundos.
— Você faz isso o tempo todo?
Ela assentiu.
— Principalmente quando a mamãe me abraça.
A frase foi baixa, muito baixa. Mas nenhum de nós deixaríamos de ouvir.
O cheiro do sangue ainda permanecia forte no ambiente e eu finalmente compreendi o que Edward estava tentando conter desde o início da sessão.
Meu coração estava balançado, porque Helena não estava lutando apenas contra a sede, ela estava lutando contra a consciência constante de que podia destruir facilmente as pessoas que mais amava.
E sabia disso o tempo inteiro.
Mesmo quando Amberli apenas a segurava no colo.
Helena olhou atentamente para Carlisle.
— Eu não gosto quando vocês falam de mim como um estudo clínico, tio Carlisle.
Suas palavras vieram suaves, delicadas, mas diretas. Carlisle piscou uma vez apenas e então sorriu, o sorriso que brilhava sua humanidade.
—Tem razão, querida. — disse com arrependimento sincero imediato — Desculpe-me.
— Eu te desculpo, tio Carlisle. — ela balançou a cabeça, aceitando o pedido, os cachos balançando com o movimento.
Sua resposta ocasionou uma brasa que vivificava onde deveria guardar meu coração e me impactou, mais do que qualquer reação que ela teve ao sangue, e isso tornava a maneira de Helena muito mais complexa do que qualquer um de nós ainda sabia explicar. Algumas de suas singularidades eram distintas das de Renesmee.
Meu marido sorriu pelo doce perdão concedido e reorganizou os recipientes sanguíneos para longe da mesa preparada depois que Helena demostrou estabilidade suficiente para interromper a exposição. E, pela primeira vez desde o início dos testes, Carlisle fechou completamente o recipiente sem esperar mais nenhum dado. O cheiro metálico ainda permanecia diluído no ambiente, para um humano talvez não fosse perceptível depois de alguns minutos. Para nós, continuava ali. Denso. Vivo. Misturado ao álcool hospitalar, às páginas envelhecidas das enciclopédias médicas e ao perfume frio das superfícies limpas da sala.
Edward continuava atento perto das altas janelas. Eu conseguia perceber o quanto ele observava cada microexpressão dela. Cada alteração mínima de respiração, foco e postura; e mais do que isso, sua dinâmica mental. E talvez ela expressasse o quanto estava mais cansada das análises ininterruptas das estatísticas de seu desenvolvimento do que dos estímulos apresentados.
Helena estava dando um jeito de conseguir girar levemente a cadeira para um lado, o corpo dela parecia muito quieto agora, mas não da maneira relaxada que crianças costumam ficar depois de alguma atividade cansativa. Havia um tipo de precisão na postura. Como se cada músculo ainda estivesse respondendo a alguma coisa invisível sob a pele e assim como eu, Edward observava isso em silêncio e, não apenas o que estava diante dele. Algo além. Ele fazia isso às vezes, o olhar parecia repousar em alguém quando na verdade, a atenção verdadeira estava acontecendo em outro plano, em velocidades que eu jamais conseguiria acompanhar. Desviei meus olhos sobre ele quando meu marido terminou de anotar algumas observações clínicas em locais diferentes.
— Houve uma lapidação completa da orientação espacial. — comentou em voz baixa — Nenhum episódio dissociativo perceptível. A resposta autonômica foi elevada, porém estável.
Helena forçou o corpo a girar a cadeira na direção contrária, virando o rosto lentamente na direção dele.
— Meu corpo ainda quer provar o que foi alimentado pelo cheiro.
Carlisle ergueu os olhos imediatamente. Helena não expôs aquilo buscando uma aprovação, nem parecia tentar parecer madura com a notícia; apenas registrava um fato.
— Em qual intensidade? — perguntou ele.
Helena divagou antes de responder.
— Bem menos do que antes e mais do que quando começamos.
Edward desviou o olhar para o chão por um instante curto, depois se manifestou.
— Como eu comentei, ela está monitorando o próprio impulso em camadas; — aguardamos — vem a resposta física imediata, depois o reconhecimento do estímulo; em seguida ela cria a distância reacional antes que o pensamento avance para o comportamento motor completo.
A maneira como ele disse, fazia parecer um procedimento hospitalar sendo descrito em voz alta. Mas eu conseguia ouvir outra coisa escondida ali. Era veloz, tudo acontecia rápido demais dentro dela. Muito rápido.
Helena olhou novamente para os recipientes fechados sobre a mesa metálica, mesmo lacrados agora, ainda atraíam os olhos dela de maneira involuntária. Os dedinhos dela pressionaram lentamente o próprio joelho através do tecido claro da roupa.
— Você está cansada? — meu marido inquiriu.
Ela balançou a cabeça negativamente, e Edward respondeu antes dela.
— O cérebro dela está.
— É uma sobrecarga neurossensorial?
— Parcial. Só que diferente da Nessie. — achei que a comparação atrairia a tenção dela, mas Helena não desviou os olhos dos recipientes enquanto ele falava — Renesmee absorve estímulo emocional primeiro, o cérebro dela prioriza o vínculo afetivo antes da resposta predatória completa. Isso está claro até para ela. — a voz dele desacelerou um pouco como se estivesse tentando organizar muitos pensamentos próprios ao mesmo tempo — Realmente o cérebro da Helena não faz isso naturalmente.
Meu olhar voltou imediatamente para ela, que permanecia quietinha no seu lugar, pequenininha naquela cadeira grande demais; havia algo profundamente impróprio na naturalidade com que essas informações coexistiam dentro dela. Tão violentas e precisas.
— Sim. — Carlisle observava Helena de uma maneira extremamente cuidadosa agora, seu olhar clínico de médico, havia muitas possibilidades cautelosas naqueles tons amarelos de seus olhos.
— Ela não pensa como um vampiro recém-criado. — Edward expôs, baixo — Nem totalmente como um híbrido com que estamos acostumados, uma singularidade dentro do padrão.
— Por que eu não fico confusa. — ela se manifestou. As palavras pularam de seus lábios com uma tranquilidade poética, sem defesas, sem orgulhos.
Edward olhou no profundo de seus olhinhos-claros.
— Não. — ele concordou — Você não fica.
Desviei o olhar, sentindo a necessidade de me mover, mesmo que fosse minimamente. Aquilo me parecia pior. Muito pior. O descontrole é o previsível, os impulsos da natureza vampírica, híbrida ou não tinha um padrão já conhecido; mas Helena permanecia lúcida durante todo o processo! Lúcida o suficiente para perceber exatamente o que acontecia dentro de si enquanto acontecia os impulsos.
Carlisle passou por mim, caminhando lentamente a frente da pequena menina.
