Sem segredos
1 O segredo
— Alguém pode entrar a qualquer momento – ela falou, afastando a mão dele que subia por dentro de sua blusa – Sua mãe... – perdeu momentaneamente a linha de pensamento ao sentir a respiração quente dele em sua orelha, a língua que percorria seu pescoço.
— Quer mesmo que eu me afaste...?
— Sim... – notou que ele parou de toca-la, mesmo que ainda próximo – Não, não é isso! Você me entende.
— Não, não entendo – afastou-se completamente, passando a mão pelo rosto e depois cruzando os braços. Ela virou-se, olhando para o namorado.
— Não teremos essa conversa aqui, principalmente agora.
— E quando teremos? – perguntou, sério.
— Tudo bem por aqui? – a terceira voz fez com que Hermione, voltasse a tarefa de enfeitiçar pratos para serem lavados.
— Sim, Molly. Já estou terminando...
— Não precisava, Hermione, mas obrigada. Charles, seus irmãos querem saber se você vai jogar quadribol.
— Sim, eu vou, mãe.
— Vá para o jardim, querida. Está fazendo um lindo dia – quando se viu sozinha, Hermione encarou os pratos se lavando, sem querer pensar na decisão de contar para todos sobre seu envolvimento com Charles.
Enquanto isso, o ruivo saiu da Toca, indo em direção ao campo improvisado montado tantos anos antes. Pegou sua vassoura e, quando impulsionou para voar, foi impedido pela voz do seu irmão:
— O que houve?
— Nada – se para Hermione era difícil esconder qualquer coisa de Ron e Harry, ele sentia o mesmo por esconder aquele relacionamento de Bill.
— Nada? Parece que você está prestes a lançar uma azaração em alguém.
Aquilo era seu real sentimento, por isso que apenas voou, observando os outros irmãos treinando um pouco mais para o alto.
— Charles – rapidamente Bill estava ao seu lado.
— Agora não.
Hermione viu quando ele levantou voo, afastando-se do irmão mais velho e sabia o que significava. Quando o jogo começou, resolveu juntar suas coisas, deu qualquer desculpa para Molly e Arthur, depois, desaparatou.
O dia passou lentamente, imersa em lembranças...
— Suas coisas estão prontas, Mione?
— Sim, Gina. Vamos? – ela falou, guardando um livro em sua bolsa.
— Hermione, o ministério sobrevive sem você. São apenas alguns dias de férias na Romênia. Sol, praia, alguns drinques...
— Eu queria apenas...
— Mione, — Gina aproximou-se da amiga, tocando sua mão – precisamos desse respiro.
A advogada sabia que sua amiga estava certa, precisava daquele descanso. Todos ainda encontravam um jeito de superar a guerra, as mortes, a destruição.
Todos os Weasley’s sobreviveram, contudo cada um trazia consigo alguma marca. Colocou sua bolsa ao redor do corpo e seguiu Gina pelas escadas da Toca.
Quando chegaram ao hotel, logo foram recebidos por Charlie que abraçou a todos com verdadeira saudade, demorando mais em Bill, onde conversaram em voz baixa.
— Eu preciso voltar para a reserva...
— Charles Weasley! Quando combinamos que viríamos...
— Mãe, mamãe do meu coração – ele falou sorrindo e voltou a abraçar sua mãe lateralmente – Vou apenas encerrar meu expediente e, a partir de hoje a noite, sou todinho de vocês.
Hermione deveria estar sonhando ou extremamente cansada por achar que ele disse as últimas palavras olhando para si, porém sua amiga segurou o riso, pois havia percebido o que acontecera. Ele despediu-se de todos e foi embora.
As chaves foram entregues, Molly e Artur dirigiram-se para o quarto, Fred e Jorge começaram a andar ao lado de Harry.
— Querido cunhado, herói...
— do mundo bruxo e trouxa...
— Parem vocês dois – Gina intrometeu-se, puxando o noivo para si – Como se não soubesse que já dormimos juntos – Harry não falou nada e ambos entraram no quarto.
— Nem comece – Hermione falou, levantando a mão.
— Nós já namoramos! Não acredito que precisarei dividir o quarto com eles! – Ron falou, indignado.
