Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
40 Capítulo quarenta - Não posso ficar só
Notas iniciais
— Yumi, graças a Deus! – repetia e gritava Yuri ao telefone.
A ligação tão cedo deixou a irmã desesperada. A Japonesa foi acordada com aquela chamada antes das sete horas de um domingo, que tinha tudo para ser espetacular, afinal ela iria visitar o seu namorado e os seus amigos lá em São Paulo. Só que isso se quebrou pelo terror embutido na voz do seu irmão, é claro!
— Respire fundo e acalme-se, e me diga o que está acontecendo com você— pediu ela pela milésima vez desde que dissera “olá” e percebera o desespero de Yuri, que não controlava nem a respiração nem a sua fala. Ele parecia uma pessoa demente, que não podia se orientar sozinha. – Vamos lá, Yuri... Me diga o que está acontecendo aí.
Ele fechou os olhos, tentando se acalmar, enquanto um pouco de sangue escorria por sua testa. O oriental continuava com seu coração batendo descompassadamente.
— O Ben... Aconteceu-u-u-u algu-gu-ma coisa com o Ben-ben-Benjamin e eu... – gaguejava ele – Não sei onde ele está agora... Ju-juro que não sei... – Ele voltou a ficar em pânico e a chorar muito.
—------- | I | --------
Algumas horas mais cedo.
— Como assim tu não sabe o que vai fazer para comemorar o seu aniversário, amor?
— Calma! Primeiro, olhe para a frente e mantenha a atenção na estrada, O.K? – brincou Ben enquanto o namorado dirigia a sua caminhonete na BR-101, sentido Rio Grande do Sul. – Tu não tem um bom histórico nesta BR e no volante – provocou, rindo.
Yuri também não resistiu e caiu na gargalhada, mas mostrou seu dedo logo em seguida.
— Benjamin, hoje já é dia vinte e quatro de outubro, o seu aniversário é na próxima sexta-feira. Tu já tinha que estar ciente do que fará para comemorar, inclusive, o doutô Manuel jamais deixaria esta data sem fazermos alguma coisa legal como sempre.
Três semanas haviam passado desde a briga do Yuri com o Frederico. Não aconteceu tanta coisa de interessante nesse período, pelo menos, os meninos acharam isso. A não ser o japa, que começou a responder um processo por lesão ainda por causa da briga naquela madrugada e o Ben, que realizou a tão estressante prova do ENEM no último final de semana.
— Acho que posso fazer um churrasco lá em casa e chamar algumas pessoas, só que como estou brigado com a Bárbara nem vai ter tanta graça.
— Caralho, às vezes, me esqueço disso. Como assim já faz quase três semanas desde que pararam de conversar?
Ben desviou os olhos para a janela do seu lado e bufou como um touro. O menino já estava cansado de falar sobre aquilo com o seu namorado.
— Eu sei, eu sei... sei que já estou lhe enchendo o saco, mas poxa, vocês não podem ficar se evitando por mais tempo. Achei horrível o clima dos últimos dois treinos com vocês. Sabe o que é ter que se dividir para que nem ela nem você ficassem bravos comigo?
— Ela começou e já te contei essa história mil vezes. Que tal a gente não falar sobre a ruiva e focarmos nesse acampamento que faremos, hoje, ali em Criciúma? Hãn?
— O.K, O.K! Vai ser o máximo mesmo podermos passar a noite juntinhos dentro de uma barraca no alto daquele morro com uma vista para a floresta.
— Floresta?
— Tá, tá, eu exagerei. – Riram os dois. – Uma mata fechada com muitos insetos e nada de animais peçonhentos. Assim melhorou, olhos verdes?
— Melhorou bastante.
A briga que o japonês estava se referindo aconteceu quando a Bárbara cobrou um pedido de desculpas do melhor amigo pela forma como foi tratado no telefone quando foi a primeira a dizer sobre a briga do Fred e do Yuri. Só que evidentemente o de cabelos claros não gostou da forma como ela pediu ou melhor exigiu aquelas desculpas.
