Há dias que Ryoko e Ayeka andavam de muito mau humor. O motivo? Tenchi. Não, não era a eterna disputa delas por ele. Antes fosse...

Ele estava saindo com uma garota “normal”. A garota em questão era bonita, simpática e extremamente educada. Como uma típica japonesa, possuía pele alva, olhos negros, assim como os cabelos, que também eram lisos e tinham um corte perfeito em Chanel. Era um pouco mais baixa do que Tenchi, o qual conversava com ela a respeito de assuntos triviais após sair do colégio.

—... Pois é, Sakura – ele disse. – O que acha de irmos a um parque no fim de semana? Depois a gente poderia ficar a sós curtindo a lua.

— Eu... Eu não posso...! – Sakura corou constrangida.

— Por quê?

— Vai ser muito tarde, e... Tenchi, eu nunca te contei, mas eu só tenho doze anos...!

— Quê?! – ele ficou surpreso.

— Desculpa!

Sakura saiu correndo tal uma criança assustada, deixando Tenchi totalmente sem reação. Como é que ele não percebera... Como ele não percebera isso antes?!

Como ele não percebera que estava flertando com uma criança?!

Cabisbaixo, o jovem Masaki seguiu seu caminho para casa, desolado por ter uma certeza. Definitivamente, ele era mesmo um desastre para assuntos amorosos...

*

Assim que transpôs o portal em forma de tori, Tenchi percorreu sem pressa o caminho até sua casa. Sua expressão desiludida chamou a atenção de Ryoko, que surgiu do nada e apareceu à frente do jovem, para tentar agarrá-lo:

— Tenchi!! Como é bom te ver! Cadê aquela garota? – sua expressão se tornou agressiva na última frase.

Tenchi suspirou desanimado, e nisso Ayeka se aproximou e questionou:

— Posso saber o que você fez com o Tenchi?

— Eu não fiz nada! Ele já chegou assim!

— Tem certeza? Essa sua cara feia já desanima qualquer um!

— O que está dizendo, sua princesa almofadinha? – Ryoko agarrou a gola da princesa de Jurai.

— O que você ouviu, sua pirata espacial metida!

As duas mulheres se encararam como se estivessem prestes a lutar num octógono de UFC. A encarada foi bem tensa, com os olhos das duas soltando muitas faíscas. Tenchi preferiu prosseguir seu trajeto, enquanto dava atenção ao mascote meio-gato, meio-coelho com grandes orelhas.

— Ah, olá, Ryo-oh-ki. – pegou o bichinho no colo, que miou como resposta. – Com certeza, você está melhor do que eu.

As duas rivais olharam para ele e, depois, se entreolharam. Tinha algo errado com Tenchi, e não era culpa de Ryoko!

*

Após o jantar, Mihoshi e Kiyone ligaram a TV pra assistir a um dorama, enquanto Tenchi terminava de lavar a louça. Era um pretexto para que ele se distraísse e esquecesse a desilusão amorosa que tivera no dia. Sasami o ajudava a secar a louça e perguntou:

— Tenchi, você teve algum problema hoje?

— Por que a pergunta?

— Bom – a irmã caçula de Ayeka respondeu. – É que você está bem desanimado.

— Nada de mais. – ele suspirou. – Apenas tive mais um fracasso.

— Tem a ver com a tal Sakura?

— Tem. Ela me disse que era apenas uma criança e saiu correndo. Eu gostaria de esquecer isso.

— Isso não será problema! – Tenchi ouviu outra voz se intrometendo na conversa. – Eu tenho a solução perfeita pra você!

— Washu? – ele olhou para trás e viu a garota de cabelos avermelhados.

— Se você quer apagar esse acontecimento, eu tenho uma invenção que vai te ajudar, Tenchi!

— E o que seria?

— Siga-me!

Washu foi à frente de Tenchi até a porta que se situava embaixo da escada. Abriu-a e convidou o jovem a entrar. Logo atrás, estavam também Sasami, Ryoko, Ayeka, Kiyone e Mihoshi, todos curiosos com a nova ideia que a cientista havia mencionado. Tratava-se de uma cadeira, à qual estava preso um capacete, pendurado em uma espécie de braço móvel.

O grupo se aproximou e, com cara de desdém, Ryoko perguntou:

— O que é esse trambolho, Washu?

— Isto – ela lançou um olhar triunfante para a mulher de cabelo prateado. – É um A. M. O. R.

— A. M. O. R.?

— Apagador de Memória Ordinária e Repugnante.

