Sem um porquê
7 Dia das crianças, cadete!
Notas iniciais
Nunca demora muito para as semanas de provas voltarem, mesmo que seja um semestre tranquilo. Obviamente não foi diferente conosco. Miiko vivia dizendo e reclamando sobre como estudar lhe dava dor de cabeça. E também sempre que eu a olhava e perguntava se estava entendendo ou tentando entender, seu olhar estava longe, mesmo que fitasse o livro ou o caderno. Então percebia que eu a encarava e acabávamos conversando sobre assuntos aleatórios. Como sempre.
Assim as primeiras provas se foram e logo era domingo. Teríamos acordado tarde se não fosse por Kaoru me balançando para acordar e derrubando Miiko da cama, que fez um ruído de dor ao cair em cima do braço esquerdo. Ela continuou com os olhos fechados e a boca aberta, como se nada tivesse acontecido.
– Hã...? – esfreguei meus olhos e olhei para Kaoru. Depois peguei meu celular para checar a hora. – Ka... Tá cedo demais.
– Querem conversar lá na sala. Acabaram de decidir isso, então me mandaram acordar vocês... – virou para Miiko no chão. – Sempre dormem... assim?
Acho que na verdade ela queria perguntar “juntas?”, mas preferiu não perguntar. Não sei porquê. Estava quase respondendo quando Kaoru continuou:
– Enfim, querem sair antes das dez se todo mundo concordar.
– Sair...? – não havia acordado direito ainda.
– Piscina. Vamos, levanta. – ela pegou meus braços e me puxou, fazendo-me sentar. – E você deveria acordar essa aí também. – apontou para Miiko com a cabeça. Afastou-se e fechou a porta antes de gritar do lado de fora: – E não demorem!
Coloquei minhas pernas para fora da cama. Não que meus pés já não ficassem quando estava deitada, porém mesmo assim me sentei com os pés sobre as costas de Miiko. Praticamente pisei nela.
– Acorda, preguiçosa.
Miiko virou a cara, para me encarar com um dos olhos meio aberto.
– Já de mau humor? — sua voz ainda estava embriagada de sono.
– Na verdade, como sei que é realmente difícil te acordar, pensei que algo brusco e repentino pudesse ajud...
– Calada!
– E ainda fala que sou eu quem está de mau humor...
Miiko se sentou e correu os dedos pelo cabelo. Arrastou-se até sua cama do outro lado do quarto e pegou um moletom de cima dela. Era verde-musgo. Sua bermuda tinha estampa de quebra-nozes. Levantou e colocou-o, abriu a porta e saiu arrastando os pés. Parou, virou e me encarou. Não fazia muito sentido em colocar um moletom no verão, só que ela o pôs mesmo assim.
– Eu não vou te esperar, Ruri!
Bateu a porta. Desci logo após ela. Papai e mamãe estavam de pé esperando nossa resposta, enquanto Kaoru tinha um monte de pelos brancos em cima de suas pernas e Miiko esfregava os olhos. Sua cara ainda estava amassada de ter dormido com ela em meu braço. Seu cabelo oleoso estava cheio de nós pra lá e pra cá e sua raiz era de no mínimo uns dois dedos. Seu cabelo natural era loiro, não tão claro e nem tão escuro.
– E então...? – mamãe perguntou, aguardando um “sim”. Parecia bem animada. Já havia prendido seu cabelo em um coque e colocado seus óculos de sol.
– Eu já disse que ia se puder o chamar. – Kaoru deu de ombros. Teclava agilmente no seu celular. Na hora suspeitei que fosse seu namorado e realmente era.
– Pode ser... – Miiko bocejou.
Mamãe cruzou os braços.
– Posso saber que hora as senhoritas foram dormir noite passada?
– Não foi tão tarde, mãe... A gente já vai ir? – perguntei, já mudando de assunto. Eram nove horas da manhã e havíamos ido dormir lá pelas quatro. Obviamente não às quatro, mas para não deixar tão ruim a nossa situação, foi às quatro. Havíamos ido dormir às quatro.