Na verdade tudo aconteceu assim:
A Bárbara esperou o Ben, o Arthur e ela terminarem suas obrigações diárias do cursinho, daquela segunda-feira monótona como todas as outras sempre foram, para encurralar o melhor amigo próximo da escadaria principal, perto da biblioteca onde estudavam. Ela pediu licença ao Arthur para ter uma conversa séria com o outro a sós.
— Nós conversamos a manhã toda e almoçamos juntos, mesmo assim, tu não precisa se redimir comigo por alguma coisa?
— Pelo o quê? Está pirando a cabeça, guria?
Ela virou os olhos com grosseria e rangeu os dentes ameaçadoramente.
— HÁ-HÁ – soltou, irônica ao extremo que pôde. – Talvez, um “perdão, Báh, eu não quis ser um estúpido ao telefone. Entendo que só queria falar comigo sobre vocês terem ido parar numa delegacia. Então, me perdoe do fundo do coração”.
Ben suspirou bem forte como se já estivesse subentendido um lá vamos nós!
— É por isso que ficou com essa cara de merda o dia inteiro? Achei que fosse pelo fato de que você e o seu namorado terminaram de novo neste final de semana. Como quer que eu adivinhe as suas caras e bocas?
Ela bufou, irritadíssima.
— Ah, vá se foder! Eu aturo a sua cara de filho da puta toda vez que faz as suas merdas com o japonês, e olha que tu fazes isso muitas e muitas vezes mesmo.
— Tá louca? Por que tem que se defender colocando o Yuri no meio das suas loucuras? Aliás, não vou pedir desculpas mesmo, você sempre me liga fazendo fofoquinhas do meu namorado antes mesmo de ele poder se adiantar e me contar. Que tal ser menos você de agora por diante?
A menina jogou suas madeixas ruivas para trás das orelhas com um bico medonho.
— Quer dizer que é isso que tu achas da sua melhor amiga? Que eu fico fazendo fofoquinhas para ti? Eu só prestei um favor, seu filho da puta. Vá pro inferno! Se me acha uma fofoqueira como pode ainda ser meu amigo?
— Me faço essa mesma pergunta de vez em quando, Bárbara Ronsoni. Eu fiquei puto aquele dia, confesso...
— Só aquele dia? Tu fazes isso sempre, guri. Sabe qual é o seu problema? És muito mimado pelos seus pais e queres que todos façam isso contigo também. Eu já estou farta de tentar ser uma baita amiga para ti, nada do que eu faço está bom para tu. Você e o Arthur não merecem ter a minha companhia assim como a Giselle sempre fala.
Ela começou a chorar, irritada e já cogitava a ideia de deixa-lo falando sozinho.
— Hãn? Do que tu está falando mesmo? Eu me perdi no meio de tanta besteira, acho que está carente por causa do seu namorado. Por ele ter dado em você um fora e já sabe o porquê, né, ele não suporta as suas atitudes fascistas.
TASHHH!
Bárbara soltou toda a sua fúria em um tapa bem forte e bem dado no meio da cara do Benjamin. O tapa fez até que o menino virasse o rosto. O reflexo natural do garoto foi massagear a pele vermelha em brasa após aquilo.
— Juro que se não fosse uma garota, eu...
— Faria o quê? Me agrediria? Não passe vontade, se esqueceu de que dá o rabo agora, já posso te considerar uma garotinha como eu.
Ben abriu a boca chocado enquanto a sua língua deslizava sobre seus dentes e o rapaz amargurava aquilo com uma cara horrível. Deu para ver que ela se arrependeu de falar o que tinha falado assim que terminou, só que ela estava muito puta para pedir desculpas.
— Não quero mais papo com você, Benjamin. Tu és muito infantil. Quando crescer o suficiente para falar comigo, me procura. Mas até lá, vê que esquece o meu telefone e o meu endereço. Espero que o Yuri não se canse de ser tratado como um lixo e procure alguém que lhe faça realmente feliz.
— Tipo quem? Uma pessoa descontrolada como tu, Bárbara? Antes disso vou pedir pra ele procurar conselhos com o Thur. O que acha? Ninguém melhor do que ele para falar como é ser governado por uma garota autoritária. Talvez, o Yuri prefira voltar com a Bruna, ela em comparação a você é bem menos mandona e estressadinha.
