Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.

7 Capítulo sete - Estamos bem de novo?


Notas iniciais
Enquanto Benjamin se recupera de uma ressaca terrível, o japa decide ir fazer uma visita ao amigo para estreitarem os laços da amizade novamente. Yuri acredita que poderão seguir em frente sem levar em conta o beijo confuso que trocaram dias atrás.

Yuri e Bárbara nadavam, contornando a piscina, para se aquecerem no início de mais um treino no clube. O treino começou às 09h30 e agora já era 10h15 e não tiveram nenhuma notícia do Benjamin. A mãe da Báh, a treinadora dos três, aumentou o tempo daquela prática só para permitir que seu atleta relapso conseguisse pegar o início do treino.

– Japa, eu acho que o Benjamin vai furar o treino. Ele sempre se atrasa, mas quarenta cinco minutos já é demais até para ele – disse Báh, parando de nadar para recuperar o fôlego e a energia.

O japonês retirou seus óculos de natação e com as mãos, o excesso de água do seu rosto. Depois se voltou para a garota, que prendia novamente seus cabelos na touca apertadíssima.

– Acho que ele deve estar de ressaca, Báh. Tu não viu como ele saiu da festa ontem? Dúvido que venha para o treino hoje e, sem dúvidas, a Júlia vai querer matá-lo.

– Bem capaz! A minha mãe só pega no pé de vocês porque este é o dever de um treinador. Só que ela ama vocês tanto quanto a mim e a minha irmã. Ela pega mais no pé do Benjamin, afinal, ela sempre diz que ele tem um potencial fantástico para a natação, porém não sabe explorar essa característica dentro dele. O que é lamentável, eu acho.

O japa apenas confirmou com a cabeça. Tinha certeza que seu amigo estava bem chateado com ele, não queria deixá-lo muito tempo afastado. Isso não seria nada legal para a amizade deles. Estava decido a procurá-lo naquela tarde para se acertarem de uma vez.

– Ele saiu muito furioso daquela festa. Vocês brigaram de novo? Foi isso, japa?

– Claro que não! A gente fez as pazes de novo. Ele tava puto porque não lhe deixei beber e pegar umas periguetes na festa.

– Fez muito bem! Agora vocês dois não tem mesmo jeito. Brigam. Se resolvem. Os dois parecem um casal de namorados.

Os olhos do menino se arregalaram com o que ouviu. Ele ficou bastante sem graça com o comentário da amiga. Para desconversar, ele deu um mergulho.

– Vou procurar ele hoje à tarde para colocarmos o papo em dia. Por causa de todo o inferno que foi meu fim de semestre na faculdade nem pude conversar com meu melhor amigo. Foi por isso que fiquei tão chateado quando eu passei e ele não. Sabia que não poderíamos mais compartilhar tudo ao mesmo tempo. Queria passar mais tempo com ele nas aulas.

– Tu é um fofo, amigo. Eu fiquei triste nesta semana que passou porque o Ben me disse que foi muito mal na ACAFE. Ele me contou que você foi à UFSC para buscá-lo e aconselhá-lo.

– Ah, sim... – O rapaz se lembrou do que aconteceu após aquela mesma tarde.

– Acho que por você já estar cursando medicina podia ajudá-lo nos estudos e também ao Arthur. O meu curso é mais de boas por isso não precisa. Agora eles, considero muito importante.

– Esta já era a minha intenção agora que estamos indo para o segundo semestre e as provas da UFSC estão vindo. Vou falar com eles depois sobre isso. Quem sabe posso dar umas aulas para eles agora nas férias?

– Nas férias? Pare com isso, japa. Tu é muito cdf mesmo, cara. – E jogou água no rosto do garoto, que mergulhou e agarrou as pernas submersas da Bárbara e as puxou para o fundo da piscina, forçando que ela mergulhasse em seguida para não se afogar.

– Me diga uma coisa: tu e o Arthur estão namorando ou apenas ficando?

– Rá...! Rá! Quem te disse isso?

O japonês franziu a testa e deu um sorriso sapeca enquanto nadava de costas.

– Não importa quem disse. Só me responda o que eu perguntei. Até quando eu fui seu colega de classe, tu não me escondia nada, Báh.

– Se tu me dizer primeiro quem era aquela guria que tava pegando ontem na festa, eu te respondo, promessa de amiga de infância. – Ela beijou os próprios indicadores cruzados para reforçar a promessa.