– Ah, sim sim! Por só querer apenas a confirmação de vocês, eu já deixei tudo arrumado e no carro. Na verdade, eu iria com seu pai de qualquer forma. Subam e arrumem suas coisas logo!
///
Miiko e eu acabamos levando uma única bolsa. Duas toalhas, três caixas de óculos, protetor solar, um livro e um PSP. Ao chegarmos ao clube, papai foi direto para a mesa que sempre usávamos quando íamos. Ela ficava meio longe da piscina, porém perto de muitas árvores, já que papai adorava colocar a rede para que eu e Kaoru sentássemos depois do almoço. Não sei como aquela rede nunca caiu ou como as cordas não romperam, mas nenhuma tragédia aconteceu.
Miiko havia passado no bar antes de ir para a mesa e pegado um copo de suco. Acho que era de laranja. Além disso, seguiu mamãe até a loja. Voltou com uma arma de água com mamãe rindo ao seu lado enquanto ajeitava um chapéu na cabeça. Miiko havia prendido seu cabelo em um rabo de cavalo. Bem, mais ou menos. Os fios mais curtos não foram presos junto. Sua franja estava jogada para o lado e havia colocado seus óculos escuros. As lentes tinham formato de corações e a armação (também de corações) era vermelha, contrastando pra caralho com a pele clara e seus cabelos mais claros ainda. Tinha uma regata cinza-claro sobre o biquíni vermelho vinho e usava um shorts cinza de tactel.
O namorado da Kaoru não demorou a chegar. Deu um beijo na Kaoru, apertou a mão do meu pai e acenou com a cabeça para a mamãe, antes de ver a arma da Miiko.
– Quantos anos você tem mesmo?
Ela terminou o suco antes de responder.
– Quinze.
– Você deveria saber escolher uma melhor com essa idade.
– Eu posso muito bem te acertar sem precisar de outra melhor, sabia?
– Veremos. – ele sentou de frente a ela.
Kaoru e eu tivemos de ajudar papai a preparar o almoço, porque mamãe havia saído pelo clube para conversar com outras mulheres. Miiko ido à piscina encher a arma, junto com o namorado da Kaoru que também havia conseguido uma arma. Havia algumas crianças na piscina infantil se jogando água, algumas mulheres pegando o sol de quase onze horas em volta da piscina mais funda e alguns garotos dando mortais para entrar na água. Não que eles não estivessem olhando os corpos das mulheres, mas acho que prestavam mais atenção para não cair muito perto da borda da piscina e bater a cabeça do que nelas.
Quando os dois da família voltaram, o namorado da Kaoru falava:
– Não tem como eu perder pra... Você. – levantou a arma.
– Tente falar algo depois de perder. – Miiko ajeitou os óculos e se afastou. Kaoru revirou os olhos enquanto lavava a salada.
Então passamos a manhã assim, ajudando com o almoço enquanto as duas crianças brincavam. Quando não faltava muito para o almoço ser servido percebi que Miiko e o namorado da Kaoru (e sim, eu nunca perguntei o nome dele) ainda não haviam desistido da guerra de água. Haviam se acertado umas vezes, mas sempre acabavam se escondendo entre as árvores e arbustos e berrando que não haviam perdido ainda. As famílias em volta riam da provável idiotice deles, mas as crianças (que já haviam saído da piscina) implicavam que queriam brincar também porque parecia legal ficar se arrastando pelo chão e caindo e se escondendo e acertando água um no outro. Certo, parecia divertido, mas eu achava mais divertido ficar olhando como eles se moviam e gritavam insultos entre si.
– Quantos anos eles têm mesmo? Tipo, de mentalidade. – Kaoru perguntou e nem esperou que eu respondesse algo para gritar: — EI, JÁ NÃO DEU DISSO? PODEM VIR ARRUMAR A MESA, SEUS IMPRESTÁVEIS.
O namorado da Kaoru virou para olhar e provavelmente reclamar, mas Miiko saiu de trás de sua árvore e acertou-o nos olhos. Ele se contorceu e cobriu os olhos com as mãos. Água tratada com muito cloro realmente arde.
– PERDEU, HÁ! – Miiko ria. As crianças encaravam admiradas. O garoto murmurou um “droga”.
