Notas iniciais
Nesse capítulo apresento a protagonista e alguns dos principais personagens da história

A brisa soprava calmamente, passando pela janela e rodopiando pelo quarto. Trazia consigo aromas do mar e de sonhos. Na cama ao lado da janela observava deitada abraçada a um travesseiro uma mulher. Trajava um pijama de algodão batido com mangas longas e que chegava até o joelho. Tinha feições cansadas e olhos que não paravam de imaginar as coisas incríveis que poderiam ter sido, em outra vida ou outras escolhas. Divertia-se imaginando. Seu nome era Mirela.

No céu voavam os navios brancos do Imperador. Eram naves gigantes que andavam de um lado para o outro nos céus, tinham capacidade de ir a mundos vizinhos e aos países também. Eram cargueiros em sua maioria, eram responsáveis por recolher as tributações das cidades e também para fazer o comércio levando alimentos, água potável, móveis, tecidos e qualquer outro item que o Imperador achasse pertinente. Alguns deles eram navios-estadias, tratavam-se de luxuosos hotéis que apenas o mais ricos conseguiam alugar para fazerem suas viagens ou tirarem suas férias.

As pessoas comuns, que não chegavam nem perto do glamour de tais instalações, tinham tal como Mirela apenas o direito de sonhar com a entrada em algum desses navios e viajar pelo mundo. Aqueles que entravam neles ou era funcionários, escolhidos a dedo pelo Imperador ou os grandes bufões dos mundos.

A contemplação dos navios brancos que pareciam nuvens foi interrompido pela súbita abertura de sua porta. Ela nem se moveu, mas fechou os olhos e respirou profundamente. Uma senhora não muito idosa adentrou o quarto. Tinha feições duras, mas olhos doces e sábios. O canto da sua boca curvou-se em um sorriso sarcástico ao encontrar Mirela na cama.

— O fogo já está crepitando, o ferro está quente e minha barriga pede por um pão. Sua forja e minha fome te esperam minha filha.

Mirela revirou-se na cama passando a mão pelo rosto, afastando seus pensamentos absurdos de entrar em algum daqueles barcos. E seus olhos mais uma vez voltaram a expressão desafiadora e malandra. Mirela tinha vinte anos, sua mãe havia criado praticamente sozinha, seu pai tinha falecido quando era muito jovem, pelo menos era o que sua mãe dizia. Naqueles portos eram muito comuns mães solteiras de bufões passageiros do festival dos dois sóis, ou de galanteadores marinheiros das embarcações piratas ou das do Imperador.

— Claro. Já vou me aprontar – disse ela dando um sorriso calmo.

— Reclama das mulheres que esperam nos portos por seus príncipes e por eu ter sempre ficado aqui como remendeira sendo que tive inúmeras oportunidades de viajar. Mas você mesma olha para esse céu como se fosse o seu amante. Mirela, minha filha, esses barcos não são de sua alçada. Era lindo como você sonhava quando novinha, mas são isso que eles são, sonhos. Nós somos meras servas do Imperador, remendamos os vestidos de seus filhos e de sua esposa, e arrumamos as espadas e armaduras que seu exército quebra em torneios estúpidos. Nada mais. – Disse ela em tom jocoso.

Mirela deu uma risada sarcástica e jogou a almofada que estava abraçada em sua mãe. Elas tinham uma loja de Remendos, era a única em toda a cidade portuária e ficava em uma ótima localização, em frente ao mar. Ali elas arrumavam qualquer tipo de objeto que tivesse quebrado, desde um par de óculos, até a mais complexa das espadas. Mirela ficava na forja e no remendo de objetos mais pesados. Como era mulher, ela trabalhava nos fundos da loja e se apresentava como assistente do ferreiro oficial, já que se revelassem seu sexo, muito provavelmente a loja entraria em falência. Portanto, para seus clientes era chamada de Marcel. Enquanto isso, sua mãe dirigia a parte da frente da loja, contava o dinheiro e remendava os objetos mais delicados como vestidos, roupas de cama, cortinas e bijuterias.

— Certo, você remendando vestidos das princesinhas? Que nova história vai me contar agora, sou filha do Imperador e você foi sua amante?

Sua mãe deu uma risada histérica e abriu a porta do quarto para sair.

— Não esqueça que hoje é o festival dos dois sóis. Nove meses antes desse acontecimento estava me deitando com seu pai, o que impede dele ser seu pai? Hoje ele sempre aparece no teatro da cidade para dar um aceno.

