Semideuses invisíveis
5 Piado no escuro
Notas iniciais
Eu queria poder dizer que tive um sonho revelador como qualquer semideusa comum, mas isso não aconteceu. Na maioria das vezes, eu tenho sonhos como os de um mortal, sem sentido, que são esquecidos assim que acordamos. Apesar disso, naquela noite, minha inconsciência me levou para algum lugar no subsolo, ou era o que me parecia, a considerar pela ausência de janelas. Estava escuro lá dentro, mas devia ser um espaço amplo. Ouvi o piado solitário de uma coruja rondando o lugar e, depois o farfalhar de asas guiou meu sonho até o piso superior. Lá fora eu pude ver vagamente dois enormes quadrados no chão, com quedas d’água iluminadas.
Quando eu acordei no dia seguinte, tive um pouco de dificuldade para me lembrar de onde estava. Eu deveria acordar no meu quarto de hotel em Nova Iorque, mas, em vez disso, havia um beliche acima de mim e algumas crianças tagarelando no quarto. Levantei um pouco, apenas o suficiente para não bater a cabeça, e precisei encarar o quarto por alguns segundos antes de me lembrar do dia anterior.
Não tinha sido só um sonho. Havia algumas malas ao pé da minha cama, me levando a crer que Quíron cumprira a promessa de pedir a algum espírito gentil que trouxesse algumas coisas. Mesmo assim, a maioria das minhas roupas estava em outro hemisfério e eu definitivamente precisaria comprar mais se quisesse ficar nos Estados Unidos.
— Bom dia, maninha. – Richard me cumprimentou, jogando algumas roupas na própria cama, bem perto da minha.
— Eu não era a mais velha? – indaguei, franzindo a testa.
— Você é, mas ainda é mais baixa. – ele deu uma risadinha.
— Pra você é fácil falar, tem 1,90m. – resmunguei, saindo da cama. – Então, pelo que eu me lembro... deveríamos ir para o treinamento agora, certo?
Richard deu passagem a algumas crianças que carregavam partes de uma armadura e só depois me respondeu.
— Vamos comer, e depois é hora do treino, sim. – foi a vez dele de franzir a testa. – Você não devia ter uma rotina mais... personalizada?
— Não sei, o que você acha?
Ele abriu algumas gavetas e me trouxe um pedaço de papel com uma grade horária.
— Acho que é a versão mais atualizada, mas isso não importa tanto. – olhamos a grade por alguns segundos até Rich dizer mais alguma coisa. – Não é como se essas aulas fossem inúteis pra você, eu só fico me perguntando... me pergunto se não devia ser algo mais focado.
— Eu concordo com você, e falei isso pro Quíron. Acho que o maior problema é que, por enquanto, ninguém sabe o que seria o ideal pra mim.
Rich concordou com a cabeça, ainda observando a grade horária como se tentasse formular uma rotina de treino perfeita para semideuses como eu.
***
Quíron me chamou para conversar logo após o café da manhã.
— Você precisa pesquisar, criança, e creio que a maior parte do trabalho deverá ser feita fora do acampamento.
— Tudo bem, então... eu saio e procuro pelo que, exatamente?
— Sei que é uma resposta muito vaga, mas é o melhor que posso te dar: procure respostas. – o centauro parecia realmente mal por não conseguir me ajudar com mais do que isso, então tentei disfarçar minha decepção. – Pode ser perigoso só pelo fato de não sabermos o que te espera, então eu preferiria que você treinasse um pouco antes de sair. Vamos focar no que você sabe fazer de melhor e te dar uma estrutura básica.
— Certo.
— Vou tentar te dar o máximo de tempo que eu puder, mas esteja preparada para viajar a qualquer momento.
— Por que a pressa?
— Será que outra coisa pode acontecer, agora que descobrimos você? É difícil dizer. De qualquer forma, vou procurar alguém para te ajudar e... garantir uma boa missão.
— Não acho que isso seja necessário.
Quíron me deu um sorriso cansado, como se já nem se importasse mais com a teimosia de seus campistas. Ele apenas me pediu para voltar às minhas atividades, mas eu sabia que tinha um pouco de razão: se eu podia ser invisível em qualquer lugar, ter outra pessoa comigo seria como andar com um sinalizador. Por melhor intencionado que fosse o semideus, ou o espírito da natureza, ou quem quer que Quíron escalasse para me acompanhar, essa pessoa certamente me deixaria mais vulnerável, então, mesmo que fosse alguém mais experiente ou mais forte, ainda seria mais vantajoso estar sozinha.