— Como é que esse treco funciona? – Ayeka perguntou desconfiada.

— Muito simples! O Tenchi se senta nesta cadeira e eu coloco nele este capacete. – Washu respondeu enquanto colocava o jovem em sua invenção. – Isto vai emitir impulsos magnéticos que vão entrar no cérebro dele através de eletrodos automaticamente implantados pelo capacete, apagando todas as memórias inconvenientes que desejar que eu configure. Basta eu fazer alguns ajustes e depois ativar o botão vermelho.

— Washu, você é um gênio! – disse a boneca Washu A, que surgiu em seu ombro direito.

— Você é um gênio, Washu! – repetiu a boneca Washu B, que apareceu no outro ombro.

— Este aqui? – Mihoshi, curiosa, perguntou e já foi apertando o dito botão.

Não deu tempo para mais nada, pois o invento começou a funcionar e a fiação elétrica, a pipocar, até explodir. Como o laboratório de Washu era em outra dimensão, não danificou a casa. A fumaça se dissipou e revelou todos cheios de fuligem e tossindo convulsivamente. Em seguida, todos olharam de forma reprovadora para Mihoshi.

A loira, com seus olhos azuis arregalados, apenas disse de forma inocente:

— Desculpem...

Ryoko e Ayeka quase se estapearam para ver quem alcançava a pobre “cobaia”, caída no chão. Tenchi recobrou os sentidos e, completamente confuso, olhou para tudo ao seu redor e perguntou:

— Onde estou... Quem sou eu...?!

— Tenchi!!— as duas gritaram juntas e o levantaram, ainda meio aturdido.

Levaram-no para fora do laboratório e o sentaram no sofá, a fim de ele se refazer da explosão da qual fora vítima. Ele sabia pelo menos que se chamava Tenchi, mas... Onde ele estava? Quem eram aquelas garotas? Por que ele estava coberto de fuligem?

E o mais importante... Por que ele não se lembrava de nada?!

— Quem são vocês? – ele perguntou, olhando para as duas à sua frente.

Ryoko se adiantou e, tentando se jogar nos braços dele, respondeu:

— Ora, Tenchi... Sou eu, a sua namorada, a Ryoko, e...

Ayeka afastou o rosto da pirata especial do rosto do rapaz e disse:

— Nada disso, Tenchi! Essa aproveitadora está mentindo! Eu sou a sua namorada, a Ayeka! Você namora uma princesa de Jurai!

— Você não namoraria uma garota sem-sal como essa bobona!

— Você não namoraria essa pirata espacial completamente atirada!

Confuso, Tenchi só assistia ao deplorável espetáculo que se desenrolava à sua frente, no qual Ryoko e Ayeka estavam prestes a se estapear mais uma vez, por causa dele. Perguntava-se o que havia de especial nele.

Por mais que tentasse se lembrar, não conseguia... Definitivamente, queria se lembrar de algo, mas não conseguia. Também queria muito entender o que aquelas duas malucas tinham na cabeça para disputa-lo até no tapa.

Suspirou. Como a sua situação era desanimadora...!

*

Após umas duas horas, Washu terminou de reinstalar toda a fiação do A. M. O. R. e fez os últimos ajustes na engenhoca. Ao sair de seu laboratório, deu de cara com um cenário inusitado: a sala estava toda vazia, enquanto a porta estava aberta e o barulho vinha de fora. Estivera tão concentrada em sua tarefa que nem prestara atenção no que ocorria fora de seu laboratório.

— Onde o pessoal está?

A resposta se fez ouvir na forma de uma grande explosão e, ao sair, viu uma grande nuvem de poeira. Ao se dissipar toda a poeira, revelou Ryoko e Ayeka correndo atrás de um apavorado Tenchi, que não parava de gritar que não se lembrava de nada.

Pelo jeito, os esforços de tentar recuperar pelo menos parte da memória do pobre garoto haviam sido em vão. Aliás, como poderia dar certo com duas loucas obcecadas brigando toda hora, saindo no tapa e usando até superpoderes?

A cientista suspirou. Realmente ela deveria tirar Tenchi dessa grande roubada, ou seria um garoto ainda mais traumatizado do que já era com sua memória normal.

— Pessoal, já terminei o conserto! – ela chamou.

Não foi preciso chamar pela segunda vez, pois todos entraram quase a atropelando. Sasami puxava Tenchi gentilmente pela mão, enquanto Ryoko e Ayeka praticamente se atropelavam para ficar junto com o garoto. Kiyone seguia bem de perto sua colega de Polícia Galática, Mihoshi, a fim de evitar um novo desastre.