E fechou a porta. Mirela ficou algum tempo pensando nessas palavras enquanto trocava de roupa, imaginando como seria ser filha do Imperador, todos os mimos, sempre ter comida quente e fresca na mesa, nenhuma preocupação, a não ser qual o próximo vestido para o baile e qual outro torneio ridículo iria criar. Nenhum calo na mão por causa da forja.

Ela desceu rapidamente as escadas após se trocar, vestia uma regata branca, calças pretas e coturno nos pés. Na sala sua mãe estava remendando um vestido, ao lado dela estava sentado um gato preto, que ao vê-la desceu do sofá e esfregou-se em suas pernas.

— Para com essa estupidez God, só por que você está nessa forma não precisa agir como um gato.

— Ora, Mirela. Você sabe que ele ainda não controla sua forma felina, apesar de ser um menino-gato.

Nesse mundo, muitas raças existiam além dos humanoides, os homens-gosma, homens e mulheres gato, os Tec, os cyborgs e os elementais. Os homens-gosma eram mais encontrados em outros planetas, tratava-se de seres que tinha o corpo gelatinoso; os homens e mulheres gatos eram seres que podiam assumir o corpo de seu felino a qualquer momento, são seres bem elegantes e muito inteligentes. Mas não mais que os Tec, eles possuem formas humanoides, apesar de serem praticamente imortais, seu desenvolvimento tecnológico possibilitou uma vida muito mais longa que a humana e eles foram responsáveis pela criação de cyborgs, esses são seres que vivem nos subúrbios das cidades, foram seres humanos que os Tec utilizaram para suas pesquisas e possuem partes dos corpos robóticas e por conta disso são muito renegados na sociedade. E os elementais, são seres que podem assumir qualquer forma e possuem poderes dos elementos que os regem desde seu nascimento. Em sua maioria o fogo são seres de forma humanoide de corpos vermelhos, a àgua são seres que vivem submersos nos grandes impérios marinhos, a terra são as árvores e plantas que conseguem se locomover e o ar são seres que vivem sobre as nuvens. Mirela invejava-os, pois eles eram capazes de viajar para qualquer lugar e ficavam mais próximos dos barcos brancos e consequentemente eram os maiores aliados do Imperador.

— Claro que ele consegue se tornar um menino é só puxar suas orelhinhas. – Ela deu um puxão.

God rosnou e tornou-se um menino com não mais de oito anos.

— Por que você sempre faz isso?

Ele tinha o corpo preto e felpudo, seus olhos eram amarelos e com um toque de inteligência maldosa.

— Por que você se aproveita dessa fofura de gato recém-nascido para entrar na casa dos outros e ser paparicado. Você devia aprender a se virar sozinho e não importunar os outros, ainda mais na minha casa.

Mirela bagunçou o cabelo de God com as mãos e deu um sorriso acolhedor.

— Vem, vamos pegar algo comer na padaria, senão a senhora Albertina vai expulsar nós dois daqui.

Albertina, mãe de Mirela, olhou pra cima com um sorriso no rosto e abanou a cabeça enquanto observava os dois saírem da casa.

As ruas estavam intensamente movimentadas por causa do festival dos dois sóis. Isso era um bom sinal para as Remendeiras. Por causa dessa festival no dia seguinte teriam muitos vestidos rasgados para serem remendados e espadas para entortar no campeonato de melhor lutador. Todo ano esse festival ocorria para celebrar o segundo sol criado pelo Imperador para saudar sua bondade com o mundo, presenteando os habitantes dele com um segundo sol. Apesar dele não prover a terra com nada, além de uma coisa brilhante para se olhar. Servia apenas para mostrar o poder e riqueza do Imperador para seus servos... e para os outros mundos principalmente.

— Você acha que realmente esse sol é só um negócio pra gente ficar olhado Mire? – perguntou God

Mirella andava olhando para cima, para as grandes embarcações, seus pensamentos foram tomados novamente pelas aventuras e mistérios que povoariam acima de sua cabeça. Poderia participar do campeonato, mesmo esse sendo aquele para eleger o melhor lutador daquela Galáxia, todos os outros setores entravam em competição, inclusive as remendeiras, apesar de Mirela e sua mãe nunca terem se inscrevido para o torneio, apesar de serem as primeiras a serem procuradas pelos soldados imperiais para consertar suas ferramentas destruídas.