— Sim, dividirá o quarto com seus irmãos – afirmou e seguiu pelo corredor, indo até o quarto que estava localizado no andar superior, feliz por ter um quarto só para si.
Não pôde evitar um sorriso no rosto ao revisitar as férias que definitivamente fizera sua vida tomar um rumo que ela nunca planejara: relacionar-se com Charles Weasley.
Ouviu-o chegando, pois ele sabia ser bem barulhento quando queria, diferente de outras vezes. Entrou no quarto e ficou em silêncio, esperando que ela falasse.
— Sabe que... – começou a falar quando os lábios dele afastaram-se dos seus, descendo pelo pescoço.
— Pode parecer loucura, talvez seja...
— Charles – ele afastou-se, colocando as mãos no bolso.
— Como sua família vai reagir? Sei que tudo começou na Romênia, mas já faz meses que estamos nos encontrando escondidos.
— Eu quero contar para eles – falou sem esconder a irritação – Você não quer – afirmou, indo até o pequeno bar que havia na casa dela e servindo-se de uísque.
— Não é tão simples. O que acontecerá se terminarmos? Como serão os encontros em família? Como sua mãe vai reagir ao saber que estou com outro filho dela?
— Não é porque errou na primeira escolha que está errando agora – ela não conseguiu segurar um pequeno sorriso – Ou você ainda sente algo por Ron?
— Deixa de falar merda, Charles – Hermione foi até ele e pegou o copo de sua mão – Sabe que não é nada disso.
— Então é o que?
— Isso... entre a gente... Se não passar de....
— Sexo? – Hermione notou seu erro ao encara-lo nos olhos – Acha mesmo isso de mim, Hermione? – balançou a cabeça, afastando-se.
— Não acho isso de você – foi até ele, fazendo com que virasse para si.
— Sua família também é minha e não quero magoá-los.
Charles sorriu, puxando-a para um abraço e murmurou:
— Se as coisas não derem certo entre nós, daremos um jeito disso não respingar na família.
— Desculpe ter saído enquanto estava no jogo – virou-se para ele, depois levantou-se rapidamente – Você foi ferido!
— Não é nada, já tive ferimentos piores na reserva – a atenção de Hermione estava na testa dele – Balaço?
— Eu me distraí e não vi o balaço lançado por Jorge. Vamos beber alguma coisa?
— Você está me convidando para sair? – estreitou levemente os olhos, analisando-o e procurando qualquer traço de logro.
— Meus pais estão em uma excursão, minha irmã e Harry não saem do quarto, assim como Bill e Fleur, Percy voltou ao ministério e meus outros irmãos... Bem... – Hermione fitou do outro lado da piscina onde os três ruivos conversavam animadamente com um grupo de mulheres.
— O que está tentando, Charles Weasley?
— Apenas sair com você, Hermione... Digamos que esses dias que passamos juntos e nos conhecemos um pouco mais... Eu... Bem... Porra, Hermione – ela retirou os óculos escuros. Encararam-se – Almoce comigo, um drinque... Assim não precisa ficar aqui, sozinha.
A expressão dela mudou na hora e Charles xingou-se quando a viu se levantando e andando rapidamente. Foi atrás dela, sem saber que ela podia andar tão rápido.
— Se você quer saber – ela disse virando-se – Eu estou sozinha porque quero, já tive convites para sair. Inclusive do seu amigo.
— Do que está falando? – o pescoço dele ficou levemente rubro.
— Você é igual Ronald, achando que não posso ser notada e...
— De que amigo está falando? – o ruivo perguntou novamente.
— Petros, mas não importa – Charles segurou-a antes que fosse embora novamente.
— Eu me expressei errado. Desculpe – pigarreou antes de continuar, sua mão ainda no braço dela – Quis dizer que quero sair com você, quero sua companhia, só sua, nessa tarde. Sem minha família.
Hermione não sustentou o olhar dele, ficaram em silêncio. Soltou-se da mão que a segurava lentamente.
— Desculpe – repetiu.
— Que horas?
Sentou-se enquanto o namorado andava de um lado para o outro, organizando seu pensamento. O copo de uísque na mão, esvaziando lentamente.