— Não tenha medo, Tenchi. – Washu procurou tranquilizar o rapaz enquanto o acomodava na cadeira. – Desta vez vamos recuperar a sua memória.

Por mais que Tenchi tentasse se tranquilizar, algo lhe dizia que aquela cientista não era muito certa da cabeça, e isso lhe causava mais medo do que tranquilidade. E a apreensão dos demais que estavam também no laboratório só fez com que ele ficasse ainda mais receoso.

— Escuta aqui, sua cientista maluca! – Ryoko era ameaçadora. – Se der algo errado outra vez com o MEU Tenchi, você vai ver!

— Como princesa de Jurai, eu ordeno que as memórias do MEU Tenchi sejam restauradas, ou então você vai ver! – Ayeka fuzilava Washu com o olhar.

A cientista deu de ombros para a pirata espacial e para a princesa de cabelos roxos. Perguntou a Kiyone:

— Garante que ela não vai atrapalhar?

— Garanto. – a mulher de cabelos verde-escuros respondeu afirmativamente, enquanto segurava Mihoshi firmemente amarrada com uma corda bem grossa.

— Isso dói...! – Mihoshi choramingou.

— É pra garantir que você não atrapalhe!

— Ótimo. – Washu sorriu e voltou a se aproximar de Tenchi.

— T-Tem certeza... De que vou recuperar a minha memória...? – ele perguntou trêmulo.

— Absoluta. Palavra de gênio!

— Tenchi – Sasami se fez ouvir. – Vai dar tudo certo!

— Claro que vai! – a cientista esbanjava autoconfiança.

— Washu, você é um gênio! – a boneca Washu A disse ao surgir no ombro esquerdo da cientista.

— Você é um gênio, Washu! – a Washu B surgiu em seu ombro direito fazendo coro.

— Muito bem, sem mais delongas, agora vamos reverter a amnésia do Tenchi!

Ela apertou o botão vermelho e a engenhoca começou a funcionar e, em seguida, novamente a fiação elétrica, bem como o capacete, começou a pipocar. Apreensão geral, em meio ao temor de que aquela coisa pifasse e piorasse ainda mais a situação de Tenchi, que gritava apavorado para que tudo aquilo acabasse de uma vez por todas.

De repente, um novo clarão e uma nova explosão. Assim que a fumaça se dissipou, todos tossiam em meio ao cheiro de fios e plástico queimados. Imediatamente, Ryoko e Ayeka foram acudir novamente um Tenchi aturdido, de olhos arregalados, com o cabelo levemente tostado e todo cheio de fuligem.

— O que... O que aconteceu aqui...? – ele perguntou.

— Tive que fazer uns reparos no A. M. O. R., após ele dar problemas graças à Mihoshi. – Washu olhou torto para a loira ainda amarrada. – Mas parece que tá tudo resolvido.

— Por que a Mihoshi tá amarrada?

— Longa história. Mas qual é a última coisa de que você se lembra, Tenchi?

O jovem Masaki se deixou tomar por uma aura negra depressiva e respondeu:

— A Sakura... Eu sou um fracasso no amor...!

— Hm, podemos tentar apagar essa memória a respeito mais uma vez!

— MAS NEM PENSAR, WASHU!!— Ryoko e Ayeka se colocaram à frente de Tenchi e estavam prestes a atacar a cientista.

— Tá bom, tá bom...! – ela disse tentando acalmar os ânimos. – Vou tentar aperfeiçoar o A. M. O. R. primeiro!

— Bom mesmo! – a pirata espacial olhou de forma sedutora para Tenchi e fez menção de ir agarrá-lo. – Porque eu já sei um método muito mais eficaz de resolver isso!

Ayeka empurrou Ryoko para o lado e riu ironicamente:

— Não acho que o Tenchi queira a sua ajuda, queridinha! Ele vai querer a MINHA ajuda!

As duas iam tentar fazer o garoto esquecer sua desilusão, mas ele havia sumido. As duas rivais saíram do laboratório e viram Tenchi ter uma conversa agradável com Sasami enquanto alimentava Ryo-oh-ki com algumas cenouras, enquanto Kiyone puxava Mihoshi para fora ainda amarrada com uma corda, ignorando os protestos de “isso dói”.

Washu ficou à beira da porta e suspirou, cansada:

— E tudo volta à sua normalidade... Problemas com o amor e com o A. M. O. R. são igualmente complicados de se resolver... Até mesmo para um gênio como eu.

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