Semideuses invisíveis
6 Casos de família
Notas iniciais
Pelo que eu pude perceber, Nico costumava ser aquele garoto gótico e pouco sociável que conhecemos em Heróis do Olimpo, mas ele claramente melhorara com o tempo, agindo de forma bem mais leve do que eu esperava, mesmo que ainda fosse um pouco reservado.
Quando saímos do acampamento, o filho de Hades se certificou de que estávamos sozinhos antes de me questionar.
— Então, você... sabe que encontrar um deus não é como visitar um parente ou coisa assim, certo?
Começamos a nos distanciar da colina enquanto eu decidia de que forma responder.
— Bom, isso deve ser um pouco mais fácil quando o deus em questão quer te encontrar, não é?
— Provavelmente, mas não temos nenhuma garantia de que Atena queira te ver.
— Eu tenho garantias.
Ele ergueu as sobrancelhas para mim, desconfiado.
— Ou seja?
— Eu tive um sonho...
— Vocês têm sonhos como o resto de nós?
— Não sei, talvez. Vocês têm sonhos do jeito que contam nos livros?
— Essa conversa é a mais estranha que eu já tive na minha vida, e eu converso com mortos.
Gargalhei alto, pois eu também estava pensando algo parecido.
— Bom, eu acho que podemos encontrar minha mãe em algum lugar subterrâneo... parece estar dentro de uma construção bem moderna, algo quadrado, com luzes e uma queda d’água...
— Tipo... o memorial do 11 de setembro?
Nós procuramos imagens no meu celular e, sim, era exatamente aquele lugar. Eu fiquei tentando entender por que minha mãe teria escolhido justo ali, mas bastou olhar para Nico por alguns segundos para chegar a uma conclusão óbvia.
— Você já tinha decidido me acompanhar há algum tempo, certo? Atena sabia que você estaria comigo, então ela escolheu um lugar razoavelmente neutro, onde ela e a presença de Hades pudessem coexistir de algum modo, sem chamar a atenção.
Ele concordou com a cabeça sem parecer muito surpreso. Nós tínhamos acabado de entrar em um carro a caminho do memorial e, depois de alguns minutos, fui chegando a mais conclusões.
— Você não veio apenas pra me ajudar, né? Quer dizer, tu nem me conhece.
Ele me avaliou por alguns segundos, e eu sabia que Nico tinha algum conhecimento prévio que ainda não estava disposto a compartilhar. Seria ingenuidade minha acreditar que ele estava ali por puro altruísmo.
— Bom, você ainda vai confiar em mim independentemente da resposta que eu te der?
— Claro.
— Então, sim, você tem razão. Eu vou te ajudar e tudo o mais, não estou aqui como seu inimigo. – Nico admitiu. – Porém, não vou mentir que tenho minhas motivações pessoais e já sei uma coisa ou outra.
— Você vai me falar o que é?
— Talvez mais tarde.
***
Era final de tarde quando chegamos ao memorial, mas Nico achou que era melhor esperarmos mais um pouco.
— Estava de noite no seu sonho, certo? Deve ser uma hora em que tudo estará vazio lá dentro.
— E vamos fazer o que até lá?
— A paciência é uma virtude de Atena, você devia exercitar isso.
Então nós apenas... esperamos. Nico ainda não parecia interessado em falar sobre si próprio, mas era um bom ouvinte. Usei esse tempo para contar como as coisas estavam se desenrolando e o que eu já sabia até então, embora ficasse pensando que parecia injusto passar minhas informações sem que ele me contasse o que descobrira.
Algumas horas se passaram e, depois de espiar os arredores, o filho de Hades parecia seguro o bastante para prosseguir. Ele pegou meu pulso e, após sentir uma vertigem horrível, percebi que tínhamos viajado até dentro do memorial.
Havia pouca iluminação, mas era possível ver a silhueta de algumas coisas ali dentro.
— Acho que posso ascender a lanterna do celular. – sugeri.
— Não é necessário. – disse uma voz.
As luzes se acenderam sozinhas e uma mulher de cabelos escuros se aproximou de nós. Eu não precisava de nenhuma apresentação formal para saber quem ela era.
— Eu sinceramente nunca imaginei que você descobriria tanto. Não me entenda mal, eu confio no potencial das minhas crianças, mas semideuses como você nunca tinham ido tão longe. Ninguém tem culpa nisso. – continuou Atena, agora mais perto de nós. Ela cheirava a madeira fresca e viva. – Mesmo sem cheiro, saber muito é sempre perigoso. A dúvida te manteve segura até agora, mas é difícil imaginar o que vai ser daqui para frente.
— Talvez nada aconteça. Eu sou invisível.
