Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
48 Capítulo quarenta e oito - E agora?
Notas iniciais
Benjamin pegou o telefone tão depressa quanto pôde; assim que tomou um banho de gato, secou o gesso na sua perna, que tinha respingado um pouco de água, e se vestiu com as primeiras roupas que encontrou.
— Alô, meu amor, como você está? – disse Yuri, no mesmo instante em que atendeu a ligação. Benjamin ficou até surpreso por mal ter dado o primeiro sinal de chamada e o japa já ter atendido.
— Você pode vir me buscar aqui em casa? Não precisa nem entrar. Quando você estiver na frente do meu condomínio, é só me ligar que vou lá pra frente.
— Está tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa durante a sua conversa com seu pai? – O menino estava com o coração mais acelerado do que compasso de escola de samba.
— Prefiro conversar com você pessoalmente, então venha buscar agora por favor. Precisamos conversar...
O oriental nem sabia o que pensar; não sabia se o que estava prestes a ouvir era algo que os afastaria. Para ele, pior do que perder o amor do Ben era perder sua amizade de todos esses anos. Os dois cresceram juntos, estudaram juntos, viajaram por vários lugares juntos e agora estavam descobrindo juntos outra forma de amar.
Não levou nem meia hora para que o telefone do menino de olhos verdes tocasse. Ele só respondeu o “já estou aqui na frente” com um “tô indo”. Benjamin sentiu a ausência de seu pai pelos cômodos que passou antes de sair da casa, concluiu que ele e seu irmão deviam estar tendo ainda aquela conversa.
Ele ficou preocupado por ver os destroços da mesinha de centro da Marisa na mesma situação de antes, queria saber como seu pai explicaria o fim daquela mobília para sua mãe. Se contasse sobre a briga dos rapazes, teria que abrir o jogo sobre ele e o namorado. Isso definitivamente não seria hoje.
— Benjamin, por que você está com esta bolsa grande? Não me diga que você foi expulso de casa – imaginou Yuri, quando o rapaz entrou no seu carro.
O outro menino começou a rir sem controle e isso incomodou o Yuri, que fechou a cara e franziu a testa. Ele não estava entendo o que estava acontecendo e a demora de Benjamin para contar tudo estava lhe irritando.
— Pare de rir e fale logo, PORRA! Você me fez vir lá da Beira Mar em alta velocidade, pensando um trilhão de bobagens na minha cabeça e agora me surge com uma bolsa que parecer estar cheia de roupas. Tá querendo que eu volte para o hospital de novo, só pode ser isso...
— Dramático! – provocou Benjamin, passando por cima do câmbio para beijar seu namorado e quase sentar em seu colo. – Eu amo você e todo esse seu jeitinho certo de ser, Yuri Takashi.
Receber aquele gesto de carinho já o tranquilizou um pouco. Uma das bobagens em que veio pensando no caminho foi que Benjamin terminaria o namoro com ele após ser obrigado por Manoel. Pelo beijo que recebeu, isso não aconteceria.
— Eu tive uma conversa muito franca com meu pai; na verdade, ele me fez abrir o jogo e dizer o que estava sentindo. Só que prefiro te contar tudinho longe da daqui se tudo bem por você. A Minha mãe, as minhas avós e as minhas tias logo voltarão da missa. Não quero que elas me encontrem aqui. O meu pai pediu para que eu fosse para sua casa.
— Ele te...
— Não, não, não... ele não me expulsou de casa, Yuri. Só me pediu isso para que as coisas com o Miguel se esfriem e ele dê um jeito aqui em casa.
Yuri virou a chave da ignição e saiu dali, mesmo sem entender o que estava fazendo.
I
(...)
—... Filho, eu entendo que esteja irritado e chateado pelo que viu lá em baixo... só que você não pode falar uma besteira dessas, filho...
— Não quero saber, pai... eu juro que mato aquele desgraçado por ter emboiolado meu irmãozinho. Até ontem, o Ben transava com as gurias aqui nesta casa... como assim pôde estar apaixonado por um *cueca? (*gíria para homem)
Miguel estava chorando igual antes. Seu pai estava sentado numa cadeira de frente para o filho, sentado na cama. O primogênito dos Belucce Furlanettos estava fazendo uma compressa de gelo na testa. Sua sobrancelha acabou cortada durante a briga, mas não precisou de nenhum ponto.
— Mig, cê precisa colocar na cabeça de que o Benjamin continua sendo o mesmo, independentemente de amar outro homem. Não é fácil entender isso... eu mesmo estou assimilando a ideia de que meu caçula, bem... não mais meu caçula, agora... está se relacionando o melhor amigo. Só que meu amor por ele é maior do que qualquer preconceito que eu pudesse ter.