— Houve algum momento em que você acreditou que perderia o controle, Helena? — perguntou ele, sem olhar diretamente para ela.
Edward ergueu discretamente os olhos quando o silêncio dela se estendeu pelo cômodo.
— Ela não gosta dessa pergunta.
Carlisle virou o rosto para ele.
— Por quê?
Edward permaneceu alguns segundos em silêncio e, quando respondeu, a voz saiu mais baixa.
— Porque ela entende o que significa para Amberli se a resposta for sim.
O escritório me pareceu menor depois disso. Flexionei os braços, meu coração se apertou ao ver como Helena se portava introspecta.
— Minha mamãe pode sentir meu coração quando eu abraço ela. Ou até mesmo escutar. — disse de repente — Ela acha que isso significa que eu sou segura. — não tínhamos o porquê interromper, então Helena continuou, os olhos passando de um a outro — Ela não sabe que eu consigo sentir o sangue dela antes mesmo de entrar no quarto. — a voz dela mantinha a mesma cadência, era difícil de escutar, não havia nenhuma culpa naquilo que revelava, nenhum prazer, apenas a consciência absoluta — Eu sei onde as veias do pescoço dela ficam mais superficiais quando ela está cansada. — continuou baixinho — Sei quando o fluxo sanguíneo muda enquanto ela dorme.
Edward fechou os olhos naquele instante. Eu permaneci completamente imóvel, reprimi até a vontade de engolir seco, porque havia algo profundamente íntimo e perturbador na maneira como a Helena falava da própria mãe. Não havia indícios de soar como uma ameaça, é claro, mas também não era uma maneira que eu gostaria de ouvir vindo de uma criaturinha tão jovem, talvez fosse exatamente por isso que ela mesma escondesse essa observação atravessada ao afeto simultaneamente, da própria mãe.
Eu sou mãe e é insuportável entender o peso de tudo que ela percebia.
Carlisle voltou lentamente para perto da mesa. Helena olhou diretamente para ele enquanto seguia seu caminho, depois para Edward, que a olhava como se tentasse acompanhar os múltiplos pensamentos simultâneos, e eu sabia que havia partes da mente dela que nem ele conseguia atravessar rápido o suficiente sem esforço.
Era natural para Helena, ela não reprimia as coisas; ela aprendeu a armazená-las, houve separações e a organização natural estabelecida dentro de si. Houve construção de compartimentos internos ao redor dos próprios impulsos, como se tentasse impedir vazamentos constantes dentro da própria cabeça. O que me surpreendia era que ela fazia isso sozinha, com a aparência de uma idade em que crianças humanas ainda confundem seus sonhos com a realidade.
Lá fora, a chuva começou a bater mais forte contra as janelas da mansão, mas dentro desse escritório, ninguém falou por um longo tempo. Porque todos nós compreendíamos uma coisa agora, ainda que não disséssemos em voz alta, sem transformar completamente em pensamentos claros e coesos, mas compreendíamos.
E talvez Amberli nunca pudesse ouvir nossa conversa sem que alguma coisa dentro dela deixasse de dormir para sempre.
Quando nós parecíamos estátuas dispersas, meu marido foi o primeiro a retomar à humanidade caminhando lentamente até os recipientes selados e começou a guardá-los um por um. Mesmo assim, Helena ainda mantinha o corpo excessivamente atento. Sustentar aquele nível de autocontrole exigia processamento constante, algo que a leva à exaustão.
Carlisle percebeu o mesmo.
— Encerramos por hoje. — disse calmamente.
Helena assentiu imediatamente, sem insistir, sem demonstrar frustração. Edward então se aproximou dela definitivamente pela primeira vez desde o início da exposição mais intensa, abaixou-se levemente diante da cadeira.
— Você foi muito bem.
Ela inclinou a cabeça pequena.
— Você ainda está ouvindo meus pensamentos?
Edward quase sorriu.
— Sim, é algo que acontece vinte e quatro horas. Todos os dias.
— Isso incomoda você? — a pergunta saiu genuína, direta.
Edward levou um segundo antes de responder.
— Não.
Ela observou o rosto dele atentamente, tentando verificar se aquilo era verdade, então assentiu de leve. Carlisle retirava as luvas enquanto analisava mentalmente tudo o que havia visto naquela sessão. Eu conseguia perceber a medicina nele parecia fascinada entre a preocupação real, porque Helena demonstrava algo que nenhum de nós tinha visto antes em um híbrido. Não era a ausência de instinto, nem apenas controle, era capacidade de coexistir conscientemente com impulsos extremamente violentos sem perder lucidez cognitiva.
E isso tornava muito difícil prever quem ela se tornaria no futuro se não fosse instruída num clã que preza bons valores éticos.
➶.Amberli.➴
Nós já tínhamos subido e descido as duas avenidas tantas vezes que eu já conseguia identificar quando uma informação solta sobre um item aqui e ali vinha nas conversas entre a Bella e eu.
Principalmente quando a quantidade de sacolas nos faziam ser o centro da atenção a cada minuto quando alguém tinha que desviar não de uma, mas duas adultas e uma criança acompanhadas de uma bolsa infantil e muitas e muitas sacolas em ambos os braços.
Hilary já demonstrava os primeiros sinais de sono, os olhos piscavam mais devagar, a cabeça inclinava ocasionalmente para um lado e ainda assim a criaturinha arrumava energia para apontar para as cores e tentar alcançar as decorações.
— Aposto que ela não chega acordada no carro. — Bella comentou quando a trouxe para mim.
— Eu daria, no mínimo, uns quinze minutos.
— Eu dou, no máximo, dez. — ela apostou.
Acabei rindo, mas aceitei.
Hilary adormeceu antes mesmo de sairmos completamente da última loja na segunda avenida. Num minuto ela estava apontando para as todos os piscas-piscas pendurados pela praça, insistindo em me mostrar uma decoração que eu já tinha visto três vezes. No outro, estava afundada contra meu ombro, abraçada ao próprio casaco, com os olhos fechados.
— Eu ganhei. — ela fez questão de comentar assim que Hilary começou a ressonar — Ela resistiu mais do que eu esperava.
— Ainda faltava uns minutos.
— Vitória é vitória.
Balancei a cabeça.
— Você é impossível.
— Conviver com Jacob e Emmett por tantos anos me tornou competitiva. — deu um sorriso enquanto mordiscava o lábio inferior.
Quando a chuva voltou a carregar os céus, fomos obrigadas a deixar nosso entretenimento e voltarmos para casa, fiquei debaixo do toldo da loja de cosméticos com enquanto olhava Bella atravessar para o outro lado da avenida, indo colocar todas as sacolas dentro do porta-malas do seu carro e, se houvesse necessidade, os pacotes menores nos bancos traseiros.
