Semideuses invisíveis
1 Eu QUERIA ser um meio sangue
Notas iniciais
"Olhe, eu não queria ser um meio sangue".
Sim, blá blá blá, todo mundo aqui já viu essa frase milhões de vezes.
Bom, eu queria muito ser uma semideusa. Desde que eu tenho 13, quando abri “O Ladrão de Raios” pela primeira vez, eu sonhava com isso. Eu desenhava símbolos de deuses no rodapé das provas escolares, jurava que tal professor era estranhamente suspeito e via mitologia até no café da manhã. Quando fiquei um pouco mais velha, eu entendi que as pessoas achavam isso irritante e comecei a agir como gente normal. Quer dizer, mais ou menos. De qualquer forma, eu esperava que a vida adulta me trouxesse mais maturidade e, com a maturidade, também viesse o apagamento disso tudo. Eu me preocupava com as contas a pagar e cheirava as opções de amaciante no mercado, mas uma parte de mim não tinha desistido de sonhar em ser semideusa, mesmo que eu mal tivesse tempo para pensar nisso.
O resultado desse delírio? Luiza, muito prazer. 25 anos, uma brasileira formada em publicidade por puro desânimo de mudar de ideia. Eu tinha sido contratada por uma agência há algum tempo e, com isso, finalmente consegui sair da pensão que eu morava e pude alugar uma kitnet com cheiro de mofo. Pequenas vitórias da vida adulta.
As coisas estavam indo como eu esperava, não tinha do que reclamar. Eu passava a maior do dia escrevendo roteiros publicitários e torcendo pra alguma ideia ser boa o bastante pra me render uma promoção legal. Passava algumas noites fumando na calçada para pensar em algo genial, mesmo sabendo que o cliente pediria tantas alterações que teria sido mais fácil fazer o básico desde o começo.
Meus pais eram divorciados há muitos anos e isso não tinha nada especial também: eu e meu pai nunca fomos amigos, quase não nos víamos, e minha mãe se esforçava para ficar próxima de mim, embora ela exigisse muito mais do que eu poderia dar, e isso me desgastava em pouco tempo. Eu via alguns poucos amigos quando sobrava dinheiro para uma pizza no fim de semana e tudo bem, era uma vida plena de recém adulta. Bizarramente normal, mas plena.
Quando a agência parou no recesso de fim de ano, eu já sabia o que queria fazer: tinha comprado minha passagem para Nova York há muito tempo e estava disposta a conhecer um inverno com neve de verdade no outro hemisfério do planeta, mesmo que tivesse que viajar sozinha, e foi o que eu fiz. Eu não me endividei por 5 anos para pagar aquele cursinho de inglês no CNA à toa, então sair do país era o mínimo que eu podia fazer para me recompensar.
SPOILER: a neve só é divertida nos primeiros cinco minutos, especialmente se você veio de um país tropical. Depois disso, seus dedos vão ficar frios e a neve vai virar um incômodo (por favor, não me ache chata por dizer isso, ok? Se você quer conhecer a neve, vá em frente e ignore meu spoiler. Não estou aqui para destruir seus sonhos. Não esse sonho, em especial).
Como boa fã que sou, passei em frente ao Empire State apenas para espiar o céu e imaginar como seria se o Olimpo estivesse ali. Pensei em entrar no prédio e pedir ao porteiro para ir ao seiscentésimo andar, só pra brincar um pouco, mas eu já estava adulta demais para ter coragem disso, então desisti da ideia e continuei andando, embora tivesse certeza de que a eu de 13 anos nunca desperdiçaria essa chance e provavelmente ficaria arrasada ao perceber que o porteiro falara a verdade sobre não existir seiscentésimo andar. Você sabe o que eu quero dizer, todos nós passamos por aquele momento em que sabíamos que a chegada do sátiro era uma questão de tempo, que tudo aquilo era real. Não finja que não estou falando com você.
Em outra ocasião, eu visitei o Central Park também (vocês não acharam que eu era adulta o suficiente para NÃO ir a todos os lugares possíveis citados nos livros, certo?) e, tipo... é um parque, não há muito o que se ver. Eu estava dando uma volta por ali, olhando ao redor e tentando pontuar mentalmente algumas características sutis que diferenciassem aquele lugar de um parque brasileiro, quando um garoto veio correndo de algum lugar e esbarrou em mim. O impacto me derrubou no chão a mais ou menos um metro dali e o fez recuar alguns passos.
— Ah, me desculpe. – falou ele, se aproximando. Estendeu a mão para me ajudar a levantar. – Eu preciso prestar mais atenção. Você se machucou?
— Não... – respondi. Normalmente eu teria completado com alguma outra frase, tipo “não, só perdi totalmente a dignidade, valeu”, mas eu já me sentia derrotada o bastante mesmo sem falar isso.
Quase aceitei a ajuda do garoto para levantar, mas vi que ele se aproximou de forma meio estranha, como se mancasse um pouco, e imaginei que era melhor levantar sozinha.
— Obrigada. – falei, com um sorriso envergonhado, mas fiquei surpresa assim que olhei para o garoto. – Nossa, você é tão parecido com um personagem de livro... Grover, o sátiro de Percy Jackson. Já ouviu falar desses livros? São ótimos.