– Aquela era a Bruna, uma veterana da quarta fase. Fiquei com ela de tanto que a Fernanda me encheu o saco no último dia de aulas. Eu gostei de ficar com ela, só não a comi porque perdi o tesão depois...

– Depois do quê?

O Yuri não iria responder que após deixar seu amigo ir embora bêbado, isso queimaria demais a sua cara. Para fugir da resposta, mergulhou e segurou a respiração por trinta segundos. A ruiva subiu nas costas do japa e continuou:

– Eu estou namorando o babaca do Arthur. A gente começou apenas dando uns pegas à toa há duas semanas e agora ficou sério a pedido dele.

O japa pegou nas mãos da garota para levantá-la ainda mais nas suas costas desnudas. As pessoas nadando nas outras piscinas não deixaram de reparar na gracinha dos dois.

– Pensei que você caía de amores pelo Benjamin.

Ela ficou um pouco sem graça, mas respondeu:

– Eu gostei daquele menino gato e dos seus olhos verdes por três anos. Só que no começo do ano, tivemos uma conversa e ele foi muito sincero comigo, me disse: Desculpa Báh, mas não tenho nenhum sentimento mais forte por você, embora fisicamente sim. – A garota começou a simular uma dança nas costas do amigo. – A partir desse momento, vi que era inútil nutrir um sentimento tão forte por alguém que não me via com os mesmos olhos. Fico feliz que continuamos sendo amigos e hoje estou com outra pessoa.

Yuri sorriu sem saber a razão.

– Quero muito que ele seja feliz com a menina que for sortuda de pode-lo chamar de namorado. Ele é muito querido. Torço por ele – confessou a ruiva, aliviada por ter certeza do que estava falando. – Melhor, torço por você também. Quem sabe essa Bruna seja sua futura esposa?

Ele discordou com a cabeça e lançou a gata para trás. A Bárbara afundou por alguns segundos e depois retornou à superfície.

– Quer que eu vá contigo conversar com o nosso Benjamin?

Nosso Benjamin? Que merda tu quer dizer com isso? Ele não é meu Benjamin e muito menos seu.

– Tu que sabe, Báh. Eu não vou falar nada demais com ele. Quem sabe podemos cair na piscina dele?

– Japa, a gente está dentro de uma piscina há uma hora e meia, e não treinamos porra nenhuma. A minha mãe vai matar a gente. Sabe de uma coisa? Eu vou ir atrás dela porque o Ben não vem mais.

– Já tínhamos essa certeza há meia hora, garota. Vá logo atrás dela antes que eu corra para o vestiário.

Quando ela saiu da piscina e desapareceu da sua vista, o japa saiu também da água e foi até a sua mala no banco, onde estava a sua toalha, para pegar o celular. Abriu o WhatsApp e clicou em cima da foto do Benjamin. O menino sorria lindamente e estava vestido com uma camiseta preta, destacando os seus olhos verdes frente aos seus cabelos lisos ainda mais claros devido ao flash da câmera. O japa se perdeu na fotografia por alguns segundos, controlando a respiração ofegante. No momento em que criou coragem de escrever algo para o Benjamin, escutou a mãe da Báh gritando para ele voltar imediatamente para a piscina porque o treino iria começar.

Benjamin acabou de acordar em sua casa, estava sentindo uma dor de cabeça maldita e não parava de urinar. Sabia que aquilo tudo era o efeito da sua irresponsabilidade de encher a cara com bebidas tão fortes e misturadas. Podia ter bebido apenas umas garrafas de Heineken e só. Estava com muita fome e ao descer para a sala viu no relógio pregado na parede perto das fotos da família sobre o corrimão da escada que já era passado do meio-dia.

– Porra! – xingou baixinho enquanto descia as escadas.

Deu de cara com seu irmão assistindo ao Bob Esponja na TV a cabo e comendo Sucrilhos de chocolate direto da caixa.

– Miguel, eu jurei que tinha dado de cara com uma criança de dez anos aqui na sala – caçoou ele. Seu irmão mostrou o dedo do meio e voltou a assistir ao desenho e a comer o seu sucrilhos.

Benjamin circulou pelas principais áreas da casa atrás da sua mãe, mas não a encontrou. Cansado, voltou à sala.