Kaoru sorriu de leve, provavelmente não querendo demonstrar que achou engraçado e deu uma toalha para o namorado secar o rosto. No começo era estranho vê-los juntos, mas os dois eram bonitinhos juntos. Ele era um pouco mais alto que eu e isso me incomodava um pouco. A maioria das pessoas na minha faixa idade era menor que eu, exceto as jogadoras de basquete e vôlei da escola. O resto tinha um corpo delicado e não tão esticado. Já haviam me chamado para jogar vôlei, porém não funcionou. Minha coordenação não é lá das melhores e talvez esteja nas piores. Kaoru, embora mais velha, tinha seus 1,70m de altura. Ao menos eu não cresceria tanto mais. Nem Miiko. Às vezes me pegava pensando como seria a mãe da Miiko, se ela seria alta ou não, já que Miiko nunca me mostrou uma foto. Na sua casa também não havia nada. Só havia me mostrado algumas fotos rasgadas dela e uma do seu pai. Acho que ela havia tirado a mãe dela das fotos por não conseguir olhar?
Quando minha namorada era criança tinha o cabelo loiro, não tão claro e nem tão escuro para ser quase castanho. Quando era mais nova seu cabelo era mais curto, todo bagunçado e com uma franja bem curtinha (bem curtinha mesmo) e, em outra foto, lá dos seus nove anos, ele estava mais comprido e preso em dois rabinhos baixos por laços lilases. Uma mão de dedos calejados apontava para uma mechinha rosa, e suspeitava que fosse da mãe dela...
Miiko estalou os dedos perto da minha cara e pulei, assustada.
– Hora de matar a fome, Ruri!
Todos haviam sentado à mesa. Possivelmente passei um pouco demais de tempo divagando sobre altura e a mãe da Miiko. Sentei-me também e continuaram as conversas que mudavam de tópico a todo minuto. Voltando, o pai de Miiko tinha os mesmos olhos que ela, só que mais opacos e desgastados pelo passar do tempo. Ele também tinha as feições de alguém determinado e um sorriso de canto de lábio que se você olhasse bem, era de alguém que parecia ter outras intenções.
Ao acabarmos com a comida, Miiko e o Namorado foram escalados para limparem tudo, por terem agido como duas pestes e acidentalmente acertado as costas do papai uma vez ou outra. Miiko fez um ruído de insatisfação ao ouvir isso, alegando que havia vencido e não deveria fazer nada, só que a mãe também falou que ela deveria ajudar e palavra da mamãe é lei. Kaoru e eu fomos para a rede, deitando uma ao lado da outra. Kaoru brincava com meu cabelo e eu estava olhando as nuvens e suas formas curiosas. Uma tartaruga. Um crocodilo. Um pé.
– Eu lembro que uma vez sobrava mais espaço nessa rede. – Minha irmã comentou.
– Pois então, uma vez seus peitos eram menores.
– O mesmo vale para o seu quadril, sabia? – ela retrucou. Ajeitei minha cabeça em seu ombro. – Vai fazer a sesta mesmo?
– Vou e você não vai negar um ombro amigo para sua irmã caçula, vai?
Kaoru bagunçou meu cabelo.
– Nem pense em dormir o que não dormiu de noite aqui, irmãzinha.
Acho que respondi um “aham”, mas o sono era maior para falar mais que isso. O farfalhar das folhas no chão. As crianças que já haviam ido para a água e estavam gritando por lá e não perto de nós. O som de conversas abafadas ou ao longe. Além disso, a presença de Kaoru era bem reconfortante e acabei dormindo por pelo menos uma hora. Lembro-me de ter mudado de posição alguma vez ou outra. Acordei com um esguicho de água da arma da Miiko na cara. Quase caí da rede, porque quando abri meus olhos percebi que estava com o rosto nos peitos da minha irmã, que vegetava nem aí. Eles eram bem macios e confortáveis, na verdade.
– Hora de ir para a piscina atacar crianças, cadete!
– N-Não é bem isso que militares fazem, senhor! – falei, pulando para fora da rede. Kaoru levantou as sobrancelhas.
– Já vão?