— Já combinamos que quando a gente começar a se afastar, vamos conversar. Somos maduros o suficiente para terminarmos de forma respeitosa.
— O que está dizendo? – Hermione sentiu o coração bater de forma descompassada.
— Não quero terminar. Mas combinamos que se a família se tornasse um peso para nossa relação, agiríamos. Estou relembrando nosso acordo – ele bebeu um gole de seu uísque e parou de andar, sentando ao lado dela – Eu nunca escondi nada do Bill.
— Eu sei o que estou te pedindo... Eu tenho... Eu tenho medo.
— Charlie... Esse pôr-do-sol é o mais lindo que já vi! – Hermione falou, sentada no deck de um bar à beira mar.
— É maravilhoso. Não canso de ver. O que houve? – perguntou, quando ela começou a rir.
— Charles Weasley... Acha que não conheci homens como você? – as palavras dela fizeram com que o ruivo bebesse de um gole só o que restava da bebida, que desceu torta pela garganta, pesando dentro de si.
— Imagino que sim, Hermione. Quis apenas ser gentil trazendo você aqui – viu que a mulher se inclinou sobre a mesa.
— Ser gentil para que eu aceite conhecer sua cama?
— Você se sentiria ofendida se eu dissesse que sim? Você faz parte da minha família há anos, namorou Rony, frequenta a Toca mais do que eu. É uma mulher inteligente, uma heroína de guerra. Não é difícil que eu sinta atração por você...
— O difícil é...
— Dizer diretamente que quero te levar para minha cama.
— O modo para eu provar que estou mudado, que isso é sério é contar para minha família. Simples. Amanhã completa um ano que estamos juntos e não estou falando sobre o começo, onde... Nós dois nos procurávamos por sexo e não havia nada de errado nisso.
— Claro que não havia nada de errado! Tudo mudou... Tudo começou quando perguntou sobre meus pesadelos – confessou.
— Do que está falando?
— Como estão todos?
— Estão bem. Sua mãe não para de falar do casamento de Harry e Gina. Harry também não para de falar, está reformando a casa em Godric´s Hollow. Seu pai está cada vez mais respeitado no ministério, tornou-se o herói particular de Percy.
— E você? – o dedo dela que fazia traços invisíveis em sua barriga parou por alguns instantes – Ainda com pesadelos?
— Estão espaçando...
— Hermione... – o ruivo mudou de posição, olhando diretamente para ela.
— É apenas medo de algo que não existe mais, Charlie. Logo eles somem...
Charles beijou-a com a paixão que ainda não conseguia declarar. Viu alguns episódios desses pesadelos, em que ela acordava gritando, o corpo tenso, lágrimas.
Hermione entregou-se ao beijo sem coragem de dizer que depois que começaram a compartilhar a cama com frequência, quando se sentiu realmente segura com ele, quando se sentiu entregue, quando estava nos braços dele é que não tinha pesadelos.
— Eu... É algo bobo, Charles... Eu... – Hermione sempre fora forte, em suas decisões, como o leu naquela tarde na Romênia, em como continuava lutando pelo direito de seres desfavorecidos, em como sorria de forma fácil... Algo a estava deixando frágil, sentia-se culpada, porém, ao mesmo tempo, queria refazer a imagem que criara de si.
— Não quero levar essa nossa vida em segredo, esgueirando-se, me escondendo quando alguém aparece, escutando as insinuações de Petros. Fingindo que não temos nada e que não sinto nada enquanto os amigos dos meus irmãos te convidam para sair. Quando Krum dança com você nas festas de Fleur.
— Eu te entendo, Charles. Quando estou com você, não tenho pesadelos – explicou. Charles sorriu e pegou a mão dela entre as suas. Podia ser tão simples, só que não era assim.
— Tem medo do quê? – azuis nos castanhos. Compreendeu o que ela pensava – Aquela conversa ainda? Sério? Que merda, Hermione! – ele levantou-se rapidamente.
— Desculpe – levantou-se também.
Charlie colocou o copo vazio sobre a mesa central, depois beijou-a. Tentava transmitir naquele gesto tudo que sentia e não dizia.