— Oh! Não, acho que não. Deve ser lá que ele estoca as armas dele para algum plano de dominação galáctico – respondeu com um tom sarcástico.

God piscou não compreendendo o sarcasmo, os homens e mulheres gatos tinham essa dificuldade, por isso era importante ser claro com eles. Principalmente se fossem adultos, você não iria gostar de levar uma unhada.

— Eu também penso nisso.

Quando Mirela abriu a boca para explicar que havia sido uma brincadeira, um soldado do Imperador esbarrou dela. Ele tinha um longo manto branco e no seu peitoral da armadura tinha o símbolo de um barco voador. Ele virou para ela em tom ríspido.

— Olhe por onde anda, civil. Eu podia ter disparado em você num esbarrão desses.

Pensando rapidamente, Mirela adotou uma postura de impotência e disse forçando uma voz trêmula.

— O-ora meu se-senhor. Mil desculpas. Estava hipnotizada pelo enorme cargueiro que passava por aqui agora. Você sabe, nessa época do ano é o único dia que eles vem para cá.

— Navios não são coisas de mulheres da sua idade. Na realidade, não são coisas de mulheres. Continue seu caminho ou terei que lhe dar uma infração.

Aquilo cortou Mirela como navalha, como sempre um homem dizendo o que é ou não é algo do sexo feminino. Ficou possessa, mas engoliu seco, não queria trazer problemas.

— Claro. – disse secamente e saiu pisando rápido e firme.

God correu atrás dela

— Mire! Você não disse nada para ele?! Era só por que era um soldado?

— Você tem que aprender que certas brigas você não pode comprar.

Ao chegarem na padaria, Mirela já estava mais calma e deu um sorriso caloroso ao ver sua amiga cyborg Lírio. Se tratava de uma moça gorda e risonha, seus pais haviam-na perdido quando pequena para os Tecs que a raptaram e em seus experimentos ela acabara perdendo uma perna e um dos olhos, agora substituídos por peças de metal tecnológicas. Cortesia dos Tecs, depois de tanto sofrimento...

— Mire! Bem-vinda, vai querer o de sempre? – Ela estava atrás do balcão colocando pães em uma sacola e entregando para seus clientes da fila. Sua mãe estava no caixa e seu pai ficava nos fornos.

— Ah sim, o de sempre. – E se aproximou do balcão. – Você vai no festival hoje?

— Ora, Mire... Você sabe que nós, cyborgs, não podemos ir. Mais papai e mamãe vão, você vai também?

Mirela abaixou a voz e se aproximou mais do balcão.

— Vamos pro esconderijo, podemos ver lá de cima com os outros...

Lírio olhou para os lados e procurou o olhar aconselhador de sua mãe que sempre incentivava ela a sair de casa, apesar do medo de sua filha ser agredida simplesmente por ser uma cyborg.

— Acho que não Mire... Eu não estou muito disposta hoje.

— Sabia que você ia dizer isso! Então eu venho aqui na sua casa hoje a noite pra ficarmos a toa. Não estou a fim de assistir também, e depois não terei férias. A quantia de vestidos e espadas pra remendar vai ser in-fi-ni-to... – Ela disse essa última palavra sibilando uma canção. – Além do que preciso do seu conselho sobre o que usar quando eu for escolhida pelo Imperador para ser sua remedeira intergaláctica.

Mirela havia acabado de tomar aquela decisão, na realidade sua ansiedade a sabotou pois era apenas um plano mirabolante, mas sempre que os tinha contava para Lírio e a partir da reação da amiga via o quanto aquilo seria possível ou não.

— O que você está dizendo Mirela? – Lirio soltou uma gargalhada estridente – Entrar para aquela competição, você está maluca? Sua mãe nunca apoiaria isso... além do mais você é mulher, você sabe que para qualquer competição são aceito apenas homens.

Nisso Lirio estava certa, por mais que as remendeiras fossem profissões comumente femininas elas eram obrigatoriamente feita com homens, pois só estes seriam capazes de forjar armas e criar armaduras, criar selas entre outros apetrechos masculinos.

— Dona Albertina não precisa saber...

