Sempre Foi Você
8 A Canção Que Nunca Terminou
Notas iniciais

“Algumas histórias não terminam quando os caminhos se separam. Elas apenas esperam o momento certo para que dois corações descubram que, apesar do tempo, da distância e dos sonhos, sempre pertenceram um ao outro.”
A música havia cruzado fronteiras muito antes de Peeta perceber o que havia criado.
Ele a escrevera numa madrugada silenciosa, sentado na varanda da reformada casa do rancho O Girassol, olhando para o mesmo céu que tantas vezes dividira com Katniss.
Cada verso carregava um pedaço da mulher que nunca deixara de amar. Havia também uma estrofe dedicada a Willow.
À menina que crescera ouvindo sua voz através de CDs que Katniss colocava para a pequena ouvir.
“Se um dia minha canção encontrar você, saiba que ela sempre soube o caminho de casa...”
A música foi lançada sem grandes expectativas. Em menos de uma semana, dominava as rádios. Milhões de visualizações. Centenas de milhares de vídeos.
Pessoas do mundo inteiro cantavam aquela declaração de amor sem imaginar que cada palavra tinha nome, sobrenome e um endereço muito específico: Meadowville.
Foi então que Plutarch Heavensbee apareceu.
Um dos maiores empresários da indústria musical.
Sua proposta era tentadora. Uma turnê internacional. Novos contratos. Uma carreira ainda maior do que a anterior.
— Você nasceu para isso, Peeta. O mundo inteiro quer ouvir sua voz.
Peeta sorriu educadamente.
Olhou pela janela da sala.
Do lado de fora, Katniss ajudava Willow a colher girassóis enquanto riam de alguma coisa. Aquela imagem respondeu antes mesmo que ele abrisse a boca.
— Durante muito tempo, achei que precisava escolher entre meus sonhos e minha família. — Fez uma pequena pausa. — Hoje descobri que meu maior sonho sempre esteve esperando por mim em casa.
Plutarch compreendeu imediatamente.
A proposta foi recusada. Sem arrependimentos.
Três semanas depois...
Meadowville estava em festa. O tradicional Festival da Colheita reunia praticamente toda a cidade.
As barracas coloridas ocupavam a praça principal. Crianças corriam entre os brinquedos. O cheiro de torta de maçã, milho assado e canela tomava conta do ar.
Quando a noite caiu, as luzes do palco se acenderam.
Haymitch, sorriu diante do microfone.
— Senhoras e senhores... deem as boas-vindas ao nosso garoto... que conquistou o mundo... mas nunca deixou de pertencer a Meadowville!
Os aplausos ecoaram.
Peeta entrou no palco apenas com seu violão. Como fazia anos atrás. Como tudo havia começado.
Katniss assistia da primeira fileira.
Ao lado de Prim. De Burdock, Asterid e Willow.
Peeta começou a cantar. Não era a música que havia viralizado. Era outra.
Nova.
Escrita especialmente para aquela noite.
Quando os últimos acordes desapareceram, ele permaneceu alguns segundos em silêncio.
Então procurou alguém na multidão. Encontrou aqueles olhos cinzentos.
Sorriu.
— Katniss Everdeen... — Toda a praça silenciou. — Durante anos pensei que a música fosse o maior amor da minha vida. — Respirou fundo. — Depois achei que precisava ir embora para descobrir quem eu era. — Seus olhos marejaram. — Mas cada estrada me trouxe exatamente para o mesmo lugar.
Katniss já chorava. Peeta desceu do palco. Cada passo diminuía a distância entre eles. Parou diante dela. Segurou suas mãos.
— Você foi meu primeiro amor... — Sorriu. — Meu melhor abrigo. Minha melhor amiga. — Sua voz falhou por um instante. — E a única mulher que conseguiu transformar qualquer lugar em lar.
Ajoelhou-se lentamente. Retirou uma pequena caixa do bolso.
— Katniss... — Ela levou as mãos à boca. — A vida inteira procurei uma canção perfeita... — Sorriu entre lágrimas. — Até perceber que ela sempre teve o seu nome.
Abriu a caixa. O mesmo anel. Restaurado. Mais bonito do que antes.
— Casa comigo?
Katniss já não conseguia conter o choro. Riu entre as lágrimas. Assentiu várias vezes.
— Sim... — Mais uma vez. — Sim! Sim! Sim!
Ela o abraçou antes mesmo que ele colocasse a aliança em seu dedo. A praça inteira explodiu em aplausos. Willow correu e envolveu os dois num abraço apertado. Fogos de artifício iluminaram o céu de Meadowville.
Naquela noite, a cidade inteira testemunhou aquilo que sempre soubera. Eles nunca deixaram de se amar.
Três meses depois...
Os campos dourados balançavam suavemente com o vento do fim de tarde.
Katniss caminhava entre o trigo usando um vestido de noiva de renda delicada. O longo véu dançava ao vento. Peeta a esperava alguns passos à frente, incapaz de desviar os olhos da mulher que atravessava o campo em sua direção. Não havia luxo. Nem ostentação. Apenas a beleza simples do lugar onde tudo havia começado.
Depois da cerimônia, os dois percorreram os campos de mãos dadas enquanto o fotógrafo registrava cada sorriso, cada olhar e cada gesto de carinho.