Passeei meus olhos pelo movimento, observando os poucos carros que transitavam, passando os olhos de loja em loja rapidamente, até voltar para uma em específico. Auntie's Cedar Shop.
Bella já tinha me apontado aquela loja enquanto passeávamos pelo centro: a pequena loja de artesanato indígena perto da esquina da livraria. Bella a chamou apenas de "a loja da Tia Nora". Não porque aquele ainda fosse o nome da dona do lugar, mas porque parecia que toda Forks a conhecia daquela forma há todos os anos possíveis. Enquanto ela me falava sobre isso eu observei a vitrine cheia de esculturas, cestarias e joias artesanais, mas não tinha encontrado um motivo para entrar.
Talvez agora fosse a hora.
Apertei o passo na direção contrária da qual viemos, me protegendo dos pingos de chuva entre uma loja e outra caminhando sem nem olhar para os lados e só me dei conta de que parecia ter segurado o ar quando um suspirei forte quando entrei no estabelecimento. Era pequena como a grande maioria, estreita e mais silenciosa do que as outras que havia visitado nessa tarde.
As vitrines exibiam artesanatos locais, peças esculpidas em madeira, joias feitas à mão, trabalhos com couro e alguns objetos produzidos por artistas indígenas da região. Havia também cestos trançados, pequenas esculturas de animais e pinturas inspiradas nas florestas e no litoral do estado de Washington.
Uma senhora organizava alguns colares atrás do balcão, os cabelos grisalhos estavam presos em uma trança longa que caía sobre um dos ombros. Eu me aproximei de uma pequena coleção de pingentes entalhados: corvos; lobos; águias; salmonídeos... Cada peça possuía uma pequena descrição escrita à mão.
— São lindos. — comentei.
A senhora sorriu.
— Foram feitos por famílias da região.
— Eles têm algum significado específico, senhora? — peguei um dos pingentes que representava um lobo estilizado.
— Alguns sim. — ela apoiou as mãos sobre o balcão — Outros são apenas artísticos. Mas muitos dos símbolos vêm das histórias tradicionais.
Assenti.
— De histórias quileutes?
— Algumas quileutes, outras Makah. Algumas são inspiradas em tradições de diferentes povos costeiros.
Continuei observando as peças.
— Então ainda existem crenças e símbolos espirituais preservados? — olhei em sua direção.
— Bastante coisa foi preservada. — ela parecia satisfeita ao falar daquilo — Nem sempre da mesma forma que antigamente, claro. Mas as histórias continuam sendo contadas.
Aquilo despertou minha curiosidade, talvez por causa de tudo o que eu vinha convivendo nos últimos meses. Talvez por causa de Cole e, até mesmo por causa da maneira como Jacob, Renesmee e os outros falavam da reserva.
Passei os dedos distraidamente por outro pingente e ajustei a outra mão debaixo do corpo da minha filha.
— Existem histórias sobre ligações espirituais entre pessoas?
— Como assim? — a senhora inclinou levemente a cabeça.
Pensei um instante antes de responder.
— Algo como... vínculos predestinados.
Ela pareceu refletir.
— Há histórias sobre famílias, ancestrais, espíritos protetores...
— Mas existem histórias sobre ligações espirituais entre pessoas? — insisti enquanto observava uma pequena escultura entalhada em cedro.
— Ligações espirituais?
— Sim. Alguma crença relacionada a vínculos muito fortes. Algo que conecte duas pessoas.
Ela pareceu pensar por alguns segundos.
— Como laços familiares?
— Não exatamente. — balancei a cabeça negando.
— Espíritos ancestrais?
— Também não.
A senhora caminhou até uma prateleira próxima e pegou um pequeno pingente de pedra polida.
— Algumas famílias acreditam que certos símbolos ajudam a lembrar dos ancestrais. Há quem os use em cerimônias ou ocasiões especiais.
Fui até ela e observei o objeto.
— Não é isso. — falei suavemente.
Ela assentiu e colocou o pingente de volta no lugar, logo depois retirou uma pequena bolsa de couro decorada com miçangas.
— Algumas pessoas guardam ervas medicinais ou objetos simbólicos aqui. Dependendo da família, pode ter um significado espiritual.
— Também não. — meus lábios fizeram um biquinho quando tive que negar.
— Entendo. — ela não parecia incomodada. Apenas curiosa.
Ela apontou para uma série de esculturas de animais.
— O lobo aparece em muitas histórias. O corvo também. Há quem se identifique mais com determinados símbolos.
Olhei com interesse para o lobo.
— Mas isso cria algum vínculo entre pessoas, senhora?
— Não exatamente.
— Estou falando de algo mais específico... — continuei procurando uma forma melhor de explicar.
— Como o quê, senhora? — ela cruzou os braços levemente.
— Como se uma pessoa encontrasse outra e soubesse que existe uma ligação entre elas.
A mulher piscou.
— Amor à primeira vista?
Acabei rindo.
— Não.
— Alma gêmea? — arriscou.
— Talvez seja mais forte que isso.
Agora ela parecia genuinamente intrigada. Caminhou até outra vitrine e retirou um belo colar feito de conchas e pedras escuras.
— Algumas pessoas compram presentes assim para os parceiros.
— Não é um presente.
— Um casamento tradicional?
— Também não.
Ela inclinou a cabeça.
— Então o que seria?
Hesitei um instante apertando o corpo da minha filha contra mim. Então resolvi dizer a palavra.
— Imprinting.
A mulher piscou uma vez, depois outra, claramente sem reconhecer a palavra.
— Desculpe? — ela franziu ligeiramente o cenho — Não conheço esse termo.
— Imprinting. — repeti. Por um momento temi que talvez tivesse pronunciado errado — Não é uma tradição quileute?
A expressão dela mudou para algo entre confusão e curiosidade.
— Não que eu saiba...
A mulher ficou em silêncio, a expressão dela não mudou imediatamente, mas revelava que estava tentando localizar aquela informação em algum lugar da memória.
Não encontrou.
— Imprinting? — a palavra arranhou em seus lábios.
— Sim.
— Tem certeza da palavra? — ela quis ter certeza.
— Tenho.
— O que exatamente seria isso para a senhora? — ela franziu levemente a testa.
— Um vínculo. Uma espécie de ligação inevitável. Predestinada.
A mulher continuou olhando para mim, depois olhou para os artesanatos ao redor, depois voltou a me olhar.
— Eu nunca ouvi essa palavra antes.
— Nunca? — agora eu estava mais confusa do que ela.
— Não.
Achei que talvez ela apenas não estivesse associando ao conceito correto.
— Nem mesmo algo parecido? Nadinha?
— Não entre os quileutes. — ela balançou a cabeça negando.