— Vá pro inferno! – Ela saiu marchando firme e forte sem olhar para trás.
—------- | II | --------
A bunda do menino de olhos verdes já está dando os primeiros sinais do cansaço de estar há quase duas horas e meia naquele banco de couro. O garoto se cansava menos quando estava atrás do volante do que quando estava como carona de alguém.
Só que o oriental quase implorou para ele dirigir de Florianópolis até Criciúma. Porém também pondera, o Yuri não dirigia nada desde que sofreu aquele acidente há um mês e meio. Ele ganhou alta da sua fisioterapeuta e do seu médico na segunda daquela mesma semana, mas ainda não tinha dado tempo para ele conversar com seu pai sobre um novo automóvel.
— Juro que se soubesse que essa viagem seria tão longa, não teria aceitado a sua ideia de virmos acampar aqui.
— Que isso, Benzinho, eu te garanto que a noite será incrível. Uma barraca com seu namorado, uma fogueira no meio de uma mata, no alto de um morro de sessenta metros, carne no espetinho e com um luar incrível.
Yuri sorriu para o outro com os olhos fechados e recebeu um rápido selinho não aguardado.
— E porra, estaremos sozinhos por pelo menos doze horas e nada da Dona Marisa me ligando para me cobrar onde estou. E também sempre quis fazer sexo no meio da natureza como naquele filme... qual o nome dele mesmo?
O japa deu de ombros, franzindo a testa.
— Aquele, seu puto do caralho... aquele que o loirinho dos olhos azuis e a menina gostosinha ficaram perdidos numa ilha e cresceram lá ao maior estilo Tarzan e Jane de ser.
Yuri ainda continuava a torcer os lábios e dar de ombros.
— São tantas referências de filmes que temos de pessoas perdidas que quer mesmo que eu adivinhe? – Ben fez que sim com a cabeça. – Mas O.K, eu entendi. Sempre quis transar no meio do nada, se tivesse me dito isso antes teríamos entrado em qualquer trilha lá em Floripa mesmo e teríamos transado com gravetos entrando na nossa bunda.
Só Yuri achou graça do que dissera. Ele tirou uma mão do volante para alisar a coxa do namorado e, depois, fazer um carinho rápido na sua orelha.
— Aquele filme que passava direto na Sessão da Tarde – continuou Ben sem dar o braço a torcer.
— A lagoa azul?
— Isso, seu viado. Eu não disse que a gente sabia – gritou ele, aplaudindo enlouquecidamente como se acabassem de descobrir o paradeiro de um tesouro.
— Disse?
Ben começou a rir, simulando uma dancinha patética. O japonês quis dizer para o outro que adorava vê-lo pagando mico, mas não estragaria essa cena por nada. Os dois continuaram falando sobre aquele e outros filmes por mais uma meia hora até que o menino de olhos verdes se cansou novamente da viagem.
— Yuri, por que escolheu virmos tão longe?
— Ah, o porquê eu já lhe disse: eu vinha aqui com os meus tios e os meus primos. Faz uns sete anos que não volto aqui, mas tenho certeza de que a trilha continua a mesma com poucas mudanças.
Benjamin fazia uma cara de desconfiado para provocar o namorado.
— Vá se foder, eu sei o que estou falando.
— Espero mesmo. Não seria legal nos perder no meio do nada – cutucou o de olhos verdes propositalmente. – E por falar disso, quando vamos chegar? Não aguento mais ficar sentado aqui.
— Quer sentar na minha pica?
— Vá se foder, seu otário! Eu estou falando sério, quando vamos chegar?
— Estamos quase em Criciúma – avisou. – Se prestasse mais atenção, veria a bela paisagem a nossa volta. – Yuri começou a rir e a balançar a perna do namorado. – Acho que, daqui a alguns minutos, entraremos na cidade e no parque ecológico.
— Só me chama quando estacionar, O.K.? Vou tirar um cochilo aqui – disse Ben, ligando o som do carro numa estação de rock e deixando-o numa altura ambiente.