– Cadê a mãe e o pai?

– Não sou secretário deles, seu porra louca.

– Ok, eu ligo para o celular dela, quiridú. – Quando pegou o telefone sem fio na base da mesinha, onde o Miguel estava apoiando os pés, o outro disse:

– Otário, a mãe tá no salão porque de tarde tem um casamento para ir com o pai. E ele tá fazendo um plantão de seis horas hoje. Por onde tu andas que não sabes de mais nada da tua família?

– Ué, ela nem me convidou para o casamento.

– A doutora Marisa não é boba, né, sabe bem que nós odiamos casamentos das amigas dela. Até o pai também odeia, só que para não brigarem vai com ela aonde nem curte.

O irmão tinha razão, ele odiava os casamentos das amigas da mãe e preferia ficar em casa, sozinho.

– E tu vai a alguma festa hoje à noite? – perguntou Benjamin, sentando-se ao lado do irmão no sofá.

– Ben, hoje à noite, vou comer a Paula na casa da praia dos pais dela lá no continente. Vamos jantar em um bistrô que ela tá louca para ir e depois vamos para lá. Acho que nem tem festa maneira hoje aqui em Floripa.

Benjamin percebeu que todos iriam se divertir naquele sábado, exceto ele, que ficaria em casa. Provavelmente assistiria a algum filme de terror e iria para cama mais cedo para se recuperar daquela maldita ressaca.

– E tu, porque não chama uma gatinha para vir aqui em casa e aproveita que estarão sozinhos para meter? – Seu irmão era mais descarado do que qualquer amigo seu.

– Tô de boas. Estou com uma ressaca insuportável, a minha cabeça parece que vai explodir a qualquer minuto. Vou pegar um analgésico do nosso pai e dormir o dia inteiro, sei lá...

O irmão riu da sua cara e o chacoalhou assim como se faz com a caipirinha.

– Tu é muito otário, fica enchendo a cara como se não tivesse mais o amanhã. Não sabia que precisa manter a sanidade para não se queimar com seus amigos e colegas?

Benjamin pensou em como o japa tinha perdido a sanidade na noite em que queira comer o seu cu. Ele riu por causa daquilo e logo se repreendeu por lembrar daquilo.

– Teu amigo está namorando a veterana dele da quarta fase, né?

– Quê? A Bruna? Nem sabia, pensei que eles estavam apenas ficando – respondeu enciumado, mesmo sem notar. – Quem lhe disse isso?

– Ué, a menina é prima da Paula e ligou para ela na madrugada contando isso e a Paula reconheceu o japa na foto dos dois se pegando na festa de ontem. Tu tava lá, não tava?

O Ben confirmou com a cabeça. Olhou irritado para as janelas do lado oposto a sala dos sofás. Não queria que seu amigo estivesse namorando uma menina como aquela. Na verdade nem conhecia a menina e já não foi com a cara da veterana. E que droga, agora o japa estava infiltrado na família da Paula.

– Ah... Por falar nele, a treinadora de vocês ligou furiosa aqui cedo porque você furou um treino. Acho que você vai se ferrar quando a ver por aí.

Benjamin jogou as mãos na cabeça. Havia se esquecido de que tinha um treino logo cedo.

– Que tu disse pra ela e por que não me acordou?

– Primeiro que não sou seu empregado. Folgado! Depois que eu disse para ela que você tava meio grogue.

– Que porra, Miguel... – gritou, prolongando o nome do irmão. – Podia ter me acordado.

O menino de cabelo preto e olhos azuis riu bem alto. O que despertou uma fúria no seu irmão mais novo.

– Pior que tentei te acordar... Só que gemeste e viraste de lado.

Por que droga eu não me lembro disso? Acho que ele está zoando com a minha cara, mas que otário.

– Tu tá mentindo.

– Se acha isso porque não confere seu celular, ela ligou primeiro nele antes de chamar aqui.

Benjamin subiu as escadas como um trovão e entrou no quarto batendo a porta. Para ferrar com tudo, seu celular estava sem bateria. Teve que procurar o carregador em todas as gavetas e quando já estava perdendo a paciência, olhou embaixo da cama e lá estava o desgraçado.