— Talvez com outro nome? — insisti em outra alternativa.
— Não que eu conheça.
— Tem certeza? — eu implorei.
— Tenho. — a senhora soltou uma pequena risada — Tem certeza de que está falando dos quileutes?
Agora era minha vez de ficar confusa.
— Eu... acho que sim.
A mulher sorriu educadamente.
— Talvez esteja confundindo com outra tribo ou alguma história moderna inspirada em povos indígenas. — ela apoiou as mãos sobre o balcão — Trabalho com cultura indígena há mais de trinta anos. Cresci ouvindo histórias dos mais velhos. Conheço pessoas da reserva Quileute, Makah e de outras comunidades da região. — fez uma breve pausa — E nunca ouvi ninguém mencionar algo chamado imprinting.
Atrás de mim, ouvi a porta do estabelecimento ser aberta. Era Bella que entrava, me deu um tchau discreto e virou-se, muito interessada em uma prateleira que claramente não merecia tanta atenção.
A mulher continuou:
— Na verdade, nem consigo pensar em algo parecido.
— Nem como uma lenda?
— Não.
— Nem uma tradição?
— Não. — passou a caminhar, voltando ao balcão.
— Nem uma crença espiritual?
— Também não. — agora ela parecia quase divertida com a situação — Posso estar enganada, claro. Ninguém conhece tudo. Mas honestamente? Nunca ouvi essa palavra em nenhuma reserva da região.
— Nenhuma? — me senti aflita.
— Nenhuma, mesmo. — ela inclinou a cabeça — Tem certeza mesmo de que isso é quileute?
Fiquei alguns segundos em silêncio. Porque eu tinha certeza absoluta de que ouvira aquilo relacionado aos quileutes, ou pelo menos aos rapazes da reserva.
A mulher então sorriu educadamente.
— Talvez seja algo de outro povo indígena.
— É... Talvez. — concordei resignada.
— Ou talvez alguém tenha inventado.
— Certo...
A senhora retomou a organização dos colares.
— Existem muitas histórias que acabam sendo associadas aos povos indígenas sem realmente fazerem parte da cultura deles. — parecia querer me consolar educadamente por causa do meu..., equivoco.
— Faz sentido. — respondi.
Quando agradeci à vendedora e me afastei do balcão, encontrei Bella no início daquele corredor, ainda examinando o mesmo vaso e foi nesse momento que inusitadamente ouvi Bella tossir. Uma tosse perfeitamente desnecessária para uma vampira.
Quando parei a frente dela, seu rosto estava absurdamente inocente, o que só a tornava mais suspeita, porque ela tinha ficado estranhamente interessada naquela prateleira de cerâmicas. Interessada até demais.
— Bella.
— Hum?
— Você ouviu tudo, não ouviu?
— Sou vampira. — a voz soou baixa, e aquilo foi o suficiente.
— Então ouviu.
— Ouvi.
— Eee?
Bella finalmente me olhou, havia um brilho divertido nos olhos dourados.
— Você sabe de alguma coisa? Você conhece essa palavra?
Ela demorou um tempinho para parecer me entender, um tempo longo até demais para uma vampira.
— Talvez, mas, digamos que a senhora está certa.
— Sobre o quê?
— Sobre não ser uma tradição quileute.
Eu continuei encarando-a. Pisquei uma, duas vezes e ajeitei a Hilary nos braços.
— Isso não respondeu absolutamente nada. — reclamei.
— Eu sei.
— Bella.
— Amberli.
— Bella.
Ela começou a sorrir.
— Você está fazendo isso de propósito! — tentei ralhar num cochicho irritado.
— Talvez.
A senhora atrás do balcão chamou nossa atenção ao falar alto.
— É algum termo específico? — ela prestava atenção em nós.
Bella manteve a expressão mais inocente que conseguiu produzir. O que honestamente, dessa vez, não era muito convincente.
— É apenas equivocado.
A mulher sorriu e saiu de trás do balão outra vez.
— Isso significa que não é uma tradição local.
— Ah, provavelmente não é mesmo. — Bella concordou.
E isso foi o suficiente para eu perceber que, definitivamente, não encontraria minha resposta naquela loja, e muito menos arrancaria uma explicação da Bella tão cedo.
A senhora acompanhou nossa saída com a mesma cordialidade tranquila com que havia me recebido no seu balcão; quando Bella empurrou a porta de vidro, um barulho arranhado sobressaiu ao som da chuva vindo de fora, o ar frio de dezembro entrou imediatamente na loja, trazendo consigo o cheiro da chuva e pinheiros molhados.
Ajustei Hilary contra meu peito para protegê-la do vento dando uma olhada nela. Ela continuava profundamente adormecida, o rosto escondido na curva do meu pescoço. Uma das mãos estava agarrada ao tecido do meu casaco, como se tivesse a escondido ali durante o sono para que eu não me afastasse nem por um centímetro da sua mão.
A senhora observou a cena e sorriu.
— Ela está exausta, hein.
— Teve uma tarde cheia. — respondi em voz baixa.
— Imagino.
Bella segurava a porta para nós, antes que saíssemos completamente, a vendedora pareceu lembrar de alguma coisa.
— Espere.
Eu me virei. Ela apoiou uma das mãos no batente da porta deixando Bella livre para ir.
— Se algum dia descobrir o que é esse tal de imprinting, volte para me contar.
Acabei rindo.
— Combinado.
— Porque agora fiquei curiosa.
— Eu também.
— E bastante.
O sorriso divertido dela fez Bella abaixar discretamente o rosto, como alguém tentando esconder uma reação. Sem sucesso.
A senhora percebeu, os olhos passaram rapidamente de mim para Bella, depois voltaram para mim.
— Sua amiga sabe alguma coisa.
— Eu também acho.
— Ela definitivamente sabe alguma coisa.
— Eu também acho isso.
A mulher assentiu como se tivesse chegado à mesma conclusão.
— Então boa sorte arrancando a informação dela.
Bella finalmente soltou uma pequena risada e eu não consegui evitar sorrir. A senhora deu uma última olhada para Hilary.
— Aproveitem o Natal.
— Obrigada, você também. — respondi.
— E cuidado com os mistérios inventados por homens.
Aquilo me arrancou uma gargalhada desprevenida, até Bella riu.
— Esse talvez seja o melhor conselho do dia. — admiti.
A senhora pareceu satisfeita consigo mesma.
— Eu sei. Tenham uma boa noite.
O rangido soou novamente quando a porta se fechou atrás de nós. A garoa fina pairava sobre a rua, transformando o asfalto em uma superfície escura e brilhante. As luzes natalinas penduradas entre os postes refletiam nas poças espalhadas pela calçada entre uma loja e outra. Por alguns segundos caminhamos em direção ao carro sem dizer nada. E, apesar do frio, a cidade parecia estranhamente acolhedora naquela hora do fim da tarde.