— Perceba a sua empolgação em estar viajando comigo: prefere dormir do que papear com seu namorado – provocou ele, simulando um tom de desapontamento.
— Ah, pare, japinha – pediu Ben, se virando para o namorado e pondo a sua cabeça naquele ombro largo e acariciando o peito do outro. – Sabe bem que estou adorando esse lance de acamparmos noite adentro em um parque longe dos nossos pais.
Yuri sorriu como se tivesse ganhado o dia com aquilo e beijando, em seguida, a boca carnuda do menino de olhos verdes.
— Vamos parar por aqui antes de que provoquemos um acidente na estrada – finalizou o japonês, dando outro selinho no namorado. – Eu sou muito azarado com isso. Se lembra?
Benjamin gargalhou, voltando a se pôr de lado no banco, encarando a janela da porta do carona.
— Eu te amo – sibilou ele, mas Yuri nem conseguiu ouvir.
Assim que estavam chegando ao parque ecológico onde acampariam, o japa acordou o outro com alguns tapinhas na bunda.
— Acorda pra cuspir, Benjamin... – falou assim que ele gemeu algumas palavras por ser acordado tão de repente.
— Que lugar lindo, cara – confessou o de olhos verdes depois de ficar atento e ver o parque repleto de árvores.
No estacionamento havia uma placa escrita à mão – Sejam bem-vindos, visitantes! Lembramos que é expressamente proibido deixar o lixo jogado pelas trilhas. A mãe natureza agradece à compreensão. Essa placa fez o Benjamin rir enquanto ajudava o outro a tirar as coisas de dentro do porta malas.
Eles trouxeram uma barraca desmontada, dois lampiões de bateria, um cobertor, uma cesta com comida, isqueiro e álcool, e uma lanterna de pilhas. O estacionamento era quase todo coberto por pedrinhas e tinha vários carros estacionados ali. Quando estavam indo em direção a uma das trilhas principais, que subia uma ladeira, o japa deu vinte reais para o cuidador de carros, que esboçou a sua melhor expressão de felicidade.
— Porra, Yuri, por que, me diga o porquê de termos que subir um morro? Eu estou muito sedentário nesses últimos meses, só faço a natação e nada mais do que isso.
Yuri deu uma risadinha. Quase soltou que o namorado logo estaria com uma barriguinha de cerveja se não voltasse a malhar de vez em quando na semana. Ao invés disso, disse:
— Eu vou continuar te amando, seja gordinho ou seja mais atlético. Só que mais atlético seria o ideal.
Benjamin simulou que jogaria a sua grande mochila contra o namorado.
— Daqui a pouco já vai anoitecer, ainda bem que chegamos aqui antes do pôr do sol.
— Agradeça ao horário de verão, meu gatinho...
Quando a trilha chegou em um riacho cristalino, ela se trifurcou em outras trilhas. Havia três pequenas placas – A, sentido topo do morro, oeste. B, sentido cachoeira branda. C, sentido topo do morre, leste.
— E agora, Manolo? Pra aonde iremos nós? – perguntou Ben todo poético.
— Eu iria por este aqui já que tu estás com preguiça de continuar subindo. – Ele apontou para a placa B, que seguia na mesma direção donde já vinham.
— Vá se foder, eu não estou tão morto assim. Consigo subir um pouco mais, vamos por esta aqui. – Indicou a placa C.
Então ele seguiram naquela direção por mais uns dez minutos. Ben já começava a se arrepender de ter bancado o resistente ao preferir ir por aquela trilha.
— Amor, eu acho que já está bom aqui. Olhe ali, temos um espaço bacana para montarmos a barraca e acendermos uma fogueira. Além de que não ficaremos muito distantes da trilha.
O lugar era coberto por várias árvores, mas não era tão fechado quanto todo o resto da trilha por onde passaram. Pelo jeito outras pessoas já tiveram a mesma ideia de acampar ali antes, já que dois longos troncos estavam posicionados, em volta do que parecia vestígios de uma antiga fogueira, como bancos.
Benjamin ficou com a tarefa mais fácil enquanto os dois levantavam acampamento ali, a de encaixar os ferros da estrutura da cabana ao tempo que Yuri, a de recolher pequenos troncos para acender uma modesta fogueira para aquecê-los.