Fiz que sim. Arrastei Miiko para perto da mesa com a desculpa de fazê-la passar o protetor solar.
– Mas já tem menos sol! – Miiko protestou apontando para o céu. As nuvens haviam mudado de forma e agora eu não reconhecia nenhum animal ou membro.
– Depois eu não quero ninguém reclamando de dor, de pele descascando nem nada. Pelo menos suas costas não vão ficar assim, querida Miiko. – a virei e a fiz tirar sua blusa. Suas costas tinham algumas manchas espalhadas e próximo ao quadril haviam estrias. Nas suas coxas estavam suas poucas celulites. Quando terminei de espalhar o creme branco pelas costas dela, ela se voltou para mim novamente e vi que tinha feito um rosto de protetor solar na barriga, usando o umbigo como nariz. Destruí o sorriso do desenho. Tratei de passar no seu rosto também, pois obviamente ela não o faria. – Você é uma criança ou o que...?
– Adolescente! – respondeu, colocando novamente seus óculos de sol. – e você vire-se também, cadete Ruri. Não queremos nenhum soldado desistindo da batalha.
– Sim, senhor! – bati continência e em seguida tirei minha blusa. Miiko me fez sentar e antes de virar o frasco em minhas costas me abraçou por trás e pousou suas mãos sobre meus peitos.
– Cadete, como você está magro! É possível ver suas costelas! – apertou-os.
– M-M-Mi... – minha voz falhou. – M-Miiko! Essas não são minhas costelas!
///
O resto daquela tarde foi divertido. Kaoru não foi para a piscina, mas ficou passeando com seu namorado por aí. Miiko “brincou” com as crianças, acertando seus olhos e as derrubando na água rasa, pisando nelas. É claro que eu ajudava as crianças, porque coitadas. Só que pelo menos, eu não levava cloro direto aos olhos. O cabelo da Miiko amarelou de novo. O meu ficou com uma cor entre preto e verde, que era a cor que estava por baixo do preto. Estava pensando em pegar alguma tinta da Kaoru e trocar de cor no mesmo dia e foi isso o que fiz.
Miiko voltou para casa vermelha. Passou a tarde toda no sol atacando crianças e as ameaçando para não chorar para os pais e quando sentou na cama depois do banho começou a resmungar sobre como seu rosto e suas costas doíam. Peguei um creme hidratante na penteadeira e joguei para ela. A toalha que estava enrolada em sua cabeça soltou-se quando ela pegou o frasco no ar. Ela havia cuidado do cabelo, dava pra ver. Platinado novamente.
– Da próxima vez o senhor deveria ser mais cuidadoso com seus planos. – comentei.
– Um cadete não deveria dizer ao seu senhor o que fazer, deveria? – ela estreitou os olhos. – Seu cabelo tá uma merda, sabia?
– Claro que eu sei! É por isso que eu vou tratar de desbotar essa cor pra ontem e passar um rosa por cima.
– Rosa?
– Azul. A Kaoru disse que ainda tem uma tinta, então estou indo lá...
– Eu poderia te ajudar com isso, provavelmente passando nas pontas do meu cabelo também. Porém, como sua irmã é meio possessiva, hoje deixo passar. – Miiko deu de ombros. – Você nem viu a cara que o namorado dela fez quando você dormiu nela.
– Obrigada por me lembrar disso.
Miiko levantou e subiu na cama, ficando em pé nela. Gesticulou para que eu fosse até lá.
– Sua irmã já tem um namorado e você tem uma, que não gosta de ver mais incesto do que já tem na casa dela. – ela disse, quando me aproximei. Passou os braços em volta do meu pescoço.
– Não é incesto!
– Só confirmando, dona Ruri. – e me beijou. Puxei-a para mais perto de mim. Alguém bateu à porta. Era Kaoru me chamando. Miiko interrompeu o beijo, brava com Kaoru, e sentou-se emburrada. Baguncei seu cabelo molhado rindo.
– Cuidaremos do seu cabelo outro dia, certo?
Quando saí do quarto ouvi Miiko gritando um “e de outros assuntos também!”. Outros assuntos. Sei bem quais assuntos, dona Miiko. Sei muito bem.
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