Foi apenas quando nos afastamos o suficiente da loja que voltei a olhar para Bella, ela estava sorrindo, o que imediatamente me deixou desconfiada.
— Não. — Barrei qualquer coisa que viesse a falar.
— O quê? — Se fez de desentendida.
— Nem começa.
— Eu não disse nada. — foi o que ne respondeu.
— Exatamente. — reclamei.
Bella tentou parecer inocente e falhou miseravelmente.
— Amberli...
— Bella...
— Talvez aquela senhora estivesse certa de novo.
— Sobre o quê?
— Sobre homens criarem mistérios desnecessários.
— Isso não foi uma resposta para mim.
— Eu sei.
— Você está fazendo de propósito. — acusei.
— Um pouco.
Balancei a cabeça.
Ao meu lado, Bella parecia se divertir muito mais do que deveria. E isso apenas confirmava minha suspeita de que, em algum lugar daquela história absurda chamada imprinting, existia uma explicação que todos com quem eu convivo conheciam.
Menos eu.
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O carro estava abarrotado, havíamos cumprido o objetivo da tarde.
As sacolas ocupavam parte do banco traseiro ao lado de Hilary, que ainda dormia, a cabeça pequena tombava para um lado na cadeirinha, os cabelos castanhos bagunçados. Ela ainda segurava parcialmente o pequeno alce de pelúcia que Bella insistira em comprar para ela depois que a viu abraçando o brinquedo por quase cinco minutos inteiros sem querer soltá-lo. Acabei cedendo, como praticamente todos cediam para Hilary em algum momento.
Me ajustei no banco, dando uma olhadela para a motorista, Bella sorria ao vê-la pelo retrovisor. As luzes do comércio ficaram para trás aos poucos enquanto Bella conduzia o carro pela estrada cercada pela floresta.
Eu estava satisfeita com cada item comprado, alguns pareciam ter nos esperado chegar de tão específicos que eram.
Escolhi um conjunto de lápis de cor ergonômico, um caderno de desenhos para Hilary e alguns livros infantis ilustrados escolhidos com ajuda de Bella.
Para Helena, um caderno de capa dura ilustrado com árvores e flores silvestres da região, era bem semelhante a um grimório. Eu havia imaginado que ela gostaria de guardar pensamentos, desenhos ou lembranças.
Para Esme, escolhemos um conjunto artesanal de sousplat bordados à mão com desenhos natalinos discretos e encontrei um álbum fotográfico antigo de madeira escura, acabamento artesanal, páginas grossas para fotografias impressas. Bella me garantiu que ela adoraria um presente feito por artesãos da cidade.
Para Carlisle, Isabella insistiu para que eu levasse a edição especial de um livro sobre a história médica do noroeste americano que encontramos quase escondida na livraria.
Rosalie receberia algo muito mais difícil de se encontrar pela cidade.
Acompanhei Isabella para uma rua menos movimentada até um centro de distribuição para retirar algumas peças antigas para restauração automotiva que Bella reconheceu imediatamente numa loja especializada e depois de quase uma hora inteira andando, acabamos encontrando uma miniatura perfeitamente detalhada de um Chevrolet Bel Air dos anos 1950. Bella garantiu que Rosalie fingiria não se emocionar.
Eu confiei, ela conhecia Rose muito mais do que eu.
Edward acabou ficando com algo inesperadamente simples: um conjunto raro de partituras antigas e um pequeno conjunto de gravações antigas em vinil que encontramos em uma loja de antiguidades, o qual Bella afirmou que ele já possuía boa parte das músicas, mas me garantiu que isso não o impediria de ficar feliz.
— Ele vai muito gostar disso. — Bella havia comentado — Ele gosta de versões diferentes da mesma coisa. — explicou.
— Você parece muito segura de que meus presentes serão..., satisfatórios.
— Ele gosta de versões diferentes da mesma coisa. E eu já vi ele ficar feliz por coisas muito mais estranhas.
— Isso parece muito específico, senhora Cullen.
— Porque é.
— Como o que?
— Uma vez ele encontrou uma gravação esquecida de um pianista de 1927.
— Ee?
— Acredite se quiser, mas ele ficou umas duas semanas falando sobre isso.
— Duas semanas? — soltei uma risada.
— Duas semanas. — confirmou.
Para Renesmee, acabamos encontrando uma caneca robusta de cerâmica. Bella disse que ela certamente quebraria qualquer coisa delicada caso estivesse com ela em mãos num momento de empolgação. O que eu não duvidava nada.
Para Jacob, uma nova garrafa térmica para café, porque, segundo Bella, ele continuava usando uma tão antiga que provavelmente já deveria estar aposentada.
E para Cole...
Ainda sorri sozinha ao lembrar.
Eu tinha passado muito mais tempo do que pretendia diante daquela vitrine, no fim, escolhi algo simples: uma faca de bolso artesanal com cabo de madeira escura trabalhada à mão por um artesão local. Não era o presente ideal que eu imaginei poder entregar, mas me pareceu ser algo que ele realmente usaria e que não acabaria esquecido em uma gaveta.
O limpador de para-brisa fazia seu movimento constante diante de nós, Bella dirigia tranquila com as mãos relaxadas sobre o volante, uma música preenchia nossos silêncios. Eu aproveitei o momento para mandar alguma das fotos que eu consegui tirar durante a passeada, informando que estamos indo embora.
Por alguns minutos apenas observei a estrada e então Bella se manifestou.
— Sabe uma das melhores viagens que eu já fiz na minha vida?
— Huum... Qual? — virei ligeiramente o rosto para ela.
Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dela.
— A ilha Prince Edward.
Fiquei em silêncio um instante para reconhecer o nome.
— No Canadá. — emendou quando percebeu que eu ainda não tinha pegado o fio da meada.
— O que tem lá? — fiquei sem graça por precisar perguntar.
O sorriso dela aumentou um pouco.
— Anne de Green Gables.
— Claro. — eu ri baixinho. Agora eu sabia exatamente do que ela estava falando.
Bella devolveu a risada.
— Eu sei que parece exatamente o tipo de resposta que você esperaria de mim!
— Porque é!
— Justo.
O sorriso que surgiu imediatamente em Bella foi tão espontâneo que me fez sorrir também. A estrada fez uma curva suave entre os pinheiros, naqueles segundos ela permaneceu olhando a chuva diante do carro, revia algo distante.
— Você foi mesmo? — instiguei a continuar.
— Edward me levou alguns anos atrás.
A forma como ela disse aquilo já denunciava que a lembrança era especial.
— Na ilha dos livros? — perguntei só para ter certeza.