— Foi um assunto estúpido, pedi para esquecer – sussurrou, o rosto dela entre suas mãos.
— Eu tento, mas... Char... Eu nunca pensei, nunca imaginei... – meneou a cabeça, querendo afastar os pensamentos.
— Escute – falou sério – Durante uma época eu tive vários relacionamentos curtos e nunca pensei em encontrar alguém para a vida toda. Petros trouxe o assunto de forma proposital e sabe disso.
— Você estava nesses relacionamentos pouco antes da gente começar sair, Charles! Eu não estou pedindo que se case comigo amanhã, mas não posso revelar isso para todos se dentro de algum tempo você pode...
Romênia era o local onde podiam sair sem se esconder e o simples ato de andar com dedos entrelaçados, ou o rápido beijo enquanto caminhavam, a interrupção na rua um deles contra a parede e o beijo longo.
Sentavam-se em um bar, conversavam dividindo porção de queijos e garrafas de vinho.
Naquela noite sairiam com os colegas da reserva em que Charlie trabalhava e, ao chegarem, encontraram o grupo conversando ruidosamente no canto do bar. Hermione sentiu-se levemente tímida, afinal, além de Petros, não conhecia ninguém por ali.
— Boa noite!
— Charles! – um bruxo alto, forte, com feições alegres e o rosto marcado por pequenas queimaduras levantou-se – Sente-se aqui! Não acredito que...
— Cale-se, Dominik! Essa é Hermione Granger, amiga da minha família há muitos anos e... – ele ouviu o comentário baixo de Petros, porém resolveu ignorar esperando que tenha passado despercebido por Hermione. Aparentemente sim – Hermione trabalha na defesa de criaturas mágicas pelo ministério inglês.
— Seja bem-vinda, Hermione – Dominik disse, cedendo um lugar para que a advogada se sentasse. Charles puxou uma cadeira para si, sua mão na coxa dela. Duas canecas com cerveja foram servidas por uma garçonete que, ao deixa-las sobre a mesa, passou levemente a mão pelas costas de Charles e se afastou.
Hermione sentiu o coração pular dentro de si, ao mesmo tempo, sabia que não poderia falar nada ou cobrar nada. Era apenas sexo, no final das contas. Por outro lado, estavam juntos naquele momento. Tentou afastar sua perna, para interromper o toque, porém Charles não deixou. Inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:
— Não tem mais nada entre Lana e eu.
Não respondeu, apenas pegou sua caneca e sentiu a bebida descer arranhando pelas palavras não ditas. Do outro lado da mesa, Petros acompanhou toda a cena e sorria de lado, de forma irônica. O que não passou despercebido pelo ruivo, que apenas encarou o colega de trabalho.
Os dois começaram juntos na reserva, ainda jovens e recém-saídos da escola. Charles não entendia uma palavra de romeno, porém Petros tornou-se um bom amigo, ensinando-lhe a língua. Vivendo em um país estrangeiro, rapidamente Charles aprendeu a nova língua.
O ruivo tinha algumas impressões negativas sobre Petros, no entanto, achava que era isso: impressões. Saíam juntos, paqueravam, ficavam com diferentes mulheres todas as semanas. Com o trabalho como treinador de dragões, o corpo de Charlie foi mudando: o jovem magro apanhador da Grifinória, foi tornando-se um homem com músculos que não perdeu sua agilidade na vassoura, principalmente quando precisavam capturar algum dragão.
Charles chamou a atenção dos superiores, por sua destreza em voo e uso da varinha no ar. Era inteligente, carismático, com ideias inovadoras em relação ao cuidado com os dragões. Ao mesmo tempo, o ruivo percebeu que suas impressões sobre Petros, eram fatos concretos. Seu amigo era ganancioso, competitivo sem medir as consequências para alcançar o que queria.
A primeira ruptura na amizade se deu por conta de uma mulher que Charles namorou, mas que Petros gostava. Obviamente não foi proposital, mas aconteceu. Ficaram sem se falar por semanas, até que voltaram a sair juntos quando Charles e Mirela terminaram o breve relacionamento.
O ruivo, então, ficou mais atento ao comportamento de Petros e notou que, na verdade, Petros fingia interesse na mulher que Charles queria conquistar. Decidiu, dessa forma, afastar-se do colega.