Depois ainda teve que esperar a boa vontade do celular em ligar completamente para conseguir ver o tanto de ligações perdidas da Júlia. O otário do seu irmão estava dizendo a verdade. Ele sentiu muito ódio daquela ressaca. Outro ícone estava destacado, o do WhatsApp, ele abriu e viu que tinha algumas mensagens da Bárbara e outras do japa. Preferiu, primeiro, abrir as do amigo.

Yuri:

Benjamin, não sei por que não me deixou te dar uma carona para casa. Te peço que me envie uma mensagem ou me ligue quando chegar em segurança lá.

E aí, seu puto! Que ressaca, hein... Espero que tu consiga acordar a tempo para ir ao treino.

Não se esqueça de que o treino será às 09h30.

Ben, tu não vai vir? A Júlia está uma fera e já estamos nadando em círculos há uns quarenta minutos para dar tempo de você chegar aqui no clube.

O que tu vai fazer hoje à tarde? Posso ir à sua casa para pormos o papo em dia? Acho que a Báh vai ir junto.

Se não quiser eu não apareço, mas me diga, O.K.?

Benjamin percebeu que cada uma dessas mensagens foi enviada em diferentes intervalos de tempo. Agora não sabia o que responder. Estava com muita ressaca para receber seus amigos em casa. Talvez fosse melhor...

Benjamin:

Japa, hoje não to me sentindo legal para receber vocês aqui...

Antes de enviar aquela mensagem, apagou tudo, e escreveu em seguida:

Yuri, tu pode vir aqui em casa de boas. Nunca precisou pedir para vir aqui e por que precisaria agora? Tu e a Báh são de casa! Espero por vocês aqui de tarde.

Enviou.

Aproveitou para ler as que recebeu da Bárbara.

Bárbara:

Porra, Ben, tu deixou a sua equipe de novo na mão. Precisamos de você junto com a gente nos treinos. O campeonato intra-estadual está logo aí. Não encha tanto a cara, menino. Eu e o japa fomos à mesma festa e estamos inteiros aqui no clube.

Ele só visualizou. Não ia responder aquela mensagem de bosta. Quem ela pensava que era para cobrá-lo daquele jeito? Sua namorada? Sua treinadora ou coisa do tipo? O telefone vibrou, seguido pelo toque baixo. Havia recebido outra mensagem no whats.

Sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem de repente quando viu que o japa tinha respondido.

Yuri:

Orra! Valeu de fé, Ben.

Só que tem um problema: a Bárbara deu pra trás e não quer mais ir comigo aí. Vou sozinho mesmo. O que tu acha se eu comprar umas paradas na panificadora e comermos por aí com sua família? Se preferir, podemos sair no seu carro e comer fora também. Sei lá, são apenas sugestões!

Benjamin:

Japa, eu acho que podíamos comer aqui mesmo. Estou de ressaca e não vou aguentar dirigir pelas ruas. E será apenas eu e você porque meus pais vão em um casamento de tarde e o Miguel vai posar na casa da Paula. Então, chega mais!

Yuri:

Firmeza, irmão! Nos vemos lá pelas 17:30. Abraço.

Benjamin se perguntava por qual motivo ficou tão nervoso com a notícia da visita do seu melhor amigo. Pelo jeito estava com medo de que fizessem mais alguma cagada e pusessem um fim de vez na amizade de infância. Mas não tinha motivos, afinal, não ingeriria nenhuma bebida alcoólica em casa e não permitiria que o outro também fizesse.

Um pouco antes das 17h30, a doutora Marisa chegou em casa, toda produzida e quase pronta para ir ao casamento. Faltava apenas vestir o lindo vestido bordô com brilhantes que ganhou do marido enquanto voltavam para casa naquela tarde. O seu caçula estava sozinho em casa, afinal o malandro do Miguel já caiu fora meia hora antes.

– Que bom ver você, bela adormecida – brincou o pai, abraçando o filho suado, ele estava malhando na academia improvisada no porão da casa. Não tinha tempo livre há semanas para ir à sua academia favorita próximo da UFSC e como não queria descuidar do abdômen sarado...

– Nem brinca com isso, pai. Estou com uma ressaca desgraçada, tive que tomar um dos seus comprimidos para enxaqueca. Além que estava com queimação, mas já tomei um antiácido no meio da tarde.

O doutor avaliou a aparência física do filho e perguntou:

– Quer que eu te examine?