— É! A própria. — ela soltou uma pequena risada. A empolgação surgiu tão naturalmente que eu precisei sorrir.
— Bella!... — exclamei empolgada. Quantas vezes na vida alguém consegue realizar o sonho de viajar para uma cidade literária?
— Eu sei! — ela respondeu no mesmo entusiasmo.
— Bella... — isso era equivalente a: você muito sortuda!
Ela riu e continuou.
— Eu sei exatamente qual é a sua reação, porque foi a minha reação também. — suas palavras me fizeram rir ainda mais — E eu fui completamente ridícula durante metade da viagem, Amberli.
— Eu duvido, você não parece fazer papel de boba. — comentei.
— Não, é sério! Foi pior do que você imagina. — o entusiasmo dela crescia conforme falava, para mim era raro vê-la assim, próxima da adolescente que um dia devorou livros escondida num quarto, mesmo que fisicamente ainda fosse — Eu passei anos lendo Anne de Green Gables! Anos! — enfatizou — E quando cheguei lá, uma parte de mim tinha certeza de que nada conseguiria corresponder ao que eu tinha imaginado.
— E correspondeu? — olhei para ela — Era igual ao livro? — perguntei uma coisa atrás da outra — Você visitou Green Gables?!
— Green Gables existe. — soou sonhadora.
— E você gostou? Foi tão parecido quanto você imaginava?
— Muito, Amberli! Algumas partes mais do que eu esperava. — Bella apoiou o braço esquerdo na porta enquanto dirigia — A primeira coisa que me impressionou foi a cor da ilha. As falésias. Nos livros eu imaginava que fossem bonitas porque Anne dizia que eram bonitas. Quando cheguei lá percebi que ela tinha sido até econômica na descrição.
A chuva continuava batendo suavemente no para-brisa e ela parecia enxergar a paisagem da ilha diante dos próprios olhos enquanto falava.
— A estrada para Green Gables era exatamente como eu imaginava quando lia os livros. — seu olhar suavizou — Passei uma tarde inteira lá.
— Uma tarde inteira?
— Eu sou vampira imortal, Amberli. Tempo nunca foi exatamente um problema. — não consegui conter o riso — Árvores dos dois lados formando túneis naturais. Os caminhos vermelhos. Os campos abertos. Até a luz do sol parecia diferente.
Eu conseguia ouvi-la e visualizar tudo ao mesmo tempo. Ela demorou um instante antes de continuar.
— A estrada dos amantes realmente existe, dá pra acreditar?!
— Não acredito.
— Existe. — afirmou.
— Bella...
— Estou falando sério!
— Você está inventando. — fiz pouco caso.
— Eu tenho fotos. — rebateu.
— Isso não prova nada.
— Eu literalmente posso te mostrar. E... Ah, você tinha que ver com meus olhos como as árvores formam aquele túnel por cima da estrada. Não exatamente igual ao livro, obviamente, mas quando eu passei por lá entendi imediatamente por que Lucy Maud Montgomery escreveu daquele jeito.
Observei o entusiasmo dela enquanto falava.
— E o Lago das Águas Brilhantes?
A pergunta escapou antes que eu percebesse. Isabella riu, entusiasmada.
— Eu sabia que você perguntaria isso.
— Então?!
— Menor do que eu imaginava quando lia os livros. — admitiu encolhendo os ombros.
— Ah. Sério?
— Sim. Na minha cabeça de adolescente ela parecia enorme. Mas a cozinha... — a chuva continuava riscando o para-brisa enquanto ela falava — Mesmo sendo pequeno, ainda o achei mais bonita do que o da minha antiga imaginação. — sorri e ela continuou — Mas a cozinha... — continuou — A cozinha parecia exatamente como eu esperava. A verdade é que quase tudo era menor do que eu imaginei. Green Gables. Os campos. A escola. A casa da Rachel Lynde... — olhou rapidamente para mim — Mas isso não estragou nada a experiência. Porque os lugares estavam lá, foi real. — ela falou aquilo de uma forma tão simples que fiquei em silêncio esperando por mais enquanto o carro avançava pela estrada molhada, a floresta passava além das janelas — Eu andei pelos caminhos que a Anne teria percorrido. Vi as janelas da casa. Sentei nos jardins. — suspirou — Eu nunca vi tantas flores juntas.
— Nem mesmo depois de virar vampira?
— Principalmente depois de virar vampira.
Aquilo me fez rir.
— Como assim?
— Depois da transformação eu comecei a perceber mais detalhes nas coisas. É mil vezes melhor que a capacidade humana.
— Ah.
— E a ilha é cheia deles.
Ela parecia verdadeiramente feliz recordando, não apenas nostálgica, feliz pela realização.
— Edward ficou entediado?
— Logo nos primeiros dez minutos.
— E depois? — eu quis saber.
— Depois ele começou a gostar.
— Aham. Claro que começou. — ri.
— Porque eu não parei de falar por três dias.
— Três dias? — minhas sobrancelhas se espicharam.
— Sem exagero.
Balancei a cabeça.
— Coitado.
— Nah!... Ele sobreviveu. — ela abanou a mão e continuou — Eu chorei quando vi a casa.
— Você chorou?! — soltei uma risada sincera.
— Muito. Claro, na maneira limitada que uma vampira consegue, mas chorei. Eu soluçava tanto que quanto mais eu tentava parar, mais incontrolável e alto eram os soluços.
— Bella Swan Cullen.
— Não me olhe assim. — tentou se esquivar.
— Estou tentando imaginar você chegando lá. — eu estava sorrindo.
— Foi exatamente tão vergonhoso quanto parece.
Minha risada escapou antes que eu pudesse evitar.
— Edward viu?!
— Infelizmente. — lamentou.
Nós duas rimos.
— E o pior, — continuou ela — é que eu tentei agir normalmente.
— Como é que foi isso?
— Eu estava chorando e dizendo que não estava chorando.
— Ainda mais você, toda convincente.
— Extremamente. — riu — Eu tinha lido os livros tantas vezes quando era humana que achei que estava preparada.
— E não estava.
— Nem um pouco.
A mansão ainda estava a algumas milhas de distância. E, pela primeira vez naquele dia, me peguei imaginando Anna, imaginando o quanto ela teria gostado de ouvir aquela história, porque minha mãe sempre acreditou que os livros criavam lugares secretos dentro das pessoas.
E enquanto Bella falava toda empolgada sobre sua própria experiência na ilha Prince Edward e Green Gables, relatou sobre campos verdes, caminhos vermelhos e árvores antigas, as falésias vermelhas e as lojas que vendiam edições centenárias dos livros, tive a estranha sensação de que minha mãe teria mesmo gostado muito dela. E talvez fosse exatamente por isso que nossa amizade surgiu de forma tão natural quando ela surgiu no escritório pela janela para poder me contar sua própria experiência ao gestar uma híbrida, algumas pessoas conseguem reconhecer umas nas outras aquilo que sobreviveram sem perceber, mesmo antes de encontrarem palavras para explicar.