A gente que é fã só percebe que começou a falar disso depois que embarcou no assunto, então é óbvio que mal me dei conta do meu comentário. Ele realmente era idêntico ao Grover, as pernas meio estranhas, uma touca sobre os cabelos castanhos cacheados, um rosto sarnento com espinhas, uma barbicha no queixo e olhos agitados.
Se o garoto tivesse agido normalmente, eu teria ignorado essa semelhança. A parte mais infantil do meu cérebro ficaria histérica e ia querer abaixar as calças dele para provar que era um sátiro (e eu provavelmente seria presa logo em seguida), mas eu já era madura o suficiente para agir como uma adulta e quase não ter vontade de fazer isso. Quase.
De qualquer forma, eu esperava que ele apenas dissesse que nunca ouvira falar dos livros e que precisava ir embora (e eu teria que acreditar, já que ele estava correndo há um minuto). Na melhor das hipóteses, ele também ficaria animado e diria que, sim, conhece todos os livros, talvez até passasse alguns minutos comigo falando sobre Percy Jackson, e então eu poderia seguir o resto do meu dia com plena satisfação, esquecendo o tombo no parque.
Algumas pessoas podem me achar louca, mas você é fã e vai me entender. Se imagine na seguinte situação e me diga se estou errada: você viajou para a cidade onde se passa a maior parte da história de Percy Jackson, em um parque importante citado várias vezes. De repente, um menino suspeitamente parecido com Grover aparece por ali e, quando você sem nenhuma pretensão comenta esse fato, ele age EXATAMENTE como o Grover do livro teria agido. Você não começaria a ter um pouquinho de esperança? Eu tive, não vou mentir.
O garoto sarnento recuou um passo, sem nem conseguir disfarçar o nervosismo.
— É claro que não. – disse.
Eu franzi os olhos em sua direção, me perguntando se eu devia ou não dar ouvidos para meu lado infantil que insistia em dizer “LUIZA, ABAIXE AS CALÇAS DELE ANTES QUE ESSE BODE FUJA”. Decidi que ainda não era hora de ceder aos meus desejos mais profundos e desesperados.
— Não se parece com ele ou não conhece a história? – insisti, tentando manter a conversa enquanto observava o menino. Eu só queria ter certeza de que ele não era um sátiro, você não pode me julgar. Como eu ia dormir sabendo que TALVEZ tivesse perdido essa chance? Meu lado maduro não era maduro o bastante para silenciar essa hipótese sem uma ajudinha extra.
— Não conheço. É, eu não gosto muito de ler. – o garoto disse, parecendo aliviado.
— Bom, você deveria tentar! A Disney lançou uma série sobre a saga, já tem três temporadas* Você podia assistir. – comentei, animada.
— Eu... sim, obrigado. Vou procurar. – ele ainda parecia meio nervoso. – Eu preciso ir agora.
— Tudo bem. Eu me chamo Luiza, qual é seu nome? Me fala seu insta, vamos continuar se falando. – pedi, pegando o celular para procurar suas redes sociais.
É claro que essa pergunta era uma armadilha. Alguém como a Annabeth não teria caído nisso, mas o Grover...
— Meu nome? Meu nome é... é... John. – gaguejou ele, se afastando mais um passo para deixar claro que precisava ir embora. – Eu não uso instagram, desculpa. Mas a gente se vê por aí.
Ergui os olhos para ele de modo acusativo e, apesar do medo de parecer louca, apesar de pensar que isso era a coisa mais imbecil que eu poderia fazer, dei um pouquinho de credibilidade para minhas desconfianças infantis.
— Você é o Grover mesmo, não é? O Grover do livro. – falei.
Se ele não fosse, iria apenas ficar confuso ou dar risada, mas o sátiro de verdade ficaria ainda mais nervoso.
— Estou mesmo atrasado. – falou, e saiu correndo rápido demais para quem tinha as pernas tortas daquele jeito.
Eu juro que não escolhi deixar a menininha de 13 anos tomar conta do cérebro, mas comecei a correr atrás dele sem nem pensar o quanto isso era problemático. “Ele é ser um garoto normal, talvez tenha uma fobia social ou coisa assim, certamente vai chamar a polícia agora que eu estou correndo atrás dele, e então eu vou ser deportada”, me bronqueei em pensamentos, mas não diminui a velocidade mesmo assim. “ARRANQUE AS CALÇAS DELE”, a eu de 13 anos gritava na minha cabeça. “Para de ser doida, a gente tem 25 anos” eu tentava contra argumentar comigo mesma.
Eu o alcancei quando ele estava quase na saída do parque. Consegui convencer a eu de 13 anos a não despir o pobre garoto, mas nada me impediu de esticar o braço e arrancar sua touca. O suposto John se virou para mim na mesma hora, horrorizado, e eu também teria ficado horrorizada se não tivesse ficado maravilhada.
— Me devolve, por favor. – ele choramingou, passando os dedos nervosamente pelos cachos.
— Só se você prometer responder todas as minhas perguntas, Grover. – respondi, convencendo meu cérebro de que eu realmente estava vendo dois chifres no alto de sua cabeça.
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