– Bem capaz doutor Manuel. O teu filho apenas encheu a cara demais na noite passada. Nunca mais vou beber na vida.

– Essa é a promessa mais comum entre todos que bebem demais e a que ninguém cumpre com afinco. O importante é que você tem consciência de que fizesse isso com muita frequência acabaria com seu fígado ou abrindo uma ferida no seu estômago. Então se controla e fique alguns dias sem beber muito álcool.

– É um conselho de pai ou de um médico para o seu paciente?

– Isso é uma ordem expressa de seu pai-médico. Me deixa ir tomar um banho antes que sua mãe comece a gritar comigo.

– Beleza, pai. Vai lá. – O rapaz amava demais o seu pai, tinha uma forte relação de confiança com ele. Quem sabe podia perguntar a ele o porquê de andar tão estranho em relação ao japa.

– Ah, mas me diga, quais são os seus planos para hoje? Se quiser pode vir conosco ao casamento da Helena e do Márcio. Ele vai ser no sul da ilha, na praia da Joaquina.

– Muito obrigado pelo convite, mas dispenso. O japa está vindo para cá e vamos ficar aqui mesmo. Faz tempo que não conversamos por causa do final de semestre dele e as últimas vezes que nos encontramos acabamos brigando.

Manuel deu alguns tapinhas na nuca do filho, que estava sentado no braço do sofá. Benjamin estava sem camiseta, com todo seu corpo malhado banhado em suor e além disso, fedido.

– Quando vão parar de brigar por qualquer merda? – O pai riu enquanto o filho desviou os olhos para o chão. – Mesmo sendo apenas seu amigo que virá aqui, acredito que seria melhor tomar um banho e trocar de roupas. Esta aí está fedida e você muito suado. Deixa só a Marisa te pegar encostado nas almofadas branquíssimas dela.

Benjamin deu um pulo para frente e beijou a bochecha branca, com barba rala, do seu pai e correu escada acima.

– Tome cuidado, menino – gritou ele enquanto visualizava o Benjamin correndo como um desesperado.

No momento em que Benjamin estava se vestindo, conseguiu ouvir a campainha da casa tocar várias vezes até que alguém fosse atender. Ele imaginava que devia ser o japa, colocou uma cueca box da Calvin Klein, bordô, um calção largo de basketball branco, uma regata justa da NBA azul escura e seu chinelo de dedos da Adidas. Não quis pentear o cabelo, deixaria os fios castanhos secarem naturalmente, apenas chacoalhou a cabeça, bagunçando tudo. E para evitar feder como seu pai advertiu, passou seu desodorante de spray e seu perfume favorito.

No momento em que chegou às escadas, viu seu pai todo social; de camiseta branca, terno cinza escuro e com uma gravata vermelha, sentado ao lado do japa.

Yuri vestia uma calça jeans vermelha meio desbotada e uma camiseta cinza, de botões, aberta até a linha de seu peitoral malhado e por cima vestia uma jaqueta de couro preta.

Benjamin nunca tinha reparado o quanto seu amigo era sexy ao se vestir mais despojado. Agora entendia o motivo pelo qual tantas periguetes caiam matando no japa. Yuri sorriu de volta ao ver seu amigo descendo com um sorriso sugestivo em seus lindos lábios carnudos. Ben achou que o japa tinha vindo preparado para sair para mais algum lugar, talvez fosse a alguma balada com a nova namorada.

– Vocês estão mentindo para mim, né? Tenho certeza que vão cair na night atrás de um rabo de saia. Como vocês cresceram, rapazes. Estou ficando velho mesmo.

– O japa já tem uma nova namorada, pai. Não pode mais sair para festas sem ela.

– Namorada? – perguntou o Yuri, desconhecendo aquele fato.

– Entendi. Então foi mal, Yuri – desculpou-se Manuel, levando as mãos no ombro do garoto.

– Mas eu não estou...

O Yuri foi cortado quando a mãe do Benjamin surgiu radiante no topo da escada, fazendo com que o Manuel e o Ben a aplaudissem enquanto descia. Ela se sentiu como se estivesse desfilando na São Paulo Fashion Week e se sentiu ainda mais bela do que a Gisele Bündchen.

– Arrasou, mãe!