— Uou, tu realmente sabia o que estava fazendo – brincou o de olhos verdes após o outro levar muito tempo para acender o fogo. A escuridão inclusive já cobria todo o lugar quando ele atingiu seu êxito.
Depois de já estarem acomodados, os dois se sentaram abraçados, vendo o crepitar da fogueira e ouvindo música no autofalante do celular do Ben. O menino de olhos verdes trouxe para eles comerem uma torta de limão feita por ele mesmo. Na realidade, ele contou com a ajuda do seu pai, que disse o que fazer em cada etapa do processo.
Quando menos esperavam, ouviram um barulho na mata e viram três homens surgirem dela em algazarra. Dois deles estavam armado, e nada os meninos puderam fazer diante do pavor que surgiu do inesperado.
Eles já estavam escondidos por ali há alguns minutos, observando os dois apaixonados e planejando como surpreenderiam os dois garotos despercebidos.
— Olha só o que temos aqui, velharada— disparou o mais gordo dos três estranhos.
Os outros dois começaram a rir. Ben e Yuri se separaram alguns centímetros um do outro.
— Não, pera! A gente não quer acabar com esse momento tão romântico – ironizou o mais baixo deles enquanto o outro, um rapaz loiro aparentemente tão jovem quanto o japa e o Ben, que ainda não havia aberto a boca para nada se aproximou com sua arma e a pôs sobre a nuca do de olhos verdes.
Ben não conseguiu falar nada, o seu estômago parecia estar pulsando no mesmo compasso do seu coração – um sentimento de terror total era aquele que sentia agora.
Yuri custava a acreditar que do nada a diversão deles tinha sido sugada por três malditos.
— Por favor, peguem o que quiserem da gente, mas não faça nada contra ele ou contra mim – pediu Yuri, encarando o gorducho, que empunhava a outra arma na sua direção.
— Ah, já estava pensando que os dois não tinham voz – caçoou o loiro, que continuava a ameaçar o de olhos verdes.
— Cara, abaixe essa cabeça aí, se não eu estouro os seus miolos aqui mesmo.
— Cara? Velho, esse japonês é um viadinho. Que cara o quê? Cê só pode estar brincando com a nossa cara – provocou o mais baixinho.
E os três estranhos começaram a gargalhar novamente. Yuri segurou a mão trêmula e suada do seu melhor amigo. Ele sentia vontade de chorar por saber que o Benjamin tinha aquela arma encostada na sua nuca.
— Porra, olhe só o tanto de coisas caras que esses dois boiolinhas têm aqui na mochila – comentou o gorducho, vasculhando os pertences alheios.
— Devem ser filhinhos de papai. Pode ter certeza que sim – gritou o loiro, tentando avaliar as roupas que os dois vestiam sob a luz alaranjada da fogueira.
— Não grita, caralho! – alertou o mais baixo.
Yuri voltou a falar:
— Por favor, pegue tudo isso e pode levar com vocês, mas não façam nada com a gente.
— Será que rola um resgate? – soltou o loiro.
— Cala boca, seu otário! Ninguém aqui veio preparado para sequestrar ninguém. Cale a sua boca e veja que pensa antes de falar – vociferou o gorducho.
Naquela altura, o Yuri já estava achando que o gordo devia ser o chefe do trio. Ele tentou novamente olhar o rosto de algum deles para ajudar no retrato policial que poderiam fazer dali a um pouco. Mas tudo que viu foi um clarão cobrir seus olhos.
Yuri caiu com a testa sobre a tora de madeira. Havia recebido um chute bem forte no nariz, que, imediatamente, começou a sangrar.
— NÃOOOO...! – urrou Benjamin, tentando ajudar o namorado, porém foi impedido pelo loiro ao seu lado.
— Já disse para não nos olhar, filho de uma puta – disse o agressor. Aquele gorducho tinha extrapolado só para mostrar que não estava brincando. – O próximo que fazer isso vai receber um tiro no meio da testa.