— Até que ponto podemos contar com isso? Metade do Olimpo pensa que deve ficar de olho em você agora, e por isso fico feliz que tenha me dado a chance de conversar... e tenha aceitado trazer seu amigo. Tenho certeza de que ele poderá ser útil.
Nico ergueu uma sobrancelha, mas permaneceu em silêncio, assim como a deusa.
— Então, suponho que eu possa... fazer perguntas?
Eu devia adivinhar que Atena gostava de responder com o silêncio, então simplesmente segui em frente.
— Bom, em que momento você decidiu que era uma boa ideia me reclamar?
— Eu não decidi, nós estamos tentando manter o acordo. Quando você seguramente se apoderou da verdade e se aproximou disso... interrogando o sátiro, indo ao acampamento... foi como me lembrar que você existia.
— Se eu subitamente ficar quieta de novo, seria como se eu nunca tivesse existido?
— Não sou Apolo, querida. Não posso ver o futuro, nem os hipotéticos.
— O que você sabe sobre semideuses como eu?
— Pouco. Tenho quase certeza de que existem outros por aí, justamente porque os deuses se constrangem demais com essa possibilidade, mas encontrar outros heróis assim pode ser um desafio.
— Um desafio que provavelmente vai cair nas nossas costas. – pontuou Nico, bisbilhotando uma placa do memorial.
— É, eu não me surpreenderia... – concordei, em seguida voltando a atenção para Atena. – O que exatamente você queria comigo? Você não quer só me ajudar nisso.
Ela suspirou, sem parecer surpresa, e cruzou os braços.
— Vocês não deviam esperar só o pior dos deuses, sabia?
— Acho que temos bons motivos para isso. – interveio Nico, voltando para perto de mim. – E também acho uma pergunta pertinente, por que pediu que viéssemos aqui?
— Independentemente do que for decidido, ainda devemos respeitar as regras sobre contato com nossos filhos. Preciso ser ainda mais cuidadosa nesse momento, enquanto os deuses não sabem o que pensar.
— O que você quer de mim, mãe?
Por um segundo, eu pensei que tinha soado rude demais, mas Atena apenas abriu um sorriso levemente nostálgico.
— Você é tão impaciente quanto sua mãe.
— Quanto minha... – eu hesitei, levemente confusa. Fazia sentido, mas me pegou de surpresa. – Então você quer dizer que meu pai não... você... hm...
— Uma deusa virgem e imortal é sua mãe, e o que te surpreende é o fato de seu parente mortal ser outra mulher? – perguntou Atena.
— Não, tudo bem. – respondi rapidamente, tentando esconder meu constrangimento. – Eu só quero saber o que preciso fazer.
— Como eu disse, minha melhor aposta é que existem outros como você. É por isso que garanti que o senhor Di Angelo te ajudasse. – a deusa lançou um olhar de alerta para ele, mas o filho de Hades não esboçou reação. – Sei que você também acredita nessa teoria, e acho que pode existir uma forma de encontrar esses semideuses e provar que vocês não são um perigo para o Olimpo.
— Vou pular a parte em que eu pergunto qual é seu plano e você faz um longo discurso sobre deuses terem seus segredos. – falei, mais uma vez torcendo para não ter sido ousada demais. – De qualquer forma, como você espera que eu encontre outras crianças?
Atena ergueu as sobrancelhas e permaneceu em silêncio. Uma parte de mim queria se irritar com seus modos enigmáticos, mas eu entendia seu silêncio, e até arriscaria dizer que eu era grata pelo voto de confiança. Minha mãe acreditava que eu conseguiria fazer minha parte sem ajuda, ou pelo menos sem a ajuda dela.
— Bom, se isso é tudo, talvez seja melhor irmos adiante. – sugeriu Nico.
A deusa nada disse por algum tempo, observando os artefatos ao seu redor. Quando finalmente abriu a boca, ainda estava concentrada na exposição do memorial.
— Gosto de pensar nesse lugar como um decreto de paz implícita entre mim e Hades. Mais do que isso, também é um lembrete de que muitas coisas podem coexistir pacífica e silenciosamente, mesmo que isso pareça improvável, estranho ou contra intuitivo. – Atena enfim voltou os olhos para nós. – Apenas gostaria que pensassem nisso. Podem ir, e boa sorte.
No segundo seguinte, as luzes estavam apagadas e tudo estava silencioso. Eu tive alguns segundos para me apavorar, me perguntando se eu tinha imaginado aquela cena toda.
— Tá tudo certo? – perguntou Nico.
Eu assenti no escuro, deixando escapar um suspiro de alívio. Isso pelo menos devia significar que a conversa com Atena era real.
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