Repentinamente Mirela foi interrompida por uma voz familiar, mas extremamente longínqua. Ela virou com um sorriso enorme no rosto e olhos de espanto. Era Hau; Hau era um cão na forma humanoide, tinha pelagem loura e olhos brincalhões de jabuticaba, vestia um traje fino esportivo e tinha as orelhas como sempre caídas ao lado da face, não devia ter mais de 25 anos, tinha uma postura galante. Havia sido a muito tempo amigo de infância de Mirela, mas como ele provinha de uma família de bufões com o tempo foi afastando-se para cumprir seus deveres de classe e havia se mudado para outro mundo.

— Hau? É você mesmo?! Já fazem 15 anos!

— Oras, quem mais seria? Mirela, você está mais deslumbrante do que eu imaginava. – Ele deu um sorriso brincalhão e se aproximou do balcão, Bab crispou e voltou a forma gato e fugiu pela porta da frente da padaria. – Que menino...

— Ele é assim mesmo. Essa aqui é a Lirio, minha amiga.

Lírio estendeu a sacolinha de pães para Mirela e deu um sorriso amarelado para Hau, ela não gostava de bufões e infelizmente não havia chegado a conhecer Hau na infância, uma vez que ela havia chegado naquele mundo alguns meses depois de sua partida; Mirela estendeu uma moeda de cobre pra amiga e afirmou que voltaria mais tarde para conversarem, Lirio acenou com a cabeça e se dirigiu para atender outros clientes que não paravam de encarar aquele bufão em uma padaria das docas.

Ao saírem da loja, a curiosidade de Hau parecia ser enorme.

— O que aconteceu com ela?

— Em uma palavra: Tecs. Mas por que a pegaram para experimentos eu não consegui descobrir até hoje.

Hau manteve-se quieto e pensativo, depois de algum momento em silencio seguindo Mirela pelo caminho da casa, parou contemplativo observando o mar com as mãos nas costas.

— Não pude deixar de ouvir o que contou para sua amiga. Você quer se inscrever para o torneio? Lhe garanto que as cerimonias de vitórias para os melhores servidores do Imperador não são nada interessantes.

— Não quero pela cerimonia, Hau. E você sabe disso. – Ela encarou ele dando um sorriso de canto de boca.

Hau olhou de soslaio e abriu um sorriso irônico.

— Como sempre astuta. Eu sei disso e sei toda sua historia. Tive te estudando durante todos esses anos Mirela. – Ele disse essa frase de forma séria e fitando-a nos olhos – Era minha lição como bufão, estudar todas as figuras potencialmente perigosas existentes no mundo das docas.

— Potencialmente perigosas? – Mirela riu.

— Mantive o máximo de sigilo possível sobre o caso do seu pai. O fato de vocês terem uma loja remendeira sem qualquer presença masculina levanta questões, claramente que seus vizinhos não dão a mínima, são putas ou ladrões, cada um com suas próprias preocupações. O que ganhariam denunciando para o Imperio que não dá nada para eles. Mas tal ação gera severas punições em mãos erradas Miri.

— Não tenho medo, as inspeções já passaram inúmeras vezes em casa. Todos sabem que sou aprendiz de ferreiro e isso não é crime algum. Além do que todos os soldados do Imperio mandam suas armas para cá, eles não importam quem eu seja, só querem ver a arma deles arrumada e pronta. E confio em você para manter o sigilo dessa sua espionagem ultra-secreta Hau, ou não deveria?

— Pode ficar tranquila Miri. Não sai do conforto do meu palácio para te chantagear ou denunciar, se isso fosse o caso teria mandado outro alguém, mas por que eu de fato posso fazer você se inscrever nessa competição sem criar problemas.

Mirela olhou atentamente Hau na procura de qualquer ponta de brincadeira ou de alguma ação subliminar que estava ali, mas nada encontrou.

— Como?

— Eu componho a mesa de jurados com mais duas pessoas, um Tec e um humanoide. Eu representando os bufões, o Tec por questões politicas e diplomáticas e o humanoide por questões jurídicas e militares. Posso votar a favor de sua participação, o Imperador se abstem de participar das eliminatórias dos grupos dos servidores, estando presente apenas na final. Para eu conseguir os outros votos terei certo trabalho, mas nada impossível, preciso que apenas um dele ceda.

Mirela tentou não transparecer o estado de incredulidade que se encontrava, mas mesmo assim não abaixou a guarda.

— Para que tanto esforço em me colocar la dentro Hau? – Disse ela em tom cético.

— Pela nossa amizade... E por que eu quero que você me ajude em uma coisa.

Notas finais
Em andamento...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.