O penteado do seu cabelo exaltava os olhos azuis que tinha. O doutor Manuel muito romântico foi até a base da escada para receber a sua dama, dando-lhe um beijo na mão e outro na boca. Benjamin olhou de imediato para o japa, que sorriu lhe provocando.

– Que bom que tu está aqui, japa... digo, Yuri. Este garoto ao teu lado não para de falar japa pra cá, japa pra lá que até eu peguei esse costume vicioso. Me perdoe.

– Magina, todos os meus amigos e até minha irmã me chama de japa. E olha que ela também é japonesa. Vá entender – disse com um sorriso fantástico no rosto.

– É verdade, a tua irmã está fazendo medicina na USP, né? Quanto tempo não a vejo. A tua mãe não tem falado muito dela nas últimas consultas. A Yumi está bem? Em qual período ela já está do curso?

– Elas brigaram por causa de um namoradinho da Yumi que minha mãe odiou conhecer, talvez seja por isso que não falou mais dela pra ti. Só que ela está ótima, feliz e agora passou para a sexta fase da medicina. – Benjamin sabia que o japa adorava falar sobre a irmã. Os dois tinham uma relação mais forte do que a consanguínea, eram como melhores amigos. – E por falar nisso, eu conversei com a Yumi hoje de manhã. Ela está vindo à Floripa passar as férias no próximo fim de semana.

– Que maravilha! Logo, logo, sua mãe terá dois filhos médicos em casa. Quanto orgulho ela deve sentir. – Benjamin abaixou os olhos, sabia que a Marisa estava dando algum tipo de indireta para ele. – Peça para que ela venha jantar aqui em casa algum dia nas férias dela e venha tu também. Podemos cozinhar lagosta e mais algumas delícias.

– Pode deixar.

Os pais do Ben se retiraram por um momento da sala. Foram para a garagem por algum motivo.

– E aí, nem vai me cumprimentar? – queixou-se Yuri.

O Benjamin que ainda continuava de pé o puxou pelo punho para cima e o abraçou bem forte. Não se sentia muito seguro em fazer aquilo, mas queria mostrar que a amizade dos dois continuava forte.

– Não sabe o quanto senti falta de te abraçar – confessou o japa, se afastando em seguida. – Ter um amigo tão brother e não poder chegar perto é muito ruim.

– E aí, o que trouxe para a gente comer? – Benjamin quis quebrar aquele gelo e mudar de assunto antes que voltassem a falar sobre o beijo que trocaram.

– Eu trouxe...

– Meninos, já estamos indo para o casamento. Não tenho como saber qual o horário que chegaremos. Provavelmente só lá pelas seis da manhã.

– Nossa, mãe, seis da madruga?

– Só tu pode chegar quando o dia está raiando? – perguntou ela, petrificando o filho. – Teu pai quer ficar lá até duas horas depois dos noivos chegarem das fotos de núpcias, mas sei que ele vai beber, beber e beber, como eu terei que dirigir de volta, quem decide a hora de sair de lá sou euzinha.

Ela e o Yuri riram por alguns segundos. Então Marisa lançou beijos para os dois a distância e se afastou em direção a garagem.

– Viu só como ela me trata?

– A sua mãe é muito querida. A minha nem daria satisfação para mim ou para a Yumi. Apenas falaria: tchau, estou indo para a festa e não sei qual hora chegaremos. E pronto. Isso seria tudo.

Benjamin se fez de surpreso e se jogou entre as enormes almofadas do sofá. Caiu por cima dos controles da TV e do decoder e instantaneamente sua mão foi massagear as costas em choque pela colisão.

– Que droga, eu caí em cima dessas porcarias – disse, jogando-os contra a mesinha de centro. – Que faremos? Não está quente para entrarmos na piscina e a nossa térmica está com problema, está esquentando mais do que o Saara.

Yuri pareceu analisar a situação e deu de ombros.

– Quer estudar alguma coisa? Eu posso te ajudar.

– Vai se foder, japa da porra. – Terminou chutando as costelas do amigo sem querer.

– Que porra, Ben – gritou de volta, com muita dor. Tentando massagear suas costelas do lado esquerdo. Sabia que aquilo era um bom sinal para a amizade deles. Significava que as coisas estavam voltando a ser como sempre foram.

– Nem entrei de férias, mas já estou offline desde quarta-feira passada. Vou matar todas as aulas dessa semana. Só quero ver o que farei para a minha mãe não desconfiar, ainda mais porque o Miguel já entrou de férias também.