Estávamos nos aproximando da região onde a mansão Cullen ficava escondida entre as árvores, Bella continuava contando detalhes da viagem como uma amiga compartilhando uma lembrança que realmente gostava; e eu me vi fazendo perguntas. Ela respondendo e depois fazendo outras.
Quando as luzes da propriedade apareceram entre os troncos molhados da floresta, Bella ainda estava me explicando por que havia fotografado praticamente todas as árvores que encontrou ao longo da estrada dos amantes.
— Você fotografou as árvores?! — eu quase chorava de rir.
— Centenas delas. — não tinha vergonha alguma de confirmar.
— Bella!...
— Não me julgue.
— Estou julgando um pouco sim. — fingi enxugar lágrimas.
— Edward julgou muito mais.
— Eu imagino, estranho seria se não fizesse.
Ela sorriu e eu concluí que gostava de ouvi-la, é difícil encontrar alguém falando de algo que amava sem qualquer reserva. Quando o carro entrou na garagem da mansão, o som da chuva ficou mais distante.
Bella desligou o motor e, por um instante, tudo pareceu mais silencioso ao nosso redor depois do percurso pela estrada. Apenas o leve estalar do metal esfriando e o ruído abafado da água caindo do lado de fora.
E pela forma como continuamos conversando mesmo depois de estacionar, percebi que aquela já não era apenas a amizade de duas pessoas convivendo na mesma casa. Em algum momento, sem que eu percebesse exatamente quando, Bella tinha se tornado alguém com quem eu gostava genuinamente de dividir uma tarde comum.
Olhei para trás.
Hilary continuava dormindo, nem mesmo a parada do carro havia sido suficiente para acordá-la.
— Eu pego as sacolas. — disse Bella já do lado de fora.
— E eu fico com a carga mais preciosa. — desafivelei o cinto
— Escolha sensata. — foi o que eu ouvi dela, o porta-malas já aberto.
Sorri.
Abri a porta traseira e desafivelei o cinto da cadeirinha cuidadosamente e retirei Hilary dali. Ela se acomodou contra meu ombro quase imediatamente, ainda envolta naquele sono pesado por ter passou a tarde inteira explorando nosso novo mundo. Esperei Bella pegar todas as sacolas para seguirmos para a porta que ligava a garagem ao interior da casa, calor suave da mansão nos recebeu assim que entramos contrastando com o frio úmido que dominava o exterior. Subimos a escada alcançando a sala e meus olhos encontraram a árvore, brilhante, as luzes estavam acesas apesar da claridade do dia cinzento. Pequenos reflexos dançavam entre os galhos, espalhando pontos de brilho pelas paredes e pelo piso de madeira, mas não foi exatamente a árvore que chamou minha atenção primeiro e sim os presentes aas pés dela, que antes estava vazio.
Alguns pacotes já haviam começado a aparecer.
Embrulhados com laços de cetim e etiquetas, um pacote comprido escondido próximo ao tronco, dois embrulhos pequenos empilhados um sobre o outro e uma caixa quadrada envolta por papel vermelho escuro.
— Espera. — apontei. Bella acompanhou meu olhar — O Natal realmente começou. — murmurei.
— É, começou. — ela não parecia surpresa.
— Eu jurava que não tinha nada aí hoje.
— Porque não tinha nada aí.
— Eu sabia; foi colocado enquanto estávamos fora. Você sabe quem colocou? — observei novamente os pacotes.
Ela ergueu um ombro.
— Rosalie colocou dois.
— Claro.
— Alice colocou três e Emmett colocou um.
— Só um? — olhei dela para os pacotes.
— Se o embrulho estiver torto...
Olhamos para os pacotes, um deles estava, era o maior e visivelmente torto. Bella e eu trocamos um olhar.
— Emmett. — dissemos ao mesmo tempo. Isso nos fez rir.
— Olha ali, nem dá pra dizer que não; o presente dele está ocupando quase o espaço de quatro.
Acabei rindo de novo, Bella apoiou algumas sacolas sobre uma poltrona próxima.
— Não se preocupa, todo ano acontece a mesma coisa.
— O quê?
— A árvore fica vazia por semanas e depois, de alguma forma, os presentes simplesmente começam a aparecer e ninguém consegue mais lembrar exatamente quando os presentes surgiram.
Voltei a olhar para os embrulhos, apesar do luxo, ver os presentes tomando conta daquele espaço era algo genuinamente acolhedor e familiar, me lembrava que existiam tantas famílias diferentes que perpetuavam essa tradição linda e agora estou aqui, observando de perto uma preparação natalina sem a preocupação constante de como conseguiria fazer tudo acontecer sozinha.
Esse poderia ser o meu melhor presente do Natal: não estar sozinha. Nunca mais.
Hilary se mexeu levemente no meu colo, soltando um suspiro sonolento ainda dormindo, parecia querer me confirmar que já fazia algum tempinho que eu não estava só. Passei a mão pelos cabelos dela e ajustei o alce que estava escorregando entre nossos corpos, enquanto isso, Isabella se aproximou da árvore e ajeitou um dos pacotes que estava torto.
— Aposto que você já estava tentando descobrir qual é de quem. — comentou com um leve risinho.
— Eu? Quem disse isso?
— Hum... Pensei que estivesse, porque já ia dizer que não adiantava nem tentar.
— Nossa, nenhuma pista? — fiz uma careta.
— Nenhuma. — reduziu minhas chances.
Observei as etiquetas, algumas já estavam viradas para o lado oposto e as restantes simplesmente não podiam ser lidas daquela distância.
— Vocês são impossíveis.
— Isso deixa tudo mais empolgante, você ainda não viu o que preparamos na manhã de Natal... — pelo tom dela, claramente guardaria as informações só para si.
Dei mais uma conferida na decoração da árvore por mais algum tempo, um dos laços dourados estava ligeiramente torto e só agora reparei que havia um enfeite perto da parte de baixo estava pintado de uma forma tão irregular que provavelmente fora obra de uma criança. Sorri sem perceber.
— Esse foi da Nessie. — disse Bella, agora atrás de mim.
Olhei ligeiramente para ela.
— Como você sabe que é para ele que estou olhando.
— Porque eu lembro quando ela fez, acho que a minha reação quando o vi pendurado na árvore foi que nem a sua.
— Quantos anos ela tinha?
— Três meses.
Eu virei o rosto para ela.
— Três meses?
— A contagem de vida nos híbridos é injusto. — me respondeu.