— Dois riquinhos iguais a vocês não teriam só trezentos reais em duas carteiras – falou o mais baixo, que assumira a tarefa do gordo de checar os pertencentes alheios. – Mas olha só, eles têm cartões de crédito aqui dentro.
Os lábios de Benjamin começaram a sangrar. O menino mordia tanto os próprios lábios que aquilo foi inevitável. Ele queria pular em cima de um daqueles homens e golpeá-lo até a morte.
— Eu aposto que devem ter muito dinheiro no banco – disse o gorducho. – Acho que podemos levar os dois com a gente e retirar dinheiro no caixa eletrônico.
— A gente não tem nada no banco. Nem ele nem eu trabalhamos – garantiu Ben.
— Olá, mudinho... eu te perguntei alguma coisa?
O loiro tinha tirado a arma da nuca do de cabelos claros e tinha voltado para perto dos outros dois. Eles estavam comendo a torta de limão preparada pelo Ben, porém sem tirar os olhos sobre os dois.
Aquela cena encheu o Benjamin de um sentimento de nojo e repulsa.
— Hei, tu tá bem? – indagou o japa, abraçando o namorado e dando um beijo no seu rosto. Os dois não se sentiram nem intimidados nem nada com os olhares tortos em sua direção. – Lembra que eu te amo, certo?
Benjamin não conseguiu responder, ao contrário do outro que tentava ser forte, ele deixou algumas lágrimas escorrerem ao ouvir aquilo – tinha medo de que os caras acabassem com a vida deles ali mesmo.
— De quem é esta chave de carro? – perguntou o gorducho, levantando o rosto do Yuri com a ponta do seu tênis. A pele do japonês estava em rubor, tamanho ódio que sentia. Nem tanto por ele, entretanto ainda por aquele loiro maldito, que tinha apontado uma arma desnecessariamente para o de olhos verdes.
O rosto do maldito estava coberto. Todos tinham coberto o rosto com roupas dos meninos, deixando apenas um espaço para os seus olhos.
— Não me ouviu fazendo uma pergunta para você, japonês? – insistiu o gorducho.
— A chave é do meu carro – mentiu o japa com medo de que o cara fizesse alguma coisa com o proprietário do automóvel na tentativa roubá-lo.
— Iremos levar ele com a gente e vamos sacar o que der com esses cartões – instruiu o gorducho. – É claro que esses meninos têm grana no banco.
— Ele está mentindo, eu sou dono do carro que viemos para cá – informou Ben entre soluços. Não queria ver o seu amigo nas mãos dos três.
O japa chacoalhou a cabeça e o corpo desesperadamente ao ouvir o loiro obrigando o de olhos verdes a se colocar de pé diante deles com uma arma apontada para o peito do Benjamin e a outra, para o do Yuri.
— Por favor, me leve junto, eu posso sacar dinheiro da minha conta também – implorou Yuri, tentando se levantar, porém recebeu um soco no meio do estômago, que o fez curvar de tanta dor.
— Ninguém está pedindo para se levantar, seu filho da puta. Mais uma gracinha e eu mato o seu amiguinho sem pensar duas vezes.
A voz daquele gorducho ecoava dentro da cabeça do oriental. Se ele tivesse a oportunidade, não pensaria duas vezes em acabar com a vida daquele escroto em forma de barril.
— Aonde vocês estão me levando? – perguntou Ben, sendo carregado em direção à trilha, já mergulhada na completa escuridão.
— E o que faremos com aquele outro ali? – Yuri viu que o mais baixo dos três tinha aberto a boca, fazendo o gordo pensar por um instante.
— Não dá pra levar os dois. Seria difícil lidar com dois caras ao mesmo tempo – respondeu ele.
A última coisa que Yuri viu foi o olhar apavorado do namorado e aquele gorducho se aproximando com o cabo da arma na direção de sua testa. O que se seguiu foi apenas um clarão, que tirou a sua consciência.
Ele viria a acordar alguns minutos depois e, quando desceu a trilha atrás do Ben e dos bandidos, não havia nenhuma pista de para onde seguiram. Nem precisa dizer o quanto desesperado e preocupado estava o descendente dos Takashis.
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