O rompimento final deu-se quando Charles recebeu uma promoção: Petros entrou em seu chalé levemente embriago, começou a xingar e quebrar as coisas do grifinório. Outros bruxos apareceram e tentaram contê-lo. Cego pela inveja, desferiu um soco em Charles, que revidou. Depois disso, os dois apenas estavam juntos no trabalho ou quando os treinadores saíam para beber. Tentava não ir quando o outro estava presente, outras vezes era inevitável.
Como aquela fatídica noite.
— Eu posso terminar com você? Quebrar seu coração? – Charles afastou-se, nervoso. Hermione abaixou a cabeça, tentando segurar as lágrimas – Acha mesmo que eu seria capaz disso se estou querendo revelar para a minha família?
— Eu estou...
— Eu te amo – falou, interrompendo-a e pegando-a de surpresa – Pedi para esquecer a conversa de Petros e errei nisso. Não esqueça, mas lembre-se que não sou mais aquela pessoa. Parece que você precisa de um tempo... Estarei na casa do Bill.
Hermione ficou parada, vendo-o desaparecer com um floreio. Suas mãos tremiam e encheu o copo de uísque que estava sobre a mesa. Sorveu o líquido enquanto algumas lágrimas escorriam pelo rosto.
Hermione começou a conversar com Dominik e Mirela sobre animais e criaturas fantásticas do mundo bruxo. Era um grupo animado, divertido e inteligente que fez com que se sentisse bem e acolhida. A única pessoa que não participava era Petros, que apenas bebia sua cerveja acompanhando tudo calado até que...
— Uma pergunta – a voz dele fez com que a conversa cessasse. Charles retesou seu corpo e trocou um rápido olhar com Dominik, que balançou negativamente a cabeça mandando uma mensagem “não faça nada” – Você e Charlie estão juntos desde as férias que a família dele veio? Isso tem o que... Uns cinco meses?
— Aonde quer chegar com essa pergunta, Petros?
— Qual o problema dessa pergunta, Char? – Hermione indagou. O ruivo cruzou os braços, com receio de pegar sua varinha ou resolver com o punho mesmo – Sim, — virou-se para o homem do outro lado da mesa – estamos juntos desde aquela viagem.
— Aposto que a família dele não sabe sobre vocês.
— Que tal encerrarmos a noite? – Dominik acenou para o garçom trazer a conta, enquanto Mirela levantou-se e foi até Petros.
— Vamos, cara. Hora de voltar para a reserva.
— Cale a boca – Charles pediu, descruzando os braços e alcançando sua varinha. Sabia o que o outro homem diria, algo que estava tentando contar para Hermione há semanas, porém...
— A família dele é praticamente minha família e foi uma decisão mútua não contar.
— Hermione, vamos, precisamos conversar – Charles levantou, guardou a varinha e jogou algumas moedas sobre a mesa. A atenção da mulher, porém, estava em Petros.
— Sabia que duas semanas antes de levar você para cama, ele estava transando com a Lana nos fundos desse bar?
Hermione ouviu um zumbido, como se tudo se dissipasse. Saiu do bar rapidamente, ignorando os chamados de Charlie. Seguiu sem rumo, até senti-lo pegar em seu cotovelo.
— Espera! Hermione...
— Não precisa explicar nada. É só sexo, Charles. Foi o que combinamos, certo? Sem compromisso, apenas sexo – soltou-se do toque dele – Esqueci que tenho um documento para revisar e preciso voltar para Londres.
— Você passaria o fim de semana aqui... Vamos para minha casa e conversamos. Eu ia te contar sobre Lana.
— Não importa, Charles. Não temos exclusividade e foi antes de sairmos. Desculpe minha reação, porém realmente preciso ir.
Charles colocou a mão dentro do bolso da calça, o coração sentindo algo que nunca sentiu antes. Sabia que ela tentava não chorar.
— Vá amanhã de manhã. Você bebeu, suas coisas estão em casa.
Hermione mordeu o interior da bochecha, olhou para cima e meneou a cabeça de um lado para o outro. Pegou sua varinha e aparatou.