***
Eu fiz pelo menos um pouco de cada atividade, só para dizer que tinha escolhido o que fazer depois de conhecer tudo, mas a verdade é que eu já imaginava o que me seria mais útil. Eu tinha uma boa bagagem mitológica e, embora outras coisas parecessem interessantes, eu podia aprender mais tarde. No momento, era necessário focar no essencial.
Algumas semanas se passaram, e eu me sentia como uma semideusa normal. Ia para o pavilhão comentando quão difícil fora alguma luta, ou discutindo quem tinha sido melhor na captura à bandeira da semana anterior. Eu só lembrava que não era uma semideusa comum quando alguém contava alguma experiência interessante ou perigosa fora do acampamento, e eu não tinha nada para dizer. Era um pouco triste no começo, mas depois eu comecei a me acostumar e não dar muita bola.
Eu já estava esperando uma autorização para pesquisar e, sendo honesta, estava um pouco cansada de ficar apenas treinando. Era divertido e tudo o mais, mas eu nunca conseguia realmente esquecer que nada daquilo importaria enquanto eu não soubesse quem eu era e para que eu servia.
Foi um alívio quando Quíron me chamou de novo para a casa grande. Nem lembrei que, se meu tempo de preparação tinha se esgotado, é porque algo teria acontecido ou estava prestes a acontecer. Só me dei conta disso quando entrei na casa grande e Sr. D também estava esperando para conversar comigo, sem parecer muito feliz.
— O que aconteceu? – perguntei antes de aceitar um lugar à mesa.
— Não pense que os deuses ignoraram sua presença desde que Atena te reclamou, garota. – resmungou Sr. D. – Todos eles estão bem inquietos, provavelmente imaginando que também têm crianças perdidas por aí. O que incomoda o Olimpo é a mesma coisa que te incomoda.
— Perguntas sem resposta? – supus.
— Como podemos confiar em semideuses como vocês?
Fiquei surpresa e olhei para Quíron, buscando explicação. Não era o que eu esperava ouvir, e certamente não era algo que me incomodava.
— Espera, o problema é esse? Se eu sou confiável ou não?
— Criança, tente ver essa situação pela ótica de Zeus. Se uma nova semideusa, com todas as capacidades e poderes de um semideus comum, pudesse passar despercebida pelos deuses para fazer o que bem entendesse, você confiaria nessa semideusa? – Quíron perguntou em tom professoral.
— Isso é bem a cara de Zeus. – murmurei. – Espero que o raio dele esteja bem seguro, porque não quero ser acusada de roubar nada.
— Muito senso de humor para quem só está viva por causa de uma longa negociação. – disse Sr. D, voltando-se para Quíron. – Despeje logo essa menina, antes que eu a mande para o Tártato.
O deus saiu pisando duro.
— Por incrível que pareça, Sr. D tentou interceder a seu favor, Luiza. Seria melhor colaborar. – o centauro me advertiu assim que ficamos sozinhos. – Nas palavras dele, você parece insignificante demais para ter causado problemas no passado ou mesmo para causar problemas no futuro, mas não foi uma discussão muito amistosa.
— O que minha mãe disse? Não é possível que ela não tivesse um bom argumento, ela é literalmente a deusa da sabedoria. – falei. – Além disso, Atena me reconheceu como filha, o que deve significar alguma coisa.
— Bom, talvez Atena tivesse conseguido dizer algo a seu favor... se ela quisesse. Sua mãe foi imparcial, apenas atentou para a importância de conhecerem melhor esse novo tipo de herói. – explicou Quíron. – Ela não tentou provar sua inocência, provavelmente imaginando que você mesma poderia fazer isso se tivesse a chance. Os deuses aceitaram esperar para ver o que mais descobrimos.
— Muito generoso. Então eu posso sair?
Eu já estava me levantando, e não entendi por que isso deixou Quíron um pouco surpreso. Talvez ele pensasse que eu reclamaria mais, mas eu não tinha tempo a perder e nem me preocupava com o que Atena achava de mim, na verdade. Só queria responder às perguntas, não para provar algo aos deuses, mas para mim mesma.
***
Saí da casa grande e corri para o chalé, feliz por saber que estaria vazio durante o horário de treinamento. Eu não queria perder tempo explicando essa história para as outras crianças, especialmente porque uma parte de mim imaginava que elas ficariam assustadas ou até desconfiadas se soubessem.
Eu não tinha muito que levar. Um kit emergencial com curativos, néctar, ambrosia, salgadinhos, água, elásticos de cabelo (eu perderia alguns durante a viagem e, se os monstros não me matassem, o ódio do cabelo no rosto certamente iria). Algumas trocas de roupa, uma manta quentinha, dinheiro mortal, todos os dracmas que encontrei, minha adaga de bronze, lâminas de arremesso (o que, vocês não usam? Deviam experimentar, é ótimo) e fita adesiva (se você ainda não criou o entendimento de que pelo menos metade dos problemas do mundo podem ser resolvidos com fita adesiva, então você ainda não é adulto o suficiente. Por favor, continue assim).