“Ele já vai ter que enfrentar muita coisa desse mundo lá fora por ele não estar enquadrado no “padrão” tradicional da nossa sociedade, então seu irmão precisa do nosso amor mais do que nunca. Ninguém, filho, escolhe a forma de amar. Assim como você não escolheu se apaixonar pela Ronsoni após terminar com a Paula”.
Miguel assoou o nariz numa calça de moletom jogada na sua cama ainda bagunçada. Tinha controlado um pouco mais o choro.
— Não concordo com o senhor, com todo o respeito. Ele vai ser a chacota da família pelo resto da vida. Imagina só quando sua mãe descobrir? Ou quando a avó Beth saber? Elas vão morrer de desgosto. Você não pensa nisso, pai?
— Não! Realmente não! As pessoas morrem por vários motivos todos os dias, Miguel... seja por velhice ou seja por desgosto. Suas avós vêm de uma geração ainda mais fechada e limitada. Agora a sua, a sua, filho... devia ser um pouco mais aberta às diferenças.
“Eu não quero que saia dessa conversa com outra cabeça. Como eu já disse: sei que você está magoado. Você precisa do seu tempo para lidar com isso. Mas você aceitando ou não; esse fato não vai mudar. Apenas vai distanciar seu irmão e vai fazê-lo perdê-lo. Lembre-se do inferno que foi para você saber que seu irmão estava desaparecido e correndo perigo há alguns dias. Agora pense perdê-lo por um preconceito seu. Você sabe que meu único irmão morreu num acidente de moto quando ele tinha apenas dezoito anos; eu sofri e ainda sofro com pesadelos por saber que eu era o mais velho e não pude salvar a vida do meu irmão – sua voz pareceu estrangulada quando seus olhos começaram a chorar pela lembrança – e muito menos envelhecer ao lado dele.
“Ou vê-lo cursar a Medicina que tanto queria, inclusive foi por isso que mudei de Jornalismo já no último ano da faculdade. Você pôde estar se perguntando por que estou lembrando disso agora, mas é porque quero fazê-lo entender que eu faria de tudo pelo meu irmão morto tão jovem. Tenho certeza que você também faria de tudo pelo Ben, inclusive isso explica aquele mecanismo de defesa ao vê-lo junto com o japa lá em baixo e por estar falando tantas besteiras agora mesmo. Eu vou deixá-lo ter seu tempo e seu irmão com toda certeza também vai. Só não deixe que isso termine com seu irmão sepultado em vida. O meu, fui obrigado a dizer adeus, agora você, Mig, tem a escolha nas mãos”.
O rapaz ficou desconfortado por ver seu pai chorando. A família tinha um trato de nunca mencionar o nome do tio ou perguntar sobre o acidente que o levou. Miguel se sentiu numa bela saia-justa por causa disso.
— Filho, eu vou te pedir uma coisa... na verdade, é uma ordem minha...
O rapaz arregalou os olhos.
— Você não vai contar nada para sua mãe, nem mesmo se o Benjamin e o Yuri estiverem juntos aqui em casa ou em qualquer outro lugar...
— Mas pai...
— Não me interrompa, eu não terminei – vociferou o homem, enxugando as lágrimas na manga da camiseta social, que nem tinha se dado conta estar suja de sangue – provavelmente do japa, ao fazer seus pontos. – Sua mãe está grávida de poucas semanas, já teve pressão alta na gravidez do Benjamin, quase teve um aborto por conta disso. Então não queiro estressá-la por enquanto. Quando chegar a hora, eu e o Ben contaremos a ela.
— Só não vai querer me obrigar a ficar perto dos dois juntos em festas ou jantares em família. Eu não poderei me responsabilizar pelos meus atos se isso acontecesse.
— Vejo de que nada adiantou minha conversa com você, mas tudo bem, Miguel... como disse você tem o seu próprio tempo. Agora deve saber que a Bárbara é a melhor amiga do seu irmão. Pelas besteiras que está falando, infelizmente duvido que ela vá preferir continuar te namorando sabendo que está cheio de ódio e preconceito pelos seus melhores amigos.
— O azar é o dela, pai... eu não estou preso a ela ou a mulher alguma.
Manoel balançou a cabeça em desaprovação, mas sabia que o menino levaria um bom tempo para aceitar o fato de que seu irmão é gay.