Charles voltou para casa e encontrou com Mirela, encostada na porta.
— Ela foi embora? Por que não vai atrás de Hermione?
— Combinamos que seria só sexo. Eu ia falar sobre Lana, mas não consegui. Não sei porque eu...
— Você gosta dela. Não há problema nenhum em assumir que está apaixonado.
— Mirela, não é isso. Ela é amiga da família, namorou meu irmão, é madrinha da minha irmã. Tantas coisas.
— E, mesmo assim, está completamente apaixonado. Amanhã vá atrás dela.
Só que o ruivo não teve coragem de ver Hermione, nem de saber o que pensava sobre ele.
— Charles? Já passa da meia-noite. O que faz aqui? – Bill perguntou ao ver o irmão na porta de casa.
— Eu estou com Hermione há mais de um ano e acho que estraguei tudo – o irmão mais velho ficou alguns instantes parado, absorvendo aquela informação.
— Entre – Fleur apareceu na sala, a expressão cansada – É o Charlie, amor. Continue dormindo – deu um breve beijo nela que seguiu para o quarto. Serviu uma dose de uísque para ambos – Conte tudo.
— Não está bravo porque não te contei?
— Char, deve ter um bom motivo e até imagino qual seja. Quando parou de contar sobre suas aventuras sexuais, imaginei que estivesse com alguém. Se não me contou – levantou os ombros – É porque precisava resolver isso com você mesmo. Agora, — brindaram rapidamente – conte tudo.
Charles apareceu em Londres apenas três semanas depois. Enviou algumas corujas para Hermione e nenhuma foi respondida. Sentia-se culpado, sentia vergonha e, principalmente, sentia falta dela.
Chegou no Chalé das Conchas para uma pequena festa de Fleur sem nenhum grande motivo, apenas reunir família e amigos. Abraçou o irmão com vontade de contar para ele tudo que o atormentava, mas calou-se.
— Todos vêm?
— Harry e Gina tinham outro compromisso, os gêmeos chegam mais tarde, Percy está no ministério – ambos sorriram – Ron está viajando com os Cannons – Bill cumprimentou rapidamente um amigo de Fleur, enquanto seu irmão esperava que ele falasse sobre Hermione. Sabia que se perguntasse levantaria suspeitas.
— Gostei da ideia de fazerem na praia. Espero que ninguém invente de nadar nessa escuridão – os dois riram.
— Está sabendo sobre Hermione?
— O que sobre Hermione? – Charlie indagou.
— Fleur disse que está saindo com Krum. Ele sempre a convida, Hermione não aceita... Parece que dessa vez aceitou e os dois estão vindo juntos. Olha lá – Bill foi receber os dois convidados, enquanto Charles ficou parado, o coração descompassado. Seguiu o irmão mais velho, controlando a vontade de azarar o apanhador búlgaro.
— Boa noite – Bill cumprimentou de forma alegre e descontraída. O sorriso de Hermione sumiu ao ver Charles chegar, porém cumprimentaram-se.
Durante algumas horas, Charles não conseguiu ficar a sós com Hermione. Krum estava o tempo todo ao lado e o ciúme estava o devorando por dentro. Até que o bruxo afastou-se, em direção ao banheiro que ficava dentro da casa.
— Não temos nada para conversar – Hermione adiantou-se – Começou e terminou. Ninguém soube.
— Por favor, venha comigo – ela bebeu um pouco do vinho, até acenar positivamente com a cabeça e o acompanhar até um lugar mais afastado – Eu fui um covarde e não tive coragem de te contar sobre a Lana. O que eu tinha com ela era apenas sexo.
— Não é diferente do que tínhamos. Só que chega – Hermione virou-se, Charlie deu dois passos e ficou na frente dela.
— É diferente, Hermione. Quero mais do que sexo. Estou dizendo que quero acordar ao seu lado, quero te abraçar até seus pesadelos irem embora, quero ver outros pôr-do-sol, quero andar de mãos entrelaçadas pelas ruas, quero ser seu acompanhante em festas.
— Charlie...
— Está namorando com o Krum? – Hermione negou com a cabeça, sem palavras perante àquela declaração – Então namore comigo. Por favor, estou pedindo uma chance.