Joguei a mochila nas costas e olhei o chalé uma última vez antes de sair, prometendo mentalmente que eu voltaria quando tivesse respostas. Caminhei de volta para a casa grande, onde Quíron me esperava na porta. Ele sorria com gentileza, mas estava agitado.
— Eu só vim avisar que estou saindo. – falei, na esperança de que ele contasse o que o incomodava antes que eu fosse embora.
— Luiza... você lembra quando conversamos sobre uma... ajuda a mais para você?
— Sim, e eu me lembro de ter sido bem clara quando disse que não queria. – franzi os olhos com desconfiança. – Quíron, você não chamou ninguém, certo?
Os cacos dele bateram no chão, mostrando seu desconforto.
— Eu preciso garantir sua segurança, querida. Eu chamei outro semideus para te acompanhar, e você devia agradecer por ele ter aceitado.
— Quíron! Você tá praticamente me obrigando a andar com um pisca alerta, minha imunidade não serve de nada se eu estou com outro semideus normal! – briguei. – Você está me colocando em risco e arriscando a vida de outro herói que não tem nada a ver com essa história!
Acho que teria continuado discutindo, mas parei assim que vi o garoto sair da casa grande. Eu o reconheceria em qualquer lugar. Ele parecia poucos anos mais novo que eu, o que era como um chute no estômago, e eu sentia como se fosse desmaiar. Era um dos meus personagens preferidos e, ao que parecia, tinha aceitado me acompanhar.
Quíron também notou a presença do garoto (homem? Misericórdia, eu não estou preparada pra chamá-lo desse jeito. UM NENÊ) e tentou nos apresentar.
— Luiza, apenas colabore. Este é...
— Eu sei quem ele é. – me apressei em dizer. – Nico é um dos semideuses mais admiráveis dos livros.
Ele abriu um meio sorriso, girando o anel de caveira no dedo, e eu não soube dizer se meu comentário o deixara sem graça ou lisonjeado.
— Às vezes eu esqueço que tem gente no mundo todo que me conhece por causa de um livro adolescente. – comentou. – Quíron já me falou sobre você.
— É claro que ele falou. Obrigada pela sua boa vontade, mas eu não posso aceitar. Eu vou sozinha. – insisti. – Não me entenda mal, eu te adoro de verdade, mas não é vantajoso.
— Escuta, eu sei como é precisar provar sua índole simplesmente porque você não nasceu como os deuses queriam. Demorou bastante, mas acho que consegui isso. – Nico falou. Seu tom era solícito, mas ele falava com seriedade o bastante para me fazer encolher os ombros. – Se você preferir, veja essa parceria como uma propaganda: andar com um semideus que conquistou a confiança dos deuses pode ser uma boa forma de se mostrar confiável. Além disso, eu sou bem mais experiente.
— Eu não vou trocar a certeza de que você é um imã de monstros pela vaga possibilidade de que sua presença faça os deuses serem mais tolerantes comigo. – respondi. – E ser experiente não muda nada quando se está lidando com algo novo. Sinto muito, Nico.
O filho de Hades soltou um assobio baixo, ainda me observando.
— Eu teria adivinhado que você é filha de Atena mesmo que Quíron não tivesse me dito nada.
— Luiza, por favor, eu...
— Quer saber? Ok, ok! Só não digam que eu não avisei. – ergui as mãos em modo de rendição. Não estava com paciência para discutir e, no fundo, eu não queria negar a chance de conhecer o Nico. – Tenho duas condições. Primeiro, eu preciso que vocês me arrumem algum transporte ágil.
— Pode deixar comigo. – garantiu Nico. Eu não sabia se ia lidar bem com as viagens na sombra, mas isso seria um problema para mais tarde.
— Qual é a segunda condição? – perguntou Quíron, desconfiado.
— Uma carta do acampamento. Preciso de acesso rápido ao maior número de lugares e pessoas que eu puder, e uma recomendação por escrito pode me ajudar. – expliquei.
O centauro assentiu, parecendo aliviado pela exigência tão simples, e prontamente entrou na casa grande para providenciar minha carta. Não demorou mais do que dois minutos para me entregar o papel assinado, que eu guardei na mochila.
— Já sabe para onde vamos primeiro? – Nico me perguntou.
Felizmente, o último sonho não se apagara da minha memória.
— Vamos atrás da minha mãe.
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