— Agora você vai descer lá em baixo e limpar toda aquela bagunça que você fez ao bater no Yuri. Inclusive vai arrumar um jeito de se livrar da armação daquela mesa quebrada e dos cacos de vidro.
— Sério isso?
— Ué, você acha mesmo que faria isso por você? Eu estou voltando para casa de um plantão de mais de vinte e quatro horas; tendo de encontrar meus dois filhos se engalfinhando como dois bárbaros no meio da sala da mãe deles e ainda limpar tudo? Nem que a vaca tussa, Miguel Belucce Furlanetto. Vire-se sozinho!
II
(...)
— Ben, isso foi muito lindo. Seu pai realmente é um paizão, que se diga de passagem. O meu nunca me falaria uma coisa dessas "estarei do seu lado". Agradeço a Deus por ter a Yumi sempre ao meu lado.
— Ter uma Yumi ao lado de alguém já é mais do que suficiente, temos que concordar.
— Isso é um fato!
O Yuri tinha dirigido até a Lagoa da Conceição, um dos pontos turísticos favoritos dos turistas de Floripa. Um lugar cheio de tranquilidade em meio aos restaurantes mais típicos. Eles estavam abraçados dentro do carro do japa.
Benjamin chorou muito quando contou sobre a conversa que teve com seu pai para o namorado. Ele ainda não podia acreditar que o Dr. Manoel tinha ficado do seu lado. Muito menos de que já estava desconfiando dos dois há muito tempo. O rapaz sabia que isso tinha ajudado no processo de contar toda a verdade.
Embora estivesse contente por saber que seu pai continuava o amando como sempre, sua cabeça continuava focada na reação do Miguel e no quanto aquilo havia lhe assustado. Se o irmão reagiu tão agressivamente, podia imaginar como será a reação de sua mãe quando descobrir que ele estava se relacionando com outro homem. Torcia para que o Mig não abrisse o jogo para ela naquele momento de raiva.
— Ben, eu vou te falar a verdade de que estou com um pouco de medo do seu irmão. Ele ficou possesso quando nos viu daquela forma. O Mig tem uns amigos bem casca grossa lá na UFSC e tenho medo de que possam tentar me machucar mais.
— Amor, olha aqui... — O japa tinha desviado seu olhar quando falou aquilo. O de olhos verdes conseguiu perceber seu distanciamento. — Ele não chegaria a um ponto desses. Você tem que entender que pra ele nos ver nos beijando foi algo chocante, além de que ele bebeu o dia inteiro. Não estava respondendo por ele.
— É, né? Talvez a conversa com seu pai funcione, e ele se acalme um pouco.
O telefone do Benjamin começou a tocar. Ele olhou.
— É a Bárbara.
— Então atenda ela...
— Já desliguei.
— Por que, Benjamin? A ruiva deve estar apavorada e precisa receber notícias.
O telefone voltou a tocar.
— Alô, Báh...
— Oi, menino... como vocês estão? Estou angustiada para saber como foi toda a conversa com o Dr. Manoel. Acredita que estou tremendo desde a hora que vi o Miguel atacando vocês?
— Estamos bem. Estou com o Yuri aqui no Lago da Conceição...
— Quê? Que vocês estão fazendo perdidos aí? Não me diga que seu pai expulsou vocês de lá?
— Não, Báh! Pode ficar tranquila que não fui expulso de casa. Meu pai conversou comigo e depois me pediu para esfriar a cabeça junto com o Japa. Mas como eu e ele precisávamos conversar, viemos parar aqui.
— Venham para minha casa, por favor! Eu estou sozinha, meus pais viajaram para Jaraguá do Sul para um aniversário de casamento e só voltam amanhã. Não me deixem sozinha, eu preciso ver como vocês estão com meus próprios olhos.
— Não sei, Bárbara... acho que eu e o japa preferimos não incomodá-la.
— Vai tomar no meio do seu cú, Benjamin Furlanetto... como assim vão me deixar angustiada aqui. Preciso tocar em vocês e ouvir de vocês que tudo está bem. Não quero ouvir isso por telefone porque todo mundo aparenta estar bem pelo fone.
— Que ela está falando, Ben?
— Ela quer que a gente vá para casa dela. Ela está insistindo que precisa ver se tá tudo bem com a gente.
— Então diga que vamos para lá, sim!
— Você venceu, Ronsoni, em vinte minutos estamos aí.
— Eu sempre venço, meu amor. Vocês estão me fazendo um grande favor em deixar meus olhos verem que estão inteiros e bem. Aquela briga mexeu com todo o meu emocional, não vou negar.
— Obrigado, Báh. Amamos você e todo o seu cuidado.
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