– Simples, pode ir para a minha casa.

– Todos os dias?

– Claro! Qual o problema? As nossas férias sempre se resumiram ou eu aqui ou você lá.

– Bem capaz, japa. A sua mãe é paciente da minha e ela descobriria facilmente.

– Minha mãe sai para o tribunal antes de eu ir para a faculdade, lá pelas 07h da manhã e meu pai sai antes das 06h.

– Deixa baixo, japa. Eu tô de zoas. Vou ir para o cursinho só por ir mesmo e depois volto direto pra casa. Sei lá. Serei tipo um Frederico da vida, mas só que por uma única semana, prometo.

Yuri riu. Quando ele viu pela porta aberta da cozinha a sacola que trouxera em cima da mesa de vidro de lá se lembrou de dizer o que tinha comprado para os dois comerem.

– Ben, eu me esqueci de dizer o que comprei na panificadora. Trouxe duas fatias de torta de limão, já que nós dois somos muito fãs dela. Trouxe também coxinhas pequenas e aqueles pasteizinhos de frango sem catupiry... uhm... suco de maçã pra mim e um Gatorade pro meu amigo de ressaca para hidratá-lo. E também não me esqueci de pão, presunto e mussarela.

– Está querendo me engordar, né, seu puto. Tudo isso é inveja do meu tanquinho.

– Tenho o meu pra cuidar e por isto estou de boas – retrucou na brincadeira, massageando o seu próprio abdômen por cima da camiseta de forma sexual. – Vamos comer na cozinha ou no píer?

– Pode ser na cozinha, já que as coisas estão por lá.

Os dois foram à cozinha. O japa ajudou o amigo a arrumar a mesa para o lanche deles. Olhar no balcão de centro lhe fez lembrar-se do constrangimento que causou aos olhos verdes.

– Por que a rapariga da Bárbara recusou de vir pra cá? Ela tá de cara comigo por causa da minha falta no treino?

– Claro que não. Ela está de boas quanto a isso. Já imaginava que não conseguiria acordar cedo, por isso lhe mandei aquele whats às 08h da manhã. Sabia que ia ficar de ressaca, tu bebeu demais da conta.

– Nem me fale japa. Eu quero ficar sem ingerir álcool por semanas até meu fígado se recuperar do trauma de ontem. Me admira a sua força em acordar tão cedo depois de uma festa de arromba.

– O pior é que já me acostumei a dormir tarde e a levantar junto com os galos, tudo por causa das provas desse semestre. Só que assim que tu saiu eu me despedi da galera e da Bruna e fui atrás de ti, não queria lhe deixar na rua sozinho e ainda mais bêbado daquele jeito.

– Fiquei andando pela SC 401 até chegar a um ponto de táxi vazio, fiquei lá por mais algum tempo, então apareceu um táxi e consegui vir pra casa. Encontrei o meu irmão chegando na mesma hora do que eu e ele me ajudou a subir para o quarto. A minha sorte foi que minha mãe nem acordou com todo o barulho que fiz aqui.

O Yuri se sentiu muito culpado por tudo aquilo. Era seu dever proteger o amigo bêbado e trazê-lo em casa depois de um porre, da mesma maneira como o Benjamin fez com ele semanas atrás. Este é o papel de um verdadeiro amigo.

– Foi mal... estou em falta com você. Preciso me redimir durante a próxima festa que formos juntos. Eu prometo pra ti.

– Relaxa! Eu sabia o que estava fazendo ou pelo menos acho que sabia.

Os dois começaram a rir em seguida. Toda vez que o japa sorria seus olhos sorriam junto com seus lindos lábios finos e rosados. O que deixou Benjamin admirado. Só não entendia o motivo de estar reparando tanto nos pequenos detalhes do marmanjo. Isso não acontecia antigamente, sequer admitia para si ou para os seus colegas que o amigo era lindo, mesmo tendo certeza disso desde os dez anos.

Notas finais
Como viu, está difícil de controlarem seus impulsos. Ben sem conseguir explicar o que tem roubado tanto tempo de seus pensamentos se vê cada vez mais diante de um caminho dúbio: qual caminho escolherá seguir? Continue acompanhando os capítulos, seus lindos. Não vejo a hora de descobrirmos o que será do Ben e do japa.