Hermione jogou-se na cama, pensando em tudo que vivera com Charles. O medo não era dele abandoná-la, era dela mesma se entregar naquela relação. No dia seguinte, domingo, teria outro almoço na Toca e não sabia o que faria quando o visse.
Abriu a gaveta da mesinha ao lado da sua cama e puxou de lá uma foto deles na Romênia. Sorriu perante a lembrança dos dois em uma praia trouxa. Virou para o lado, deitando no travesseiro dele e sentindo o cheiro de Charles. Sem perceber, caiu no sono.
Longe dali, Charles encarava o teto, sem conseguir dormir, contudo, sentia-se leve por ter compartilhado com o irmão que trouxe uma visão de fora, equilibrando o que Charlie sentia e também Hermione. Quando os primeiros raios de sol entraram no quarto, o treinador de dragões levantou-se e foi andar pela orla da praia.
Aquele hábito era recente, mas o ajudava a conectar consigo mesmo e, consequentemente organizar seu pensamento. Quando voltou para Toca, todos tomavam café da manhã. Comeu algo em silêncio e foi tomar um banho. Encontrou Bill na sala, esperando-o.
— Você não dormiu – o mais velho afirmou – Descanse um pouco.
— Não consigo. Vou conversar com Hermione antes de irmos para Toca.
— Char, vai dar tudo certo. Eu nunca poderia imaginar, no entanto, agora... Faz todo sentido – abraçaram-se e Charlie aparatou.
Ao chegar na casa da Hermione encontrou-a vazia, procurou pela casa, só que não a encontrou. Viu sobre a cama a foto dos dois juntos, lembrando-se da viagem que fizeram para um lugar que poderiam ficar à vontade. Sorriu.
Quando percebeu que Hermione não voltaria, respirou fundo e foi para a Toca. Seus irmãos já se organizavam para uma partida de quadribol, porém sabia que levaria outro balaço se entrasse em campo.
— Filho, está tudo bem? – a voz de Arthur fez com que Charles olhasse para o lado.
— Sim, pai. Hermione chegou?
— Hermione? – estranhou a pergunta, só que não questionou o filho – Ainda não.
— Vou entrar um pouco e ver se mamãe precisa de alguma ajuda.
— Filho, está tudo bem? Parece que não dormiu nada essa noite – Arthur falou, preocupado.
— Não dormi mesmo, pai. Talvez eu deite um pouco no meu antigo quarto.
— Vá até lá, então. Eu e seus irmãos podemos ajudar sua mãe.
O treinador de dragões subiu os degraus sentindo sono, porém com o peso de tudo que acontecera nas últimas horas não conseguia descansar.
— Hermione? – perguntou assim que abriu a porta e a encontrou olhando pela janela.
— Eu cheguei mais cedo e precisava ficar sozinha um pouco. Está abatido. Não conseguiu dormir?
— Não e também não quero te atrapalhar. Fique aqui e vou para o quarto dos gêmeos – Charlie virou-se para sair quando ouviu a voz dela.
— Char, eu contei sobre nós para seus pais – o homem voltou a fita-la, um pequeno sorriso nos lábios. Seu pai havia o enganado muito bem — Eu tive medo... Tenho medo do que sinto, no entanto não é justo jogar tudo em cima de você. Estamos juntos há mais de um ano e nunca revelamos nossos verdadeiros sentimentos, não até ontem.
— Não até achar que eu te perderia. Desculpe por isso, Hermione – deu dois passos na direção dela que foi até ele. O ruivo a envolveu em um abraço, depois olharam-se – Eu te amo.
— Eu também... Eu também te amo – beijaram-se e, depois de alguns minutos, Charlie falou:
— Preciso dormir... deite comigo só até eu dormir.
Os dois se deitaram e, ao sentir Hermione sobre seu peito, Charles caiu no sono. Um pequeno sorriso em seus lábios.
Notas finais
N.A.: Estou devendo atualizar algumas fics, mas nesse final de semestre e começo de férias estou dando chance para algumas fics começadas e não terminadas. Falta apenas um epílogo rápido. Obrigada mais uma vez Fhany!!! Bjs bjs
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