— Eu percebo isso cada vez mais.
Bella riu. O som ecoou suavemente pelo ambiente enquanto ela organizava as sacolas que havia trazido e eu continuei olhando para os presentes debaixo da árvore com uma curiosidade interna de como em outros anos eu tive uma árvore com os recebidos da Nintendo e parcerias de Natal, e nos últimos eles mal existiram, os finais de ano só significavam preocupação, contas, planejamentos frustrados, horas extras, escolhas sacrificadas por um orçamento apertado... Naquele momento, porém, eu me vi apenas pensando em quem tinha escolhido cada coisa, em quem estava tentando agradar quem; pensei com carinho em Esme procurando o agrado certo para alguém, em Emmett provavelmente comprando o primeiro objeto que o fizesse gargalhar até a barriga doer, isso é, se sua barriga pode doer de rir; imaginei Alice fingindo que não passou as semanas planejando tudo com antecedência.
Meus pensamentos me fizeram sorrir de novo.
A voz de Bella me tirou do devaneio. Me virei para ela, pedindo para que repetisse.
— Eu disse que sei exatamente no que você estava pensando: na incrível planilha da Alice.
Uma risada baixa me escapou.
— Ela planeja tudo, não é?
— Com meses de antecedência, se quer saber. — Bella sorriu confirmando — Ela já terminou as compras dela há semanas.
— Bem que desconfiei.
Hilary soltou outro resmungo adormecido e afundou mais o rosto contra meu ombro, foi nesse momento que ouvi uma agitação de passos leves vindo do espaço que levava à ala leste das outras salas menores. Virei minha cabeça naquela direção, meus olhos captaram a minha filha caminhando para mim. Os cabelos anelados estavam presos de forma diferente, com algumas mechas escapando perto das têmporas. Quando ela se aproximou mais, um sorriso surgiu imediatamente no seu rostinho assim que seu olhar encontrou o meu, vi que havia um pequeno borrão verde na manga do novo casaco claro que usava e algo parecido com glitter pregado rente ao punho da roupa. Atrás dela vinha Esme. As duas tinham uma leve expressão suspeitamente semelhante.
— Mamãe!
Por mais desenvolta que fosse, por mais madura que parecesse em tantos momentos, ainda havia ocasiões em que ela simplesmente era só a minha filhinha.
— Bem-vindas de volta.
Esme nos recebeu com seu sorriso cheio de amor, as mãos carinhosas afagando Bella, os olhos dourados dela demoraram por alguns segundos na criaturinha adormecida em meus braços antes de subir o olhar para mim.
— Ela não resistiu? Como foi o passeio, querida? — perguntou com interesse genuíno.
— Ela acabou com todas as reservas de energia que devia ter. — rimos — Foi muito bom, bem aproveitado! — sorri para ela.
— Conseguiram encontrar tudo?
— Mais do que eu esperava. — assenti.
— Ah, então valeu mesmo a pena. — Esme lançou um olhar para as sacolas sobre a poltrona e depois para Isabella — Você entrou na loja de antiguidades com ela?
Bella fingiu não ouvir.
— Bella?... — Esme chamou.
— Talvez. — foi o que consegui ouvir dela.
— Bella...
— Eu só queria encontrar algumas coisas. — justificou.
— E quantas horas vocês ficaram lá dentro?
— Isso é mesmo importante? — as sobrancelhas de Bella caíram tristemente sobre seus olhos.
Esme sorriu.
— Entendi.
A interação me arrancou uma risada, as duas pareciam tão confortáveis, devem ter passado tanto tempo juntas que já nem precisavam completar as próprias frases.
— Deixa que eu levo Hilary pro berço, querida. Outra criaturinha sua quer toda a atenção agora. — Esme estendeu seus braços.
Passei o corpo da minha filha para ela, deixando que meus braços pendessem inertes por um momento antes de eu procurar Helena. Me sentei no sofá mais próximo e abri meus braços para recebê-la e ela veio sem hesitar, no segundo seguinte seus braços envolveram meu pescoço. Minha mão esquerda circulou por suas costas quentes e a direita foi para seus cabelos e a apertei contra mim.
— Oi minha estrelinha.
— Boa noite, mamãe.
— Boa noite. — cochichei com um sorriso sentindo o cheirinho gostoso dos fios encaracolados. Agora eu podia respirar melhor.
Ela permaneceu mais um tempo quietinha no meu abraço, a cabeça apoiada em meu ombro. Cheirei mais um pouco o perfume suave do shampoo sentindo como ele se misturava ao cheiro de tinta e papel molhado. Coisas de criança. Tudo dentro da normalidade infantil.
Atrás dela, Jacob e Renesmee haviam aparecido em algum momento e agora estavam encostados no guarda-corpo da escada.
— Você se divertiu agora à tarde? — perguntei evitando propositalmente sua ausência durante a manhã.
— Sim!
— E o que estava fazendo?
Helena afastou-se apenas o suficiente para olhar para mim, os olhos azuis impossíveis, brilhavam de satisfação.
— Não estou autorizada a responder essa pergunta, mamãe.
— Não está?
— Não. — balançou a cabeça de um lado ao outro, negando.
— Por quê?
Ela lançou um rápido olhar para cima, para Esme.
— Cláusula de confidencialidade.
Ouvi Isabella rir atrás de mim.
— Cláusula? — quis ter certeza.
— Sim.
— Quem elaborou essa cláusula contra a sua mamãe?
— Eu.
— Ah... — tentei me manter serena — Claro que foi você.
Helena assentiu, completamente séria.
— Considerei necessário.
Balancei a cabeça, derrotada.
— Então não vou descobrir?
— Apenas no Natal, mamãe.
— Isso é injusto.
— Discordo respeitosamente.
Sua resposta foi tão formal que me fez rir e, sem pensar, puxei-a novamente para perto e beijei sua testa, sentindo a textura do seu cabelo contra meu nariz. Helena apenas aceitou o carinho abertamente, como se fosse exatamente o lugar onde queria estar.
Ela permaneceu ali mais um bom instante, aconchegada em meus braços, antes de se afastar sorrindo daquele jeitinho sabido que só ela tinha. Ela tocou a ponta dos dedinhos com cuidado nas perninhas do alce de pelúcia antes de abraçá-lo contra si, farejando discretamente o corpo do brinquedo. Ergui meus olhos para as pessoas ao meu redor, cumprimentando cordialmente ao Jacob e Renesmee e dando um olhar significativo a Bella. Se ela achava que eu havia apagado da minha memória tudo aquilo na última loja, ela estava muito enganada.
— Mamãe. — Helena me chamou a atenção. Deixei de encarar Bella para contemplá-la — Antes de jantarmos, você pode ler um livro para mim?
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