Katniss encostou a testa na dele.
— Sabe qual foi a melhor decisão da sua vida?
Peeta sorriu.
— Voltar para casa.
Ela balançou a cabeça.
— Não...
Acariciou seu rosto.
— Nunca desistir de nós.
Ele aproximou os lábios dos dela.
Antes do beijo, sussurrou as palavras que carregara no coração durante todos aqueles anos...
— Sempre foi você.
E, naquele instante, entre o dourado dos campos de Meadowville, o vento levou aquelas palavras como uma última canção.
A canção que nunca terminou.
|| Epílogo ||
Alguns anos depois...
O tempo havia seguido seu curso.
As estações continuavam colorindo Meadowville com a mesma beleza de sempre, mas agora havia algo diferente.
O rancho O Girassol, totalmente restaurado e cheio de vida.
Peeta dizia que os girassóis sempre encontravam a luz, assim como eles haviam encontrado um ao outro depois de tantas despedidas.
A casa vivia cheia. Cheia de risadas. De brinquedos espalhados pela sala. De botas enlameadas na varanda. De desenhos presos na porta da geladeira. E, acima de tudo, de amor.
Willow já era uma adolescente, sempre pronta para ajudar os pais e cuidar dos irmãos menores.
Rye herdara os cabelos da mãe e a energia do pai, passava os dias correndo pelos campos, imaginando grandes aventuras. River, com seus cabelos dourados e curiosidade infinita, transformava qualquer passeio em uma descoberta.
E havia Pearl, a caçula.
Com apenas cinco meses de vida, dormia tranquila nos braços da mãe sempre que podia, como se conhecesse aquele colo desde antes de nascer.
Naquele domingo ensolarado, a praça principal de Meadowville estava cheia. As crianças brincavam perto do antigo coreto.
Rye e River disputavam uma corrida ao redor da fonte enquanto Willow empurrava o carrinho onde Pearl dormia serenamente.
Katniss observava a cena sorrindo. Peeta corria atrás dos meninos fingindo não conseguir alcançá-los. As gargalhadas das crianças ecoavam pela praça.
Foi então que uma caminhonete estacionou em frente à prefeitura.
Haymitch Abernathy desceu, agora aposentado com os cabelos completamente grisalhos, mas com o mesmo sorriso irreverente de sempre.
Ao ver Peeta cercado pelos filhos, aproximou-se balançando a cabeça.
— Rapaz... definitivamente vocês não têm televisão em casa.
Katniss levou uma das mãos ao rosto, completamente corada.
— Haymitch! — Effie o repreendeu.
Peeta apenas deu de ombros, segurando River no colo enquanto Rye se agarrava à sua perna.
— Estou apenas aumentando a população de Meadowville, senhor prefeito.
Haymitch caiu na gargalhada.
— Continue assim e vou ter que pedir para meu sucessor construir outra escola!
Todos riram.
Até Katniss, que escondia o rosto no ombro do marido.
Peeta continuava cantando. Ainda fazia apresentações, mas apenas em cidades próximas. Pequenos festivais. Teatros. Eventos beneficentes.
Sempre voltava para casa antes do café da manhã do dia seguinte. Porque aprendera, anos atrás, que nenhum palco do mundo era maior do que aquele que o esperava todas as noites.
Quando o silêncio tomou conta da casa, as crianças já dormiam.
Willow em seu quarto. Rye e River exaustos depois de um dia inteiro de brincadeiras. Pearl descansava tranquilamente no berço, abraçada ao pequeno cobertor de crochê feito por Prim.
Na sala, apenas o crepitar da lenha rompia o silêncio.
Peeta estava sentado em uma poltrona diante da lareira, observando as chamas dançarem. Katniss aproximou-se sem fazer barulho. Sentou-se em seu colo, envolvendo seu pescoço com os braços.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada. Apenas contemplaram o calor da lareira. O conforto daquele momento. A paz que tanto haviam procurado.
— Sabe... — murmurou Katniss, apoiando a cabeça em seu ombro. — Às vezes ainda acho que tudo isso é um sonho. — Peeta sorriu e beijou seus cabelos. — O rancho... nossos filhos... você cantando e voltando para casa... — Ela ergueu os olhos, emocionada. — Estou tão feliz pela vida que construímos.
Peeta acariciou delicadamente seu rosto.
Depois olhou para a escada, onde levava ao quartos das crianças.
Sorriu com ternura.
— Passei muito tempo acreditando que precisava conquistar o mundo para ser feliz. — Voltou a encará-la. — Mas descobri que o meu mundo sempre esteve aqui.
Segurou sua mão entre as dele.
— Você... Willow... Rye... River... e nossa pequena Pearl... — Sua voz se encheu de emoção. — Vocês são o bem mais precioso que eu tenho.
As lágrimas encheram os olhos de Katniss. Ela o beijou lentamente. Lá fora, os girassóis balançavam suavemente sob a luz da lua. Dentro daquela casa, não existiam mais despedidas. Nem sonhos interrompidos.
Apenas uma família que aprendera que o amor verdadeiro não se encontra pelo acaso. Ele é construído, dia após dia.
🌻 Fim 🌻

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